A JANGADA DE PEDRA

JOS SARAMAGO


JOS SARAMAGO nasceu na Azinhaga, Goleg, em
16 de Dezembro de 1922. Em Lisboa, completou
o curso de estudos secundrios. Foi director literrio e de
produo numa editora, colaborou na
revista Seara Nova, no despertino Dirio de Lisboa (1972) e
foi director-adjunto do matutino
Dirio de Notcias (1975). A partir de 1976 dedicou-se
exclusivamente  literatura. Os seus romances tm sido
publicados no Brasil, Espanha,
Itlia, Alemanha, Rssia, Frana, etc. Principais
prmios: Levantado do Cho (1980), Prmio Ci
dade de Lisboa; Memorial do Convento (1982),
Prmio Literrio Municpio de Lisboa, Prmio
PEN Club Portugus; O Ano da Morte de Ricardo
Reis (1984), Prmio PEN Club Portugus, Prmio
da Crtica, da Associao Portuguesa de Crticos,
Prmio Dom Dinis. Reside actualmente em Espanha.

dI, 111Z_~111

JOS SARAMAGO

A Jangada
de Pedra


Todo futuro es fabuloso.

Alejo Carpentier

(~) Jos Saramago
Editorial Caminho, S.A., Lisboa, 1986
Editores Reunidos, Lda., Lisboa 1994, para a presente edio

Projecto grfico e execuo da capa: Enric Satu

Esta obra poder ser distribuida e comercializada
unicamente em Portugal.

ISBN: 972-747-019-X
Depsito legal: 76974/94
Depsito legal: M. 21.642/1994
Impresso e encadernao: Mateu Cromo Artes Grficas, S.A.
Carretera de Fuenlabrada, s/n
Pinto (Madrid)
Impresso em Espanha - Printed in Spain

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Quando Joana Carda riscou o cho com a vara de
negrilho, todos os ces de Cerbre comearam a ladrar,
lanando em pnico e terror os habitantes, pois desde os
tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais
caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo
universal prximo de extinguir-se. Como se teria formado a
arreigada superstio, ou convico firme, que , em muitos
casos, a expresso alternativa paralela, ningum hoje o
recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo
de ouvir o conto e repeti-lo com vrgula nova, usassem
distrair as avs francesas a seus netinhos com a fbula de
que, naquele mesmo lugar, comuna de Cerbre, departamento dos
Pirentis Orientais, ladrara, nas gregas e mitol
gicas eras, um co de trs cabeas que ao dito nome de
Cerbre respondia, se o chamava o barqueiro Caronte, seu
tratador. Outra coisa que igualmente no se sabe  por que
mutaes orgnicas teria passado o famoso e altissonante
candeo at chegar  mudez histrica e comprovada dos seus
descendentes de uma cabea s, degenerados. Porm, e este
ponto de doutrina s raros o desconhecem, sobretudo se
pertencem  gerao veterana, o co Crbero, que assim em
nossa portuguesa lngua se escreve e deve dizer, guardava
terrivelmente a entrada do inferno, para que dele no ousassem
sair as almas, e ento, qui por misericrdia final de
deuses j moribundos, calaram-se os ces futuros para a toda

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restante eternidade, a ver se com o silncio se apagava da
memria a nfera regio. Mas, no podendo o sempre durar
sempre, como explicitamente nos tem ensinado a idade
moderna, bastou que nestes dias, a centenas de quilmetros
de Cerbre, em um lugar de Portugal de cujo nome nos
lembraremos mais tarde, bastou que a mulher chamada
Joana Carda riscasse o cho com a vara de negrilho, para
que todos os ces de alm sassem  rua vociferantes, eles
que, repete-se, nunca tinham ladrado. Se a Joana Carda
algum vier a perguntar que ideia fora aquela sua de riscar o
cho com um pau, gesto antes de adolescente luntica do
que de mulher cabal, se no pensara nas consequncias de
um acto que parecia no ter sentido, e esses, recordai-vos,
so os que maior perigo comportam, talvez ela responda,
No sei o que me aconteceu, o pau estava no cho, agarrei-o
e fiz o risco, Nem lhe passou pela ideia que poderia ser uma
varinha de condo, Para varinha de condo pareceu-me
grande, e as varinhas de condo sempre eu ouvi dizer que
so feitas de ouro e cristal, com um banho de luz e uma
estrela na ponta, Sabia que a vara era de negrilho, Eu de
rvores conheo pouco, disseram-me depois que negrilho  o
mesmo que ulmeiro, sendo ulmeiro o mesmo que olmo,
nenhum deles com poderes sobrenaturais, mesmo variando
os nomes, mas, para o caso, estou que um pau de fsforo
teria causado o mesmo efeito, Por que diz isso, O que tem
de ser, tem de ser, e tem muita fora, no se pode resistir
-lhe, mil vezes o ouvi  gente mais velha, Acredita na
fatalidade, Acredito no que tem de ser.
Em Paris riram-se muito das splicas do maire, que
parecia estar a telefonar de um canil  hora de ir servir-se o
almoo dos ces, e s a instantes rogos de um deputado da
maioria, na comuna nascido e criado, portanto conhecedor
das lendas e narrativas locais,  que acabaram por ser
despachados para o sul dois veterinrios qualificados do
Deuxime Bureau, com a especial misso de estudarem o
fenmeno inslito e apresentarem relatrio e propostas de

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aco. Entretanto, desesperados, no limiar da surdez, os
habitantes tinham espalhado pelas ruas e praas da aprazvel
estncia balnear, agora estao infernal, dzias de bolos de
carne envenenados, mtodo de simplicidade suprema, cuja
eficcia tem sido confirmada pela experincia em todos os
tempos e latitudes. Por junto, no morreu mais que um co,
mas a lio foi logo aprendida pelos sobreviventes, que, em
um instante, latindo ladrando e uivando, se sumiram nos
campos arredor, onde, sem motivo que se percebesse, em
poucos minutos se calaram. Quando os veterinrios enfim
chegaram foi-lhes apresentado o triste Mdor, frio, inchado,
to diferente do feliz animal que acompanhava a dona s
compras, e que, por ser j velho, gostava de dormir ao sol,
sem cuidados. Porm, como a justia ainda no abandonou
por completo este mundo, decidiu Deus, poeticamente, que
Mdor morresse do bolo preparado pela dona bem-amada, a
qual, bom  que se saiba, tinha no pensamento uma certa
cadela da vizinhana que no lhe saa do jardim. O mais
velho dos veterinrios, diante do fnebre despojo, disse,
Vamos autopsiar, e realmente no valia a pena, porquanto
qualquer habitante de Cerbre poderia, se o quisesse,
testemunhar a causa mortis, mas o fito oculto da Faculdade,
como na gria do servio secreto lhe chamavam, era proceder,
disfaradamente, ao exame das cordas vocais de um
bicho que, entre a mudez por morte agora definitiva e o
silncio que parecera ser para toda a vida, tivera afinal umas
horas de fala e pudera ser igual ao comum dos ces.Foram
esforos baldados, Mdor nem cordas tinha. Ficaram os
cirurgies assombrados, mas o maire deu a sua opinio,
administrativa e sensata, No admira, tantos sculos os ces
de Cerbre estiveram sem ladrar, que se lhes atrofiou o
rgo, Ento como  que de repente, Isso no sei, no sou
veterinrio, mas as nossas preocupaes 'acabaram-se, OS
chiens desapareceram, l onde esto nem se ouvem. Mdor,
escortaado e mal cosido, foi entregue  chorosa dona, como
um remorso vivo, que  o que so os remorsos mesmo

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depois de mortos. A caminho do aeroporto, onde iam tomar
o avio para Paris, os veterinrios combinaram que passariam
por alto, no relatrio, o intrigante sucesso das cordas
vocais desaparecidas. E parece que definitivamente, porque
nessa mesma noite andou a rondar Cerbre um enorme co
de trs cabeas, alto como uma rvore, mas calado.
Por estes mesmos dias, talvez antes, talvez depois de ter
Joana Carda riscado o cho com a vara de negrilho, andava
um homem a passear na praia, era isto ao entardecer,
quando o rumor das ondas mal se ouve, breve e contido
como um suspiro sem causa, e esse homem, que mais tarde
dir chamar-se Joaquim Sassa, ia caminhando acima da
linha da mar que distingue as areias secas da areia molhada,
e de vez em quando baixava-se para apanhar uma
concha, uma pina de caranguejo, um fio de alga verde, no
 raro gastar-nos assim o tempo, este passeante solitrio se
estava gastando assim. Como no levava bolsos nem saca
para guardar os achados, devolvia  gua os restos mortos
quando tinha as mos cheias deles, ao mar o que ao mar
pertence, a terra que fique com a terra. Mas toda a regra
leva as suas excepes, e uma pedra que adiante se via, fora
do alcance das mars, levantou-a Joaquim Sassa, e era
pesada, larga como um disco, irregular, fosse ela das outras,
maneirinhas, de contorno liso, daquelas que cabem folgadas
entre o polegar e o indicador, e Joaquim Sassa t-la-ia
atirado a rasar a gua plana, para a ver saltar, puerilmente
feliz com a prpria destreza, e enfim mergulhar, j perdido
o impulso, pedra que parecera ter o destino traado,
ressequida de sol, molhada s da chuva, e afinal mergulhando
na
escura profundidade para esperar um milho de anos, at
que este mar se evapore, ou recuando a faa regressar  terra
por outro milho de anos, dando ao tempo tempo de descer 
praia outro Joaquim Sassa, que sem saber repetir o gesto
e o movimento, nenhum homem diga, No farei, segura e
firme no est nenhuma pedra.
Nos areais do sul, a esta hora tpida, h quem tome o

ltimo banho, nadar, brincar com uma bola, mergulhar sob
as ondas, ou repouse vogando sobre um colcho de ar, ou,
sentindo na pele a primeira aragem do entardecer, acomode
o corpo para receber o afago derradeiro do sol que vai
pousar-se no mar por um segundo, de todos o mais longo,
porque o olhamos e ele se deixa olhar. Mas aqui, nesta praia
do norte onde Joaquim Sassa segura uma pedra, to pesada
que j as mos lhe cansam, o vento sopra frio e o sol
mergulhou metade, nem gaivotas voam sobre as guas.
Joaquim Sassa atirou a pedra, contava que ela casse distante
poucos passos, pouco mais que a seus ps, cada um de ns
tem obrigao de conhecer as prprias foras, nem havia ali
testemunhas que se rissem do frustrado discbolo, ele  que
estava preparado para rir-se de si mesmo, mas no veio a ser
como cuidava, escura e pesada a pedra subiu ao ar, desceu e
bateu na gua de chapa, com o choque tomou a subir, em
grande voo ou salto, e outra vez baixou, e subiu, enfim
afundou-se ao largo, se a brancura que acabmos de ver,
distante, no  s a franja de espuma de ter-se quebrado a
vaga. Como foi isto, pensou perplexo Joaquim Sassa, como
foi que eu, de to poucas foras naturais, lancei to longe
pedra to pesada, ao mar que j escurece, e no est aqui
ningum para dizer-me, Muito bem, Joaquim Sassa, sou tua
testemunha para o livro Guiness dos recordes, um tal feito
no pode ficar ignorado, pouca sorte, se eu for contar o que
aconteceu chamam-me mentiroso. Uma onda muito alta veio
do largo, espumejando e rebentando, afinal a pedra sempre
caiu ao mar, este  o efeito conhecido desde os rios da
infncia de quem na infncia teve rios, a ondul ao con
cntrica que as pedras atiradas causam. Joaquim Sassa 
correu praia acima, e a onda desfez-se na areia arrastando
conchas, pinas de caranguejos, algas verdes, mas
tambm as outras, as bodelhas, as sanguneas, as laminrias.
E uma pedra pequena, maneirinha, dessas que cabem entre o
polegar e o indicador, h quantos anos no veria ela a luz do
sol.

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Dificlimo acto  o de escrever, responsabilidade das
maiores, basta pensar no extenuante trabalho que ser dispor
por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, de
pois aquele, ou, se tal mais convm s necessidades do
efeito, o sucesso de hoje posto antes do episdio de ontem, e
outras no menos arriscadas acrobacias, o passado como se
tivesse sido agora, o presente como um contnuo sem princ
pio nem fim, mas, por muito que se esforcem os autores,
uma habilidade no podem cometer, por por escrito, no
mesmo tempo, dois casos no mesmo tempo acontecidos.
H quem julgue que a dificuldade fica resolvida dividindo
a pgina em duas colunas, lado a lado, mas o ardil 
ingnuo, porque primeiro se escreveu uma e s depois a
outra, sem esquecer que o leitor ter de ler primeiro esta
e depois aquela, ou vice-versa, quem est bem so os
cantores de pera, cada um com a sua parte nos concertan
tes, trs quatro cinco seis entre tenores baixos sopranos e
bartonos, todos a cantar palavras diferentes, por exemplo,
o cnico escarnecendo, a ingnua suplicando, o gal tardo
em acudir, ao espectador o que lhe interessa  a msica, j
* leitor no  assim, quer tudo explicado, slaba por slaba
* uma aps outra, como aqui se mostram. Por isto  que,
tendo-se falado primeiro de Joaquim Sassa, s agora se ir
falar de Pedro Orce, quando lanar Joaquim uma pedra ao
mar e levantar-se Pedro da cadeira foi tudo obra de um
instante nico, ainda que pelos relgios houvesse uma hora
de diferena,  o resultado de estar este em Espanha e
aquele em Portugal.
Sabido  que todo o efeito tem sua causa, e esta  uma
universal verdade, porm, no  possvel evitar alguns erros
de juzo, ou de simples identificao, pois acontece
considerarmos que este efeito provm daquela causa, quando
afinal
ela foi outra, muito fora do alcance do entendimento que
temos e da cincia que julgvamos ter. Por exemplo, pareceu
ficar demonstrado que se os ces de Cerbre ladraram
foi porque Joana Carda riscou o cho com uma vara de

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negrilho, e contudo s uma criana muito crdula, se alguma
sobrou dos dourados tempos da credulidade, ou inocente, se
o santo nome de inocncia assim pode ser jurado em vo,
uma criana capaz de acreditar que, fechando a mo, guardou a
luz do sol dentro dela, s essa criana acreditaria que
fossem capazes de ladrar ces que antes nunca ladraram por
razes que tanto so de ordem histrica como fisiolgica.
Nestas dezenas e dezenas de milhares de lugarejos, aldeias,
vilas e cidades, o que no falta so pessoas que jurariam ser
causa e causas, tanto do ladrar dos ces como do mais que
vir, porque bateram com uma porta, ou cortaram uma
unha, ou arrancaram um fruto, ou afastaram uma cortina, ou
acenderam um cigarro, ou morreram, ou, no as mesmas,
nasceram, hipteses estas, de morte e nascimento, que mais
difceis seriam de admitir, tendo em conta que teramos de
ser ns a prop-las, pois quem nasce no vem a falar da
barriga da me e quem morre no fala depois de ter entrado
na barriga da terra. E nem adianta acrescentar que a qual
quer um sobejam razes para se julgar causa dos efeitos
todos, estes de que viemos falando e mais os que so nossa
parte exclusiva para o funcionamento do mundo, o que eu
muito gostaria de saber  como ele ser quando no houver
homens e os efeitos que s eles causam, o melhor  nem
pensar em tal imensido, que faz tonturas, ora, bastar que
sobrevivam uns animaizitos, uns insectos, e mundos haver,
o da formiga, o da cigarra, no afastaro cortinas, no se
olharo num espelho, e isso que tem, afinal a nica grande
verdade  que o mundo no pode ser morto.
Diria Pedro Orce, se tanto ousasse, que a causa de
tremer a terra foi ter batido com os ps no cho quando se
levantou da cadeira, forte presuno a sua, se no nossa, que
levianamente estamos duvidando, se cada pessoa deixa no
mundo ao menos um sinal, este poderia ser o de Pedro Orce,
por isso declara, Pus os ps no cho e a terra tremeu.
Extraordinrio abalo foi ele, que ningum deu mostras de o
ter sentido, e mesmo agora, passados dois minutos, quando

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na praia a vaga j refluiu e Joaquim Sassa diz consigo
mesmo, Se eu for contar chamam-me mentiroso, a terra
vibra como continua a vibrar a corda que j deixou de
ouvir-se, sente-a Pedro Orce nas solas dos ps, continua a
senti-la quando sai da farmcia para a rua, e ningum ali d
por nada,  como estar a mirar uma estrela, dizer, Que linda
luz, que formoso astro, e no poder saber que ela se apagou
no meio da frase, ho-de os filhos e os netos repetir as
palavras, pobres deles, falam do que est morto e chamam-lhe
vivo, no  s na cincia astronmica que acontece esse
engano. Aqui  ao contrrio, juraria toda a gente que a terra
est firme e s Pedro Orce afirmaria que ela treme, ainda
bem que se calou, e no correu espavorido, alis as paredes
no oscilam, os candeeiros suspensos esto como fio-de
-prumo, e os passarinhos da gaiola, que costumam ser os
primeiros a dar o alarme, dormem tranquilos no poleiro,
com a cabea debaixo da asa, a agulha do sismgrafo traou
e continua a traar uma linha recta horizontal no papel
milimtrico.
Na manh do dia seguinte, um homem atravessava uma
plancie inculta, de mato e ervaais alagadios, ia por
carreiros e caminhos entre rvores, altas como o nome que
lhes foi dado, choupos e freixos chamadas, e moitas de
tamargas, com o seu cheiro africano, este homem no
poderia ter escolhido maior solido e mais subido cu, e por
cima dele, voando com inaudito estrpito, acompanhava-o
um bando de estorninhos, tantos que faziam uma nuvem
escura e enorme, como de tempestade. Quando ele parava,
os estorninhos ficavam a voar em crculo ou desciam
fragorosamente sobre uma rvore, desapareciam entre os ramos,
e
a folhagem toda estremecia, a copa ressoava de sons speros,
violentos, parecia que dentro dela se travava ferocssi
ma batalha. Recomeava a andar Jos Anaio, era este o seu
nome, e os estorninhos levantavam-se de rompo, todos ao
mesmo tempo, vruuuuuuuuuu. Se, no sabendo quem este
homem , nos pusssemos a querer adivinhar, diramos que

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talvez seja passarinheiro de ofcio ou, como a serpente, tem
poder de encanto e habilidades atractivas, quando o certo 
estar Jos Anaio to duvidoso como ns sobre as causas do
alado festival, Que querero de mim estas criaturas, no
estranhemos a palavra desusada, h dias em que as comuns
no apetecem.
Vinha o caminhante de nascente para poente, calhara
assim o caminho e o passeio, mas, por ter de ladear uma
grande alverca, virou para o sul em curva, ao longo da
margem. Para o fim da manh comear a aquecer, por
enquanto h uma brisa frescal e lmpida, lstima no poder
guard-la no bolso para quando viesse a ser precisa na hora
do calor. Ia Jos Anaio discorrendo estes pensamentos,
vagos e involuntrios como se no lhe pertencessem, quando
deu por que os estorninhos tinham ficado para trs, esvoaavam
alm, onde o carreiro faz a curva para acompanhar a
lagoa, procedimento sem dvida extraordinrio, mas enfim,
como se costuma dizer, quem vai vai, quem est est, adeus
passarinhos. Jos Anaio acabou de contornar a alverca,
quase meia hora de passagem difcil, entre espadanas e
silvados, e retomou o caminho primeiro, na direco em que
antes viera, de oriente para ocidente como o sol, quando de
sbito, vruuuu, apareceram outra vez os estorninhos, onde
teriam estado eles metidos. Ora, para este caso no h
explicao. Se um bando de estorninhos acompanha um
homem em seu passeio matinal, como um co fiel ao dono,
se espera por ele o tempo de dar a volta a uma lagoa e
depois o segue como antes vinha fazendo, no se lhe pea
que diga ou averigue os motivos, pssaros no tm razes
mas instintos, tantas vezes vagos e involuntrios como se
no nos pertencessem, falvamos dos instintos, mas tambm
das razes e dos motivos. E tambm no perguntemos a
Jos Anaio quem  e o que faz na vida, donde veio e para
onde vai, o que dele houver de saber-se s por ele se saber,
e esta discrio, esta parcimnia informativa, devero
igualmente contemplar Joana Carda e a sua vara de negrilho,


Joaquim Sassa e a pedra que atirou ao mar, Pedro Orce e a
cadeira donde se levantou, as vidas no comeam quando as
pessoas nascem, se assim fosse, cada dia era um dia ganho,
as vidas principiam mais tarde, quantas vezes tarde de mais,
para no falar daquelas que mal tendo comeado j se
acabaram, por isso  que o outro gritou, Ali, quem escrever
a histria do que poderia ter sido.
E agora esta mulher, Maria Guavaira lhe chamam, estra
nho nome embora no gerndio, que subiu ao sto da casa
e encontrou um p-de-meia velho, dos antigos e verdadeiros
que serviam para guardar dinheiro to bem como uma
casa-forte, simblicos peclios, graciosas poupanas, e
achando-o vazio ps-se a desfazer-lhe as malhas, por desfas
tio de'quem no tem outra coisa em que ocupar as mos.
Passou uma hora e outra e outra, e o longo fio de l azul no
pra de cair, porm o p-de-meia parece no diminuir de
tamanho, no bastavam os quatro enigmas j falados, este
nos demonstra que, ao menos uma vez, o contedo pde ser
maior que o continente. A esta casa silenciosa no chega o
rumor das ondas do mar, de passarem aves a sombra no
escurece a janela, ces haver mas ' no ladram, a terra, se
tremeu, no treme. Aos ps da desenredadeira o fio  a
montanha que vai crescendo. Maria Guavaira no se chama
Ariadne, com este fio no sairemos do labirinto, acaso com
ele conseguiremos enfim perder-nos. A ponta, onde est.

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A primeira fenda apareceu numa grande laje natural, lisa
como a mesa dos ventos, algures nestes Montes Alberes
que, no extremo oriental da cordilheira, compassadamente
vo baixando para o mar e por onde agora vagueiam os
mal-aventurados ces de Cerbre, aluso que no  descabi
da no tempo e no lugar, pois todas estas coisas, mesmo
quando o no parecerem, esto ligadas entre si. Expulso,
como foi dito, da pitana domstica, e portanto forado pela
necessidade a recordar na memria inconsciente manhas dos
seus antepassados caadores para conseguir filar qualquer
desgarrado lparo, um desses ces, de seu nome Ardent,
graas ao finssimo ouvido de que est dotada a espcie, ter
percebido o estalar da pedra e, s no rosnando porque no
pode, veio para ela, dilatando os narizes, de plo eriado,
com tanto de curiosidade quanto de medo. A fenda, subtil,
lembraria a observador humano um risco feito com a ponta
aguada de um lpis, muito diferente daquele outro trao
com um pau, em terra dura, ou na poeira solta e macia, ou
na lama, se com tais devaneios perdssemos ns tempo.
Porm, enquanto o co se aproximava, a fenda alargou-se
mais, tornou-se funda e avanou, rasgando a pedra, at aos
extremos da laje, e depois para l e para c, cabia dentro a
mo inteira, o brao em grossura e comprimento, se estivesse
aqui homem de coragem para medir-se com o fenmeno.
O co Ardent rondava, inquieto, mas no podia fugir,

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atrado por aquela serpente de que j no se via nem a
cabea nem a cauda, e subitamente perdido, sem saber de
que lado ficar, se em Frana, onde estava, se em Espanha,
j distante trs palmos. Mas este co, graas a Deus, no
 dos que se acomodam s situaes, a prova  que, de um
salto, galgou o abismo, com perdo do evidente exagero
vocabular, e achou-se do lado de aqum, preferiu as regies
infernais, nunca saberemos que nostalgias movem a alma de
um co, que sonhos, que tentaes.
A segunda fenda, mas para o mundo primeira, aconteceu
a muitos quilmetros de distncia, para os lados do golfo da
Biscaia, no longe de um lugar dolorosamente clebre na
histria de Carlos Magno e dos seus Doze Pares, Roncesva
les chamado, onde morreu Roldo a soprar no Olifante, sem
Anglica ou Durandal que lhe acudissem. Ali, descendo ao
longo da falda da serra de Abodi, pela banda do noroeste,
corre um rio, o Irati, que, nascido em Frana, vai desaguar
no Erro, espanhol, por sua vez afluente do Aragn, o qual 
tributrio do Ebro, cujo finalmente levar e lanar no
Mediterrneo as guas de todos. Ao fundo do vale, na
margem do Irati, est uma cidade, Orbaiceta de seu nome, e
a montante existe uma barragem, um embalse, como por l
lhe chamam.
 tempo de explicar que quanto aqui se diz ou venha a
dizer  verdade pura e pode ser comprovado em qualquer
mapa, desde que ele seja bastante minucioso para conter
informaes aparentemente to insignificantes, pois a virtu
de dos mapas  essa, exibem a redutvel disponibilidade do
espao, previnem que tudo pode acontecer nele. E acontece.
J falmos da vara do destino, j provmos que uma pedra,
ainda que esteja afastada da linha de mar mais alta, pode
vir a cair no mar ou regressar dele, agora  a vez de
Orbaiceta, onde, depois da agitao salutar causada pela
construo da barragem, h longos anos, a tranquilidade
voltara a instalar-se, cidade de provncia navarra, adormecida
entre montanhas, agora novamente agitada. Durante al
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guns dias Orbaiceta foi o centro nevrlgico da Europa, seno
do mundo, ali se juntaram membros de governos, polticos,
autoridades civis e militares, gelogos e gegrafos,
jorralistas e mineralogistas, fotgrafos, operadores de
televiso
e cinema, engenheiros de todas as disciplinas, vedores e
curiosos. Porm, a celebridade de Orbaiceta no durar
muito, uns breves dias, apenas um pouco mais que as rosas
de Malherbe, e como poderiam estas durar sendo de m
erva, mas de Orbaiceta falamos, que de al no, foi s at
ter-se declarado, em outra parte, uma celebridade maior,
 sempre assim com as celebridades.
Na histria dos rios nunca acontecera um tal caso, estar
passando a gua em seu eterno passar e de repente no passa
mais, como torneira que bruscamente tivesse sido fechada,
por exemplo, algum est a lavar as mos numa bacia, retira
a vlvula do fundo, fechou a torneira, a gua escoa-se,
desce, desaparece, o que ainda ficou na concha esmaltada
em pouco tempo se evaporar. Explicando por palavras mais
prprias, a gua do Irati retirou-se como onda que da praia
reflui e se afasta, o leito do rio ficou  vista, pedras,
lodo,
limos, peixes que saltando boquejam e morrem, o sbito
silncio.
Os engenheiros no estavam no local quando se deu o
incrvel facto, mas aperceberam-se de que alguma coisa
anormal acontecera, os mostradores, na bancada de observao,
indicaram que o rio deixara de alimentar a grande bacia
aqutica. Num jipe foram trs tcnicos averiguar o intrigante
sucesso, e, durante o caminho, pela margem do embaise,
examinaram as diversas hipteses possveis, no lhes faltou
tempo para isso em quase cinco quilmetros, e uma dessas
hipteses era que um desabamento ou escorregamento de
terras na montanha tivesse desviado o curso do rio, outra
que fosse obra dos franceses, perfdia gaulesa, apesar do
acordo bilateral sobre guas fluviais e seus aproveitamentos
hidroelctricos, outra, ainda, e a mais radical de todas, que
se tivesse exaurido o manancial, a fonte, o olho-d'gua, a

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eternidade que parecia ser e afinal no era. Neste ponto
dividiam-se as opinies. Um dos engenheiros, homem sossegado,
da espcie contemplativa, e que apreciava a vida em
Orbaiceta, temia que o mandassem para longe, os outros
esfregavam de contentamento as mos, podia ser que viessem a
transferi-los para uma das barragens do Tejo, o mais
perto de Madrid e da Gran Va. Debatendo estas ansiedades
pessoais chegaram  ponta extrema do embalse, onde era o
desaguadouro, e o rio no estava l, apenas um fio escasso
de gua que ainda ressumbrava das terras moles, um gorgolejo
lodoso que nem para mover uma azenha de brincar teria
fora, Onde  que raio se meteu o rio, isto disse o motorista
do jipe, e no se poderia ser mais expressivo e rigoroso.
Perplexos, atnitos, desconcertados, inquietos tambm, os
engenheiros voltaram a discutir entre si as j explicadas
hipteses, posto o que, verificada a inutilidade prtica do
prosseguimento do debate, regressaram aos escritrios da
barragem, depois seguiram para Orbaiceta, onde os esperava
a hierarquia, j informada do mgico desaparecimento do
rio. Houve discusses cidas, incredulidades, chamadas
telefnicas para Pamplona e Madrid, e o resultado do fatigante
trabalho e trato veio a exprimir-se numa ordem muito sim
ples, disposta em trs partes sucessivas e complementares,
Subam o curso do rio, descubram o que aconteceu e no
digam nada aos franceses.
A expedio partiu no dia seguinte, ainda antes do
nascer do sol, caminho da fronteira, sempre ao lado ou 
vista do rio seco, e quando os fatigados inspectores l
chegaram compreenderam que nunca mais tornaria a haver
Irati. Por uma fenda que no teria mais de uns trs metros de
largura, as guas precipitavam-se para o interior da terra,
rugindo como um pequeno Mgara. Do outro lado j havia
um ajuntamento de franceses, fora sublime ingenuidade
pensar que os vizinhos, astutos e cartesianos, no dariam
pelo fenmeno, mas ao menos mostravam-se to estupefac
tos e desorientados como os espanhis deste lado, e todos

22

irmos na ignorancia. Chegaram as duas partes  fala, mas a
conversa no foi extensa nem profcua, pouco mais que as
interjeies de um justificado espanto, um hesitante aventar
de ~ipteses novas pelo lado dos espanhis, enfim, uma
irritao geral que no encontrava contra quem se voltar, os
franceses da a pouco j sorriam, afinal continuavam a ser
donos do rio at  fronteira, no precisariam de reformar os
mapas.
Nessa tarde, helicpteros dos dois pases sobrevoaram o
local, fizeram fotografias, por meio de guinchos desceram
observadores que, suspensos sobre a catarata, olhavam e
nada viam, apenas o negro boqueiro e o dorso curvo e
luzidio da gua. Para se ir adiantando algum proveito, as
autoridades municipais de Orbaiceta, do lado espanhol, e de
Larrau, do lado francs, reuniram-se junto do rio, debaixo
de um toldo armado para a ocasio e dominado pelas trs
bandeiras, a bicolor e tricolor nacionais, mais a de Navarra,
com o propsito de estudarem as virtualidades tursticas de
um fenmeno natural com certeza nico no mundo e as
condies da sua explorao, no interesse mtuo. Considerando
a insuficincia e o carcter indubitavelmente provisrio dos
elementos de anlise disponveis, no produziu a
reunio qualquer documento definidor das obrigaes e direitos
das partes, porm foi nomeada uma comisso mista
que, em brevssimo prazo, elaboraria a agenda do prximo
encontro, formal. No entanto,  ltima hora, um factor de
perturbao veio subverter o relativo consenso *a que se
havia chegado, e foi a interveno, quase simultnea em
Madrid e Paris, dos representantes dos dois Estados na
comisso permanente de limites fronteirios. Levantavam
esses senhores uma dvida grave, Vamos l a saber, para
onde  que o buraco abre, para o lado espanhol, ou para o
lado francs. Parecia pormenor de somenos, mas, depois de
explicado o fundamento, a delicadeza do caso metia-se pelos
olhos dentro. Era indiscutvel, claro est, que o Irati, a
partir
de agora, pertencia inteiramente  Frana, departamento dos

23


Baixos Pirentis, mas se a fenda se abrira toda para o lado
da Espanha, provncia de Navarra, as negociaes ainda
teriam muito que ver, uma vez que cada um dos pases, de
certa maneira, contribura com parte igual. Se, pelo
contrrio, tambm a fenda fosse francesa, ento o negcio a
eles
inteiramente pertenceria como lhes pertenceriam as respecti
vas matrias-primas, o rio e o vazio. Perante a nova situa
o, as duas autoridades, disfarando reservas mentais,
acordaram em manter-se em contacto enquanto no se
deslindasse a momentosa questo. Por sua vez, numa declarao
conjunta laboriosamente elaborada, os ministrios dos
Negcios Estrangeiros de ambos os pases anunciaram a
inteno de prosseguir conversaes urgentes no mbito da
referida comisso permanente de limites, assessorada, como
no poderia deixar de ser, pelas respectivas equipas de
tcnicos geodsicos.
Foi nesta altura que, em profuso e diversidade internacional,
apareceram os gelogos. Entre Orbaiceta e Larrau j
havia de tudo um pouco, se no muito, como antes se
enumerou, agora chegavam em fora os sbios da terra e das

terras, os averiguadores de movimentos e acidentes, estratos
e blocos errticos, de martelinho na mo, batendo em tudo
quanto fosse pedra ou pedra parecesse. Um jornalista francs,
Michel e cnico, dizia a um seu colega espanhol, srio e
Miguel, cujo j anunciara para Madrid ser a fenda 
ab-so-lu-ta-men-te espanhola, ou, para falar com preciso
geogrfica
e nacionalista, navarresa, Fiquem vocs com ela, foi o que
disse o francs insolente, se lhes d assim tanto gosto e to
precisados esto, s no Cirque de Gavarnie temos ns uma
cascata de quatrocentos e vinte metros de altura, no
precisamos de furos artesianos virados ao contrrio. No se
lembrou Miguel de responder-lhe que do lado espanhol dos
Pirentis tambm no faltam quedas-d'gua, e das mui belas
e altas, mas que a questo ali era outra, uma cascata a cu
aberto no  mistrio nenhum, sempre igual,  vista de toda
a gente, ao passo que a fenda do Irati, v-se-lhe o princpio,

24

no se lhe conhece o fim,  como a vida. Porm, foi um
outro jornalista, alis galego e de passagem, como a galegos
acontece tantas vezes, quem lanou a pergunta que ainda
faltava fazer, Para onde vai esta gua. Era ento o tempo em
que discutiam, com ciencia brusca e seca, os gelogos de
ambas as partes, e a pergunta, como de criana tmida,
apenas foi ouvida por quem agora a regista. Sendo a voz
galega, portanto discreta e medida, abafaram-na o rapto
gauls e o rompante castelhano, mas depois outros vieram
repetir o dito arrogando-se vaidades de primeiro descobri
dor, aos povos pequenos ningum d ouvidos, no  mania
da perseguio, mas histrica evidncia. A discusso dos
sbios tornara-se quase impenetrvel para entendimentos
leigos, mas, ainda assim, podia-se ver que havia duas teses
centrais em discusso, a dos monoglacialistas e a dos poli
glacialistas, ambas irredutveis, e no tarda inimigas, como
duas religies antitticas, monotesta uma, politesta outra.
Algumas declaraes chegavam a parecer interessantes,
como aquela de as deformaes, certas deformaes, poderem ser
devidas, quer a uma elevao tectnica quer a uma
compensao isosttica da eroso. Tanto mais, acrescentava
-se, que o exame das formas actuais da cordilheira permite
afirmar que ela no  antiga, geologicamente falando, claro.
Tudo isto, provavelmente, teria que ver com a fenda. Afinal,
uma montanha sujeita a tais jogos de traco e brao-de
-ferro, no admira que l venha o dia em que se veja obrigada
a
ceder, a partir-se, a desmoronar-se, ou, como no caso
vertente,
a abrir racha. No foi esse o caso da laje grande, inerte
sobre os
Montes Alberes, mas a essa nunca a viram gelogos, estava
longe, num desolado ermo, ningum se aproximou dela, o co
Ardent foi atrs do coelho e no voltou.
Passados dois dias, estavam os membros da comisso de
limites fronteirios em trabalho de campo, com os teodolitos
medindo, com as tbuas conferindo, com as calculadoras
calculando, e a tudo isto confrontando com,as fotografias
areas, os franceses pouco satisfeitos porque j eram mnimas

25


as dvidas de que a fenda fosse espanhola, como o jornalista
Miguel pioneiramente defendera, quando houve sbita notcia
duma nova fractura. Da tranquila Orbaiceta no voltou a
falar-se, nem do cortado rio Irati, sic transit gloria mundi e
de
Navarra. Em revoada, os homens da informao, alguns dos
quais eram mulheres, foram enxamear os Pirenus Orientais,
que era a regio crtica, felizmente dotada de melhores meios
de acesso, tantos e to excelentes que em poucas horas ali se
reuniu o poder do mundo, com gente que at de Toulouse e
Barcelona viera. As auto-estradas ficaram entupidas, quando
as polcias de um lado e do outro quiseram desviar os fluxos
de trnsito era tarde de mais, quilmetros e quilmetros de
automveis, o caos mecnico, depois foi preciso aplicar
providncias drsticas, fazer voltar toda a gente para trs
pela
outra faixa de rodagem e para isso destruindo as vedaes,
enchendo os fossos, um inferno, razo tiveram-na os gregos
quando nesta regio o colocaram. Valeram na emergncia os
helicpteros, esses artefactos voadores ou passarolas capazes
de pousar em quase todos os lugares, e, quando de todo
impossvel, procedem  imitao do colibri, aproximam-se
quase a tocar a flor, os passageiros nem precisam de escada,
um saltinho e basta, entram logo na corola, entre estames e
pistilos, aspirando os aromas, quantas vezes de napalin e
carne queimada. Largam a correr, baixando a cabea, e vo
ver o que aconteceu, alguns destes chegam directamente do
Irati, j com experincia tectnica, mas no esta.
A fenda corta a estrada. toda a grande rea de estacionamento.
e prolonga-se. adelgaando-se para os dois lados. na
direco do vale. onde se perde. serpenteando pela encosta
do monte acima. at desaparecer nos matos. Estamos no
exacto e preciso lugar da fronteira. a autntica. a linha de
separao, neste limbo sem ptria entre os postos das duas
polcias. Ia aduana e Ia douane. Ia bandera e l drapeau.
A uma distncia prudente. porque se admite a probabilidade
de desmoronamentos dos bordos da terrestre ferida. autoridades
e tcnicos trocam frases de nulo sentido e eficcia

26

nula, no se pode chamar dilogo a tal rumor de vozes, e
usam altifalantes para melhor se ouvirem, enquanto outras
personagens mais qualificadas, dentro dos pavilhes, falam
pelo telefone, ora entre si, ora com Madrid e Paris. Mal
desembarcaram, os jornalistas vo indagar como foi que isto
se deu, e recolhem todos a mesma histria, com algumas
elaboradas variantes, que a sua prpria imaginao ainda
mais ir enriquecer, mas, pondo as coisas no simples, quem
deu f do acontecimento foi um automobilista que, passando
quando j a noite se fechava, sentiu dar o carro um salto
brusco, como se as rodas tivessem entrado e sado de um
rego transversal, e foi ver o que era, capaz de haver obras de
beneficiao do piso que imprudentemente se tivessem es
quecido de assinalar. A racha tinha ento meio palmo de
largura, uns quatro metros de comprimento, se tanto.
O homem, que era portugus, de nome Sousa, e viajava com
a mulher e os sogros, voltou para o carro e disse,'At parece
que j entrmos em Portugal, imagina, uma vala enorme,
podia amolgar-me as jantes, partir um semieixo. No era
vala, nem era enorme, mas as palavras, assim ns as
fizemos, tm muito de bom, ajudam, s porque as dizemos
exageradas logo aliviam os sustos e as emoes, porqu,
porque os dramatizam. A mulher, sem dar muita ateno 
informao, respondeu, V l tu, e ele achou que era de
seguir o conselho, embora no tivesse sido essa a inteno, a
frase da senhora, mais interjeio do que recomendao
abreviada, era daquelas que de resposta s fazem as vezes,
tornou ele a sair e foi verificar as jantes, estragos visveis
no havia, felizmente. Da a dias, j na sua terra portuguesa,
ser heri, dar entrevistas  televiso,  rdio e 
imprensa,
Foi o primeiro a ver, senhor Sousa, relate-nos as suas
impresses do terrvel momento. Repetir vezes sem conto,
e sempre h-de rematar a ornamentada histria com uma
pergunta ansiosa e retrica, de causar arrepios e que a si
prprio arrepia deliciosamente, como um xtase, Se o buraco
fosse maior, j pensou, como dizem que  agora, tnha
27


mos cado l dentro, sabe Deus at que fundura, e mais ou
menos assim tambm pensara o galego quando perguntou, se
esto lembrados, Para onde vai essa gua.
At onde, eis pois a crucial questo. A primeira provi
dncia objectiva seria sondar a ferida, veriguar-lhe a pro
fundidade, e depois estudar, definir e pr em prtica os
processos adequados para colmatar a brecha, nunca expresso
alguma pde ser to rigorosa, por isso francesa, chega
-se a pensar que algum a pensou um dia, ou inventou, para
vir a ser usada, com plena propriedade, quando a terra se
rachasse. A sondagem, logo feita, registou pouco mais de
vinte metros, uma insignificncia para os meios da moderna
engenharia de obras pblicas. De Espanha e de Frana, do
perto e do longe, avanaram as betoneiras, as misturadoras,
essas interessantes mquinas que, com os seus movimentos
simultneos, fazem lembrar a terra no espao, rotao,
translao, e chegando ao ponto despejavam o beto, torren
cial, doseado para o efeito com grandes quantidades de
pedra grossa e cimento de presa rpida. Estava-se em plena
operao de enchimento quando um perito imaginoso props
que se colocassem, como dantes se praticava nas feridas das
pessoas, uns gatos, grandes, de ao, que segurassem os
bordos, ajudando, por assim dizer, e acelerando, a cicatriza
o. A ideia foi aprovada pela comisso bilateral de
emergncia, as siderurgias espanholas e francesas comearam
imediatamente os estudos necessrios, liga, espessura e
perfil do material,' relao entre o tamanho da unha que
ficaria cravada no cho e o vo abrangido, enfim, pormenores
tcnicos s para entendidos, aqui enunciados muito pela
rama. A fenda engolia a torrente de pedra e lama cinzenta
como se fosse o rio Irati caindo para o interior da terra,
ouviam-se os ecos profundos, chegou-se a admitir a
probabilidade de haver l em baixo um oco gigantesco, uma
-averna, uma espcie de goela insacivel,  que, se assim
for, no vale a pena continuar, constri-se uma passagem
por cima do buraco, se calhar  mesmo a soluo mais fcil

28

e econmica, chamam-se a os italianos, que tm grande
experincia de viadutos. Mas, ao cabo de no se sabe
quantas toneladas e metros cbicos, a sonda assinalou fundo
a dezassete metros, depois a quinze, a doze, o nvel do beto
ia subindo, subindo, a batalha estava ganha. Abraavam-se
os tcnicos, os engenheiros, os operrios, os polcias,
agitavam-se bandeiras, os locutores da televiso, nervosos,
liam o ltimo comunicado e davam as suas prprias opi
nies, enaltecendo a luta titnica, a gesta colectiva, a
solidariedde internacional em aco, at de Portugal, esse
pequeno pas, saiu um comboio de dez betoneiras, estrada fora,
tm  sua frente uma longa viagem, mais de mil e quinhentos
quilmetros, esforo extraordinrio, no vai ser
preciso o beto que trazem, mas a histria registar o sim
blico gesto.
Quando o enchimento atingiu o nvel da estrada, a
alegria explodiu em delrio colectivo, como numa passagem
de ano, fogo-de-artifcio, e corrida de S. Silvestre. Abalaram
os ares os claxons dos automobilistas que no tinham arreda
do p mesmo depois de desempanchadas as rodovias, os
camies libertavam os mugidos roucos dos avertisseurs e das
bocinas, e os helicpteros adejavam gloriosamente por cima
das cabeas, como serafins possessos de potncias acaso
nada celestiais. Crepitaram incessantes as mquinas
fotogrficas, os operadores da televiso aproximaram-se,
dominando os nervos, e ali, rente aos bordos da fenda que
deixara de
o ser, registaram grandes planos da superfcie irregular do
beto, a prova da vitria do homem sobre um capricho da
natureza. E foi assim que os espectadores, longe dali, no
conforto e segurana das suas casas, recebendo em directo
as imagens tomadas na fronteira franco-espanhola de Colla
do de Pertuis, puderam ver, quando j riam e batiam
palmas, e festejavam o acontecimento como proeza sua, foi
assim que puderam ver, sem quererem agora acreditar nos
seus prprios olhos, viram mover-se a superfcie ainda mole
do beto e comear a descer, como se a massa enorme

29


estivesse a ser sugada de baixo, devagar mas
irresistivelmente, at outra vez ficar  vista a brecha
escancarada.
A fenda no se tinha alargado, e isso s podia significar uma
coisa, que a juno das paredes j no se fazia a vinte
metros de fundo, como antes, mas a muitos mais, s Deus
saber quantos. Os operadores recuaram, assustados, mas o
dever profissional, tornado instinto adquirido, manteve as
cmaras a funcionar, trmulas sim, e o mundo pde ver os
rostos alterados, o pnico insofrevel, ouviam-se as
exclamaes, os gritos,,a fuga foi geral, em menos de um
minuto
apareceu deserta a rea de estacionamento, ficaram as
betoneiras abandonadas, aqui e alm algumas ainda a funcionar,
com as misturadoras girando, cheias de um beto que trs
minutos antes deixara de ser preciso e agora se tornara
intil. '
Pela primeira vez um arrepio de medo perpassou na
pennsula e na prxima Europa. Em Cerbre, bem perto
dali, as pessoas, correndo para a rua premonitoriamente
como o tinham feito os seus ces, diziam umas para as
outras, Estava escrito, quando eles ladrassem acabava-se o
mundo, e no era precisamente assim, escrito nunca estivera,
mas nos grandes momentos precisamos sempre de grandes frases,
e esta, Estava escrito, no sabemos que prestgio
tem que ocupa o primeiro lugar nos pronturios do estilo
fatal. Temendo, com mais razes do que ningum, o que
estava para acontecer, os habitantes de Cerbre comearam
a abandonar a cidade, em macia migrao para terras mais
slidas, talvez que o fim do mundo no chegasse to longe.
Em Banyuls-sur-Mer, Port-Vendrs e Collioure, para s
falar destas povoaes da corda ribeirinha, no ficou uma
alma viva. As mortas, porque tinham morrido, deixaram-se
ficar, com aquela inabalvel indiferena que as distingue da
restante humanidade, se alguma vez algum disse o contrrio,
que Fernando visitou Ricardo, estando um morto e outro
vivo, foi imaginao insensata e nada mais. Mas um destes
mortos, em Collioure, mexeu-se um pouco, como se estives
30

se a hesitar, irei, no irei para o interior da Frana  que
nunca, s ele saberia para onde, talvez ns o venhamos a
saber tambm.
Entre as mil notcias,-- opinies, comentrios e mesas
-redondas que ocuparam, no dia seguinte, jornais, televiso
e rdio, passou quase despercebido o breve comentrio de
um sismlogo ortodoxo, Gostaria bem de saber por que 
que tudo isto se passa sem que a terra trema, ao que outro
sismlogo, da escola moderna, pragmtico e flexvel,
respondeu, A seu tempo explicaremos. Ora, numa povoao
do sul da Espanha, um homem, ouvindo estas diferenas,
partiu da sua casa para ir  cidade de Granada, dizer aos
senhores da televiso que h mais de oito dias sentia a terra
tremer, que se at agora no falara foi por pensar que
ningum o acreditaria, e que ali estava, em pessoa, para que
se visse como um simples homem pode ser mais sensvel do
que todos os sismgrafos do mundo juntos. Quis o seu
destino que um jornalista lhe desse ouvidos, ou por simpatia
benevolente, ou seduzido pelo inslito do caso, em quatro
linhas foi resumida a novidade, e a notcia, embora sem
imagem, foi dada no telejornal da noite, sob risonha reserva.
No dia seguinte, a televiso portuguesa, por falta de matria
local prpria, aproveitou e desenvolveu o tpico, ouvindo
em estdio um especialista de fenmenos paranormais que
nada adiantou  inteligncia do caso, segundo se pode
concluir da sua mais importante declarao, Como no resto
dos casos, depende tudo da sensibilidade.
De efeitos e causas muito aqui se tem falado, sempre
com extremos de ponderao, observando a lgica, respei
tando o bom senso, reservando o juizo, pois a todos 
patente que de uma betesga ningum seria capaz de retirar
um rossio. Aceitar-se-, portanto, como natural e legtima, a
dvida de ter sido aquele risco no cho, feito por Joana
Carda com a vara de negrilho, causa directa de se estarem
rachando os Pirentis, que  o que tem vindo a ser insinuado
desde o princpio. Mas no se rejeite este outro facto, e

31


inteira verdade, que foi partir Joaquim Sassa  procura de
Pedro Orce por dele ter ouvido falar nas notcias da noite, e
o que disse.

32

Me amorosa, a Europa afligiu-se com a sorte. das suas
terras extremas, a ocidente. Por toda a cordilheira pirenaica
estalavam os granitos, multiplicavam-se as fendas, outras
estradas apareceram cortadas, outros rios, regatos e torrentes
mergulharam a fundo, para o invisvel. Sobre os cumes
cobertos de neve, vistos do ar, abria-se. uma linha negra e
rpida, como um rastilho de plvora, para onde a neve
escorregava, e desaparecia, com um rumor branco de peque
na avalancha. Os helicpteros iam e vinham sem descanso,
observavam os picos e os vales, abarrotados de peritos e
especialistas de tudo quanto parecesse ser de alguma
utilidade, gelogos, esses por direito prprio, apesar de
agora lhes
estar vedado o trabalho de campo, sismlogos, perplexos,
porque a terra teimava em manter-se firme, sem um estre
mecimento, ao menos uma vibrao, e tambm vulcanlo
gos, secretamente esperanados, no obstante estar o cu
limpo, despejado de fumos e fogos, perfeito e liso azul de
Agosto, o rastilho de plvora no passou de comparao, 
um perigo tom-las  letra, esta e outras, se antes no
aprendemos a estar prevenidos. No podia a fora humana
nada a favor duma cordilheira que se abria como uma rom,
sem dor aparente, e apenas, quem somos ns para o saber,
porque amadurecera e chegara o seu tempo. Somente quarenta e
oito horas depois de Pedro Orce ter ido dizer 
televiso o que sabemos, no era mais possvel, do Atlntico

33


ao Mediterrneo, atravessar a fronteira a p ou em veculos
terrestres. E nas terras baixas do litoral, os mares, cada um
de seu lado, comeavam a entrar pelos novos canais,
misteriosas gargantas, ignotas, cada vez mais altas, com
aquelas
paredes a pique, rigorosamente na vertical do pndulo, o
corte liso mostrando a disposio dos estratos arcaicos e
modernos, as sinclinais, as intercalaes argilosas, os con
glomerados, as extensas lentilhas de calcrios e de arenitos
macios, os leitos xistosos, as rochas silicosas e negras, os
granitos, e o mais que no seria possvel acrescentar, por
insuficincia do relator e falta de tempo. Agora j vamos
sabendo que resposta se deveria ter dado ao galego que
perguntou, Para onde vai esta gua, Vai cair no mar, lhe
diramos, em chuva finssima, em poalha, em cascata,
depende da altura donde se precipite e do caudal, no, no
estamos - a falar do Irati, esse  longe, mas pode-se apostar
que tudo vir a ser pela conformidade sabida, jogos de gua,
arco-ris tambm, quando o sol puder entrar nas sombrias
profundidades.
Numa faixa de uns cem quilmetros de cada lado da
fronteira, as populaes abandonaram as suas casas,
recolheram-se  relativa segurana das terras interiores, com
plicado s foi o caso de Andorra, de que imperdoavelmente
nos amos esquecendo,  ao que esto sujeitos todos os
pequenos pases, bem podiam ter-se tornado maiores. Ao
princpio no faltaram hesitaes sobre a consequncia final
das fendas, havia-as em ambos os lados, nas duas fronteiras,
e tambm porque sendo os habitantes, uns, espanhis, ou
tros, franceses, outros, andorranos de nao, cada um deles
inclinava-se  querena natural, salvo seja, ou determinava
-se por razes ou interesses do momento, com perigo de
dividirem-se as famlias e outras associaes. Finalmente, a
linha contnua de fractura estabeleceu-se de vez na fronteira
com a Frana, os poucos milhares de franceses foram
evacuados por via area, numa brilhante operao de salvamento
que recebeu o nome de cdigo Mitre dvque,

34

mos, pergaminhos, sobretudo os palimpsestos, interrogamos
os sobreviventes, com boa vontade de um lado e do outro
conseguimos mesmo acreditar no que diz o ancio sobre o
que viu e ouviu na infncia, e de tudo haveremos de concluir
alguma coisa,  falta de convictas certezas faz-se de conta,
mas o que parece positivamente averiguado  que at reben
tarem os cabos de energia elctrica no tinha havido na
pennsula autntico medo, ainda que o contrrio j fosse
dito, algum pnico sim, mas no medo, que  sentimento
doutro calibre. Claro que muita gente conserva memria
viva da dramtica cena de Collado de Pertuis, quando o
 beto desapareceu das vistas dos que gritavam, Vencemos,
vencemos, mas o episdio s foi de facto impressionante
para quem l esteve, os outros assistiram de longe, em casa,
no teatro domstico que  a televiso, no pequeno rectngulo
de vidro, esse ptio dos milagres onde uma imagem varre a
anterior sem deixar vestgios, tudo em escala reduzida,
mesmo as emoes. E aqueles espectadores sensveis, que
ainda os h, aqueles que por um nada se pem a lacrimejar e
a disfarar o n da garganta, esses fizeram o de costume
quando no se pode aguentar mais, diante da fome em
frica e outras calamidades, desviaram os olhos. Alm
disto, no nos esqueamos de que em grandes partes da
pennsula, nos seus interiores fundos e profundos, onde os
jornais no chegam e a televiso custa a entender, havia
milhes, sim, milhes de pessoas que no percebiam o que
se passava, ou tinham uma ideia vaga, formada apenas de
palavras cujo sentido se compreendera por metade, ou nem
isso, to inseguramente que no se acharia grande diferena
entre o que um julgava saber e o que o outro ignorava.
Mas quando todas as luzes da pennsula se apagaram ao
mesmo tempo, apagn lhe chamaram depois em Espanha,
negrum numa aldeia portuguesa ainda inventadora de palavras,
quando quinhentos e oitenta e um mil quilmetros
quadrados de terras se tornaram invisveis na face do mundo,
ento no houve mais dvidas, o fim de tudo chegara. Valeu

37


a extino total das luzes no ter durado mais do que quinze
minutos, at que se completaram as conexes de emergncia
que punham em aco os recursos energticos prprios, nesta
altura do ano escassos, pleno vero, Agosto pleno, seca,
mngua das albufeiras, escassez das centrais trmicas, as
nucleares malditas, mas foi verdadeiramente o pandemnio
peninsular, os diabos  solta, o medo frio, o aquelarre, um
terramoto no teria sido pior em efeitos morais. Era noite,
o princpio dela, quando a maioria das pessoas j recolheram
a casa, esto uns sentados a olhar a televiso, nas cozinhas
as mulheres preparam o jantar, um pai mais paciente ensina,
incerto, o problema de aritmtica, parece que a felicidade
no  muita, mas logo se viu quanto afinal valia, este pavor,
esta escurido de breu, este borro de tinta cado sobre a
Ibria, No nos retires a luz, Senhor, faz que ela volte, e eu
te prometo que at ao fim da minha vida no te farei outro
pedido, isto diziam os pecadores arrependidos, que sempre
exageram. Quem vivia num baixo, podia imaginar-se dentro
de um poo tapado, quem num alto vivesse, subia ao alto e
por muitas lguas em redor, no distinguia um s luzeiro:
era como se a terra tivesse mudado de rbita e viajasse agora
num espao sem sol. Com trmulas mos acenderam-se as
velas nas casas, as lanternas de pilhas, os candeeiros de
petrleo guardados para uma falta, mas no esta, os castiais
de prata fina, os de bronze que s serviam de adorno, as pal
matrias de lato, as esquecidas candeias de azeite, luzes
frouxas que povoaram de sombras a sombra e entremostraram
relances de rostos assustados, decompostos como reflexos na
gua. Muitas mulheres gritaram, muitos homens tremeram, das
crianas se dir que choraram todas. Passados
quinze minutos, que, segundo a frase, pareceram quinze
sculos, embora ningum ainda tivesse vivido estes para
comparar com aqueles, a corrente elctrica voltou, aos
poucos, pestanejando, cada lmpada como um olho sonolen
to lanando turvas miradas em redor, prestes a cair no sono
outra vez, enfim suportou a luz que era, e sustentou-a.

38

     Meia hora depois a televiso e a rdio recomearam a
transmitir, deram notcias do acontecimento, e assim soubemos
que todos os cabos de alta tenso entre Frana e
Espanha tinham rebentado,, algumas torres caram, por im
perdovel esquecimento nenhum engenheiro se lembrara de
desligar as linhas, j que seria impossvel faz-las descer.
Felizmente o fogo-de-artifcio dos curto-circuitos no causou
vtimas, maneira de dizer assaz egosta, porque se  verdade
que no morreram pessoas, um lobo, pelo menos, no
escapou  fulminao, tornado carvo fumegante. Mas,
rebentarem-se os cabos era apenas metade da explicao
para a falta da luz, a outra metade, apesar de enunciada em
palavras de sentido propositadamente enredado, no demorou
muito a tornar-se inteligvel, ajudando cada vizinho o
seu prximo, O que eles no querem confessar  que j no
so s aquelas rachas no cho, se fosse s isso no se teriam
partido os cabos, Ento que pensa o vizinho que aconteceu,
Branco  galinha o pe, mas desta vez no foi ovo, os cabos
partiram-se porque foram esticados, e foram esticados
porque as terras se separaram, se no foi assim quero perder
o nome que tenho, No me diga, Ai digo, digo, vai ver que
eles vo acabar por confessar. Foi tal qual, mas s no dia
seguinte, quando j eram tantos os boatos que uma notcia
mais, mesmo verdadeira, no poderia aumentar a confuso,
porm no disseram tudo, nem claramente, apenas, por estas
exactas palavras, que uma alterao da estrutura geolgica
da cordilheira pirenaica resultara em ruptura contnua, em
soluo de continuidade fsica, estando neste momento
interrompidas as comunicaes por via terrestre entre a Frana
e
a pennsula, as autoridades seguem com ateno a evoluo
da situao, as ligaes areas mantm-se, todos os aeropor
tos esto abertos e em pleno funcionamento, contando-se
que seja possvel, a partir de amanh, duplicar os voos.
     E bem precisos eram. Quando se tomou patente e inso
fismvel que a Pennsula Ibrica se tinha separado por
completo da Europa, assim j se ia dizendo, Separou-se,

39


centenas de milhares de turistas, como sabemos era o tempo
da maior sazo deles, abandonaram precipitadamente, e
deixando as contas por pagar, os hotis, as pousadas, os
paradores, as estalagens, os hos'tales, as resid ncias,
as casas e quartos alugados, os parques de campismo, as
tendas, as caravanas, imediatamente provocando nas estra
das gigantescos congestionamentos de trnsito, que mais
ainda se agravaram quando os automveis comearam a ser
abandonados por toda a parte, levou algum tempo mas
depois foi como um rastilho, em geral as pessoas demoram a
perceber e aceitar a gravidade das situaes, por exemplo,
esta de no servir um automvel para nada, uma vez que as
estradas para Frana estavam cortadas. Em redor dos aero
portos, como uma inundao, alastrava a enorme massa de
carros, de todos os tamanhos, modelos, marcas e cores, que
entupiam as ruas e os acessos, aos cachos, desorganizando
por completo a vida das comunidades locais. Espanhis e
portugueses, refeitos j do susto do apagn e negrum,
assistiam ao pnico, achavam-no sem razo, Afinal de
contas at agora no morreu ningum, estes estrangeiros,
quando os tiram da rotina, perdem a cabea,  o resultado de
estarem to adiantados na cincia e tcnica, e depois deste
juzo condenatrio iam escolher, entre os automveis aban
donados, o que mais lhes satisfazia o gosto e coroava o
sonho.
Nos aeroportos, os balces das companhias areas eram
investidos pela multido excitada, uma babel furiosa de
gestos e de gritos, tentavam-se e praticavam-se subornos
nunca vistos para conseguir uma passagem, vendia-se tudo,
comprava-se tudo, jias, mquinas, roupas, reservas de
droga, agora negociada s claras, o automvel ficou l fora,
tem aqui as chaves e os documentos, se no puder arranjar
um lugar para Bruxelas vou nem que seja para Istambul, at
para o inferno, este turista era dos distrados, esteve na
aldeia e no viu as casas. Sobrecarregados, com as memrias
pletricas, saturadas, os computadores vacilaram, multi
40

plicaram-se os erros, at que se deu o bloqueamento total. J
no se vendiam bilhetes, os avies eram assaltados, uma
ferocidade, os homens primeiro porque tinham mais fora,
depois as frgeis mulheres e as inocentes crianas, no
poucas de umas e outras ficaram espezinhadas entre a porta
do terminal e a escada de acesso, primeiras vtimas, e logo
segundas e terceiras quando algum teve a trgica ideia de
abrir caminho de pistola em punho e foi abatido pela polcia.
Armou-se tiroteio, havia outras armas na multido e
dispararam, no vale a pena dizer em que aeroporto se deu a
desgraa, abominvel sucesso repetido em mais dois ou trs
lugares, embora com menos graves consequncias, ali
morreram dezoito pessoas.
De repente, tendo havido quem se lembrasse de que
tambm pelos portos de mar se podia fugir, principiou outra
corrida para a salvao. Refluram os fugitivos, outra vez 
procura dos seus abandonados automveis, encontraram-nos
algumas vezes, outras no, mas isso que importava, se no
havia chaves ou elas no serviam, depressa se fazia uma
ligao directa, -quem no sabia depressa aprendeu, Portugal
e Espanha transformaram-se no paraso dos ladres de auto
mveis. Quando chegavam aos portos iam  procura de batel
ou canoa que os transportasse, ou, pelo melhor, uma traineira,
um arrasto, um escaler, um veleiro, e desta maneira
abandonavam os seus ltimos haveres na terra maldita,
partiam com a roupa que tinham no corpo ou pouco mais,
um leno de assoar j pouco limpo, um isqueiro sem valor
nem gs, uma gravata de que ningum tinha gostado, no
est bem que com tal atrocidade nos tivssemos aproveitado
do infortnio alheio, fomos como salteadores da costa
despojando os nufragos. Desembarcavam os pobres onde
podiam, aonde os levavam, a alguns largaram-nos em Ibiza,
Maiorca e Minorca, em Formentera, ou nas ilhas Cabrera e
Conejera, ao acaso da sorte, ficavam os infelizes, por assim
dizer, entre a cruz e a caldeirinha,  certo que at agora as
ilhas no se mexeram, mas quem poder adivinhar o dia de

41


amanh, slidos para a eternidade pareciam os Pirentis, e
afinal. Milhares e milhares foram parar a Marrocos, fugidos
quer do Algarve quer da costa espanhola, estes os que
estavam para baixo do cabo de Palos, quem estivesse da
para cima preferia ser levado directamente para a Europa,
podendo ser, perguntavam assim, Quanto quer para me levar
 Europa, e o contramestre carregava o sobrolho, franzia o
beio, mirava o fugitivo calculando-lhe as posses, Sabe, a
Europa  longe como um raio, fica l para o fim do mundo,
e nem valia a pena responder-lhe, Que exagero, so s dez
metros de gua, uma vez um holands atreveu~se a usar o
sofisma, um sueco confirmou, e cruelmente lhes foi respondido,
Ai, so s dez metros, pois ento vo a nado, tiveram
de pedir desculpa e pagaram o dobro. O negcio floresceu
at ao dia em que, concertadamente, os pases estabeleceram
pontes areas para o transporte macio dos seus naturais,
mas, mesmo depois desta providncia humanitria, ainda
houve quem se enchesse de dinheiro na classe marinheira e
piscatria, basta lembrar-nos de que nem toda a gente
viajante anda em paz com a legalidade, esses estavam
prontos a cobrir todas as tabelas, nem tinham outro recurso,
que as foras navais de Portugal e Espanha patrulhavam
assiduamente as costas, em alerta mximo, sob a vigilncia,
discreta, de formaes navais das potncias.
Houve turistas, no entanto, que resolveram no partir,
aceitaram como uma fatalidade irresistvel o rompimento
geolgico, tomaram-no como sinal imperioso do destino, e
escreveram s famlias, tiveram ao menos essa ateno, a
dizer que no pensassem mais neles, que se lhes tinha
mudado o mundo, e a vida, no tinham culpa, em geral
eram pessoas de vontade fraca, daquelas que vo adiando
decises, esto sempre a dizer amanh, amanh, mas isto
no significa que no tenham sonhos e desejos, o mau 
morrerem antes de poderem e saberem viver deles alguma
pequena parte. Outros agiram pela calada, eram os
desesperados, desapareceram simplesmente, esqueceram-se e

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fizeram-se esquecidos, ora, qualquer destes casos humanos
daria, por si s, um romance, a histria, enfim, do que
conseguiram ser, e, mesmo se nada, outro nada, que no se
encontram dois iguais.
Mas h quem carregue sobre os ombros obrigaes mais
pesadas, e a elas no se admite que fujam, tanto assim que
em os negcios da ptria correndo mal logo nos pomos a
interrogar, E ento, eles, que  que eles andam a fazer,
esto  espera de qu, estas impacincias contm uma parte
de grande injustia, afinal, coitados, tambm no podem
escapar ao destino, quando muito vo ao presidente pedir a
demisso, mas no em um caso destes, que, seria forte
ignominia, a histria severamente julgaria homens pblicos
que tal deciso tomassem, nestes dias em que, para falar
com propriedade, tudo se vai de gua abaixo. Cada um por
seu lado, em Portugal, em Espanha, os governos vieram ler
comunicados tranquilizadores, garantiram formalmente que
a situao no autoriza excessivas preocupaes, estranha
linguagem, e tambm que se encontram assegurados todos
os meios para salvaguarda de pessoas e bens, enfim, foram 
televiso os chefes de governo, e depois, para acalmao
dos nimos inquietos, apareceram tambm o rei de l e o
presidente de c, Friends, Romans, countrymen, lend me
your ears, disseram eles, e os portugueses e espanhis,
reunidos nos seus fruns, responderam a uma s voz, Pois
,sim, pois sim, words, words, nada mais que words. Perante
o descontentamento da opinio pblica, reuniram-se em
local secreto os primeiros-ministros dos dois pases, primeiro
a Ss, depois com membros dos respectivos governos,
conjuntamente e em separado, foram dois dias de conversaes
exaustivas, tendo sido resolvido, finalmente, constituir
uma comisso paritria de crise, cujo objectivo principal
seria coordenar as aces de defesa civil de ambos os pases,
em ordem a facilitar a potenciao mtua dos recursos e
meios tcnicos e humanos para o enfrentamento do desafio
geolgico que j afastara a pennsula da Europa dez metros,

43


Se isto no for a mais, confidenciava-se nos corredores, o
caso no ter excessiva gravidade, direi mesmo que seria
uma boa partida pregada aos gregos, um canal maior que o
de Corinto, to nomeado, Contudo, no poderemos ignorar
que os problemas da nossa comunicao com a Europa, j
historicamente to complexos, iro tornar-se explosivos,
Ora, constroem-se umas pontes, A mim, o que me preocupa
 a possibilidade de vir o canal a alargar-se tanto que possam
navegar por l os navios, sobretudo os petroleiros, seria uM
rude golpe para os portos ibricos, e as consequncias to
importantes, mutatis mutandis, claro est, como as que
resultaram da abertura do canal de Suez, quer dizer, o norte
da Europa e o sul da Europa disporiam de uma comunicao
directa, dispensando, por assim dizer, a rota do Cabo, E ns
ficvamos a ver navios, comentou um portugus, os outros
julgaram ter entendido que os navios de que ele falava eram
os que fossem passando no novo canal, ora, s ns, portu
gueses,  que sabemos que so muito outros esses tais
barcos, levam carga de sombras, de anelos, de frustraes,
de enganos e desenganos, atestados os pores, Homem ao
mar, gritaram, e ningum lhe acudiu.
Durante a reunio, como fora combinado previamente, a
Comunidade Econmica Europeia tomou pblica uma declarao
solene, nos termos da qual ficava entendido que o
deslocamento dos pases ibricos para ocidente no poria em
causa os acordos em vigor, tanto mais que se tratava de um
afastamento mnimo, uns poucos metros, se compararmos
com a distncia que separa a Inglaterra do continente, para
j no falar da Islndia ou da Gronelndia, que de Europa
tm to pouco. Esta declarao, objectivamente clara, foi o
que resultou de um aceso debate no seio da comisso, em
que alguns pases membros chegaram a manifestar um certo
desprendimento, palavra sobre todas exacta, indo ao ponto
de insinuar que se a Pennsula Ibrica se queria ir embora,
ento que fosse, o erro foi t-la deixado entrar. Naturalmente
que tudo era a brincar, um joke, nestas difceis

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reunies internacionais as pessoas tambm precisam de dis
trair-se, no poderia ser s trabalhar, trabalhar, mas os
comissrios portugus e espanhol repudiaram energicamente
a atitude deselegantemente provocatria e indubitavelmente
anticomunitria, citando, cada qual na sua lngua, o conhecido
ditado ibrico, Os amigos so para as ocasies. Tambm
tinha sido pedida  Organizao do Tratado do Atlntico
Norte uma declarao de solidariedade atlantista, mas a
resposta, no sendo embora negativa, veio a resumir-se
numa frase impublicvel, Wait and see, o que, alis, no
exprimia nenhuma inteira verdade, considerando que, pelo
sim, pelo no, haviam sido postas em estado de alerta as
bases de Beja, Rota, Gibraltar, El Ferrol, Torrejn de
Ardoz, Cartagena, San Jurjo de Valenzuela, para no falar
de instalaes menores.
Ento, a Pennsula Ibrica moveu-se um pouco mais, um
metro, dois metros, a experimentar as foras. As cordas que
serviam de testemunhos, lanadas de bordo a bordo, tal qual
os bombeiros fazem nas paredes que apresentam rachas e
ameaam desabar, rebentaram como simples cordis, algu
mas mais slidas arrancaram pela raiz as rvores e os postes
a que estavam atadas. Houve depois uma pausa, sentiu-se
passar nos ares um grande sopro, como a primeira respirao
profunda de quem acorda, e a massa de pedra e terra,
coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fbricas, matos
bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus
animais, comeou a mover-se, barca que se afasta do porto
e aponta ao mar outra vez desconhecido.

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Esta oliveira  cordovil, ou cordovesa, ou cordovia, tanto
faz, que estes trs nomes lhe do, sem diferena, na terra
portuguesa, e  azeitona que gera, pelo tamanho e formosura,
aqui lhe chamariam aceituna de Ia reina, mas cordobesa no,
embora estejamos mais perto de Crdova do que da fronteira
de alm. Parecem pormenores escusados, superfluidades,
vocalizaes melismticas ' artifcios ornamentais de um canto
plano que sonha com asas de msica plena, quando muito
mais importaria falar destes trs homens que debaixo da
oliveira esto sentados, um que  Pedro Orce, outro Joaquim
Sassa, o terceiro Jos Anaio, acasos prodigiosos ou
deliberadas manipulaes os tero reunido neste lugar. Mas
dizer que
 cordovil a oliveira servir, ao menos, para observar a que
extremo foram omissos, por exemplo, os evangelistas quando
se limitaram a escrever que Jesus amaldioou a figueira,
parece que deveria a informao bastar-nos e no basta, no
senhor, afinal, vinte sculos passados, ainda no sabemos se
a rvore desgraada dava figos brancos ou pretos, lampos ou
serdios, de capa-rota ou pingo-de-mel, no que com a falta
esteja padecendo a cincia crist, mas a verdade histrica
seguramente sofre.  cordovil, pois, a oliveira, e esto
sentados trs homens debaixo dela. Por trs destas encostas,
mas no visvel daqui, h uma aldeia onde Pedro Orce tem
vivido, e por um acaso, primeiro deles, se o , tm ele e ela
o mesmo nome, o que no retira nem acrescenta verosimi
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lhana ao conto, um homem pode chamar-se Cabea de Vaca
ou Mau-Tempo e no ser aougueiro ou meteorologista. J
se disse que so acasos, e manipulaes, porm de boa-f.
Esto sentados no cho, no meio deles ouve-se a voz
fanhosa de um rdio que j deve ter as pilhas cansadas, e o
que est dizendo o locutor  isto, De acordo com as ltimas
medies, a velocidade de deslocao da pennsula
estabilizou-se  roda dos setecentos e cinquenta metros por
hora, mais ou menos dezoito quilmetros por dia, no
parece muito, mas se fizermos contas midas, quer dizer
aquilo que em cada minuto nos afastamos doze metros e
meio da Europa, embora devamos evitar cair em alannismos
dissolventes, a situao  realmente de preocupar, E ainda
seria mais se dissesses que por cada segundo so dois
centmetros e picos, comentou Jos Anaio rpido em cl
culo mental, no pde chegar s dcimas e centsimas,
Joaquim Sassa pedia-lhe que se calasse, queria ouvir o
locutor, e valia a pena, Segundo informaes agora mesmo
chegadas  nossa redaco, apareceu uma grande fenda entre
L Lnea e Gibraltar, razo por que j se prev, tendo em
conta a consequencia at agora irreversvel das fracturas,
que El Pefion venha a ficar isolado no meio do mar, se tal
vier a acontecer no lancemos as culpas aos britnicos,
culpa, sim, temo-la ns, tem-na Espanha, que no soube
recuperar, a tempo, esse pedao sagrado da ptria, agora 
tarde, ele mesmo nos abandona, Este homem  um artista da
palavra, disse Pedro Orce, mas o locutor mudara j de tom,
dominara a comoo, O gabinete do primeiro-ministro da
Gr-Bretanha distribuiu uma nota na qual o governo de Sua
Majestade Britnica reafirma aquilo a que chama os seus
direitos sobre Gibraltar, agora confinnados, citamos, pelo
facto indiscutvel de estar The Rock a separar-se de Espa
nha, com o que ficam unilateral e definitivamente suspensas
todas as negociaes com vista a uma eventual, se bem que
problemtica, transferncia de soberania, Ainda no foi
desta vez que se acabou o imprio britnico, disse Jos

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Analo, Em declarao ao parlamento. a oposio de Sua
Majestade exigiu que o futuro lado norte da nova ilha seja
rapidamente fortificado, de modo a tornar o rochedo ' em
todo o seu permetro, num bastio inexpugnvel, orgulhosamente
isolado no meio do Atlntico agora alargado, como
smbolo do poder imorredouro de Albion, So doidos,
murmurou Pedro Orce, olhando as alturas da serra de Sagra,
na sua frente, Por seu lado, o governo, visando reduzir o
impacte poltico da reivindicao, respondeu que Gibraltar,
nas novas condies geoestratgicas, continuar a ser uma
das jias da coroa de Sua Majestade Britnica, frmula que,
como a Magna Carta, tem a virtude magna de satisfazer toda
a gente, este remate irnico foi da responsabilidade do
locutor, que se despediu, Voltaremos a dar notcias, salvo
imprevisto, daqui por uma hora. Um bando de estorninhos
passou como um tufo sobre a colina rida, ~uuu=uuu,
So os teus, perguntou Joaquim Sassa, e, mesmo sem olhar,
Jos Anaio respondeu, So os meus, tem obrigao de o
saber, desde aquele primeiro dia, nos verdes campos
ribatejanos, que quase no se separaram, s para comer e
dormir,
homem no se alimenta de vermes ou gros perdidos,
pssaro dorme nas rvores, sem lenis. A bandada deu uma
volta larga, fremente, asas vibrantes, bicos que bebem o ar e
o sol, e o azul, as poucas nuvens, brancas e acasteladas,
navegam no espao como galees, os homens, estes e todos
os outros, olham estas coisas diversas e, como de costume,
no as entendem bem.
No foi para ouvirem, de companhia, um rdio de pilhas
que, vindos de to diferentes lugares, aqui se juntaram Pedro
Orce, Joaquim Sassa e Jos Anaio. Sabemos h trs minutos que
Pedro Orce vive na aldeia que est escondida por
trs destes acidentes, sabamos desde o princpio que Joa
quim Sassa veio duma praia do norte de Portugal, e Jos
Anaio, agora o ficmos a saber de cincia certa, pelos
campos do Ribatejo andava a passear quando encontrou os
estorninhos, e t-lo-amos logo sabido se tivssemos dado

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ateno suficiente aos pormenores da paisagem. Falta agora
saber como se encontraram os trs e por que esto aqui
clandestinos, debaixo duma oliveira, nica neste lugar, entre
raras e confusas rvores ans que se agarram ao cho
branco, o sol reverbera em todas as chapadas, o ar treme, 
o calor andaluz, apesar de estarmos no meio de um circo de
montanhas, de repente tornmo-nos conscientes destas ma
terialidades, entrmos no mundo real, ou foi ele que nos
arrombou a porta.
Pensando bem, no h um princpio para as coisas e para
as pessoas, tudo o que um dia comeou tinha comeado
antes, a histria desta folha de papel, tomemos o exemplo
mais prximo das mos,- para ser verdadeira e completa,
teria de ir remontando at aos princpios do mundo, de
propsito se usou o plural em vez do singular, e ainda assim
duvidemos, que esses princpios princpios no foram, so
mente pontos de passagem, rampas de escorregamento,
pobre cabea a nossa, sujeita a tais puxes, admirvel
cabea, apesar de tudo, que por todas as razes  capaz de
enlouquecer, menos por essa.
No h, pois, princpio, mas houve um momento em que
Joaquim Sassa partiu donde estava, praia do norte de Portugal,
talvez Afife, a das pedras enigmticas, talvez A-Ver-o-Mar,
esta melhor seria, por ter o mais perfeito nome de
praia que se poderia imaginar, poetas e romancistas de livros
no o inventariam. De l veio Joaquim Sassa por ter ouvido
que um Pedro Orce de Espanha sentia tremer o cho debaixo
dos ps quando o cho no tremia,  muito natural curiosidade
de quem atirou uma pedra pesada ao mar com foras que
no tinha, ainda mais arrancando-se a pennsula da Europa
sem abalo nem dor, como um cabelo que silenciosamente
cai, pela simples vontade de Deus, ao que dizem. Meteu-se
ao caminho, no Dois Cavalos velho, no se despediu da
famlia, doridamente, pois famlia no tem, e tambm no
deu contas ao gerente do escritrio onde trabalha. O tempo 
de frias, pode ir e voltar sem ter de pedir licena, agora

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nem o passaporte exigem na fronteira. mostra-se simples
mente o bilhete de identidade e  nossa a pennsula. Sobre o
banco, ao lado, leva um rdio de pilhas, distrai-se a ouvir a
msica, o papear dos locutores. suave e embalador como um
bero acstico, de sbito irritante, isto era nos tempos
normais, agora o ter est sulcado por palavras febris, as
notcias que vm dos Pirenus, o xodo, a passagem do mar
Vermelho, a retirada de Napoleo. Aqui, nas estradas do
interior, o trnsito  pouco, nada que se compare com o
Algarve, aquela confuso e convulso, e em Lisboa, nas
auto-estradas do sul e do norte, o aeroporto da Portela mais
parece uma praa sitiada, um assalto de formigas, limalha
de ferro atrada pelo man. Joaquim Sassa vai em seu
descanso, pelos sombreados caminhos beires, leva por
destino uma aldeia chamada Orce, na provncia de Granada,
pas de Espanha, onde vive o tal homem de quem se falou na
televiso, Vou l saber se existe alguma ligao entre o que
me sucedeu a mim e aquilo de sentir a terra tremer debaixo
dos ps, a gente, pondo-se a imaginar, junta as coisas todas
umas s outras, as mais das vezes errou, s vezes acerta,
uma pedra atirada ao mar, o cho que treme, uma cordilheira
estalada. Joaquim Sassa vai tambm entre montanhas,
ainda que no se possam comparar com aqueles tits, mas de
repente inquieta-se, E se acontecesse o mesmo aqui, rachar
-se a Estrela, sumir-se o Mondego nas profundas, os chou
pos outonais sem espelho onde mirar-se, o pensamento
tornou-se potico, o perigo j l vai.
Neste momento interrompeu-se a msica, o locutor
comeou a ler notcias, no variavam muito, a nica novidade,
se bem que relativa, vinha de Londres, o primeiro-ministro foi
 Cmara dos Comuns para afirmar, categoricamente,
que a soberania britnica sobre Gibraltar no admitia
discusso, qualquer que fosse a distncia que viesse a separar
a
Pennsula Ibrica da Europa, ao que o leader da oposio
acrescentou uma formal garantia, isto , A mais leal
colaborao da nossa bancada e do nosso partido no grande

50

momento histrico que estamos a viver. mas juntou ao
discurso solene uma ironia que fez rir todos os deputados.
O senhor primeiro-ministro incorreu numa grave falta de
preciso vocabular quando chamou pennsula quilo que j 
hoje. sem qualquer dvida, uma ilha. ainda que sem a
firmeza da nossa. of course. Os deputados da maioria
aplaudiram a concluso e trocaram sorrisos complacentes
com os adversrios, para unir os polticos no h como o
interesse da ptria, verdade incontroversa. Joaquim Sassa
sorriu tambm, Que teatro, e de repente suspendeu a respira
o, o locutor dissera o seu nome, Pede-se ao senhor
Joaquim Sassa, em viagem algures no pas, repetimos,
pede-se ao senhor Joaquim Sassa o favor, pediam por favor,
de se apresentar urgentemente ao governador civil mais
prximo do local onde se encontre, a fim de colaborar com
as autoridades no esclarecimento das causas da ruptura
geolgica verificada nos Pirenus, pois  convico das
entidades competentes que o referido senhor Joaquim Sassa
dispe de informaes de interesse nacional, vamos repetir
o apelo, Pede-se ao senhor Joaquim Sassa, mas o senhor
Joaquim Sassa j no ouvia, tivera de parar o carro para
recuperar a serenidade, o sangue-frio, com as mos a treme
rem desta maneira nem guiar podia, os ouvidos zumbiam-lhe
como um bzio, Ora a minha vida, como  que eles teriam
sabido da pedra, na praia no estava ningum, pelo menos,
que eu visse, e no falei do caso, tomavam-me por mentiroso,
afinal devia estar algum de parte a observar-me, em
geral quem  que vai reparar numa pessoa que atira pedras
 gua, pois , mas em mim repararam logo, pouca sorte, e
depois sabemos como as coisas se passam, um diz ao outro e
acrescenta o que imaginou e no chegou a ver, quando esta
histria chegou aos ouvidos das autoridades a pedra j devia
estar do meu tamanho, pelo menos, e agora que vou eu
fazer. No responderia ao apelo, no se apresentaria a
nenhum governador civil ou militar, imagine-se a conversa
absurda, o gabinete fechado, o gravador a gravar, Senhor

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Joaquim Sassa, atirou uma pedra ao mar, Atirei, Quanto lhe
parece que ela pesaria, No sei, talvez dois quilos, ou trs,
Ou mais, Sim, podia ser mais, Tem aqui algumas pedras,
experimente-as, e diga qual delas se aproxima, em peso, da
pedra que atirou, Esta, Vamos pes-la, assim, ora bem., faa
o favor de verificar com os seus prprios olhos, No imagi
nei que fosse tanto, cinco quilos e seiscentos gramas, Agora
diga-me, alguma outra vez lhe sucedeu um caso parecido
com este, Nunca, Tem a certeza, Absoluta, No sofre de
perturbaes mentais ou nervosas, epilepsia, sonambulismo,
transes de vria ordem, No senhor, E na sua famlia, h ou
houve casos semelhantes, No senhor, Depois faremos um
electroencefalograma, por agora experimente fazer fora
neste aparelho, aqui, Que , Um dinammetro, faa toda a
fora de que for capaz, No posso mais, S isto, Nunca fui
homem de grandes musculaturas, Senhor Joaquim Sassa, o
senhor nunca poderia ter atirado aquela pedra, Tambm sou
da mesma opinio, mas atirei, Sabemos que atirou, h
testemunhas, pessoas de toda a confiana, por isso tem de
nos dizer como o conseguiu, J expliquei, ia na praia, vi a
pedra, agarrei nela e atirei-a, No pode ser, As testemunhas
confirmam,  verdade, mas as testemunhas no podem saber
donde lhe veio essa fora, o senhor  que deve saber, J lhe
disse que no sei, A situao, senhor Sassa,  muito grave,
direi mais, gravssima, a ruptura dos Pirentis no se explica
por causas naturais, ou ento estaramos mergulhados numa
catstrofe planetria, foi a partir desta evidncia que
comemos a investigar casos inslitos ocorridos nestes
ltimos
dias, e o seu  um deles, Duvido que atirar uma pedra ao
mar possa ser causa de partir-se um continente, No quero
entrar em vs filosofias, mas responda-me se v alguma
ligao entre o facto de um macaco ter descido duma rvore
h vinte milhes de anos e a fabricao duma bomba
nuclear, A ligao , precisamente, esses vinte milhes de
anos, Bem respondido, mas agora imaginemos que seria
possvel reduzir a horas o tempo entre uma causa, que neste

52

caso seria o lanamento da sua pedra, e um efeito, que foi a
separao da Europa, por outras palavras, imaginemos que,
em condies normais, essa pedra atirada ao mar s produziria
efeitos daqui por vinte milhes de anos, mas que, noutras
condies, precisamente as da anormalidade que estamos a
investigar, o efeito se verifica umas poucas horas, ou dias,
depois, E pura especulao, a causa pode ser outra, Ou um
conjunto concomitante delas, Ento vo ter de investigar
outros casos inslitos,  o que estamos a fazer, e os
espanhis tambm, como aquele homem que sente a terra a
tremer, Por esse caminho, depois de examinarem os casos
inslitos, tero de passar aos casos slitos, Casos qu,
Slitos, Que quer dizer essa palavra, Slito  o contrrio de
inslito, o seu antnimo, Passaremos dos inslitos aos sli
tos se for preciso, havemos de descobrir a causa, Vo ter
muito que examinar, Estamos a comear, diga-me aonde foi
buscar a sua fora. Joaquim Sassa no respondeu, fez
emudecer a imaginao, tanto mais que o dilogo ameaava
tornar-se circular, agora teria de repetir, No sei, e o resto
seria igual, com algumas variantes, mas mnimas, sobretudo
formais, mas a mesmo se deveria acautelar, porque, como
se sabe, pela forma se chega ao fundo, pelo continente ao
contedo, pelo som da palavra ao significado dela.
Ps Dois Cavalos em movimento, a passo, se tal se pode
dizer de um automvel, queria pensar, precisava de pensar
maduramente. Deixara de ser um viajante vulgar a caminho
duma fronteira, homem comum sem qualidades nem impor
tncia, agora no, provavelmente estariam neste momento a
ser impressos os cartazes com o seu retrato, e a sinaltica,
Wanted em letras gordas e vermelhas, a caa ao homem.
Olhou o espelho retrovisor e viu um carro da polcia da
estrada, vinha to depressa que parecia querer entrar pela
janela de trs, Estou apanhado, disse, acelerou mas emen
dou logo, sem travar, e tudo isto era escusado, o carro da
polcia passou como uma tromba, devia levar destino, nem
sequer o olharam, adivinhassem os apressados polcias quem

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ali ia,  que Dois Cavalos h muitos, parece uma contradi
o matemtica, mas no . Joaquim Sassa tornou a olhar o
espelho, agora para se ver a si prprio, reconhecer o alvio
nos seus olhos, para pouco mais dava o reflexo, um bocadinho
do rosto, assim  difcil saber a quem pertence, a
Joaquim Sassa, j sabemos, mas Joaquim Sassa quem , um
homem ainda novo, tem os seus trinta e tal anos, mais perto
dos quarenta que dos trinta, vem um dia em que no se pode
evitar, as sobrancelhas so pretas, os olhos castanhos 
portuguesa, ntida a, cana do nariz, so feies realmente
comuns, saberemos mais dele quando se voltar para ns. Por
enquanto, pensou,  s um apelo pela rdio, o pior vai ser
na fronteira, ainda por cima este meu apelido, Sassa, hoje o
que me calhava era ser um Sousa qualquer, como o outro de
Collado de Pertuis, um dia foi ver no dicionrio se a palavra
existia, Sassa, no Sousa, e o que significava, ficou a saber
que era uma rvore corpulenta da Nbia, lindo nome, de
mulher, Nbia, l para os lados do Stido, frica Oriental,
pgina noventa e trs do atlas, E esta noite, onde  que eu
vou dormir, hotel nem sonhar, esto sempre com a rdio
ligada, a estas horas j toda a hotelaria portuguesa est de
olho vivo em cima dos candidatos a uma dormida, o refgio
dos perseguidos, imagina-se a cena, Ora essa, sim senhor,
temos um excelente quarto vago, no segundo andar,  o
duzentos e um,  Pimenta acompanha o senhor Sassa, e
quando ele estivesse deitado a descansar, ainda vestido,
o gerente, excitadssimo, nervoso, ao telefone, O tipo est
c, venham depressa.
Encostou Dois Cavalos  berma, saiu para desentorpecer
as pernas e refrescar o pensamento, que no entanto no
soube ser bom conselheiro, props-lhe uma irregularidade,
Ficas a numa cidade mais populosa, que tm dessas
comodidades, procuras uma casa de putas, passas a noite com
uma delas, descansa que no te pedem o bilhete de identidade,
assim pagues, e se no te apetecer recrear a carne, com
as preocupaes que tens, ao menos poders dormir, se

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calhar at te fica mais barato que o hotel, Absurdo, respon
deu Joaquim Sassa  proposta, a soluo ser dormir no
automvel, a num caminho retirado, E se te aparecem uns
valdevinos, uns vagabundos, uns ciganos, se te assaltam e
roubam, se te matam, Estas terras so sossegadas, E se vem
a um incendirio de ofcio ou de mania deitar fogo aos
pinhais, estamos no tempo deles, ficas cercado pelas cha
mas, e morres queimado, que deve ser a pior das mortes,
segundo tenho ouvido dizer, lembra-te dos mrtires da inqui
sio, Absurdo, tornou a dizer Joaquim Sassa, est decidido,
durmo no carro, e o pensamento calou-se, cala-se sempre
quando a vontade  firme. Ainda era cedo, podia percorrer
uns quarenta ou cinquenta quilmetros por estas sinuosas
estradas, acamparia perto de Tomar, ou de Santarm, num
desses caminhos de terra que do acesso a culturas, com os
seus profundos regos que foram de carros de bois e hoje so
de tractores,  noite ningum passa, em qualquer lado se
pode esconder Dois Cavalos, At posso dormir ao relento,
com o calor que faz, a esta ideia no respondeu o pensamento,
mas desaprova.
No parou em Tomar, no chegou a Santarm, jantou
incgnito numa vila da margem do Tejo, a gente da terra 
curiosa de seu natural, mas no ao ponto de indagar do
viajante,  queima-roupa, Olhe l, como  o seu nome, se
por c se demorasse, ento sim, em pouco tempo lhe
averiguariam a vida passada e o destino para o futuro.
A televiso estava ligada, enquanto Joaquim Sassa jantou
viu-se a parte final de um filme sobre a vida submarina, com
muitos cardumes de peixe mido, raias ondulantes e moreias
sinuosas, e uma ncora antiga, depois vieram os anncios,
uns de montagem percutante, rpida, outros sabiamente
lentos como uma volpia feita de experincia, as vozes eram
de crianas que gritavam muito, de adolescentes inseguras
de tom, ou de mulheres um pouco roucas, todos os homens
bartonos e viris, nas traseiras da casa ronca o porco, criado
com a gua das lavagens e os restos dos pratos. Enfim

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deram as notcias e Joaquim Sassa tremeu, estava apanhado
se mostrassem uma fotografia sua. O apelo foi lido, mas a
fotografia no apareceu, no fim de contas no andavam 
procura de um criminoso, apenas se lhe pedia, com muita
instncia e bons modos, que desse sinal da sua pessoa,
servindo assim o supremo interesse nacional, nenhum patriota
desse nome se furtaria ao cumprimento de um dever
to simples, apresentar-se  autoridade para declaraes.
Havia mais trs pessoas a jantar, um casal idoso, e noutra
mesa o conhecido homem sozinho de quem sempre se diz,
Deve ser caixeiro-viajante.
As conversas interromperam-se quando se ouviram as
primeiras notcias dos Pirentis, o porco continuava a roncar
mas ningum o ouvia, e, tudo isto num instante s, o dono
da casa subiu a uma cadeira para aumentar o som, a rapariga
que servia s mesas ficou parada de olhos arregalados, os
clientes pousaram cuidadosamente os talheres na borda do
prato, nem o caso era para menos, no ecr via-se um
helicptero que estava a ser filmado doutro helicptero,
ambos entrando pelo assustador canal, e mostravam as
paredes altssimas, to altas que mal o cu se via l em
cima, um fiozinho de azul, Credo, at faz tonturas na
cabea, disse a rapariga, e o patro, Est calada, agora
projectores potentssimos mostravam a garganta hiante, assim
deveria ter sido a entrada do inferno grego,, mas onde

deveria ladrar Crbero grunhe um porco, as mitologias J
no so nada do que eram. Estas dramticas imagens,
recitava o locutor, tomadas com autntico risco de vida, a
voz tornou-se pastosa, engrolada, os dois helicpteros trans
formaram-se em quatro, fantasmas de fantasmas, Maldita
antena, resmungou o dono do restaurante.
Quando o som e a imagem se estabilizaram e tornaram
inteligveis, os helicpteros tinham desaparecido, e o locutor
lia o conhecido apelo, agora alargado ao geral, Pede-se
tambm a todas as pessoas que saibam de casos estranhos,
de fenmenos inexplicveis, de sinais duvidosos, que avisa
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sem prontamente as autoridades mais prximas. Ento,
vendo-se assim directamente interpelada, a rapariga lembrou
o ali to falado caso do cabrito que nascera com cinco
pernas, quatro pretas e uma branca, mas o patro respondeu,
Isso j foi h meses, parva, cabritos com cinco pernas e
pintos com duas cabeas  coisa que est sempre a aconte
cer, de moer o juzo, conta-me dessas,  aquilo dos
estorninhos do professor, Que estorninhos, que professor,
pergun
tou Joaquim Sassa, O professor da terra, o nome dele  Jos
Anaio, h uns dias que para onde quer que ele v, vai um
bando de estorninhos, no so menos de duzentos, Ou mais,
corrigiu o caixeiro-viajante, ainda esta manh os vi quando
cheguei, andavam a voar por cima da escola, e faziam tanto
barulho de asas e gritos que era um fenmeno. Nesta altura
tomou a palavra o senhor de idade para dizer, C no meu
entender devamos informar o presidente da junta deste caso
dos estorninhos, Saber, ele j sabe, observou o dono da
casa, Sabe, mas no liga uma coisa  outra, o rabo e as
calas, se assim posso exprimir-me, Ento que devemos
fazer, Vamos conversar com ele amanh pela manh, ainda
por cima era importante para a nossa terra que dela se
falasse na televiso,  bom para o comrcio e indstria, Mas
o segredo fica entre ns, no se diz a ningum, E esse
professor, mora onde, perguntou Joaquim Sassa como se a
resposta lhe interessasse pouco, por isso o patro, distrado,
no foi a tempo de evitar que a rapariga desse com a lngua
nos dentes, Mora numa casa mesmo ao lado da escola,  a
casa dos professores,  noite tem sempre luz na janela at
muito tarde, e parecia haver uma certa melancolia na voz.
Zangado, o dono do restaurante ralhou  pobre servente,
Cala a boca, estupor, vai mas  ver se o porco est com
fome, ordem sobre todas absurda porque os porcos a esta
hora no comem, em geral dormem, se este tanto protesta
talvez seja de inquietaes e anseios, tambm por essas
cavalarias e cercados no campo as guas relincham e
sacodem a cabea, nervosas, em desassossego, e, de impa
57


cincia, ferem com as ferraduras as pedras roladas do cho,
despedaam a palha, Isto ser da lua,  o diagnstico do
maioral.
Joaquim Sassa pagou o jantar, deu as boas-noites, dei
xou gorjeta generosa em recompensa da informao que a
rapariga dera, se calhar o patro vai met-la ao bolso, por
despeito de ocasio, no porque seja seu costume, a bondade
das pessoas no  melhor do que elas so,, tambm sujeita a
eclipses e contradies, constante s raramente, e este  o
caso da escorraada moa que, no podendo dar de comer a
um porco que no tem fome, lhe coa o testuz entre os
olhos, a palavra  castelhana, mas usa-se aqui por fazer falta
em portugus. Est um bonito anoitecer, Dois Cavalos
descansa debaixo dos pltanos, refrescando as rodas na gua
que escorre, perdida, da fonte, e Joaquim Sassa deixa-o
ficar, vai a p procurar a escola e a janela iluminada, as
pessoas no conseguem esconder os seus segredos ainda que
com palavras os queiram guardar, uma sbita estridncia as
denuncia, o apagamento sbito duma vogal os revela, qual
quer observador com experincia de voz e de vida percebia
logo que a rapariga da casa de pasto tem paixo. A vila 
apenas uma aldeia grande, em menos de meia hora se vai da
entrada ao cabo das casas, mas tanto no precisar de andar
Joaquim Sassa, perguntou a um rapazinho que passava onde
era a escola, no podia ter encontrado mais bem informado
guia, O senhor v por essa rua, em chegando a um largo
onde h uma igreja vire para a sua mo esquerda, depois 
sempre a direito, no tem nada que errar, a escola v-se
logo, E o professor, mora l, Mora, sim senhor, a janela tem
luz, mas no havia sinal de paixo em nenhuma destas
palavras, provavelmente o rapaz  mau aluno e a escola o
seu primeiro purgatrio de pecador, mas a voz dele ficou de
repente alegre, no h rancor nas crianas,  o que as salva,
E os estorninhos esto l, nunca esto calados, se no
abandonar cedo os estudos poder aprender a compor as frases
de
modo a no repetir to de seguida as formas verbais.

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Ainda h alguma claridade em metade do cu, a outra
metade no escureceu de todo, o ar  azul como se estivesse
a amanhecer. Mas dentro das casas as luzes j esto acesas,
ouvem-se vozes calmas, de gente cansada, um choro discreto no
bero, em verdade os povos so inconscientes,
lanam-nos numa jangada ao mar e continuam a tratar das
vidas como se estivessem numa terra firme para todo o
sempre, palrando como Moiss quando descia o Nilo na
condessinha de verga, a brincar com as borboletas, com
tanta sorte que no o viram os crocodilos. Ao fundo da rua
estreita, entre muros, est a escola, se Joaquim Sassa no
estivesse avisado julgaria ser casa como as outras, de noite
todas so pardas, algumas de dia o so, escurecera entre
tanto, mas s daqui a pouco se acendero os candeeiros
pblicos.
Para no desmentir a rapariga apaixonada e o rapazito
dos sentimentos reservados, a janela tem luz, e a ela foi
bater Joaquim Sassa, afinal os estorninhos no fazem tanto
barulho assim, esto a acomodar-se para a noite, com as
disputas do costume, as querelas de vizinhana, porm no
tarda que sob as largas folhas da figueira onde se instalaram
se aquietem, invisveis, negros no meio do negrume, s
mais tarde se levantar a lua, ento alguns acordaro tocados
pelos brancos dedos e outra vez adormecero, no adivi
nham que vo ter de viajar para muito longe. De dentro de
casa uma voz de homem perguntou, Quem , e Joaquim
Sassa respondeu, Faz favor, mgicas palavras que substi
tuem identificao formal, a linguagem est cheia destes e
outros mais difceis enigmas. A janela abriu-se, no  fcil
ver quem nesta casa mora, assim em contraluz, mas, em
compensao, o rosto de Joaquim Sassa aparece completo,
de algumas feies falmos antes, o resto est conforme,
cabelos castanho-escuros, lisos, as faces magras, o nariz
realmente comum, os lbios parecem cheios apenas quando
falam, Desculpe vir incomod-lo a estas horas, No  tarde,
disse o professor, mas teve de elevar a voz porque os

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estorninhos, sobressaltados, levantaram um coro de protesto
ou de alarme,  mesmo por causa deles que eu gostaria de
lhe falar, Deles, quem, Dos estorninhos, Ah, E duma pedra
que atirei ao mar, muito mais pesada do que podiam as
minhas foras, Como se chama, Joaquim Sassa,  a pessoa
de quem falam na rdio e na televiso, Sou eu, Entre.

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De pedras e estorninhos conversaram, agora falam de
decises tomadas. Esto no quintal por trs da casa, Jos
Anaio sentado no poial da porta, Joaquim Sassa numa
cadeira por ser a visita, e estando Jos Anaio de costas para
a cozinha, donde a luz vem, continuamos sem saber que
feies so as suas, parece este homem que se esconde, e
no  tal, quantas vezes aconteceu mostrarmo-nos como
quem somos, e no valeu a pena, no estava l ningum
para ver. Jos Anaio deitou um pouco mais de vinho
branco nos copos, bebem-no  temperatura do ambiente,
como na opinio de entendidos deve ser bebido, sem os
artifcios modernos da refrigerao, mas neste caso  s
porque na casa do professor no h frigorfico, Para mim
chega, disse Joaquim Sassa, com o tinto do jantar j passei
da minha conta, Este , para brindar  viagem, respondeu
Jos Anaio, e sorria, viam-se-lhe os dentes muito brancos,
facto a registar, Que eu v  procura de Pedro Orce, ainda
se percebe, por enquanto estou em frias, sem obrigaes de
emprego, Tambm eu, e por mais tempo, at  abertura das
aulas, princpio de Outubro, Sou sozinho, Sozinho sou eu,
No estava nas minhas intenes vir c desafi-lo para ir
comigo, nem o conhecia, Eu  que lhe peo que me deixe
acompanh-lo, se me der um lugar no seu carro, mas j o
deu, agora no pode voltar com a palavra atrs, Imagine o
que ir ser o alvoroo quando derem pela sua falta, capazes

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de chamarem a polcia logo na primeira hora, vo pensar
que est morto enterrado, enforcado numa pernada, ou
atirado ao rio, por mim, claro, de mim  que vo suspeitar,
o desconhecido da misteriosa fora que veio do ignoto, fez
perguntas e desapareceu, est tudo nos livros, Deixo um
bilhete na porta da junta de freguesia a dizer que tive de
partir inesperadamente para Lisboa, espero que ningum
tenha a lembrana de ir perguntar na estao se me viram
comprar bilhete.
Por uns momentos ficaram calados, depois Jos Anaio
levantou-se, deu uns passos na direco da figueira enquanto
bebia o resto do vinho, os estorninhos no paravam de
pissitar e remexer-se, uns tinham acordado com a conversa
dos homens, outros porventura sonhariam alto, aquele terrvel
pesadelo da sua espcie que  sentir-se voar, pssaro
sozinho perdido da bandada, numa atmosfera que resiste e
prende o bater das asas como se fosse de gua, o mesmo se
passa com os homens quando a vontade no sonho lhes
manda que corram, e no podem. Partimos uma hora antes
do nascer do sol, disse Jos Anaio, agora so horas de
dormir, e Joaquim Sassa levantou-se da cadeira, Fico no
carro, de madrugada venho busc-lo, Por que  que no dor
me c, s tenho uma cama, mas  larga, d para dois  von
tade. O cu estava alto, todo picado de astros que pareciam
prximos como se dele estivessem invisivelmente dependurados,
poalha de vidro, vu de leite nevado, e as grandes
constelaes fulgiam dramaticamente, o Boieiro, as Duas
Ursas, o Sete-Estrelo, sobre os rostos alados dos dois
homens caa uma chuvinha feita de pequenos cristais de luz
que se agarravam  pele, ficavam presos nos cabelos, no
foi a primeira vez que o fenmeno se deu, mas num repente
calaram-se todos os murmrios da noite, por cima das
rvores apareceu o primeiro alvor da lua, agora tero as
estrelas de apagar-se. Ento Joaquim Sassa disse, Com uma
noite destas at sou capaz de dormir debaixo da figueira, se
me emprestar uma manta, Fao-lhe companhia. Amontoa
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ram, ajeitaram depois uma quantidade suficiente de palha
para as camas, como para o gado se faz, estenderam as
mantas, sobre um lado delas se deitaram, com o outro se
cobriram. Os estorninhos espreitavam dos ramos os dois
vultos, Quem ser aquele, debaixo da rvore e nos ramos
est tudo acordado, com um luar assim vai ter o souo de
batalhar muito. A lua sobe, sobe depressa, a copa baixa e
redonda da figueira transforma-se em labirinto de negro e
branco, e Jos Anaio diz, Estas sombras no esto j como
eram, Moveu-se a pennsula to pouco, uns metros, o efeito
no pode ter sido grande, observou Joaquim Sassa, feliz por
ter compreendido o comentrio, Moveu-se, e bastou para
que as sombras todas se tivessem tornado diferentes, h a
ramos que a luz da lua toca pela primeira vez a esta hora.
Passaram alguns minutos, os estorninhos comeavam a
sossegar, e Jos Anaio murmurou, numa voz que enfim o
sono quebrava, cada palavra  espera ou  procura da
seguinte, Um dia que j l vai, D. Joo o Segundo, nosso
rei, perfeito de cognome e a meu ver humorista perfeito, deu
a certo fidalgo uma ilha imaginria, diga-me voc se sabe
doutro pas onde pudesse ter acontecido uma histria como
esta, E o fidalgo, que fez o fidalgo, foi-se ao mar  procura
dela, gostaria bem que me dissessem como se pode encon
trar uma ilha imaginria, A tanto no chega a minha cincia,
mas esta outra ilha, a ibrica, que era pennsula e deixou de
o ser, vejo-a eu como se, com humor igual, tivesse decidido
meter-se ao mar  procura dos homens imaginrios., A frase
 bonita, das poticas, Pois fique voc sabendo que nunca em
vida minha fiz um verso, Deixe l, quando os homens forem
todos poetas param de escrever versos, Essa frase tambm
tem seu qu, Bebemos de mais, Tambm me parece. Siln
cio, quietao, suavidade infinita, e Joaquim Sassa murmu
rou, como se j sonhasse, Que faro amanh os estorninhos,
ficam, vo connosco, Quando partirmos saberemos,  sempre
assim, disse Jos Anaio, a lua est perdida entre os ramos da
figueira, vai levar toda a noite  procura do caminho.

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Ainda no clareava quando Joaquim Sassa se levantou da
sua cama de palha triga para ir buscar Dois Cavalos, deixado
em descanso debaixo dos pltanos da praa, mesmo ao p da
fonte. Para no serem vistos juntos por algum madrugador
matutino, desses que no faltam em terras agrcolas,
combinaram encontrar-se  sada da aldeia, longe das ltimas
casas. Jos Anaio iria por caminhos desviados, atalhos e
precipcios, cosido com as sombras, Joaquim Sassa, ainda
que discreto, pela estrada de toda a gente,  um viajante
desses que no devem nem temem, saiu cedo para gozar a
frescura da manh e aproveitar o dia, os turistas matinais so
assim, no fundo problemticos e inquietos, que sofrem com
a insanvel brevidade das vidas, deitar tarde e cedo erguer,
sade no d, mas alonga o viver. Dois Cavalos tem um
motor discreto, o arranque  de seda, ouviram-no s os raros
habitantes insones, e esses pensaram que afinal dormiam e
sonhavam, agora apenas se percebe, na quieta madrugada, o
barulho regular duma bomba de puxar gua. Joaquim Sassa
saiu da aldeia, passou a primeira curva, a segunda, depois
parou Dois Cavalos e esperou.
Na profundidade prateada do olival os troncos comeavam a
tornar-se visveis, havia j no ar um bafo hmido e
impreciso, como se a manh estivesse saindo dum poo de
gua nevoenta, e agora cantou um pssaro, ou foi iluso
auditiva, nem as calhandras cantam to cedo. Passou tempo,
e Joaquim Sassa deu por si a murmurar, Se calhar arrepen
deu-se e no vem, mas no me pareceu homem para tal, ou
teve de dar uma volta maior do que contava, isso ter sido, e
tambm h a mala, a mala pesa, falta de lembrana, podia
t-la trazido eu para o carro. Ento, entre as oliveiras, Jos
Anaio surgiu rodeado de estorninhos, um frenesi de asas
em rufo contnuo, gritos estridentes, quem falou em duzen
tos  mau aritmtico, mais me lembra isto um enxame de
abelhas negras, grossas, mas  memria de Joaquim Sassa
acudiram, sim, os Pssaros de Hitchcock, filme clssico,
porm esses eram malvados assassinos. Jos Anaio apro
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ximou-se do carro com a sua coroa de criaturas aladas, vem
a rir, talvez parea por isso mais novo do que Joaquim
Sassa,  bem sabido que a gravidade carrega o parecer, tem
os dentes muito brancos, como desde a noite passada sabemos, e
no conjunto da cara nenhuma feio sobressai em
particular, mas h uma certa harmonia nas faces magras,
ningum tem obrigao de ser bonito. Meteu a mala dentro
do carro, sentou-se ao lado de Joaquim Sassa, e antes de
fechar a porta espreitou para fora, a ver os estorninhos,
Vamos embora, queria saber o que eles fariam, a tem, Se
tivssemos aqui uma espingarda davam-se-lhes uns tiros,
dois cartuchos de chumbo mido faziam uma razia neles,
 caador, No, s falo por ouvir dizer, Falta-nos a
espingarda, Talvez haja uma outra soluo, ponho Dois Cavalos

desfilada, e eles ho-de ficar para trs, isto  ave de pouca
asa e flego curto, Experimente. Dois Cavalos mudou de
velocidade, ganhou balano numa recta comprida, e,
aproveitando o terreno plano, rapidamente deixou para trs os
estorninhos. O lusco-fusco da manh comeava a tingir-se
de rosa plida e rosa viva, eram cores cadas do cu, e o ar
tornou-se azul, o ar, dizemos bem, no o cu, como ainda
ontem pudemos observar ao entardecer, estas horas so
muito iguais, uma de comear, outra de acabar. Joaquim
Sassa desligou de todo os faris, diminuiu o andamento,
sabe que Dois Cavalos no veio ao mundo para altas cavalarias,
falta-lhe pedigree, alm disso, onde  que a mocidade
j vai, e a mansido do motor  renncia filosfica, nada
,mais, Pronto, acabaram-se os estorninhos, isto foi o que
disse Jos Anaio, mas notou-se um tom de pena na sua
voz.
Duas horas mais tarde, em terras de Alentejo, pararam
para uma pequena refeio, caf com leite, bolos secos de
canela, depois regressaram ao carro debatendo as conhecidas
preocupaes, O pior no ser no me deixarem entrar em
Espanha, o pior  se me prendem, No ests a ser acusado
de nenhum crime, Inventam um pretexto, detm-me para

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averiguaes, Deixa estar, daqui at  fronteira havemos de
descobrir um meio de passares, este foi o dilogo, que nada
adianta  inteligncia da histria, provavelmente apenas foi
posto aqui para que ficssemos cientes de que Joaquim Sassa
e Jos Anaio j se tratam por tu, devem t-lo combinado no
caminho, E se nos tratssemos por tu, disse um deles, e o
outro concordou, Vinha precisamente a pensar nisso. Estava
Joaquim Sassa a abrir a porta do carro quando os estorninhos
reapareceram, -aquela grande nuvem, mais do que nunca
como um enxame voando em turbilho, e faziam uma zoada
ensurdecedora, via-se que estavam irritados, as pessoas c
em baixo paravam de nariz no ar, apontavam o cu, algum
garantiu, Nunca na minha vida vi tanto pssaro junto, pela
idade que mostrava ter no deviam faltar-lhe esta e outras
experincias, So para cima de mil, acrescentou, e tem
razo, pelo menos foram mil duzentos e cinquenta os convo
cados -para esta ocasio. Afinal, alcanaram-nos, disse
Joaquim Sassa, vamos dar-lhes outro estico e acabamos de vez
com eles. Jos Anaio olhava os estorninhos que voavam em
crculo largo, triunfantes, olhava-os com expresso atenta,
concentrada, Vamos devagar, a partir de agora iremos devagar,
Porqu, No sei,  um pressentimento, por algum
motivo estes pssaros no nos largam, A ti  que eles no
largam, Seja assim, ento posso pedir-te que vamos devagar,
quem sabe o que estar para acontecer.
     Atravessar o Alentejo por este braseiro, debaixo de ' um
cu mais branco do que azul, entre um restolho que refulge,
com raras azinheiras na terra nua e fardos de palha por
recolher, sob o incessante reco das cigarras, seria logo uma
histria completa, acaso mais rigorosa do que outra em
tempos contada.  certo que por quilmetros e quilmetros
de estrada no se alcana vulto humano, mas as searas foram
ceifadas, o cereal debulhado, e tantos trabalhos requereram
homens e mulheres, por esta vez no saberemos de uns nem
de outros, muito verdadeiro  o novo ditado que diz, Quem
contou um conto, de no contar outro se dar desconto.

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A rechina  grande, sufoca, mas Dois Cavalos no leva
pressa, d-se ao gosto de parar nas sombras, ento saem
Jos Anaio e Joaquim Sassa a perscrutar o horizonte,
esperam o tempo que for preciso, enfim l vm, nuvem
nica no cu, estas paragens no seriam precisas se os
estorninhos soubessem voar em linha recta, mas, sendo
tantos, e tantas as vontades, mesmo gregariamente reunidas,
no se podem evitar disperses e distraces, uns quiseram
pousar, outros beber gua ou provar de frutos, enquanto um
nico querer no prevalece perturba-se o conjunto e confun
de-se o itinerrio. Pelo caminho, alm das aves milhanas,
solitrias caadoras, e outras de menor congregao, foram
vistos pssaros da espcie, mas no se juntaram  compa
nhia, talvez por no serem pretos, mas malhados, ou terem
outro destino na vida. Jos Anaio e Joaquim Sassa entravam no
carro, Dois Cavalos metia-se  estrada, e assim,
andando e parando, parando e andando, chegaram  fronteira.
Ento disse Joaquim Sassa, E agora, se no me deixam
passar, 'Vai tu seguindo, pode ser que os estorninhos.
Tal como naquelas histrias de fadas, embruxamentos e
andantes cavalarias, ou nas outras no menos admirveis
aventuras homricas, em que, por prodigalidade da rvore
fabuleira ou telha dos deuses e mais potncias acessrias,
tudo podia acontecer ao invs da repetio do costume, de
no natural maneira, deu-se aqui o caso de pararem Joaquim
Sassa e Jos Anaio na guarita da polcia, posto fronteirio
em linguagem tcnica, e sabe Deus com que ansiedade de
alma apresentavam os bilhetes de identidade, quando, num
repente, como pancada de chuva violenta ou'furaco irresis
tvel, desceram das alturas os estorninhos, negro meteoro,
corpos que eram coriscos, silvando, guinchando, e  altura
dos telhados baixos espalharam-se em todas as direces,
no seria diferente um turbilho que tivesse enlouquecido,
os polcias medrosos sacudiam os braos, corriam a refu
giar-se, resultado, Joaquim Sassa saiu do carro para apanhar
os documentos que a autoridade tinha deixado cair, ningum

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deu pela irregularidade aduaneira, e pronto, por tantos
caminhos se tem atravessado clandestino, assim  que nunca
tinha acontecido, Hitchcock d palmas na plateia, so os
aplausos de quem  mestre na matria. A excelncia do
mtodo foi logo a seguir comprovada, ficando demonstrado
que a polcia espanhola, tanto como a portuguesa, aprecia
estas sortes de ornitologia geral e estorninho preto. Os
viajantes passaram sem nenhuma dificuldade, mas no terreno
ficaram umas dezenas de pssaros,  que na alfndega
dos vizinhos havia uma caadeira carregada, at um cego
seria capaz de acertar pelo sentido, bastava atirar ao monte,
e esta foi a intil mortandade, j que em Espanha, como
sabemos, ningum procura Joaquim Sassa. E no est certo
que assim tivessem procedido os guardas andaluzes, que os
estorninhos eram portugueses de nao, nascidos e criados
em terras do Ribatejo, e vieram morrer to longe, ao menos
tenham esses desapiedados guardas a considerao de convidarem
para a fritada os seus colegas alentejanos, em ambiente
de saudvel convivncia e camaradagem de armas.
J vo nas terras de alm os viajantes, com o seu dossel
de pssaros acompanhantes, a caminho de Granada e arredores, e
ho-de ter de pedir ajuda nas encruzilhadas, pois este
mapa que os leva no regista a povoao de Orce,  grande
falta de sensibilidade dos desenhadores topgrafos, aposto
que da terra deles nunca se esqueceram, de futuro lembrem
-se do vexame que  ir uma pessoa ao mapa ver se est l o
lugar onde veio ao mundo e encontrar um espao em branco,
vazio, desta maneira  que se tm gerado -gravssimos
problemas de identidade pessoal e nacional. Na estrada
passam os Seates, os Pegasos, reconhecem-se logo pela fala
e pela matrcula, e as povoaes que Dois Cavalos atravessa
tm aquele ar adormecido que dizem ser o prprio das terras
do sul, indolentes lhes chamam as tribus do norte, so
desprezos fceis e soberbas de casta de quem nunca teve de
trabalhar com este sol s costas. Mas  verdade que h
diferenas de mundo para mundo, toda a gente sabe que em

68

Marte os homens so verdes, enquanto na terra os h de
todas as cores, menos essa.
De um habitante do norte no ouviramos o que iremos
ouvir, se pararmos para perguntar quele homem que ali vai,
escarranchado num burro, o que pensa do'extraordinrio
caso de ter-se separado a Pennsula Ibrica da Europa,
puxar o brido ao asno, X, e responder sem papas na
lngua,- Que todo es una bufonada. Roque Lozano julga
pelas aparncias, com elas fez uma razo que  sua e boa
de entender, contemple-se a serenidade buclica destes
campos, a paz do cu, o equilbrio das pedras, as serras
Morena e Aracena iguaizinhas desde que nasceram, ou, se
no tanto, desde que nascemos ns, Mas a televiso mostrou
para todo o mundo os Pirentis a racharem-se como uma
melancia, argumentamos, usando uma metfora ao alcance
da compreenso rstica, No me fio na televiso, enquanto
no vir com os meus prprios olhos, estes que a terra h-de
comer, no me fio, responde Roque Lozano sem desmontar,
Ento que vai fazer, Deixei a famlia a tratar da vida e vou
ver se  verdade, Com os seus olhos que a terra h-de
comer, Com os meus olhos que a terra ainda no comeu,
E conta l chegar montado nesse burro, Quando ele no
puder comigo, iremos a p os dois, Como  que o seu burro
se chama, Um burro no se chama, chamam-lhe, Ento,
como  que chama ao seu burro, Platero, E vo de viagem,
Platero e eu. Sabe dizer-nos onde fica Orce, No senhor,
no sei, Parece que  para l de Granada um pedao, Ai,
ento ainda tm muito que andar, e agora adeus, senhores
portugueses, muito maior  a minha jornada e vou de burro,
Provavelmente, quando chegar l, j no v a Europa, Se eu
a no vir,  porque ela nunca existiu, afinal tem inteira
razo
Roque.Lozano, que para que as coisas existam duas condies
so necessrias, que homem as veja e homem lhes
ponha nome.
Joaquim Sassa e Jos Anaio dormiram em Aracena,
repetindo o feito de D. Afonso o Terceiro, nosso rei, quando

69


a conquistou aos mouros, mas foi sol de pouca dura, era
ento a noite dos tempos. Os estorninhos dispersaram-se a
por algumas rvores, porque, sendo tantos, no puderam
ficar juntos, de malhada, como preferem. No hotel, j
deitados, cada qual em sua cama, Jos Anaio e Joaquim
Sassa conversam sobre as ameaadoras imagens e palavras
que na televiso tinham visto e ouvido, que est em perigo
Veneza, e assim mesmo se mostrava patente, a Praa de
So Marcos alagada no sendo poca de gua alta, uma
toalha lquida e lisa onde se reflectiam, at ao nfimo
pormenor, o campanile e a frontaria da baslica,  medida
que a Pennsula Ibrica se for afastando, dizia o locutor com
voz pausada e grave, intensificar-se- o efeito destruidor das
mars, preveem-se grandes prejuzos em toda a bacia medi
terrnica, bero de civilizaes,  preciso que salvemos
Veneza, apela-se  humanidade, faam menos uma bomba
de hidrognio, faam menos um submarino nuclear, se ainda
vam os a tempo. Joaquim Sassa estava como Roque Lozano,
nunca vira a prola do Adritico, mas Jos Anaio podia
garantir a sua existncia,  certo que no lhe pusera nem o
nome nem o cognome, mas vira-a com os seus olhos vivos,
tocara-lhe com as suas mos vivas, Que grande desgraa, se
se vai perder Veneza, disse ele, e estas palavras angustiadas
impressionaram mais Joaquim Sassa do que a agitao das
guas nos canais, as tumultuosas correntes, o avano da
mar nos baixos dos palcios, os cais inundados, a impresso
irremedivel de ver uma cidade inteira a afundar-se,
incomparvel Atlntida, catedral submersa, os mori, olhos
cegos da gua, batendo no sino com os martelos de bronze
enquanto as algas e os caramujos no paralisam as engrena
gens, lquidos ecos, o Cristo Pantocrator da baslica final~
mente em teolgica conversao com os deuses marinhos
subalternos de Jove, o Neptuno romano, o Posdon grego, e,
de propsito regressadas s guas de que nasceram, Vnus e
Anfitrite, s para o deus dos cristos no h mulher. Quem
sabe se a culpa no  minha, murmurou Joaquim Sassa, No

70

te ponhas em conta to alta, ao ponto de te considerares
culpado de tudo, Refiro-me a Veneza, a perder-se Veneza,
De perder-se Veneza ser geral a culpa, e antiga, por
desleixo e ganncia j se perdia, No falo dessas causas, por
elas se perde o mundo todo, falo sim do que eu fiz, atirei
uma pedra ao mar e h quem acredite que foi razo de
arrancar-se a pennsula  Europa, Se um dia tiveres um
filho, ele morrer porque tu nasceste, desse crime ningum
te absolver, as mos que fazem e tecem so as mesmas que
desfazem e destecem, o certo gera o errado, o errado produz
o certo, Fraca consolao para um aflito, No h conso
lao, amigo triste, o homem  um animal inconsolvel.
Talvez Jos Anaio, que foi o da sentena, esteja na
razo, talvez o homem seja esse animal que no pode, ou
no sabe, ou no quer ser consolado, mas certos actos seus,
sem outro sentido que parecerem que o no tm, sustentam a
esperana de que o homem vir um dia a chorar no ombro
do homem, provavelmente tarde de mais, quando j no
houver tempo para outra coisa. De um desses actos falou a
televiso no mesmo noticirio, e amanh falaro os jornais
com pormenores e depoimentos de historiadores, crticos e
poetas, foi caso de ter desembarcado s ocultas, em Frana,
numa praia perto de Collioure, um comando civil e literrio
de espanhis que, pela calada da noite, sem medo ao pio da
coruja e ao ectoplasma, assaltaram o cemitrio onde h
muitos anos havia sido enterrado Antnio Machado. Acorreram os
gendarmes, avisados por algum noctvago, e
perseguiram os ladres de cemitrios, mas no puderam
alcan-los. O saco dos restos foi atirado para dentro da
lancha que esperava na praia com o motor a trabalhar
mansinho, e em cinco minutos punha-se o navio pirata ao
largo, na areia os gendarmes disparavam com pontarias
altas, s para desafogo do aborrecimento, no pela falta que
lhes ficassem a fazer os poticos ossos. Falando para a
France-Presse, o maire de Collioure tentou desacreditar a
proeza, insinuando mesmo que ningum poder garantir que


os restos mortais sejam de Antnio Machado, ao fim deste
tempo todo, nem vale a pena averiguar quantos so os anos
que passaram, s por um improvvel esquecimento da
administrao ainda l se encontrariam, apesar da benevolncia
particular com que costumam ser tratados os ossos dos
poetas.
O jornalista, homem muito vivido, e to pouco cptico
que nem parecia francs, opinou, por sua conta, que o culto
das relquias s precisa do objecto adequado, a autenticidade
 o que menos conta, e para a verosimilhana no se exige
mais que uma semelhana pacfica, haja vista a s de
Valncia onde em tempos se incrementava a f com esta
prolixa reliquiaria, a saber, o clice que serviu a Nosso
Senhor na ltima ceia, a camisa que em menino vestiu,
umas gotas do leite de Nossa Senhora, alguns cabelos d'Ela,
louros, e o pente com que se penteava, e tambm pedaos da
Verdadeira Cruz, um troo indefinvel de um dos Santos
Inocentes, dois daqueles trinta dinheiros, afinal de prata,
com que Judas se deixou comprar sem culpa prpria, e, para
concluir o rol, um dente de S. Cristvo, com quatro dedos
de comprimento e trs de largo, dimenses indubitavelmente
excessivas, mas que s surpreendero quem no tiver notcia
da gigntea natureza deste santo. Aonde iro os espanhis
enterrar agora o poeta Machado, perguntou Joaquim Sassa,
que nunca o tinha lido, e Jos Anaio respondeu, Se, apesar
dos desvarios do mundo e desabonos da fortuna, cada coisa
tem o seu lugar e cada lugar reclama a coisa que lhe
pertence, a coisa que Antnio Machado hoje  ser enterrada
em qualquer parte dos campos de Soria, debaixo de uma
azinheira, que em castelhano se diz encina, sem cruz nem
pedra tumular, apenas um montculo de terra que j nem
precisar de imitar um corpo deitado, com o tempo baixar a
terra  terra e ser igual tudo, E ns, portugueses, que poeta
devemos ir buscar a Frana, se l nos ficou algum, Que eu
saiba, s o Mrio de S Carneiro, mas esse nem vale a pena
tentar, primeiro, porque no havia de querer vir, segundo,

72

porque os cemitrios de Paris so lugares bem guardados,
terceiro, porque tendo passado tantos anos depois que
morreu, a administrao duma capital no cometeria os erros
duma comuna de provncia que, ainda por cima, tem a
desculpa de ser mediterrnica, Alm disso, de que serviria
tir-lo dum cemitrio para o pr noutro, uma vez que em
Portugal no h-de ser autorizado enterrar os mortos fora do
stio, ao ar livre, Nem os ossos dele ficariam quietos se os
deixssemos  sombra duma *oliveira no Parque Eduardo
.VII, Ainda haver oliveiras no Parque Eduardo VII,
A pergunta  boa, mas no te sei responder, e agora vamos
dormir, que amanh temos de ir  procura de Pedro Orce, o
homem da terra trmula. Apagaram a luz, ficaram de olhos
abertos  espera do sono, mas, antes que ele chegasse,
Joaquim Sassa ainda perguntou, E Veneza, que estar para
lhe acontecer, Fica sabendo que a mais fcil das coisas
difceis do mundo seria salvar Veneza, bastava fechar a
laguna, ligar as ilhas umas s outras de modo a no poder
entrar o mar  vontade, se os italianos no forem capazes de
dar conta do recado sozinhos, chamem-se os holandeses, 
gente para pr Veneza em seco enquanto o diabo esfrega um
~olho, Deveramos ajudar, temos responsabilidades, Ns j
no somos europeus, ora, isto no  inteiramente verdade,
Por enquanto ainda esto em guas territoriais, disse a voz
desconhecida.
De manh, quando pagavam a conta, veio o gerente
desabafar preocupaes, o hotel quase vazio'em plena poca
alta, una lastima, Joaquim Sassa e Jos Anaio, entregues
aos seus cuidados, nem tinham notado que havia poucos
hspedes, E as grutas, ningum vem s grutas, repetia o
estalajadeiro consternado, no vir ningum s grutas era a
pior das catstrofes. Na rua havia grande alvoroo; a
juventude de Aracena nunca tinha visto tantos estorninhos
juntos,
nem mesmo por ocasio dos instrutivos passeios ao campo,
mas o sabor da novidade durou pouco, mal o Dois Cavalos
portugus se ps em movimento, na direco de Sevilha, os

73


estorninhos alaram voo como um s pssaro, deram duas
voltas de despedida ou reconhecimento de horizontes, e
desapareceram por trs do castelo dos templrios. A manh
 luminosa, de se lhe tocar com os dedos, e o dia promete
vir a ser menos quente que o de ontem, mas a viagem 
comprida, Daqui a Granada passa dos trezentos quilmetros,
e depois temos de ir  procura de Orce, oxal no seja em
vo e encontremos o homem, isto disse Jos Anaio, no se
encontrar o homem era uma possibilidade que s agora
vinha ao pensamento, E se o encontrarmos, que vamos
dizer-lhe, era a vez de Joaquim Sassa duvidar. De sbito,
por iluminao do dia novo ou efeito da noite m conselheira,
todos estes episdios lhe pareciam absurdos, no podia
ser verdade partir-se um continente por algum ter atirado
uma pedra ao mar, maior a pedra do que as foras que a
lanaram, mas era verdade incontroversa ter sido atirada
essa pedra e ter-se partido esse continente, e um espanhol
diz que sente a terra tremer, e um bando de pssaros doidos
no larga um professor portugus, e sabe-se l o que mais
aconteceu ou estar para acontecer por essa pennsula alm,
Vamos falar-lhe da tua pedra e dos meus estorninhos, e ele
falar da terra que tremeu, ou ainda treme, E depois,
Depois, se no houver mais nada para ver, sentir e saber,
voltaremos para casa, tu para o teu emprego, eu para a
minha escola, faz de conta que foi tudo um sonho, e a
propsito, ainda no me disseste que emprego  o teu, Estou
num escritrio, Eu tambm estou num escritrio, sou professor.
Riram ambos, e Dois Cavalos,, previdente, anunciou no
mostrador prprio que estava a chegar ao fim do bebedouro
da gasolina. Reabasteceram-se no primeiro posto de venda
que encontraram, mas tiveram de esperar mais de meia hora,
a fila de automveis estendia-se ao longo da estrada e toda
a gente queria levar o depsito cheio. Voltaram  estrada,
Joaquim Sassa agora inquieto, Temos corrida  gasolina, no
tarda que comecem a fechar as bombas, e depois, Havia que
contar com isto, a gasolina  um produto sensvel, voltil, em

74

hora de crise  a primeira a dar sinal, aqui h anos houve uma
situao de embargo de fornecimentos, no sei se te lembras
ou ouviste falar, foi o caos, Estou a ver que nem a Orce
conseguiremos chegar, No sejas pessimista, Nasci assim.
Atravessaram Sevilha sem parar, os estorninhos  que se
demoraram alguns minutos a festejar a Giralda, que nunca
tinham visto. Se fossem meia dzia poderiam ter feito uma
coroa de anjos pretos para a esttua da F, mas, sendo
aqueles milhares, ao descerem sobre ela em avalancha trans
formaram-na numa figura indefinvel que tanto podia ser
ainda a que era como j a sua contrria, o emblema da
Descrena. Durou pouco a metamorfose, por esse ddalo de
ruas j corre Jos Anaio, sigamo"lo, nao alada. Pelo
caminho Dois Cavalos foi bebendo onde calhava, alguns
postos mostravam letreiro de esgotado, mas os gasolineiros
diziam Manna, estes so da espcie optimista ou talvez,
simplesmente, tivessem aprendido a regra do bom viver.
Aos estorninhos  que no faltava a gua, graas a Deus,
que mais cuidados tem Nosso Senhor com os pssaros do
que com os humanos, esto a os afluentes do Guadalquivir,
as lagoas, os embalses, mais do que podero beber bicos to
pequenos em toda a histria do mundo. J a tarde vai em
meio quando arribam a Granada, resfolga Dois Cavalos
trmulo do grande esforo, enquanto Joaquim Sassa e Jos
Anaio vo a inculcas,  como se levassem carta de prego e
fosse hora de abri-la, agora saberemos onde o destino nos
espera.
No escritrio do turismo uma empregada perguntou-lhes
se eram arquelogos ou antroplogos portugueses, que
fossem portugueses percebia-se logo, mas antroplogos e
arquelogos porqu, Porque a Orce, geralmente, s vo
desses, h anos foi descoberto, l perto, em Venta Micena,
o europeu mais antigo de que h registo, Um europeu
inteiro, perguntou Jos Anaio, S um crnio, mas velho,
com idade entre um milho e trezentos mil e um milho e
quatrocentos mil anos, E h a certeza de que se trata de um

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homem, quis saber, subtilmente, Joaquim Sassa, ao que
Maria Dolores respondeu com um sorriso de entendimento,
Quando se encontram vestgios humanos antigos, so sempre de
homens, o Homem de Cro-Magnon, o Homem de
Neanderthal, o Homem de Steinheim, o Homem de Swans
combe, o Homem de Pequim, o Homem de Heidelberg, o
Homem de Java, naquele tempo no havia mulheres, a Eva
ainda no tinha sido criada, depois criada ficou, Voc 
irnica, No, sou antroploga de formao e feminista por
irritao, Pois ns somos jornalistas, queremos entrevistar
um tal Pedro Orce, aquele que sentiu a terra tremer, Como 
que uma notcia dessas chega a Portugal, A Portugal tudo
chega e ns chegamos a toda a parte, esta parte do dilogo
foi toda com Jos Anaio, que  de respostas mais prontas,
ser da necessidade de lidar com os alunos. Joaquim Sassa
tinha-se afastado para ver os cartazes com fotografias do
Ptio dos Lees, dos Jardins do Generalife, das esttuas
jacentes dos Reis Catlicos, olhando perguntava a si mesmo
se valeria a pena ver as coisas verdadeiras depois de ter
visto
as imagens delas. Por causa deste filosofar sobre as
percepes do real perdeu a continuao da conversa, que teria
Jos Anaio dito para que Maria Dolores risse com tanto
gosto, se as Dolores no tivessem mudado o seu nome para
Lolas cada sua gargalhada seria um escndalo. Esta j no
'mostrava sombra de irritao feminista, talvez por este
Homem do Ribatejo ser um pouco mais que mandbula,
dente molar e calote craniana, e por estar feita abundante
prova de existirem mulheres neste tempo em que vivemos.
Maria Dolores, que  empregada do turismo por no ter
emprego de antroploga, traa no mapa de Jos Anaio a
estrada que falta, assinala com um ponto negro a povoao
de Orce, a de Venta Micena ali ao lado, agora podem os
senhores viajantes seguir, a sibila da encruzilhada j lhes
indicou o caminho,  como um deserto lunar, mas nos olhos
l-se-lhe a pena de no poder ir tambm, praticar a sua
cincia em companhia dos jornalistas portugueses, principal
76

mente aquele mais discreto que se afastou para ver os
cartazes, quantas vezes a experincia da vida nos tem
ensinado que no deveramos julgar pelas aparncias, como
agora est julgando o prprio Joaquim Sassa, erro seu, sua
modstia, Se c ficssemos engatavas a antroploga,
perdoemos-lhe a vulgaridade da expresso, os homens quando
esto juntos tm destas conversaes grosseiras, e Jos
Anaio; presunoso, mas enganado tambm, respondeu,
Quem sabe.
Este mundo, no nos fatigaremos de o repetir,  uma
comdia de enganos. Outra prova desta verdade  ter-se
dado o nome de Homem de Orce a um osso encontrado, no
precisamente em Orce, mas em Venta Micena, que daria um
formoso ttulo para a paleontologia, no fosse aquele nome,
Venta, signo sinal de comrcio grosseiro e pobre. Estranho 
o destino das palavras. Se Micena no foi nome de mulher,
antes de no ter podido ser de homem, como aquela clebre
galega que em Portugal deu nome  vila de Goleg, talvez
que a estas remotssimas paragens tenham chegado uns
gregos de Micenas, fugidos  loucura dos tridas, em algum
stio haveriam eles de replantar o toponmico ptrio, calhou
ser aqui, bem mais longe que Cerbre, no corao do
inferno, e nunca to longe como agora, que vamos navegando.
Ainda que muito vos custe a acreditar.

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Nestes lugares teve o diabo a sua primeira morada,
foram os cascos dele que queimaram o cho e depois
calcinaram as cinzas, entre montanhas que ento se arrepiaram
de medo e at hoje assim -ficaram, deserto final onde o
prprio Cristo se teria deixado tentar se do mesmo diabo no
conhecesse j as manhas, consoante pde aprender no texto
bblico. Joaquim Sassa e Jos Anaio olham, o qu, a
paisagem, mas esta doce palavra pertence a outros mundos,
a outras linguagens, no se pode chamar paisagem ao que os
olhos vem aqui, dissemos morada do inferno e disso
mesmo duvidamos, que em paragens condenadas o mais
certo  ainda encontrarmos homens e mulheres, com os
bichos que lhes fazem companhia enquanto no chega a hora
de os matar e viver deles, entre fragas e pragas, neste
desterro  que deve ter escrito o poeta que nunca foi a
Granada. Estas so terras de Orce que ho-de ter bebido
muito sangue de mouriscos e cristos, tambm na noite dos
tempos, de que serve falar dos que h tantos anos morreram,
se  a terra que est morta, por si mesma sepultada.
Em Orce encontraram os viajantes a Pedro Orce, de
profisso farmacutica, mais velho do que a imaginao lhes
representara, se em tal pensaram, porm no tanto quanto o
seu milionrio antepassado, supondo que no  incorrecto
usar medidas geralmente de dinheiro em aferies de tempo,
tendo em conta que um no compra o outro e este altera o

78

valor daquele. Pedro Orce no apareceu na televiso,
portanto no sabamos que  homem passante dos sessenta
anos, magro de'cara e corpo, de cabelo quase todo branco,
se no fosse rejeitar-lhe a sobriedade do gosto o artifcio,
poderia compor, por de manipulaes qumicas conhecer o
suficiente, tintas morenas e louras,  escolha, no segredo do
laboratrio. Quando Joaquim Sassa e Jos Anaio lhe entram a
porta, est ele a encher hstias com quin ino em p,
arcaica medicina que despreza as altas concentraes dos
frmacos
modernos, mas que, por um sbio instinto, preservou o efeito
psicolgico duma deglutio difcil, logo magi
camente eficaz. Em Orce, que  lugar inevitvel de passagem
para Venta Micena, passado que foi o alvoroto das
escavaes e descobertas, os viajantes so raros, o crnio do
antepassado mais velho nem sabemos onde pra, a num
museu  espera de rtulo e vitrina, em geral o cliente em
trnsito compra aspirina, antidiarreicos ou pastilhas
digestivas, os da terra talvez morram da primeira doena,
assim
nunca enriquecer um farmacutico. Pedro Orce acabou de
fechar as hstias, parece obra de prestidigitao, humedecidas
as partes que serviro de tampa comprimem-se as duas
placas de lato, furadas, e fica aviada a receita, uma hstia
de quinino mais onze, feito o que perguntou o que desejavam os
senhores, Somos portugueses, escusada declarao,
basta ouvi-los falar para logo se perceber que o so,. mas,
enfim,  de humano costume declarar o que somos antes de
dizer ao que vimos, mormente em casos de tanta importncia,
viajar centenas de quilmetros s para perguntar, ainda'
que no por estas dramticas palavras, Pedro Orce, juras
pela tua honra e pelo osso encontrado que sentiste tremer a
terra quando todos os sismgrafos de Sevilha e Granada
traavam com  agulha firme a mais recta linha que j se viu,
e Pedro Orce levantou a mo e disse, com a simplicidade
dos justos e verdadeiros, Juro. Gostaramos de falar-lhe em
particular, acrescentou Joaquim Sassa  declarao de
nacionalidade, e logo ali, no havendo outras pessoas na
farm
79


cia, relataram os acontecimentos pessoais e comuns, a
pedra, os estorninhos, a passagem da fronteira, da pedra no
podiam apresentar provas, mas quanto aos pssaros  s
assomar  porta e olhar, a est, nesta praa, ou na outra ao
lado, o infalvel ajuntamento, todos os habitantes de cabea
no ar, pasmando do raro espectculo, agora desapareceram
os volteis, desceram sobre o Castelo das Sete Torres,
rabe.  prefervel no falarmos aqui, disse Pedro Orce,
metam-se no carro e saiam da vila, Para que lado, Sigam em
frente, na direco de Maria, andem trs quilmetros depois
das ltimas casas, h uma ponte pequena, perto de  uma
oliveira. esperem a por mim, daqui a pouco l vou ter, a
Joaquim
Sassa pareceu que estava a reviver a sua prpria vida,
quando esperou por Jos Anaio depois das ltimas casas,
h dois dias, era de madrugada.
Esto sentados no cho, debaixo duma oliveira cordovil,
a tal que, no dizer da quadra popular, faz o azeite amarelo,
como se todo ele o no fosse, algum apenas esverdungado, e
a primeira palavra de Jos Anaio, que no a pde reprimir,
Estes lugares so de meter medo, e Pedro Orce respondeu,
Em Venta . Micena  bem pior, foi l que eu nasci, ambiguidade
formal que tanto significa o que parece como o seu
exacto contrrio, dependendo mais do leitor do que da
leitura, embora esta em tudo dependa daquele, por isso nos 
to difcil saber quem l o que foi lido e como ficou o que
foi lido por quem leu, prouvera que, neste caso, no pense
Pedro Orce que a maldade da terra vem de ter nascido ele l.
Depois, entrando na matria, conferiram demoradamente as
suas experincias de discbolo, passarinheiro e sismlogo,
e, concluindo, decidiram que todos os casos estiveram e
continuam ligados entre si, tanto mais que Pedro Orce
afirma que a terra no deixou de tremer, Agora mesmo a
sinto, e estendeu a mo num gesto demonstrativo. Movidos
pela curiosidade, Jos Anaio e Joaquim Sassa tocaram a
mo que se demorava, e sentiram, sem nenhuma dvida
sentiram, o tremor. a vibrao, o zunido, pouco importa que

80

um cptico insinue que  a tremura natural da idade, nem
Pedro Orce est to velho assim, nem confundveis so
tremuras e tremores, ainda que o atestem dicionrios.
Um observador que estivesse olhando de longe imagina
ria que os trs homens juraram um compromisso qualquer, 
certo que por um momento as mos se apertaram, nada
mais. Em redor as pedras multiplicam o calor, a terra branca
ofusca, o cu  a boca de um forno bafejando, mesmo
debaixo desta oliveira cordovil,  sombra. As azeitonas
ainda s prometem, por enquanto a salvo, da voracidade dos
estorninhos, deixem chegar Dezembro e vero que razia,
mas sendo a oliveira nica no devem os estorninhos frequentar
estas paragens. Joaquim Sassa ligou o seu rdio,
porque de repente nenhum dos trs soube o que haveria -de
dizer, no admira, conhecem-se h to pouco tempo, ouve
-se a voz do locutor, fanhosa por fadiga profissional e
exausto das pilhas, De acordo com as ltimas medies, a
velocidade de deslocao da pennsula estabilizou-se  roda
dos setecentos e cinquenta metros por hora, os trs homens
ficaram a ouvir as notcias, Segundo informaes agora
mesmo chegadas  nossa redaco, apareceu uma grande
fenda entre, L Lnea e Gibraltar, foi falando, foi falando,
voltaremos a dar notcias, salvo imprevisto, daqui por uma
hora, justamente nesta altura passaram de rajada os
estorninhos, vruuuuuuuuu, e Joaquim Sassa perguntou, So -os
teus, no precisou Jos Anaio de olhar para dar a resposta,
So os meus, para ele  fcil, conhece-os, Sherlock Holmes
diria mesmo, Elementar, amigo Watson, no h bando que
se lhe compare por estes stios, e tem razo, que raras so
as aves no inferno, s as nocturnas por causa da tradio.
Pedro Orce acompanha o voo da bandada, primeiro sem
mais interesse que o duma curiosidade bem educada, depois
iluminam-se-lhe os olhos de cu azul e nuvens brancas, e,
no podendo segurar as sbitas palavras, prope, E se
fssemos  costa ver passar o rochedo. Parece isto um
absurdo, um contra-sentido, mas no , tambm quando

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vamos de comboio julgamos ver passarem rvores que esto
agarradas  terra pelas razes, agora no viajamos de
comboio, vamos mais devagar em cima duma jangada de
pedra que navega no mar, sem prises, a diferena s  a
que existe entre o slido e o lquido. Quantas vezes, para
mudar a vida, precisamos da vida inteira, pensamos tanto,
tomamos balano e hesitamos, depois voltamos ao princpio,
tornamos a pensar e a pensar, deslocamo-nos nas calhas do
tempo com um movimento circular, como os estorninhos que
atravessam o campo levantando poeira, folhas secas,
insignificncias, que para mais no lhes chegam as foras, bem
melhor seria vivermos em terra de tufes. Outras vezes uma
palavra  quanto basta, Vamos ver passar o rochedo, e logo
se puseram de p, prontos para a aventura, nem sentem o
escaldo do ar, como crianas deixadas  solta da liberdade
descem a encosta a correr, e riem. Dois Cavalos  uma
brasa, em um minuto ficam os trs homens alagados de
suor, mas mal do pelo desconforto, tambm foi destas
terras do sul que partiram os homens a descobrir o outro
mundo, e tambm eles, duros, ferozes, suando como cavalos,
avanavam dentro de couraas de ferro, na cabea
elmos de ferro, espadas de ferro na mo, contra a nudez dos
ndios, s vestidos de penas de aves e aguarelas, idlica
imagem.
No voltaram a atravessar a povoao, que muito de
desconfiar seria passarem de automvel Pedro Orce e os dois
estrangeiros,
ou vai raptado ou vo de gorra conspiratria os
trs,  melhor mandar chamar a polcia, mas um velho dos
velhos de Orce diria, No queremos c a guarda civil.
Foram por outras estradas, por caminhos que o mapa comum
no conhece, quem agora nos faz aqui falta  a esfinge do
turismo, para traar a rota destas novas descobertas, esfinge
fora, afinal, e no sibila, que nunca estas se viram em
encruzilhadas, ainda que peninsulares umas e outras. Disse
Pedro Orce, Primeiro vou-lhes mostrar Venta Micena, minha
terra natal, saiu-lhe assim a frase, como quem de si

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mesmo faz troa ou de propsito carrega onde lhe di.
Passaram,por uma aldeia em runas chamada Fuente Nueva,
se fonte aqui houve envelheceu e secou, e numa curva larga
do caminho adiante,  ali.
Os olhos olham, e por verem to pouco procuram o que
deve estar faltando e no encontram. Ali, perguntou Jos
Anaio, tem razo de duvidar, que as casas so raras e
dispersas, confundem-se com a cor do cho, uma torre de
igreja em baixo, um cemitrio inconfundvel, aqui  beira da
estrada, cruz e muro brancos. Debaixo do sol vulcnico as
terras ondulam como um mar petrificado coberto de poeira,
se isto j era assim h um milho e quatrocentos mil anos
no  preciso ser paleontlogo para jurar que o Homem de
Orce morreu de sede, mas esses tempos eram os da juventude do
mundo, o arroio que l longe corre seria ento largo e
generoso rio, haveria grandes rvores, ervaais mais altos
que um homem, tudo isso aconteceu antes de ter sido
colocado aqui o inferno. Na estao prpria, chovendo,
alguma verdura se espalhar por estes campos cor de cinza,
agora as margens baixas so cultivadas a duras penas,
ressecam e morrem as plantas, depois renascem e vivem, o
homem  que ainda no conseguiu aprender como se repetem os
ciclos, com ele  uma vez para nunca mais. Pedro
Orce faz um gesto que abrange a msera aldeia, A casa onde
nasci j no existe, e depois, apontando para a esquerda, na
direco de umas colinas de topo raso,  a Cova dos Rosais,
ali  que os ossos do Homem de Orce foram encontrados.
Joaquim Sassa e Jos Anaio olhavam a paisagem lvida, h
um milho e quatrocentos mil anos viveram neste lugar
homens e mulheres que fizeram homens e mulheres que
fizeram homens e mulheres, destino, fatalidade, at hoje,~
daqui a um milho e quatrocentos mil anos algum vir fazer
escavaes neste cemitrio pobre, e havendo j um Homem
de Orce, talvez ento se d o seu ao seu dono e se nomeie
Homem de Venta Micena o crnio achado. No passa
ningum, no se ouve ladrar um co, os estorninhos

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sumiram-se, um longo arrepio percorre as costas de Joaquim
Sassa, que no consegue reprimir o mal-estar, e Jos Anaio
pergunta, Que nome tem aquela serra ao fundo,  a serra de
Sagra, E esta,  nossa direita,  a serra de Maria, Quando o
homem de Orce morreu, deve ter sido ela a ltima imagem
que os seus olhos levaram, Como lhe teria ele chamado
quando falava com os outros homens de Orce, os que no
deixaram crnios, perguntou Joaquim Sassa, Nesse tempo
ainda nada tinha nome, disse Jos Anaio, Como se pode
olhar uma coisa sem lhe pr nome, Tem de se esperar que o
nome nasa. Ficaram os trs a olhar, sem outras palavras,
enfim Pedro Orce disse, Vamos, era tempo de deixar o
passado entregue  sua inquieta paz.
Para entreter a viagem, Pedro Orce repetiu o relato das
aventuras que vivera, acrescentou pormenores, os cientistas
foram ao ponto de lig-lo, em presena das autoridades, a
um sismgrafo, ideia desesperada mas de proveito, porque
ento puderam certificar-se da verdade que ele afirmara, a
agulha do mecanismo registou acto contnuo o estremeci
mento da terra, tornando  linha recta mal o paciente foi
desligado da mquina. O que no tem explicao, explicado
est, disse o alcaide de Granada, que assistia, mas um dos
sbios corrigiu, O que no tem explicao, ter de esperar
mais um bocadinho, falou sem rigor cientfico mas toda a
gente percebeu e lhe deu razo. Mandaram Pedro Orce para
casa, que se mantivesse  disposio da cincia e da
autoridade, e que no falasse dos seus dons extra-sensoriais,
recomendao que no diferia muito da deciso tomada
pelos veterinrios franceses sobre a misteriosa questo do
desaparecimento das cordas vocais dos ces de Cerbre.
Dois Cavalos apontou finalmente em direco ao sul, j
vai por estradas frequentadas, para estes lados no parece
haver falta de combustveis, gasolina, gasleo, mas aos
poucos foi obrigado a reduzir o esperto andamento,  sua
frente avana, devagar, uma fila que no acaba, outros
automveis, camionetas de carga e de carreira, motos,

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bicicletas, mobiletes, vespas, carroas puxadas a muares,
burros montados, mas no vai Roque Lozano em nenhum
deles, e gente por seu p, muita, uns pedem boleia, outros
ostensivamente desprezam os transportes como se fossem a
cumprir penitncia, ou voto,  mais provvel que seja voto,
e nem vale a pena perguntar-lhes para onde  a ida, no
precisam chamar-se Pedro Orce para terem o mesmo pensamento e
desejo de ver passar Gibraltar ao longe desgarrado,
basta ser espanhol, e aqui h muitos. Vm de Crdova, de
Linares, de Jan, de Guadix, cidades principais, mas
tambm de Higuera de Arjona, de El Tocn, de Bular Bajo,
de Alamedilla, de Jess del Monte, de Almcegas, de toda a
parte parece terem despachado delegaes, estas pessoas
tm sido muito pacientes, desde mil setecentos e quatro,
deitem-lhe as contas, se Gibraltar no for para ns, que nos
fazemos ao mar, no seja tambm para os ingleses.  to
largo o rio humano que a polcia de trnsito teve de abrir
uma terceira via descendente onde era possvel, raros so os
que vo para o norte,. s com alguma forte razo, morte ou
doena, e mesmo assim olham-nos com desconfiana,
suspeitos de anglofilia, acaso querem esconder longe a dor
de tal desgarre geolgico e estratgico.
Mas este dia, para o geral,  de festa maior, a semana
to santa como a outra, e h camionetas que levam cristos,
trianas e macarenas, bandas de msica, com os instrumentos
a brilhar ao sol, e vem-se no lombo dos burros molhadas de
foguetes e morteiros, se algum lhes chega um pavio aceso
subiro, como Clavileilo, s segunda e terceira regies do
ar, e  do fogo, onde se chamuscariam as barbas de Sancho,
se, de to confiante que costuma ser, se dispuser a ser
enganado outra vez. As raparigas vo vestidas com o melhor
que tm de galas e louanias, com mantilhas e mantns, e os
velhos, quando no podem mais andar, levam-nos os novos
s costas, filho s, pai sers, assim como fizeres, assim
achars, at que pra um veculo, qualquer, e segue a
marcha, suavizado o cansado corpo, todos a caminho da

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costa, das praias, melhor ainda dos pontos altos sobranceiros
ao mar, para que possa ser visto por inteiro o rochedo
maldito, pena vai ser no se poderem ouvir, a esta distncia,
os guinchos dos macacos, desorientados por lhes faltar a
vista para terra.  medida que o mar se aproxima, o trnsito
torna-se difcil, j h quem abandone os automveis e
caminhe a p, ou pea lugar aos que vo de carroa ou de
burro, esses no podem abandonar os animais na natureza,
tm de tratar deles, dar-lhes de beber, chegar-lhes ao focinho
a alcofa da palha e da fava, a prpria polcia est a par
da situao,  tudo gente de ascendncia rural, portanto as
ordens so para deixar as camionetas e os automveis na
berma da estrada, os animais podem seguir, e tambm esto
autorizadas as motos, as bicicletas, as vespas e as mobiletes,
so engenhos que tm artes de insinuao fcil por via da
sua menor corpulncia. As bandas de msica, pterra,
ensaiam os primeiros paso-dobles, um fogueteiro mais exci
tado ou patriota lanou prematuramente um morteiro de
grande poder, mas foi repreendido pelos colegas, que no
estavam dispostos a queimar o seu fogo sem razes  vista.
Dois Cavalos parou tambm, era no cortejo o nico automvel
portugus, isto , de matrcula portuguesa, ver Gibraltar
perdido no mar no lhe aquece nem arrefece, a sua mgoa
histrica chama-se Olivena e este caminho no leva l. J se
v gente perdida, mulheres que chamam pelos maridos,
crianas que gritam pelos pais, mas todos, felizmente,
acabaro por encontrar-se, se este dia no  de risos, de
lgrimas tambm no h-de ser, querendo Deus Padre e o
seu Filho Cachorro. Tambm andam por a uns ces a
farejar, poucos so os que ladram, a no ser quando se
metem em brigas, de Cerbre no est nenhum. E dois
burros que apareceram soltos, sem dono nas proximidades,
aproveitaram-nos imprudentemente Pedro Orce, Joaquim
Sassa e Jos Anaio,  vez, um a p, dois no descanso, mas
no lhes durou muito o repouso, os burros eram duma
companhia de ciganos que iam para o norte, a estes pouco se

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lhes dava de Gibraltar, e se no  ser Pedro Orce espanhol,
e dos mais antigos e explicados, ali correra sangue de
portugueses.
Ao longo da costa o acampamento no tem fim,  um
arraial, milhares e milhares de pessoas de olhos postos no
mar, h quem suba a telhados e a rvores altas, para no
falar de outros tantos mil que no quiseram vir to longe,
ficaram, de culos e binculos, nos altos da serra Contra
viesa ou nas fraldas da serra Nevada, aqui interessam-nos s
as pessoas mais simples, aquelas que precisam de pr a mo
em cima das coisas para as reconhecerem, to prximos no
podero estes chegar, mas bem fizeram por isso. Jos
Anaio, Joaquim Sassa e Pedro Orce vieram com eles, por
humor apaixonado de Pedro Orce e cordial franqueza dos
outros, agora esto sentados numas pedras que do para o
mar, a tarde vai chegando ao fim, e  Joaquim Sassa quem
diz, pessimista como j se confessou, Se Gibraltar passa de
noite, foi em vo que viemos, Pelo menos vemos-lhe as
luzes, argumentou Pedro Orce, e at ser mais bonito, ver a
pedra a afastar-se como um barco iluminado, ento, sim, se
justificar o fogo-de-artificio completo, com girandolas,
chuvas, cascatas, ou l como lhes chamam, enquanto palidamente
o rochedo se perde na distncia, sumiu-se na escura
noite, adeus, adeus, que no te volto a ver. Mas Jos Anaio
abrira sobre os joelhos o mapa, com lpis e papel fez contas,
repetiu-as uma por uma para ficar com todas as certezas,
tornou a verificar a escala, extraiu a prova dos noves e a
real, finalmente declarou, Gibraltar, meus amigos, vai levar
uns dez dias a chegar aqui, surpresa incrdula dos com
panheiros, ento ele apresentou-lhes as aritmticas, no
precisou, sequer, de invocar a sua autoridade de professor
diplomado, cincias destas, felizmente, j esto ao alcance
das compreenses mais rudimentares, Se a pennsula, ou
ilha, ou l o que , se desloca a uma velocidade de
setecentos e cinquenta metros por hora, temos que percorrer
dezoito quilmetros por dia, ora, da baa de Algeciras at

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aqui onde estamos, em linha recta, so quase duzentos
quilmetros, faam-lhe agora as contas, que so boas de
fazer. Perante a demonstrao irrefutvel, Pedro Orce incli
nou a cabea sucumbido, E viemos ns, e veio toda esta
gente a correr porque tinha chegado o dia de glria, hoje
escarneceramos da Pedra M, e afinal teremos de estar 
espera dez dias, nenhum incndio pode durar tanto, E se
fssemos ao encontro dela, pelas estradas da costa, lembrou
Joaquim Sassa, No, no vale'a pena, respondeu Pedro
Orce, coisas destas querem-se no seu momento prprio,
enquanto o entusiasmo no diminui, agora  que ela deveria
estar a passar diante dos nossos olhos, agora que estamos
exaltados, estivemo-lo, j no estamos, Ento que vamos
fazer, perguntou Jos Anaio, Vamo-nos embora, No quer
ficar, No  depois do sonho que o sonho pode ser vivido,
Sendo assim, partimos amanh, To cedo, Tenho a escola 
espera, E eu o escritrio, E eu a farmcia, sempre.
Foram  procura de Dois Cavalos, mas enquanto pro
curam e tardam a encontrar  a altura de dizer que muitos
milhares de pessoas que no ganharam voz nem voto nesta
histria, que nem mesmo chegam a ser figurantes ao fundo
do palco, milhares de pessoas no arredaram p durante
esses dez dias e dez noites, comeram dos farnis que tinham
levado, depois, quando no segundo dia se acabaram, foram
comprar do que havia por esses lugares, e cozinharam ao ar
livre, em grandes fogueiras que eram como almenaras dou
tras eras, e aqueles a quem veio a acabar-se o dinheiro nem
assim passaram fome, onde comia um comiam todos, esta
mos em tempo de irmos recomeados, se  humanamente
possvel ter sido e tornar a ser. Esta fraternidade admirvel
no a vo experimentar Pedro Orce, Jos Anaio e Joaquim
Sassa, viraram costas ao mar, agora  a sua vez de serem
olhados com desconfiana por aqueles, muitos, que ainda
vm descendo.
Fez-se entretanto noite, acendem-se os primeiros lumes,
Vamos l, disse Jos Anaio. Pedro Orce viajar calado no

88

banco de trs, triste, de olhos fechados, ser agora ou
nunca, melhor oportunidade no teremos para lembrar o
refro portugus, Aonde vais, Vou para a festa, Donde vens,
Venho da festa, mesmo sem a ajuda de pontos de exclama
o e reticncias v-se logo a diferena que h entre a alegre
expectativa da primeira resposta e a desencantada fadiga da
segunda, s na pgina em que ficam escritas parecem iguais.
Durante todo o caminho apenas foram ditas duas palavras,
Jantam comigo, saram da boca de Pedro Orce,  o seu
dever hospitalrio. Jos. Anaio e Joaquim Sassa no acharam
que fosse preciso responder, algum diria que foi m
educao calarem-se, mas esse sabe pouco das naturezas
humanas, outro mais informado juraria que estes trs homens se
tornaram amigos.
 noite adiantada quando entram em Orce. As ruas, a
esta hora, so um deserto de sombras e silncio, Dois
Cavalos pode ser deixado  porta da farmcia, e bom  que o
deixem descansar, amanh voltar  estrada levando carga
de trs homens, como dentro de casa vai ser decidido ao
redor da mesa, com alguma simples comida nos pratos, que
tambm Pedro Orce vive s e o tempo no chegou para
melhores gastronomias. Ligaram a televiso, agora as not
cias so dadas de hora a hora. *Viram Gibraltar, no apenas
separado da Espanha, mas dela afastado j uns bons
quilmetros, como uma ilha ao desamparo no meio das guas,
transformado, ai dele, em pico, po-de-acar ou arrecife,
com os seus mil canhes sem prstimo nem alvo. Mesmo
que teimem em abrir-lhe novas seteiras do lado norte, talvez
com isso fique lisonjeado o orgulho imperial, mas ser
dinheiro lanado ao mar, tanto no sentido prprio como no
figurado. Imagens impressionantes foram, sem dvida, porm
nada que se compare ao choque causado por uma srie
de fotografias tiradas de satlite, que mostravam o progressi
vo alargamento do 'canal entre a pennsula e a Frana,
arrepiavam-se as carnes e o cabelo de olhar to extrema
fatalidade, maior que a fora humana, que aquilo j no era

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canal mas gua aberta, por onde navegavam os barcos 
vontade, em mares, estes sim, nunca dantes navegados.
Claro que a deslocao no se podia observar, a esta altitude
uma velocidade de setecentos e cinquenta metros por hora 
inapreensvel  vista desarmada, mas, para o observador, era
como se a grande massa de pedra se deslocasse dentro da
sua cabea, pessoas sensveis foram ao ponto de desmaiar,
outras queixavam-se de tonturas. E havia imagens registadas
de bordo dos infatigveis helicpteros, a gigantesca escarpa
pirenaica, cortada a prumo, e o formigueiro miudinho de
povo caminhando para o sul, como uma sbita migrao, s
para ver. Gibraltar ir de gua abaixo, iluso de ptica, que
ns, sim,  que vamos indo na corrente, e tambm, pormenor
pitoresco, apontamento de reportagem, um bando de
estorninhos, milhares, como uma nuvem que se tivesse
intrometido no campo da objectiva, escurecendo o cu, At
as aves secundam o alvoroo dos homens, foi a palavra que
o locutor usou, secundam, quando na histria natural o que
se aprende  que as aves tm as suas razes prprias para
irem aonde lhes- apraz ou necessitam, no secundam M nem
T, quando muito Jos, que diz, ingratamente, J me tinha
esquecido deles.
Mostraram tambm imagens de Portugal, da costa do
mar atlntico, com as vagas batendo nos rochedos ou revolvendo
as areias, e estava muita gente a olhar o horizonte,
com aquele trgico ademane de quem se preparou desde
sculos para o ignoto e teme que afinal no venha, ou seja
igual ao comum e banal que todas as horas trazem. Agora
ei-los ali, como Unamuno disse que estavam, Ia cara morena
entre ambas palmas, clavas tus ojos donde el sol se acuesta
solo en Ia mar ininensa, todos os povos com o mar a poente
fazem o mesmo, este  moreno, no h outra diferena, e
navegou. Lrico, arrebatado, o locutor espanhol declama,
Vejam-se os portugueses, ao longo das'suas douradas praias,
proa da Europa que foram e deixaram de ser, porque do cais
europeu nos desprendemos, mas novamente fendendo as

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ondas do Atlntico, que almirante nos guia, que porto nos
espera, a ltima imagem mostrou um rapazito de poucos
anos que atirava uma pedrinha ao mar, naquela arte de
ricochete que no precisa de aprendizagem, e Joaquim Sassa
disse, Tem a fora da sua idade, a pedra no podia ir mais
longe, mas a pennsula, ou l o que seja, deu a impresso de
avanar ainda com mais vigor sobre o mar grosso, to fora
do que costuma ser neste tempo estival. A derradeira notcia
deu-a o locutor de passagem, como se no lhe atribusse
muita importncia, Parece notar-se uma certa instabilidade
das populaes, muitas pessoas esto a sair das suas casas,
no s na Andaluzia, a conhece-se o motivo, e, tendo em
conta que a maior parte delas se dirigem para o mar, cr-se
que se trata de um movimento natural de curiosidade, em
todo o caso garantimos aos nossos espectadores que na costa
no h nada para ver, como mesmo agora tivemos a oportu
nidade de comprovar, aqueles portugueses todos que olhavam
olhavam e no viam nada, no queiramos ser como
eles. Disse ento Pedro Orce, Se tiverem um lugar para
mim, vou com vocs.
Ficaram calados Joaquim Sassa e Jos Anaio, no
perceberam por que quereria um espanhol to bem aconselhado ir
s terras e praias de Portugal. A pergunta era boa e
pertinente, por ser o dono de Dois Cavalos coube a Joaquim
Sassa faz-la, e Pedro Orce respondeu, No quero c ficar,
com este cho sempre a tremer-me debaixo dos ps e as
pessoas a dizerem-me que so fantasias da minha cabea,
Provavelmente sentir o mesmo em Portugal, e o mesmo lhe
diro as pessoas de l, disse Jos Anaio, e ns temos as
nossas ocupaes, No vos serei pesado,  s levarem-me,
deixam-me em Lisboa, aonde nunca fui, um dia destes
volto, E a sua famlia, e a farmcia, Famlia j deviam ter
percebido que no tenho, sou o ltimo, a farmcia, resolve
-se, h o ajudante, ele toma conta. No havia mais que
discutir, nenhuma razo para recusar, Temos muito gosto em
que nos faa companhia, isto disse Joaquim Sassa, O pior

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 se te apanham na fronteira, lembrou Jos Anaio, Digo
-lhes que fui dar um passeio a Esp*anha, portanto no podia
saber que andava a ser procurado, e que vou j j
apresentar-me ao governador civil, mas o mais certo  nem
precisar de dar explicaes, devem estar mais atentos a
quem sai do que a quem entra, Passamos noutro posto da
fronteira, por causa dos estorninhos, lembrou Jos Anaio,
e, tendo dito, abriu o mapa sobre a mesa, toda a Pennsula
Ibrica, desenhada e colorida no tempo em que tudo era
terra firme e em que o calo sseo dos Pirenus reprimia a
tentao vagabunda, em silncio os' trs homens ficaram
a olhar a representao plana desta parte do mundo como se
no a reconhecessem, Dizia Estrabo que a pennsula tem o
feitio duma pele de boi, estas palavras murmurou-as intensa
mente Pedro Orce, e apesar da noite quente arrepiaram-se
Joaquim Sassa e Jos Anaio, como se diante dos seus olhos
se tivesse levantado a besta ciclpica que ia ser sacrificada
e esfolada para acrescentar ao continente Europa um despojo
que haveria de sangrar por todos os tempos dos tempos.
O mapa desdobrado mostrava as duas ptrias, Portugal
embrechado, suspenso, Espanha desmandibulada a sul, e as
regies, as provncias, os distritos, o grosso cascalho das
cidades maiores, a poalha das. vilas e aldeias, mas nem
todas, que muitas vezes  invisvel o p a olho nu, Venta
Micena foi apenas um exemplo. As mos alisam e afagam o
papel, passam sobre o Alentejo e continuam para o norte,
como se acariciassem um rosto, da face esquerda para a face
direita,  o sentido dos ponteiros do relgio, o sentido do
tempo, as Beiras, o Ribatejo antes delas, e depois Trs-os
-Montes e o Minho, a Galiza, as Astrias, o Pas Basco e
Navarra, Castela e Leo, Arago, a Catalunha, Valncia,
Estremadura, a nossa e a deles, Andaluzia onde ainda
estamos, o Algarve, ento Jos Anaio pousou o dedo na foz
do Guadiana e disse, Entramos por aqui.

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Escardeados pelo tiroteio de Rosal de Ia Frontera, de
san renta memria, os estorninhos, por esta vez prudentes,
fizeram um largo rodeio a norte e foram atravessar onde os
ares eram livres e a circulao aberta, a uns trs quilmetros
da ponte, que nestes dias de. que vimos falando j se
construiu, e era tempo.  polcia do lado portugus no fez
especie chamar-se um dos trs viajantes Joaquim Sassa,
percebia-se que mais graves preocupaes assoberbavam o
esprito da autoridade, quais fossem-elas soube-se pelo
dilogo, Para.onde  que os senhores querem ir, perguntou o
agente, Para Lisboa, respondeu Jos Anaio, que era o do
volante, e perguntou, Porqu, senhor guarda, Vo encontrar
barragens nas estradas daqui, cumpram rigorosamente as
instrues que receberem, nada de forar passagens ou,
trocar as voltas, que lhes custaria caro, Aconteceu alguma
desgraa, Depende da opinio, No nos diga que o Algarve
tambm est a separar-se, mais tarde ou mais cedo tinha de
ser, eles sempre tiveram aquela ideia de serem reino  parte,
O caso  outro, e mais grave, as pessoas esto a querer
ocupar os hotis, dizem que se no h turistas eles precisam
das casas, No sabamos, quando foi que a invaso comeou,
Ontem  noite. E esta, hem, exclamou Jos Anaio,
fosse ele francs e teria dito, a alors, cada um tem maneira
sua de exprimir o espanto que o outro tambm sentiu,
oua-se o que disse Pedro Orce sonoramente, Caramba,

93


quanto a Joaquim Sassa mal se deu pelo eco, E esta, hem.
     O polcia mandou seguir, avisou outra vez, Ateno s
barragens, e Dois Cavalos pde atravessar Vila Real de
Santo Antnio, enquanto os passageiros iam comentando o
extraordinrio sucesso, afinal, quem haveria de dizer, os
portugueses so de duas espcies diferentes, h uns que vo
para as praias e arribas contemplar melanclicos o horizonte,  
    h outros que avanam intrpidos sobre as fortalezas
hoteleiras defendidas pela polcia, pela guarda republicana e
tambm, segundo consta, pelo prprio exrcito, feridos j
h,       isto lhes foi secretamente dito num caf onde
resolveram
parar para colher informaes. Foi assim que ficaram a
saber que em trs hotis, um de Albufeira, outro da Praia da
Rocha, outro de Lagos, a situao  crtica, em ponto de
cercarem as foras da ordem os edifcios onde os insurrectos
se        amotinaram, entaipando portas e janelas, cortando os
acessos, so como mouros sitiados, infiis sem remisso que
desrespeitaram o credo, to pouco ligam aos apelos como s
ameaas, sabem que depois da bandeira branca vir o gs
lacrimogneo, por isso no parlamentam, e no conhecem a
palavra rendio. Pedro Orce est impressionado, repete
baixinho, Caramba, e l-se-lhe na cara um certo despeito
patritico, o pesar de no terem sido espanhis os da
iniciativa.
Logo  primeira barragem quiseram desvi-los para Cas
tro Marim, mas Jos Anaio protestou que tinha um negcio
importante e inadivel a tratar em Silves, disse Silves para
no despertar suspeitas, Alis, at preciso de ir pelas estra
das do interior, E o mais por dentro possvel, se quiser
evitar
complicaes, recomendou o oficial responsvel, tranquili
zado pelo semblante pacfico dos trs passageiros e pela
respeitabilidade fatigada de Dois Cavalos, Mas,  senhor
tenente, numa situao destas, com o pas a ir  deriva, e a
palavra no podia vir mais a propsito, estamos aqui a
preocupar-nos por causa da ocupao de alguns hotis, no
 nenhuma revoluo para ser preciso decretar uma mobili
94

zao geral, as massas s vezes so impacientes, nada mais,
o do comentrio foi Joaquim Sassa, pouco diplomata, o que
valeu foi ser o tenente daqueles que no voltam com a
palavra atrs, de acordo com as antigas tradies, seno
teriam mesmo de ir por Castro Marim. Porm, o impertinen
te no se livrou da descompostura militar, O exrcito est
aqui para cumprir o seu dever, veja,l se achava bem que
por causa do desconforto das casernas fssemos ns ocupar
o Sheraton ou o Ritz, grande deve ser a desorientao deste
oficial para condescender em dar satisfaes a um paisano.
Tem toda a razo, senhor tenente, este meu amigo  assim,
no pensa no que diz, por mais que lhe eu recomende, Pois
devia pensar, que j tem boa idade para isso, rematou o
oficial peremptrio. Com um gesto seco mandou seguir, no
ouviu o que Joaquim Sassa disse, e ainda bem, ou o caso
acabaria na priso.
Foram detidos por outras barragens, as da guarda repu
blicana menos benvolas, algumas vezes tiveram de fazer
desvios por maus caminhos at poderem voltar  estrada
principal. Joaquim Sassa ia enfadado, e com razo, fora
repreendido duas vezes, Que o tenente tivesse feito o seu
nmero de rigor, aceito, mas no era preciso dizeres tu que
eu no penso no que digo, Desculpa, foi para evitar que a
conversa azedasse, estavas a fazer ironia com o homem, 
um erro, com a autoridade nunca se deve ser irnico, ou no
percebem, e no valeu a pena, ou percebem, e ser muito
pior. Pedro Orce pediu que lhe explicassem, devagar, o que
ali se discutia, e a necessria mudana de tom, as repeti
es, mostraram que o caso no tinha importncia, quando
Pedro Orce percebeu tudo, ficou tudo percebido.
Depois da bifurcao de Boliqueime, num trecho de
estrada deserto, Jos Anaio, aproveitando uma valeta rasa e
sem avisar, meteu Dois Cavalos ao campo, a corta-mato,
Para onde  que vais, gritou Joaquim Sassa, Se formos pela
estrada, como meninos obedientes, nunca conseguiremos
aproximar-nos dum hotel daqueles, e ns queremos ver o

95


que l se passa, sim ou no, respondeu sacudidamente Jos
Anaio s voltas com o volante instvel, o carro saltava na
terra esterroada como louco. Pedro Orce, no banco de trs,
era atirado a um lado e outro sem d nem piedade, e
Joaquim Sassa, que largara a rir, respondia entrecortada
mente, Boa piada, boa piada. Felizmente, trezentos metros
adiante, encontraram um caminho escondido entre figueiras,
por trs de um muro derrubado, de pedra solta, ou de pedra
que o tempo soltara da argamassa. Estavam, por assim
dizer, no teatro de operaes. Usando de todas as cautelas
iam-se aproximando de Albufeira, sempre que era possvel
escolhiam os terrenos baixos,' o pior so as nuvens---de
poeira
que Dois Cavalos levanta, tem pouca habilidade para batedor e
guarda avanada, mas a polcia j est longe, protege
as encruzilhadas, os ns rodovirios principais, que assim se
diz na moderna linguagem das comunicaes, de resto nem
os efectivos das foras da ordem so to numerosos que
pudessem cobrir estrategicamente uma provncia to rica de
hotis como de, alfarroba, se pode admitir-se a comparao'
Em verdade, quem tem como destino prximo a cidade de
Lisboa no precisaria de aventurar-se nestas paragens onde a
subverso reina, mas vale a pena certificarno-nos da verdade
das informaes, mil vezes se tem visto que contos
contados so contos acrescentados, podia ter havido um caso
isolado, ou dois, e as barragens, no fim das contas, seriam a
aplicao prtica daquela prescritiva prudncia que manda
prevenir para no ter de remediar. Mas j havia infiltraes.
Pelo meio do arvoredo ralo, pisando ansiosamente a terra
vermelha, avanavam homens e mulheres levando s costas
sacos, malas e embrulhos, ao colo crianas pequenas, na
ideia deles querem marcar assim lugar no hotel, com estes
poucos haveres e o mais chegado da famlia como garantia,
a mulher, os filhos, depois, se tudo correr bem, mandaro
vir o resto dos parentes, e a cama, a arca, a mesa,  falta de
mais ricas variedades, nenhum deles se lembrou de que nos
hotis o que mais h  camas e mesas, e se as arcas so

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muito menos, l esto os roupeiros que lhes fazem vantajosas
vezes.
s portas de Albufeira preparava-se a batalha campal.
Os viajantes tinham deixado Dois Cavalos na retaguarda, ao
remanso duma sombra, num caso destes no se pode contar
com a sua ajuda,  ente mecnico, sem emoes, aonde o
levam vai, onde est fica, a ele tanto lhe importa que a
pennsula navegue como no, no ser por ela se deslocar
que as distncias se tornaro mais curtas. Teve o combate
um prembulo oratrio, tal como se usava dantes, na anti
guidade das guerras, com desafios, exortaes s tropas,
preces  Virgem ou a Santiago, so sempre boas as palavras
quando comeam, pssimos sempre os resultados delas, em
Albufeira de nada serviu ter arengado o chefe das hostes
populares invasoras, e que bem ele arengou, Guardas, soldados,
amigos, abri bem esses ouvidos, virai para c a vossa
ateno, vs sois, e disso no vos esqueais, filhos do povo
.como ns, este povo to sacrificado que faz as casas e no
as tem, que constri hotis e no ganha para hospedar-se
neles, reparai que viemos aqui com os nossos filhos e as
nossas mulheres, mas no foi para pedir o cu que viemos,
apenas um tecto mais digno, um telhado mais firme, quartos
para neles dormirmos com o recato e o respeito que a seres
humanos se est devendo, ns no somos animais, e tambm
no somos mquinas, temos sentimentos, ora, esses hotis
alm esto vazios, so centenas, so milhares de quartos,
fizeram-se os hotis para os turistas e eles foram-se embora,
no voltam mais, enquanto c estiveram resignmo-nos ao
mau viver da vida, agora, por favor, deixai-nos entrar,
pagaremos uma renda igual  que pagvamos pela casa
donde viemos, no seria justo pedirem-nos mais, e juramos,
tanto pelo que  sagrado como pelo que o no , que estar
sempre tudo limpo e arrumado, para isso nunca houve
mulheres que chegassem aos calcanhares das nossas, bem
sei, tendes razo, h as crianas, as crianas sujas sujam
muito, mas estas iro passar a andar lavadas e apuradas, 

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fcil, cada quarto, segundo estamos informados, tem a sua
casa de banho, duche e banheira  escolha, guas quentes e
frias, assim deve custar pouco ser asseado, e aqueles dos
nossos filhos que por j irem adiantados na idade e no vcio
da sujeira no,se habituarem  higiene, os filhos deles vos
prometo que sero as mais limpas criaturas do mundo, a
questo  darem-lhes tempo, alis, os homens  s disso que
precisam, tempo, e  s isso o que tm, o resto no passa de
iluso, por esta ningum esperava, sair-nos filsofo o chefe
rebelde.
V-se pelas feies do rosto, e pelos bilhetes de identidade
se confirmaria, que os soldados so realmente filhos do
povo, mas o major deles, ou tambm o  e repudiou nos
assentos da escola militar a humilde ascendncia, ou perten
ce desde o nascimento s classes superiores, para quem os
hotis do Algarve foram feitos, pela resposta dada no se
pde saber, Cheguem-se l para trs, ou levam nas trombas,
este grosseiro falar no  apangio exclusivo das camadas
baixas. Os tropas viam ali no ajuntamento a querida imagem
de pai e me, mas o dever, quando chama por ns,  mais
forte, s a luz dos meus olhos, diz a me ao filho que lhe
vai dar "a pranchada. Mas o comandante paisano clamou
irado, trocando por desespero a expresso e o vocativo,
Raa de sabujos, que no reconhecem o peito que lhes deu
de mamar, liberdade potica, acusao de pouco sentido e
nulo objecto, pois no h filho nem filha que de tal se
recordem, embora abundem as autoridades para afirmar que,
no fundo da nossa conscincia, guardamos secretamente
essas e outras memrias assustadoras, e que a nossa vida ,
toda ela, feita desses e outros medos.
No gostou o major que lhe dessem ttulo de sabujo e,
incontinente, gritou,  carga, ao tempo que clamava,
arrebatado, o general dos invasores, A eles, patriotas, e
foram
todos juntos, corpo contra corpo, e houve um terrvel choque.
Foi nesta altura que chegaram ao local Joaquim Sassa,
Pedro Orce e Jos Anaio, curiosos mas inocentes, em boa

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se meteram, que a tropa, de cabea perdida, no distinguia
entre actores e espectadores, pode-se dizer que no precisando
os trs amigos de casa, tiveram de lutar por ela. Pedro
Orce, apesar da idade, brigava como se esta fosse a sua
terra, os outros faziam o melhor que podiam, talvez um
tanto menos, por pertencerem  raa pacfica. Havia feridos
que se arrastavam ou eram levados para a berma da estrada,
mulheres que arrepelavam choros e maldies, os infantes
tinham sido postos a salvo na carriagem, que batalhas assim
s medievais e com palavras do tempo. Uma pedra jogada
de longe por um adolescente chamado David deu com o
major Golias em terra, a sangrar de um lanho profundo no
queixo, no o pde proteger o capacete de ao,  o resultado
de se terem deixado de usar viseiras e nasais, e o pior foi
que, na confuso do derrube, os insurrectos desbordaram as
tropas, passaram-lhes por um lado e pelo outro, para logo a
seguir, num golpe tctico instintivo mas genial, se
dispersarem pelas ngremes ruas e travessas, evitando assim
que os
militares que cercavam o hotel ocupado pudessem acudir,
com suficiente eficcia, em reforo do batalho vencido, de
humilhao como esta no havia memria desde os antigos
tempos da jacquerie. Um hoteleiro, porventura com a mente
perturbada, ou subitamente convertido aos interesses
populares, abriu de par em par as suas portas, dizendo,
Entrem,
entrem, antes vocs que o deserto.
Com tais facilidades de rendio, acharam-se Pedro
Orce, Jos Anaio e Joaquim Sassa ocupantes de um quarto
pelo qual verdadeiramente no tinham lutado, e que dois
dias depois cederam a uma famlia das mais necessitadas,
com uma av entrevada e feridos a tratar. Naquela nunca
vista confuso, houve maridos que se perderam das mulheres,
filhos que se perderam dos pais, mas o resultado de to
dramticos desencontros, facto que ningum saberia inventar, o
que, s por si, prova a irresistvel veracidade do
relato, o resultado, dizamos, foi que uma mesma famlia,
fragmentada, mas animada de igual dinmica nas suas desar
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voradas partes, ocupou aposentos em hotis diferentes,
tendo sido assaz trabalhoso reunir sob um mesmo tecto
quem por um nico tecto, afinal, dizia ansiar, geralmente
acabavam por instalar-se todos no hotel que tivesse mais
estrelas na tabuleta. Os comissrios da polcia, os coronis
do exrcito e da guarda pediam reforos, carros blindados e
instrues a Lisboa, o governo, sem saber aonde acudir,
mandava e contramandava, ameaava e pedia por favor,
constava mesmo que j se tinham demitido trs ministros.
Entretanto, da praia e das ruas de Albufeira podiam-se ver as
triunfantes famlias s janelas dos hotis, aquelas belas e
rasgadas varandas com mesa para o pequeno-almoo e
preguiceiras almofadadas, o pai de famlia martelava os
primeiros pregos e esticava as cordas onde seria estendida a
roupa da semana, que a me de famlia, cantando, j
comeara a lavar l dentro, na casa de banho. E as piscinas
ferviam de mergulhos e nataes, ningum se lembrara de
explicar aos garotos que primeiro se h-de ir ao duche, e s
depois mergulhar na gua azul, no vai ser nada fcil fazer
esquecer a esta gente os hbitos do bairro da lata.
Muito mais e muito melhor que as boas lies, sempre
prosperaram e frutificaram os maus exemplos, e no se sabe
por que aceleradas vias usam transmitir-se, que em poucas
horas o movimento popular de ocupao saltou a fronteira,
alastrou a toda a Espanha, imagine-se como teria sido aquilo
em Marbella e Torremolinos, onde os hotis so como
cidades e trs fazem uma megalpolis. A Europa, ao saber
das alarmantes notcias, comeou aos gritos, Anarquia, Caos
Social, Atentado  Propriedade Privada, e um jornal francs,
dos que formam a opinio pblica, titulou sibilarmente a
toda a largura da primeira pgina, No Se Pode Fugir
 Natureza. Esta sentena, apesar de to pouco original,
caiu no goto, as pessoas europeias, quando falavam da
antiga pennsula ibrica, encolhiam os ombros e diziam
umas para as outras, Que  que se h-de fazer, eles so
assim, no se pode fugir  natureza, a nica excepo ao

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condenatrio coro veio daquele pequeno jornal napolitano e
maquiavlico que anunciou, Resolvido o problema da habi
tao em Portugal e Espanha.
Durante os dias. que os trs amigos ainda se demoraram
em Albufeira, a polcia de, interveno, apoiada pelo grupo
de operaes especiais, tentou proceder  desocupao violenta
de um dos hotis, mas a reaco conjunta e concordante dos
novos hspedes e dos proprietrios, aqueles decididos
a resistir at ao ltimo quarto, estes temerosos da habitual
destruio deixada pelos salvadores, levaram a suspender as
operaes, adiadas para outra oportunidade, quando o tempo
e as promessas adormecessem a vigilncia. Quando Pedro
Orce, Joaquim Sassa e Jos Anaio prosseguiram viagem
para Lisboa j havia nos edifcios ocupados comisses de
moradores democraticamente eleitas, constituindo pelouros
especializados, a saber, de higiene e conservao, de cozinha,
de lavandaria, de festas e divertimentos, de animao
cultural, de educao e formao cvica, de ginstica e
desportos, enfim ' tudo quanto  indispensvel  harmonia e
bom funcionamento de qualquer comunidade. Nos mastros
prprios e improvisados flutuavam bandeirolas e fimulas de
todas as cores, tudo servia a este fim, bandeiras de pases
estrangeiros, de clubes desportivos, de associaes vrias,
sob a gide do smbolo da ptria arvorado no mais alto,
havia mesmo colchas dependuradas das janelas, em saudvel
emulao decorativa.
Porm, conjuno coordenada adversativa que sempre
anuncia oposio, restrio ou diferena, e que, aplicada ao
caso, vem lembrar que mesmo as boas" coisas para uns
precisamente tm os seus porns para outros, ocuparem-se
os hotis desta selvtica maneira foi a gota de gua que fez
transbordar a inquietao em que viviam desde a primeira
hora os ricos e poderosos. Muitos, por medo de que se
afundasse a pennsula com vidas e fazendas, tinham partido
logo naquela debandada de turistas, o que, naturalmente,
no significa que eles fossem, os tais, estrangeiros em sua

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prpria terra, embora haja vrios graus de pertena de cada
um  ptria natural e administrativamente sua, como a
histria bastas vezes tem demonstrado.
Agora, sob a condenao geral dos desaforos sociais,
mais do que geral, universal, se exceptuarmos o procedimento
incongruente do jornalzinho de Npoles, dava-se
uma segunda emigrao, macia, a pontos de ser lcito
desconfiar que tinha vindo a ser preparada meticulosamente
desde que, aos olhos de todos, se tornara patente que as
feridas do que ento ainda era completa Europa no teriam
cicatrizao possvel, que a estrutura fsica da pennsula,
quem poderia imaginar, partira pelo mais forte. As grandes
contas bancrias tornaram-se de repente mnimas, ficaram
com um remanescente simblico, em Portugal quaisquer
quinhentos escudos, em Espanha quaisquer quinhentas pesetas,
ou pouco mais, rapados assim os depsitos  ordem,
com algum prejuzo os depsitos a prazo, e tudo tudo, os
ouros, as pratas, as pedras preciosas, as jias, as obras
de arte, os ttulos, tudo foi levado pelo poderoso sopro
que varreu por sobre o mar, nas trinta e duas direces
da rosa-dos-ventos, os bens mveis dos fugitivos, haja
esperana de recuperar o resto um dia, tempo havendo, e
pacincia. Claro que to grandes mudanas no puderam ser
feitas em vinte e quatro horas, mas uma semana foi quanto
bastou para que se modificasse, de alto a baixo e de largo a
largo, radicalmente, a fisionomia social dos dois pases
ibricos. Um observador insciente dos factos e razes, que
se deixasse iludir pela aparncia de superfcie, concluiria
que portugueses e espanhis tinham empobrecido subitamente, de
uma hora para a outra, quando, afinal das contas,
em termos prprios e rigorosos, apenas sucedera terem-se
ido embora os ricos, quando eles faltam logo a estatstica
sofre.
A esses observadores que conseguem ver um completo
olimpo de deuses e deusas onde no h mais que simples
nuvens passando, ou queles que tm diante dos olhos

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Jpiter Tonante e lhe chamam vapor atmosfrico, no nos
cansaremos nunca de recordar que no basta falar de
circunstancias, com a sua diviso bipolar entre antecedentes e
consequentes, como por abreviao de esforo mental se
usa, mas sim  necessrio considerar o que infalivelmente se
situa entre uns e outros, digamo-lo por' extenso e na sua
ordem, o tempo, o lugar, o motivo, os meios, a pessoa, o
facto, a maneira, se tudo no for medido e ponderado
espera-nos o erro fatal no primeiro juzo proposto. O homem
 um ser inteligente, sem dvida, mas no tanto quanto seria
desejvel, e esta  uma verificao e confisso de humildade
que sempre dever comear por ns prprios, como da cari
dade bem compreendida se diz, antes que no-lo atirem  cara.

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Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a
suavidade do cu infunde nas almas um doce pungimento,
agora se v como tinha razo aquele admirvel entendedor
de sensaes e impresses que afirmou ser a paisagem um
estado de alma, o que ele no soube foi dizer-nos como
seriam as vistas nos tempos em que no havia no mundo
mais que pitecantropos, com pouca alma ainda, e, alm de
pouca, confusa. Passados tantos milnios, e graas aos
aperfeioamentos, j pode Pedro Orce reconhecer na melancolia
aparente da cidade a imagem fiel da sua prpria
tristeza ntima. Habituara-se  companhia destes portugueses
que o tinham ido procurar s inspitas paragens onde nascera e
vivia, agora no tarda que devam separar-se, cada um
para seu lado, nem as famlias resistem  eroso da necessi
dade, que fariam simples conhecidos, amigos de fresca data
e tenras razes.
Dois Cavalos atravessa a ponte devagar,  velocidade
mnima autorizada, para dar ao espanhol tempo de admirar a
beleza das paisagens de terra e mar, e tambm a grandiosa
obra de engenharia que liga as duas margens do rio, esta
construo, falamos da frase,  perifrstica, usmo-la s
para no repetirmos a palavra ponte, de que resultaria
solecismo, da espcie pleonstica ou redundante. Em as
vrias artes, e por excelncia nessa de escrever, o melhor
caminho entre dois pontos, ainda que prximos, no foi, e

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no ser, e no  a linha a que chamam recta, nunca por
nunca ser, modo este enrgico e enftico de responder a
dvidas, calando-as. To absortos iam os viajantes nas
belezas da urbe e raptos da obra portentosa, que nem deram
f do despavorimento que de sbito tomou os estorninhos.
brios de altitude, rasando perigosamente os enormes pilares
que subiam da gua para serem apoio do cu, a esta parte
a cidade com as vidraas em fogo, alm o mar, e o sol, e em
baixo o grande rio passando, como uma corrente vagarosa
de lava a arder sob a cinza, os pssaros mudavam bruscamente
de direco, em golpes de asa rpidos, sucessivos, e a
terra era como se rodasse em torno da ponte, tomando-se o
norte leste e depois sul, o sul oeste e depois norte, em que
lugar do mundo estaremos ns um dia quando outro tanto ou
ainda mais houvermos de mudar. J foi dito que os homens,
mesmo quando estas coisas olham, no as entendem,
tambm as no entenderam desta vez.
Iam a meio da ponte, e Pedro Orce murmurou, Bonita
cidade, palavras assim, amveis, tambm no exigem
resposta, a no ser, modestamente, L isso. Ainda seria
cedo bastante para deixar Pedro Orce instalado num hotel e
seguir viagem, pelo menos at  vila ribatejana onde Jos
Anaio mora, e onde Joaquim Sassa outra vez poderia passar
a noite, apetecendo, debaixo da figueira, mas seria uma
atitude imprpria abandonar o visitante, de comum acordo
decidiram os portugueses demorar-se por c um ou dois
dias, o tempo de conhecer o espanhol a cidade em modo de
poder fazer suas, quando a Orce regressar, as palavras da
nossa inocente e antiga vaidade, Quem no viu Lisboa no
viu coisa boa, bendito seja Deus que nos deu as rimas e no
nos retirou os arrimos.
Joaquim Sassa e Jos Anaio no esto escassos de
dinheiro, reuniram quanto tinham para a aventura alm
-fronteiras e volta, e ainda puderam fazer economias, como
sabemos, uma vez dormindo ao luar, outra em casa de um
farmacutico andaluz, e, no Algarve, beneficiando da situa
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o anrquica, no lhes foi apresentada a conta da estada.
Em Lisboa, onde j entrmos, s na periferia urbana  que
houve assalto e ocupao de hotis, aos restantes, centrais,
defendeu-os a conjuno de dois factores de dissuaso, em
primeiro lugar ser a capital, como  costume nos pases, o
stio de mais alta concentrao de foras de autoridade, ou
repressivas, em segundo lugar aquela timidez peculiar do
citadino, que muitas vezes sofre e se reprime ao sentir-se
observado pelo vizinho que o julga, e vice-versa, a param
cia da gota de gua perturba certamente a lente e o olho que
por trs dela a observa e perturba. Devido  falta de
hspedes, quase todos os hotis tinham encerrado as portas,
para obras de beneficiao, era esta a desculpa, mas alguns
continuavam a funcionar, praticando tabelas de estao bai
xa e rebaixada, ao ponto de haver j chefes de famlias
numerosas que analisavam a hiptese de abandonar as casas
onde viviam, e pelas quais pagavam rendas altssimas, para
passarem a morar no Mridien e coordenadas semelhantes.
A to grande mudana de estado no chegavam as aspiraes dos
trs viajantes, por isso foram instalar-se num
modesto hotel, ao fundo da Rua do Alecrim,  mo esquerda
de quem desce, e cujo nome no interessa  inteligncia
deste relato, uma vez bastou e talvez se tivesse dispensado.
Estorninhos so estorninhos, e das pessoas levianas e
estouvadas se diz que o so tambm, o que significa serem
eles e elas pouco dados a reflectir sobre os actos que
praticam, incapazes de prever ou imaginar para alm do
imediato, o que no  incompatvel com a generosidade de
certos seus procedimentos, at ao sacrifcio da vida, como
se viu no episdio da fronteira, quando tantos tenros
corpinhos caram mortos, derramando por uma causa alheia o
precioso sangue, lembramos que estamos a falar de pssaros,
no de pessoas. Mas leviandade e estouvanice  o
mnimo que se pode dizer de milhares de aves que vo,
imprudentemente, pousar no telhado de um hotel, atraindo a
ateno do povo e da polcia, dos ornitlogos e dos apre
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ciadores de passarinhos fritos, e por essa maneira denun
ciando a presena de trs homens que, apesar de no terem
culpas a pesar-lhes na conscincia, tm vindo a ser alvo do
incmodo interesse das autoridades.  que, facto ignorado
dos viajantes, a imprensa portuguesa, na pgina permanente
que agora dedica aos casos inslitos, fizera-se eco do ataque
irresistvel dos estorninhos aos desprevenidos guardas da
fronteira, recordando, como era de esperar, ainda que sem
qualquer originalidade, o por ns j mencionado filme de
Hitchcock sobre a vida das aves.
Imprensa, rdio e televiso, logo informadas do prodgio
que se produzia ali ao Cais do Sodr, enviaram reprteres,
fotgrafos e operadores de vdeo ao local, o que talvez no
viesse a ter outras consequncias, alm do enriquecimento
do pitoresco lisboeta, se o esprito metdico e, por que no
diz-lo, cientfico de um jornalista no o tivesse impelido a
interrogar-se sobre a possibilidade de uma relao causal
entre os estorninhos que estavam fora, no telhado, e os
residentes do hotel, permanentes ou de passagem, que esti
vessem dentro. Inscientes do perigo que, literalmente, pairava
sobre as suas cabeas, Joaquim Sassa, Jos Anaio e
Pedro Orce, cada um em seu quarto, arrumavam a pouca
bagagem com que viajavam, em poucos minutos estariam na
rua, iriam dar uma primeira volta pela cidade, enquanto no
chegava a hora de jantar. Ora, neste preciso momento, o
arguto jornalista consulta o livro dos hspedes, l os nomes
nele registados, e eis que dois deles lhe movem subtilmente
as engrenagens da memria, Joaquim Sassa, Pedro Orce,
no seria ele um bom profissional de comunicao se lhe
tivessem passado despercebidos, o mesmo talvez lhe aconte
cesse com outro nome, Ricardo Reis, mas o livro onde este
foi registado um dia, j l vo tantos anos, est no arquivo
do sto, coberto de p, numa pgina que provavelmente
nunca ver a luz do dia, e se a vir talvez que o nome no
possa ler-se, por estar em branco a linha, ou branca a pgina
toda, esse  um dos efeitos do tempo, apagar. At este dia

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tem sido o cmulo da arte venatria matar dois coelhos de
uma cajadada, a partir de agora fica aumentado para trs
o nmero de lepordeos ao alcance da destreza humana,
devendo portanto ser corrigidos os rifonrios, onde se l dois
leia-se trs, e talvez ainda no venhamos a ficar por aqui.
Solicitados a descer  recepo, instalados depois na sala
de estar, diante do grande espelho da verdade, Joaquim
Sassa e Pedro Orce, s instncias dos jornalistas no tiveram
outro recurso que confirmar serem, respectivamente, o da
pedra atirada ao mar e o sismgrafo vivo. Mas h os
estorninhos, no pode ser devido a um acaso que tantos
estorninhos se juntaram aqui, observou o reprter inteligente,
foi a que Jos Anaio, solidrio com os seus amigos e
leal com os factos, fez a declarao, Os estorninhos andam
comigo. A maior parte das perguntas dirigidas a Joaquim
Sassa coincidiram, na parte respectiva, com o dilogo que
entre ele e um governador civil se imaginou, motivo por que
aqui no se repetem, nem as correspondentes respostas, mas
Pedro Orce, que no seu pas no pudera ser completo
profeta, . discorreu demoradamente sobre os factos recentes
da sua vida, que sim senhor continuava a sentir o tremor da
terra, intenso e profundo, como uma vibrao que lhe
subisse pelos ossos, e que em Granada, Sevilha e Madrid o
tinham submetido a mltiplos testes, tanto afectivos como
intelectuais, tanto sensoriais como motores, e que ali estava,
disposto a sujeitar-se a idnticas ou outras averiguaes se
as
entendessem convenientes os sbios portugueses. Entretanto
tinha anoitecido, os estorninhos responsveis pela devassa
recolheram-se em ordem dispersa s rvores dos jardins
prximos, esgotadas as perguntas e a curiosidade foram-se
embora jornalistas, cmaras e projectores, mas nem assim
pde haver sossego no hotel, criados e empregados inventavam
pretextos para virem  recepo e espreitarem para
dentro da sala de estar, a ver que cara tm os fenmenos.
Fatigados pelas incessantes comoes, os trs amigos
resolveram no sair, jantar ali mesmo. Pedro Orce estava

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preocupado com as consequncias da loquacidade a que se
deixara arrastar, Depois de tanto me terem prevenido de que
no abrisse bico sobre o meu caso, em Espanha no iro
gostar quando souberem, mas se eu ficar por c uns dias
talvez que acabem por esquecer-se de mim. Jos Anaio
duvidava, Amanh a nossa histria vir em todos os jornais,
provavelmente a televiso ainda hoje dar a notcia, e os da
rdio no se calaro, so infatigveis, e Joaquim Sassa,
Ainda assim, de ns trs, tu  que ests em melhor situao,
podes sempre argumentar que no tens culpa de os estorninhos
andarem atrs de ti, nem lhes assobias nem lhes ds de
comer, mas ns dois estamos entalados, a Pedro Orce
olham-no como se fosse um bicho raro, a cincia lusitana
no vai perder a cobaia, e a mim no me largaro com a
histria da pedra, Vocs tm o carro, lembrou Pedro Orce,
partam amanh muito cedo, ou ainda esta noite, eu fico, se
me perguntarem para onde foram, digo-lhes que no sei,
Agora  tarde de mais, mal eu aparea na televiso no
faltar quem telefone l da vila s para dizer que me
conhece, que eu sou o professor, e que j andavam descon
fiados, esto sedentos de glria, isto disse Jos Anaio, e
acrescentou,  prefervel que fiquemos juntos, falaremos
pouco, s tantas ho-de cansar-se.
Tal como se previa, apareceram no ltimo noticirio da
televiso, uma reportagem muito completa, viam-se os es
torninhos em revoada, a fachada do hotel, o gerente a
prestar declaraes que sabemos serem falsas, como
imediatamente se vai ver,  o primeiro grande acontecimento na
histria deste estabelecimento hoteleiro, e as trs
maravilhas, Pedro, Jos e Joaquim, respondendo a perguntas.
Como sempre que se considera indispensvel um suplemento de
autoridade convincente, estava no estdio o perito,
neste caso um especialista da moderna disciplina de psicologia
dinmica, que, entre outras opinies sobre o fundo da
questo, declarou no estar excluda a hiptese de se tratar,
de puro charlatanismo,  sabido, declarou ele, que em

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momentos como este, de crise, nunca deixam de aparecer
impostores, indivduos que contam histrias e tentam
aproveitar-se da credulidade das massas populares, muitas
vezes
com intuitos de desestabilizao poltica imediata ou servin
do projectos de conquista do poder a longo prazo, Se este
ponto de vista pega, estamos bem arranjados, observou
Joaquim Sassa, E os estorninhos, qual  a sua opinio acerca
dos estorninhos, quis saber o locutor, Isso, sim,  um
fascinante enigma, ou a pessoa a quem eles seguem 
portadora de um chamariz irresistvel, ou trata-se de um
caso de hipnose colectiva, Hipnotizar aves no deve ser
fcil, Pelo contrrio, uma galinha pode ser hipnotizada com
um simples pedao de giz, at uma criana o  capaz de
fazer, Mas, dois ou trs mil estorninhos ao mesmo tempo,
como poderiam eles voar se estivessem hipnotizados, Repare
que o bando, para cada ave que dele faa parte,  j um
agente hipntico, agente e resultante simultaneamente,
Desculpe lembrar-lhe que alguns dos nossos espectadores
tero dificuldade em acompanhar uma linguagem demasiado
tcnica, Ento, procurando ser mais claro, direi que todo o
grupo tende a constituir-se em hipnose homogeneizada, No
tenho a certeza de que se tivesse ficado a perceber melhor,
de qualquer modo agradeo-lhe a sua presena nos nossos
estdios, este assunto vir a ter certamente outros
desenvolvimentos, haver ento oportunidade para um debate
mais
aprofundado, Estou ao vosso dispor, sorriu o perito. Quem
no achou graa nenhuma foi Joaquim Sassa, que resmun
gou, O tipo  parvo, Realmente tem ar disso, mas h
ocasies em que at aos parvos convm ouvir com ateno
respondeu Jos Anaio, e Pedro Orce, No percebi nada:
esta foi a primeira vez que por completo lhe escapou o falar
lusitano, tomssemos ns  letra o que as palavras signifi
cam, boa conversao teria sido a de Viriato e Nuno lvares
Pereira, heris da mesma ptria, ao que dizem. Enquanto na
sala de estar do hotel se discutiam estas graves questes, o
gerente, em gabinete retirado, recebia uma delegao de

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proprietrios de restaurantes vizinhos que lhe vinham propor
um negcio, Quanto quer para nos deixar armar umas redes
no telhado, mais tarde ou mais cedo os estorninhos voltam a
pousar aqui, no as vamos pr nas rvores,  mo de toda a
gente, seria o mesmo que fazer filhos em mulheres alheias,
estes homens so dos que acreditam que o nico sentido
ntimo das coisas  elas no terem sentido ntimo nenhum, o
gerente hesita, tem medo de que lhe partam as telhas, mas
finalmente decide-se, prope uma quantia,  caro, dizem os
outros, e vo ficar a discutir o preo.
No dia seguinte, logo de manh, uma outra delegao de
senhores, estes de expresso solene, bem trajados, com
muitos modos,.veio pedir a Joaquim Sassa e Pedro Orce que
fizessem o favor de os acompanhar, de mando do governo,
tambm vinha no grupo impetrante um conselheiro da embaixada
espanhola que cumprimentou Pedro Orce, mas com
uma secura to ostensiva que s podia provir do brio
patritico melindrado. Queriam proceder a um inqurito
rpido, explicaram, muito simples, o tempo de uma averi
guao de rotina para acrescentar ao j volumoso dossier da
ruptura da pennsula, pelos vistos irremedivel, se tivermos,
em conta a sua contnua deslocao, fatal, por assim dizer.
A Jos Anaio no ligaram, provavelmente duvidava-se que
fosse dotado de virtudes aliciadoras e atractivas s compar
veis s do flautista de Hamelin, alis, os estorninhos nem
esto agora  vista, andam em reconhecimento pelos cus da
cidade, juntos, nas redes do telhado, traioeiramente armadas,
apenas caram quatro pardais vagabundos que estavam
para ter outro fim, porm o destino disps um remate
diferente para as suas vidas, Qual destino, pergunta a voz
irnica, e pelo mrito desta interveno inesperada ficmos
a saber que no h um s destino, ao contrrio do que
tnhamos aprendido nos fados e canes, Ningum foge ao
seu destino, pode sempre acontecer que nos venha a calhar,
subitamente, o destino doutra pessoa, foi o que sucedeu aos
pardais, tiveram destino de estorninhos.


Jos Anaio deixou-se ficar na paz do hotel, esperando o
regresso dos companheiros, pediu jornais, as entrevistas
vinham todas na primeira pgina, com fotografias explosivas
e ttulos dramticos, Enigmas Que Desafiam A Cincia, As
Foras Ignoradas da Mente, Trs Homens Perigosos,
O Mistrio do Hotel Bragana, to grande era o nosso
escrpulo de dizer-lhe o nome, e afinal a inconfidente
imprensa, Ir O Espanhol Ser Extraditado, interrogao,
Estamos Metidos Num Grande Sarilho, isto pensou-o Jos
Anaio, no  ttulo. Passaram as horas, foi tempo de
almoar, de Joaquim Sassa e Pedro Orce nem novas nem
mandados, esto presos, encarcerados, perde um homem o
apetite de tanta inquietao, Nem sequer sei para onde os
levaram, estpido, devia ter perguntado, qual qu, deveria
era ter ido com eles, no os abandonar, calma, provavelmente,
mesmo querendo eu, no me deixariam ir, prova
velmente no  certo, fiquei foi muito contente por me
deixarem de fora, a cobardia  pior que o polvo, o polvo
tanto encolhe como estende os braos, a cobardia s sabe
encolh-los, por esta severidade se v a que ponto est Jos
Anaio furioso consigo mesmo, falta  saber o lugar da
sinceridade em to contraditrios impulsos e pensamentos, o
melhor, como em todos os casos da vida, ainda ser esperar
pelos actos. Primeiro foi interrogar o gerente, se teria
ouvido qualquer palavra reveladora, uma morada, um nome,
mas o estalajadeiro respondeu no meu senhor, nem conhecia
nenhum dos cavalheiros, vira-os pela primeira vez, tanto
os portugueses como o espanhol, nesse repente se iluminou
a inteligncia de Jos Anaio, j no era sem tempo, ir 
embaixada, a embaixada sabe de certeza, e logo outra
inspirao o surpreendeu, uma iluminao nunca vem s, a
imprensa, pois claro, bastava dirigir-se a um daqueles
jornais, em poucas horas os argos, holmes e lupins da
redaco rastreariam os desaparecidos, a necessidade 
verdadeiramente a me da inveno, neste caso chama-se o
pai cuidado, mas nem sempre  o mesmo.

Ligeiro, subiu ao quarto Jos AnaiO, ia mudar de
sapatos, lavar os dentes, estes procedimentos comuns no
so incompatveis com o esprito resoluto, d-se o exemplo
de Otelo, que, estando constipado e sem dar pelo que fazia,
ridiculamente se assoou antes de matar Desdniona, a qual,
por sua vez, apesar dos fnebres pressentimentos, no se
fechou  chave, porque uma esposa ao esposo nunca se
recusa, mesmo que saiba que ele a vai matar, e alm disso
Desdniona bem sabia que o quarto tinha s trs paredes,
ora neste drama de agora est Jos Anaio a esfregar os
dentes com a escova e a cuspir quando ouve bater algum,
Quem , perguntou, embora no parea a sua voz o tom  de
alegre expectativa, vai Joaquim Sassa responder-lhe, J
chegmos, mas o engano durou quase nada, Faz favor,
afinal  a criada, Um momento, acabou a operao higini
ca, lavou as mos, e a boca, enxugou-se, enfim foi abrir.
A criada  uma empregada vulgar de hotel, com sinais e
destino to particulares que este  o nico momento da sua
vida em que tocar ao de leve, e apenas pelo tempo de um
simples recado, a existncia de Jos Anaio e companheiros,
presentes e'futuros, acontece isto muitas vezes no teatro e na
vida, precisamos de uma pessoa que venha bater  porta s
para dizer, Est na sala uma senhora  procura do senhor.
Espanta-se Jos Anaio, d expresso ao espanto, De mim,
e a criada acrescenta o que julgara no ser necessrio dizer,
Ela perguntou foi pelos trs senhores, mas como os outros
no esto c, Deve ser uma jornalista, pensou Jos Anaio,
e disse, Deso imediatamente. A criada afastou-se como
quem da vida se retira, no voltaremos a precisar dela, no
h nenhuma razo para a recordarmos, nem sequer com
indiferena. Veio, bateu  porta, deu o recado, que, no se
sabe porqu, no foi transmitido pelo telefone, talvez a vida
goste de cultivar, uma vez por outra, o sentido do dramti
co, se o telefone toca pensamos, Que ser, se  porta nos
batem pensamos, Quem ser, e damos ao pensamento voz
perguntando, Quem . J sabemos que foi a criada, mas a

113


pergunta teve s meia resposta, ou nem tanto, por isso Jos
Anaio vai pensando enquanto desce a escada, Quem ser,
esqueceu-se da hiptese de tratar-se de uma jornalista, certos
pensamentos nossos so assim, servem apenas para ocuparem,
por antecipao, o lugar de outros que dariam mais que pensar.
No hotel h uma grande paz, como uma casa desocupada
donde se tivesse retirado a vida inquieta, mas ainda  cedo
para comear a envelhecer de abandono, ficaram ecos de
passos e de vozes, um choro, um.murmrio de despedida
que se prolonga no ltimo patamar. O gerente est de p,
por trs do balco tem o armarinho das chaves com os seus
cacifos para mensagens, correspondncia e facturas, escreve
num livro ou dele. copia nmeros para um papel,  um
homem activo, mesmo se o trabalho falta. Quando Jos
Anaio vai a passar faz-lhe um sinal de cabea na direco
da sala, a que Jos Anaio corresponde com o outro, de
assentimento, J sei,  o que este quer dizer, o primeiro
significara, mais extensamente, Tem ali uma senhora  sua
espera. Parou Jos Anaio  entrada da sala, viu uma mulher
nova, uma rapariga, s pode ser esta, no h aqui outra
pessoa, apesar de estar no contraluz dos cortinados das
janelas parece simptica, ou mesmo bonita, veste calas e
casaco azuis, de um tom que deve ser anil, tanto pode ser
jornalista como no, mas ao lado da cadeira onde se senta
tem uma pequena mala de viagem e sobre os joelhos um pau
nem pequeno nem grande, entre um metro e um metro e
meio, o efeito  perturbador, uma mulher vestida assim no
se passeia pela cidade de pau na mo, Jornalista no ser,
pensou Jos Anaio, pelo menos no esto  vista os
instrumentos do ofcio, bloco de papel, esferogrfica,
gravador.
A mulher levantou-se, e este gesto, inesperado, pois est
dito que as senhoras, segundo o manual de etiqueta e boas
maneiras, devem esperar nos seus lugares que os homens se
aproximem e as cumprimentem, ento oferecero a mo ou
daro a face, de acordo com a confiana e o grau de

114

intimidade e sua natureza, e faro o sorriso de mulher,
educado, ou insinuante, ou cmplice, ou revelador, depende.
Este gesto, talvez no o gesto, mas o estar ali, a quatro
passos, levantada uma mulher esperando, ou, em vez disto,
a sbita conscincia de se ter, suspendido o tempo enquanto
no for dado o primeiro passo,  verdade que o espelho , 
testemunha, mas de um momento anterior, no espelho Jos
Anaio e a mulher ainda so dois estranhos, deste lado no,
aqui, porque vo conhecer-se, conhecem-se j. Este gesto,
este gesto de que antes no se pde dizer tudo, fez mover-se
o cho de tbuas como um convs, o arfar de um barco na
vaga, lento e amplo, esta impresso no  confundvel com
o conhecido tremor de que fala Pedro Orce, no vibram de
Jos Anaio os ossos, mas todo o seu corpo sentiu, fsica e
materialmente sentiu, que a pennsula, por costume e como
didade de expresso ainda assim chamada, de facto e de
natureza vai navegando, s o sabia por observao exterior,
agora  por sua sensao prpria que o sabe. Assim, por
causa desta mulher, se no apenas deste momento em que
ela veio, que mais do que tudo contam as horas em que as
coisas acontecem, deixou Jos Anaio de ser apenas o
involuntrio chamariz de pssaros loucos. Avana para ela,
e este movimento, lanado na mesma direco, vai juntar-se
 fora que empurra, sem recurso nem resistncia, a figura
de jangada de que o Hotel Bragana, neste preciso instante,
 carranca e castelo da proa, com perdo da patente im
propriedade das palavras. Tanto pode.
Os meus amigos no esto c, disse Jos Anaio, vieram
busc-los esta manh para esclarecimentos, uns cientistas,
comeo a estar preocupado com a demora, alis dispunha
-me a sair, ia procur-los, Jos Anaio tem a conscincia de
que no precisaria de tantas palavras para dizer o que 
ocasio importava, mas no pde segur-las. Ela responde, e
a voz  agradvel, baixa mas clara, O que eu tenho para
dizer, tanto  para um como para os trs, desta maneira
talvez at me saiba explicar melhor. Os olhos tm uma cor


de cu novo, Que  um cu novo, que cor tem, onde  que
eu fui buscar esta ideia, pensamento de Jos Anaio, e em
voz alta, Sente-se por favor, no~esteja de p. Sentou-se ela,
sentou-se ele, O senhor chama-se, Jos Anaio, O meu
nome  Joana Carda, Muito gosto. No apertaram as mos,
seria ridculo agora que estavam sentados, ou ento, para o
fazerem, teriam de soerguer-se nas cadeiras, mais ridculo
ainda, ou somente ele, ficaria o ridculo por metade. se
metade de ridculo no fosse precisamente igual a ridculo
inteiro,  mesmo bonita, e os cabelos, que so quase pretos,
no deviam dar com os olhos, cor de cu novo de dia, cor de
cu novo de noite, esto bem uns para os outros, Posso
ser-lhe til em alguma coisa, por esta frmula de polidez se
traduziu o ntimo pensar. No sei se poderemos falar aqui,
murmurou Joana Carda, Estamos ss, ningum nos ouve '
Mas a curiosidade  muita, veja. Andando de um modo
pouco natural, o gerente passava em frente da entrada da
sala, passava e tornava apassar, aparentemente alheado,
como quem apenas tivesse desistido de inventar um novo
trabalho, se aquele j tinha sido intil. Jos Anaio olhou-o
severamente e sem resultado, baixou a voz, assim tornando
mais suspeito o dilogo, No posso convid-la a subir, alm
de parecer inconveniente, dever ser proibido receberem os
hspedes visitas nos quartos, Por mim no teria importncia'
no precisaria de defender-me de quem, certamente, no
est a pensar em atacar-me, De facto no  essa a minha
inteno, tanto mais que a vejo armada. Sorriram ambos,
mas no sorriso havia algo de forado, de constrangido, uma
sbita aflio, na verdade a conversa tornara-se ntima de
mais para quem s h trs minutos se conhece, e apenas de
nome. Em caso de necessidade este pau serviria, disse Joana
Carda, mas no  para isso que o trago comigo, para falar
francamente  ele que me traz a mim. A declarao, de to
inslita, limpou os ares, equilibrou as presses, a atmosfra
e a sangunea. Joana Carda segurava a vara sobre os
joelhos, esperava a resposta, enfim Jos Anaio disse,

116

 melhor sairmos, conversaremos na rua, num caf, ou num
jardim, se quiser. Ela pegou na mala, ele tirou-lha da mo,
Podemos deix-la no meu quarto, mais o pau, O pau no o
largo, a mala levo-a tambm, talvez no seja conveniente
voltar aqui, Como quiser, pena  que a sua mala de viagem
seja to pequena, metia-se-lhe o pau dentro, Nem todas as
coisas nascem umas para as outras, respondeu Joana Carda,
o que, apesar de bvio, comporta no pouca filosofia.
Ao sarem, Jos Anaio disse para o gerente, Se os meus
amigos chegarem, diga-lhes que no me demoro, Sim
senhor, v descansado, respondeu o homem, sem tirar os
olhos de Joana Carda, mas no havia cobia no olhar, s
uma desconfiana vaga, como em todos os gerentes de hotel
se pode observar. Desceram a escada, ao fundo, sobre o
remate do corrimo, havia uma estatueta de ferro fundido,
ornamental, a modos de fidalgo ou pagem de pera, aqui
est uma figura que bem podia ser colocada, com o seu
globo elctrico iluminado, em qualquer dos grandes cabos
portugueses ou galegos, o de So Vicente, o Espichel, o da
Roca, o Finisterre, e outros de menor porte, mas que por
isso no tm menos trabalho a romper as guas, porm o
destino deste fidalgo ou pagem  ser ignorado, talvez um dia
passado algum tenha posto nele olhos atentos, no o fizeram
Joana Carda e Jos Anaio, ser por terem outras mais
graves preocupaes, embora, perguntados, provavelmente
no saberiam dizer quais. Quem est na frescura do hotel,
naquela penumbra secular, no imagina que faa tanto calor
na rua.  Agosto, se ainda estamos lembrados, o clima no
variou por ter viajado a pennsula uma insignificncia de
cento e cinquenta quilmetros, supondo que a velocidade se
tem mantido constante como informou a rdio nacional de
Espanha, ainda s passaram cinco dias e parece que j l vai
um ano. Disse Jos Anaio, como se esperaria, Passear com
este calor, de mala de viagem e pau na mo, no apetece,
em dez minutos ficaremos estafados, o melhor seria en
trarmos num caf, toma-se um refresco,  prefervel um


jardim, um banco isolado, numa sombra, Aqui perto h um
jardim, a Praa de D. Lus, conhece, No vivo em Lisboa,
mas conheo, Ai, no vive em Lisboa, repetiu inutilmente
Jos Anaio. Desciam a Rua do Alecrim, ele levava a mala
e o pau, no faltaria pensarem dele coisas pouco abonatrias
os passantes se no levasse a mala e dela coisas pouco
decentes se levasse o pau, to verdade  sermos ns todos
implacveis observadores, maliciosos quando calha e mais
do que a conta.  exclamao de Jos Anaio limitou-se
Joana Carda a responder que tinha chegado nesse mesmo
dia, de comboio, e que seguira imediatamente para o hotel,
o resto vamos saber agora.
Esto sentados, felizmente numa sombra de rvores, ele
perguntou, Que foi ento que a trouxe a Lisboa, por que
razo veio procurar-nos, e ela disse, Porque deve ser verdade
que voc e os seus amigos tm parte no que est a
acontecer, A acontecer, a quem, Bem sabe a que me refiro,
a pennsula, o arrancamento dos Pirentis, esta viagem como
nunca se viu outra, s vezes tambm eu penso que sim, que
 por nossa causa, outras vezes acho que estamos todos
doidos, Um planeta que anda  volta duma estrela, a girar, a
girar, ora dia, ora noite, ora frio, ora calor, e um espao
quase vazio onde h coisas gigantescas que no tm outro
nome a no ser o que lhe damos, e um tempo que ningum
sabe verdadeiramente o que seja, isto tudo tambm tem de
ser coisa de doidos, Voc  astrnoma, perguntou Jos
Anaio, nesse momento lembrado de Maria Dolores, antro
ploga de Granada, Astrnoma no sou, nem parva, Descul
pe-me a impertinncia, andamos todos nervosos, as palavras
no dizem o que deveriam, so de mais, so de menos,
peo-lhe que me desculpe, Est desculpado, Provavelmente
pareo-lhe cptico porque a mim no me aconteceu nada a no
ser os estorninhos, ainda que, Ainda que, H pouco, no hotel,
quando a vi na sala, senti-me como se estivesse sobre um barco
no mar, foi a primeira vez, Pois eu vi-o como se estivesse a
aproximar-se de muito longe, E eram s trs ou quatro passos.

118

Vindos de todas as partes do horizonte, os estorninhos
desceram subitamente sobre as rvores do jardim. Das ruas
prximas apareceram pessoas a correr, olhavam para cima,
apontavam, C esto eles outra vez, disse Jos Anaio,
impaciente, e o pior  que no vamos poder falar, com toda
esta gente aqui. Nesse momento os estorninhos levantaram
voo todos juntos, cobriram com uma grande mancha negra e
vibrante o jardim, as pessoas gritavam, umas de ameaa,
outras de excitao, outras de medo, Joana Carda e Jos
Anaio olhavam sem perceberem o que se estava a passar,
ento a grande massa afilou-se, tornou-se cunha, asa, fle
cha, e depois de trs rpidas voltas, os estorninhos
dispararam na direco do sul, atravessaram o rio,
desapareceram
longe, no horizonte. Os curiosos, ou basbaques, ali reunidos
soltaram exclamaes de surpresa, de decepo tambm, da
a poucos minutos o jardim estava deserto, sentiu-se outra
vez o calor, sentados num banco s estavam um homem e
uma mulher, tinham um pau de negrilho e uma mala de
viagem. Jos Anaio disse, Acho que nunca mais vo voltar,
e Joana Carda, Agora vou-lhe contar o que me aconteceu.

119


Reconhecida a gravidade dos factos relatados, determi
nou a prudncia que Joana Carda no se hospedasse no hotel
clebre, em cujo telhado as redes ainda esperavam, agora
em vo, que l fossem pousar-se os estorninhos. Foi uma
deciso inteligente,' evitou, pelo menos, que pudesse
confirmar-se a alterao, por segunda vez, do ditado sobre o
caiado e os coelhos, que seria cair no lao, juntamente com
os trs suspeitos, se no incriminados j, uma mulher com
artes de esgrima metafsica. Passando o escrito a palavras
menos barrocas e construes mais arejadas, o que Joana
Carda fez foi instalar-se mais acima, no Hotel Borges, em
pleno corao do Chiado, com a sua maleta e o seu pau de
negrilho, que infelizmente no  telescpico, de encaixar, de
que resulta olharem-na intrigadas as pessoas quando ela
passa, e na recepo do hotel, gracejando para disfarar a
real curiosidade, um empregado, alis respeitoso, far uma
discreta aluso a varas que no so bengalas, respondeu-lhe
Joana Carda com o silncio, afinal de contas no h nenhuma
lei conhecida que proba um hspede de transportar para
dentro do seu quarto uma pernada de azinheira, menos ainda
um pauzito delgado, que no chega a ter dois *metros de
comprimento, facilmente transportvel no elevador e que,
arrumado a um canto, nem se d por ele.
Jos Anaio e Joana Carda conversaram muito, at
depois de ter-se posto o sol, imagine-se, deram ao assunto

120

todas as voltas que podiam dar, e de cada vez concluram
que, nada havendo de natural nele, as coisas se passavam
como se uma normalidade nova tivesse vindo instalar-se no
lugar da normalidade antiga, mas sem convulses, abalos ou
mudanas de cor, que, alis, a darem-se, tambm nada
explicariam. O erro  s nosso, com este gosto de drama e
tragdia, esta necessidade de coturno e gesto largo,
maravilhamo-nos, por exemplo, diante de um parto, aquela azfa
ma de suspiros e gemidos, e gritos, o corpo que se abre
como um figo maduro e lana para fora outro corpo, e isso 
maravilha, sim senhor, mas no menor maravilha foi o que
no pudemos ver, a ejaculao ardente dentro da mulher, a
maratona mortfera, e depois a fabricao lentssima de um
ser por si prprio,  certo que com ajudas, esse que ser,
para no irmos mais longe, este que isto escreve,
irremediavelmente ignorante do que lhe aconteceu ento e
tambm,
confessemo-lo, no muito sabedor do que lhe acontece
agora. Joana Carda no sabe e no pode dizer mais, Estava o
pau ali no cho, fiz um risco com ele, se por t-lo feito 
que estas coisas acontecem, quem sou eu para o jurar, o que
 preciso  ir l ver. Debateram e tornaram a debater, era j
o lusco-fusco quando se separaram, ela para o Borges de
cima, ele para o Bragana de baixo, e vai mordido de
remorsos Jos Anaio, que no teve alma de querer saber o
que acontecera aos amigos, ingrato, bastou ter-lhe aparecido
uma mulher narradora de histrias da carochinha, e ficou
quase a tarde inteira a ouvi~la, O que  preciso  l ir ver,
repetia ela, modificando ligeiramente a frase, talvez para o
convencer de vez, em muitos casos  a nica soluo, dizer
doutra maneira.  entrada do seu hotel Jos Anaio levanta
os olhos, de estorninhos nem pena, a sombra alada que
passou, rpida e macia como um afago discreto, foi morcego
 caa de mosquitos e falenas. O fidalguinho do corrimo
tem o candeeiro aceso, est ali para dar as boas-vindas,
mas Jos Anaio nem sequer um olhar enfastiado lhe deita, m
noite leva certa se Pedro Orce e Joaquim Sassa no voltaram.



121


Voltaram. Esperam na sala, sentados nas mesmas cadeiras em que
Joana Carda e Jos Anaio tinham estado, ainda
h quem no acredite em coincidncias, quando coincidn
cias  o que mais se encontra e prepara no mundo, se no
so as coincidncias a prpria lgica do mundo. Jos Anaio
pra  entrada da sala, parece que vai repetir-se tudo, mas
no  ainda desta vez, o cho de tbuas permaneceu firme,
os quatro passos de distncia so apenas uma distncia de
quatro passos, nenhum vazio interestelar, nenhum salto de
morte ou de vida, as pernas moveram-se por si prprias,
depois as bocas falaram para dizer aquilo que se espera,
Foste  nossa procura, perguntou Joaquim Sassa, mas a uma
pergunta to simples no pode Jos Anaio responder com
simplicidade, Sim ou No, ambas as palavras seriam
verdadeiras, ambas mentiriam, levaria muito tempo a explicar,
por isso fez a sua prpria pergunta, to legtima e natural
como a outra, Onde diabo estiveram vocs este tempo todo.
V-se que Pedro Orce est cansado, nem admira, a idade,
digam o que disserem os teimosos, pesa, mas at um homem
novo e vigoroso teria sado desfeito das mos dos doutores,
testes sobre testes, anlises, radiografias, questionrios,
marteladinhas nos tendes, sondagens nos ouvidos, exames
da retina, electroencefalogramas, no admira que as plpebras
lhe pesem como chumbo, Estou bom para me deitar,
diz ele, estes sbios portugueses iam-me matando. Ali ficou
decidido que Pedro Orce recolheria ao quarto enquanto no
fossem horas de jantar, que desceria depois para uma canja e
um peito de galinha, apesar de no ser grande o apetite,
parecia-lhe ter o estmago ainda cheio de papa radiolgica,
Mas tu no fizeste nenhuma radiografia ao estmago, observou
Joaquim Sassa, Pois no, mas  como se tivesse feito, o
sorriso de Pedro Orce era to desmaiado como uma rosa
murcha. Ficas a descansar, disse Jos Anaio, o Joaquim e
eu vamos jantar a num restaurante qualquer, conversamos
sobre o que se passou, e quando voltarmos batemos  tua
porta, a saber como te sentes, No batam, o mais certo ,

122

estar a dormir, dormir doze horas seguidas  o que me
apetecia, at amanh, e retirou-se a arrastar os ps. Coitado,
em que andanas o metemos, isto foi dito por Jos Anaio,
A mim tambm me causticaram com exames e perguntas,
mas no h comparao com o que lhe fizeram a ele, sabes o
que isto me fez lembrar, um conto que li h anos, Inocente
entre Doutores chamava-se, De Rodrigues Miguis, Esse.
Na rua resolveram dar uma volta larga no Dois Cavalos,
para jantar ainda era cedo, e poderiam conversar  vontade.
A desorientao  total, comeou Joaquim Sassa, e se se
agarram tanto a ns  por no terem mais nada, quer dizer,
agora at comeam a ter de mais, se calhar por causa das
notcias da televiso, ontem, e dos jornais de hoje, viste os
ttulos dos da tarde, endoideceram, comeou-lhes a cair em
cima uma chuva de pessoas que juram sentir tambm o
tremelique da terra e que atiraram pedrinhas ao rio e saiu de
l uma ninfa e que os periquitos domsticos fazem rudos
estranhos, Acontece sempre assim, a notcia produz notcia,
aos nossos periquitos, provavelmente,  que no tornaremos
a ver, Porqu, que aconteceu, Acho que se foram embora,
Simplesmente embora, sem mais nem menos, depois de
durante uma semana no te terem largado,  o que parece,
Viste-os, Vi, atravessaram o rio em direco ao sul e no
voltaram, Como  que soubeste que se iam embora, estavas
 janela do quarto,, No, foi num jardim aqui perto, Em vez
disso, podias bem ter procurado descobrir onde ns estva
mos, A minha ideia era essa, mas depois fui para o jardim e
fiquei l, A apanhar o fresco, A falar com uma mulher, Ora
a est, grande amigo me saste, ns nos padecimentos do
calvrio e tu no engate, como no pudeste deitar a unha 
arqueloga de Granada, agora desforras-te, No era arqueloga,
era antroploga, Tanto faz, Esta  astrnoma, No
brinques comigo, De facto no sei o que ela , isto da
astrnoma vem duma coisa que eu lhe disse, Bem, a histria
 tua, e eu no tenho nada que me meter nas vidas dos
outros, Tens, o caso que ela me contou tem que ver

# 123


connosco, J percebi,  uma das tais das pedrinhas, No,
Ento sente tremuras, Continuas a no acertar, O canrio
mudou de cor, A ironizar com tanta arte no chegas l,
Desculpa, o que eu estou  aborrecido, no consigo esquecer
que no foste procurar-nos, J te disse que era essa a minha
inteno, mas foi a que apareceu a mulher, mesmo na altura
em que eu me preparava para sair, ia comear pela embaixada de
Espanha, apareceu e tinha uma histria para contar,
vinha de pau na mo, trazia uma maleta de viagem, vestia
calas e casaco azuis, tem os cabelos pretos, a pele muito
branca, os olhos no sei bem,  difcil dizer, Interessantes
pormenores para a histria peninsular, s falta dizeres-me
que a senhora  bonita, , Nova, Digamos que sim que 
nova, embora no seja precisamente uma rapariga, Pela
maneira como falas, apaixonaste-te, A palavra  das grandes,
mas senti o cho do hotel a oscilar, Desse efeito nunca
ouvi falar, Trguas, Salvo se tinhas bebido e no te lembras,
Trguas, Pois sim, trguas, que queria a Dona Olhos No
Sei Bem, e que pau era esse, O pau  de negrilho, Sei pouco
de botnica, que vem a ser um negrilho, O negrilho  o
olmo, ou ulmeiro, e se nesta altura da conversa posso fazer
um comentrio lateral, digo-te que tens uma tcnica de
interrogatrio excelente. Joaquim Sassa riu-se, Devo ter
aprendido hoje com aqueles bons mestres que me chatearam,
desculpa, continua a histria da senhora, tem algum outro
nome alm de Olhos No Sei Bem, Chama-se Joana Carda,
Est apresentada, vamos agora ao miolo do caso, Imagina tu
que encontras um pau no caminho e que, por distraco ou
sem qualquer fito consciente, fazes um risco no cho,
Quando era garoto fiz isso muitas vezes, E que aconteceu,
Nada, nunca aconteceu nada, e, realmente, foi pena, Agora
imagina que esse risco produzia, por um efeito mgico ou
causa equivalente, uma fenda nos Pirenus, e que os ditos
Pirenus se rachavam de alto a baixo e a pennsula ibrica
comeava a navegar pelos mares fora, A tua Joana  doida,
J houve outras, mas esta no veio a Lisboa para nos dizer

124

que, por ter feito um risco no cho, a pennsula se separou
da Europa, Graas, meu Deus, o juzo ainda  deste mundo,
O que ela diz  que o risco que fez no desaparece, nem
com o vento, nem deitando-lhe gua em cima, nem raspando, nem
varrendo com uma vassoura, nem pisando-o a ps,
Lrias, Tanto como seres tu o mais forte lanador de pesos
de todos os tempos, seis quilos atirados sem batota a
quinhentos metros, o prprio Hrcules, apesar de ser metade
deus, no conseguiria bater o teu recorde, Queres que eu
acredite que um risco feito na terra, foi na terra, no foi,
se
mantm apesar do vento, da gua e da vassoura, E se lhe
meteres uma enxada reconstitui-se,  impossvel, No ests
a ser original, essa palavra tambm a usei eu, e a Joaninha
dos Olhos No Sei Bem limitou-se a responder S L Indo
Ver ou S Indo L Ver, no tenho a certeza. Calou-se
Joaquim Sassa, nesta altura iam na Cruz Quebrada, que
sacrlego caso se ocultar nestas palavras hoje incuas, e
Jos Anaio disse, Tudo isto seria absurdo se no estivesse
a. acontecer, e Joaquim Sassa perguntou, Estar, realmente.
Ainda havia alguma luz de dia, pouca, no mais do que a
suficiente para se poder ver o mar at ao horizonte, deste
alto donde se desce para Caxias alcana-se a dimenso das
grandes guas, talvez por isto  que Jos Anaio murmurou,
So outras, e Joaquim Sassa, que no podia saber de que
outras se tratava, perguntou, Quem, As guas, estas guas
so outras, assim a vida se transforma, mudou e no demos
por isso, estvamos quietos e julgvamos que no tnhamos
mudado, iluso, puro engano, amos com a vida. O mar
batia com fora contra o paredo da estrada, no  para
admirar, estas ondas tambm so outras, habituadas a terem
os movimentos livres, sem testemunhas, salvo quando
passava um minsculo barco, no o leviato de agora, que
vai empurrando o oceano. Disse Jos Anaio, Jantamos a
adiante, em Pao de Arcos, depois regressamos ao hotel, ver
como est o Pedro, Coitado, iam dando cabo dele. Arrumaram
Dois Cavalos numa rua interior, foram  procura de um

125


restaurante, mas, antes de entrarem, Joaquim Sassa disse,
Durante os exames e os interrogatrios ouvi uma coisa em
que nunca tnhamos pensado, foi s meia palavra mas
bastou, quem se descaiu julgaria que eu no estava com
ateno, Que , At agora, a pennsula, no  pennsula,
mas como diabo havemos de chamar-lhe, tem-se deslocado
praticamente em linha recta, entre os paralelos trinta e seis
e
quarenta e trs, E da, Talvez sejas bom professor em todas
as outras matrias, mas ests fraco em geografia, No
percebo, Percebes j se te lembrares de que os Aores esto
situados entre os paralelos trinta e sete e quarenta, Oh
diabo,
Chama por ele, chama, A pennsula vai chocar com as ilhas,
Exacto, Ser a maior catstrofe da histria, Talvez sim,
talvez no, e, como tu disseste h pouco, tudo isto seria
absurdo se no estivesse a acontecer, agora vamos jantar.
Instalaram-se, escolheram a comida, Joaquim Sassa estava
esfomeado, lanou-se ao po,  manteiga, s azeitonas,
ao vinho, com uma voracidade de que o seu sorriso pedia
desculpa,  a ltima refeio do condenado  morte, foi s
alguns minutos passados que perguntou, E a jogadora de
pau, onde se encontra neste momento, Hospedou-se no
Hotel Borges, o do Chiado, Julguei que vivesse em Lisboa,
Em Lisboa no vive, isso chegou ela a dizer, mas no disse
onde, nem eu lho perguntei, deve ter sido por pensar que
iramos com ela, Fazer o qu, Ver o risco no cho, Tambm
tens dvidas, Dvidas no creio que tenha, mas quero ver
com os meus olhos, e tocar com as minhas mos, Ests
como o homem do burro Platero, entre as serras Morena e
Aracena, Se o que ela afirma  verdade, mais veremos ns
do que Roque Lozano, que no encontrar seno gua
quando chegar ao seu destino, Como sabes tu que ele se
chamava Roque Lozano, no me lembro de lhe termos
perguntado o nome, do burro sim, mas no dele, Devo ter
sonhado, E o Pedro, querer acompanhar-nos, Homem que
sente tremer o cho debaixo dos ps precisa de companhia,
Como homem que tenha sentido oscilar um cho de tbuas,

126

Paz, O pobre Dois Cavalos comea a ser pequeno para tanta
gente, quatro pessoas com bagagem, mesmo de escuteiro,
e est velho, coitado, Ningum consegue viver para alm
do seu ltimo dia, s um sbio, Ainda bem que te conven
ceste, Parecia que as nossas viagens tinham acabado, que ia
cada um para sua casa,  vida de todos os dias, Vamos 
vida destes dias, a ver o que d, Enquanto a pennsula no
bater contra os Aores, Se o fim  esse, at l temos vida
garantida.
Acabaram de jantar, meteram-se ao caminho sem pressa,
no trote curto de Dois Cavalos, na estrada havia pouco
trnsito, seria por causa das dificuldades de abastecimento
de gasolina, o que lhes tem valido  a frugalidade do motor,
Mas no estamos livres de ficarmos parados a em qualquer
parte, ento  que a viagem acaba mesmo, observou Joa
quim Sassa, e subitamente lembrando-se, Por que  que
disseste que os estorninhos se devem ter ido embora, Qual
quer pessoa  capaz de perceber a diferena entre adeus e at
logo, o que eu vi foi um adeus, Mas porqu, No sei dizer,
porm h uma coincidncia, os estorninhos foram-se quando
a Joana apareceu, A Joana,  o nome dela, Podias dizer a
gaja, a tipa, a mida,  assim que o pudor masculino fala
das mulheres quando dizer-lhes o nome seria demasiado
ntimo, Em comparao com a tua sabedoria, a minha ainda
vai nas primeiras letras, mas, como acabaste de verificar, eu
disse o nome dela naturalmente, prova de que o meu ntimo
no tem nada a ver com este caso, Salvo se, afinal, s muito
mais maquiavlico do que mostras, fazendo de conta que
querer provar o contrrio do que de facto pensas ou sentes
para que eu julgue que o que sentes ou pensas  precisa
mente o que s pareces querer provar, no sei se fui claro,
No foste, mas no tem importncia, claridade e obscuridade
so a mesma sombra e a mesma luz, o escuro  claro, o
claro  escuro, e quanto a ser algum capaz de dizer de facto
e exactamente o que sentiu pensa, imploro-te que no
acredites, no  porque no se queira,  porque no se pode,

127


Ento por que  que as pessoas falam tanto,  s o que
podemos fazer, falar, ou nem sequer falar, tudo so
experimentos e tentativas, Foram-se os estorninhos, veio
Joana, foi-se uma companhia, outra veio, podes-te gabar
de seres um homem de sorte, Isso ainda  o que falta
ver.
No hotel havia um recado de Pedro Orce para Joaquim
Sassa, seu companheiro de tormentos, No me despierten,
outro de Joana Carda, telefnico, para Jos Anaio,  tudo
verdade, no sonhou. Por cima do ombro de Jos Anaio, a
voz de Joaquim Sassa pareceu soar escarninha, Dona Olhos
No Sei Bem assegura-te que  real, por isso no percas
tempo a sonhar com ela esta noite. Subiam a escada para os
quartos, Jos Anaio disse, Amanh, logo de manh,
telefono-lhe para lhe dizer que iremos com ela, se ests de
acordo, Estou, e no ligues muito s coisas que eu digo, no
fundo, j se sabe, o que me faz falar  a inveja, Invejar o
que s parece ser,  trabalho perdido, A minha sabedoria
est-me aqui a segredar que tudo s parece, nada , e temos
de contentar-nos com isso, Boas noites, homem sbio,
Felizes sonhos, companheiro.

128

Em to grande segredo que dos preambulares no se
aperceberam, nem por mnima suspeita, as populaes,
vinham os governos e os institutos cientficos preparando a
investigao do movimento sutil que levava a pennsula pelo
mar fora com enigmtica constncia e segura estabilidade.
Saber como e porqu se tinham rachado os Pirentis era
ideia de que j se desistira, esperana em poucos dias
perdida. Apesar da enorme quantidade de informao acu
mulada, os computadores, friamente, pediam novos dados
ou davam respostas disparatadas, como foi o caso do clebre
Instituto Tecnolgico de Massachusetts, onde os programadores
coraram de vergonha ao receberem nos terminais a
sentena peremptria, Demasiada Exposio Ao Sol,
imagine-se. Em Portugal, talvez pela impossibilidade, at
hoje, de expurgar da linguagem quotidiana certos persisten
tes arcasmos, a concluso mais aproximada que pudemos
obter foi, Tantas Vezes Vai O Cntaro  Fonte Que Por Fim
L Fica A Asa, metfora que no fez mais que confundir os
espritos, uma vez que de asa no se tratava, nem de fonte,
nem de cntaro, mas na qual no  difcil descortinar um
factor ou princpio de repetio, que por sua prpria
natureza, dependendo da periodicidade, nunca se sabe aonde vai
parar, tudo depende da durao do fenmeno, do efeito
acumulado das aces, uma coisa assim no gnero de gua
Mole Em Pedra Dura Tanto D At Que Fura, frmula que,

129


curiosamente, nunca foi expressa pelos computadores, e
bem podiam, que entre ela e a outra no faltam semelhanas
de toda a ordem, no primeiro caso o peso pesado da gua no
cntaro, no segundo caso ainda a gua, mas gota a gota, em
queda livre, e o tempo, o outro ingrediente comum.
So filosofias populares sobre as quais poderamos
discorrer infinitamente, mas que ao pessoal cientfico, a
gelogos e oceanlogos, importam pouco. Em inteno dos
espritos simples, a questo admitiria mesmo ser colocada
sob a forma duma pergunta elementar que, na sua ingenuidade,
lembra a do galego  vista do rio Irati quando este se
afundava terra dentro, se esto lembrados, Para onde vai
esta gua, quis ele saber, agora diremos doutra maneira,
Que se passa debaixo desta gua. C fora, com os ps firmes
no cho, olhando os horizontes, ou do ar, onde 
infatigavelmente as observaes continuam, a pennsula  uma
massa
de terra que parece, insista-se no verbo, parece flutuar sobre
as guas. Mas  evidente que no pode flutuar. Para que
flutuasse seria preciso que se tivesse desprendido do fundo,
caso em que inevitavelmente iria parar ao mesmo fundo
desfeita em torres, porque, mesmo supondo que nas
circunstncias agentes a lei da impulso se cumpriria sem
maior
desvio ou vcio, o efeito desagregador da gua e das corren
tes martimas iria, progressivamente, reduzindo a espessura
da plataforma navegante at por completo se dissolver a
placa superficial. Portanto, e por excluso de partes, havemos
de concluir que a pennsula desliza sobre si prpria, a
uma profundidade ignorada, como se horizontalmente se
tivesse dividido em duas lminas, a inferior formando parte
da crosta profunda da terra, a superior, como se explicou j,
escorregando lentamente na escurido das guas, entre nu
vens de lodo e peixes assustados, assim estar navegando
nos abismos, em algum lugar dos oceanos, o Holands
Voador de memria triste. A tese  sedutora e tem mistrio,
com uma pitada mais de imaginao poderia fornecer o mais
fascinante captulo das Vinte Mil Lguas Submarinas. Po
130

rm, estes tempos so outros, a cincia muito mais exigente,
e j que no foi possvel descobrir o que faz deslocar-se a
,pennsula sobre o fundo do mar, ento que v l algum,
com os seus humanos olhos, ver o prodgio, filmar o
arrastamento da grande massa de pedra, gravar, quem sabe,
essa espcie de grito de baleia, esse rangido, esse rasgar
interminvel.  pois a hora dos mergulhadores.
Em apneia, j se sabe, no se pode descer muito fundo
nem por muito tempo. Vai o -pescador de prolas, ou de
esponjas, ou de corais, mergulha at cinquenta metros, e
mesmo setenta, para os ases, aguenta-se trs ou quatro
minutos,  tudo questo de treino e necessidade. Aqui so
outras as profundidades, e as guas bem mais frias, mesmo
resguardando-se o corpo com esses fatos de borracha que
transformam qualquer pessoa, homem ou mulher, num trito
negro com listas e pintas amarelas. Recorrer-se- ento aos
escafandros, s botijas de ar comprimido, e, com estas mais
recentes tcnicas e aparelhagens, usando de mil e um cuidados,
se podero alcanar fundos da ordem dos duzentos ou
trezentos metros. Da para baixo ser melhor no tentar a
sorte, mandam-se mquinas sem tripulao, recheadas de
cmaras de filmar e de televiso, sensores, sondas tcteis e
ultrassnicas, todo o ferramental adequado aos fins em vista.
Discretamente,  mesma hora, para benefcio do con
fronto dos resultados da observao, comearam as operaes
nas costas norte, sul e oeste, sob o disfarce de manobras
navais no mbito dos programas de treino da Organiza
o do Tratado do Atlntico Norte, para que o anncio da
investigao no suscitasse novos movimentos de pnico,
porquanto, at agora, e inexplicavelmente, a ningum do
comum ocorrera que a pennsula pudesse estar a escorregar
sobre o que fora seu milenrio soco.  altura de revelar que
os sbios andam a esconder uma outra angustiante inquieta
o, a qual decorre, por assim dizer fatalmente, desta
mesma tese que props a hiptese do corte horizontal pro
fundo, e que se pode resumir nesta outra pergunta de terrvel

131


simplicidade, Que acontecer quando se interpuser no caminho
da pennsula uma fossa abissal, deixando de existir,
portanto, uma superfcie contnua de deslizamento. Recorrendo,
como sempre  desejvel para uma melhor apreenso
dos factos,  nossa prpria experincia, de banhistas neste
caso, compreenderemos perfeitamente o que tal significar
se nos lembrarmos do que acontece, em pnico e aflio,
quando inesperadamente se perde o p e a cincia natatria 
,insuficiente. Perdendo a pennsula o p, ou os ps, ser o
inevitvel mergulho, o afundamento, o sufoco, a asfixia,
quem diria, aps tantos sculos de vida mesquinha, que
estvamos fadados para o destino da Atlntida.
Poupemo-nos aos pormenores que um dia viro a ser
divulgados para ilustrao de quantos se interessam pela
vida submarina e que, por enquanto em regime de segredo
total, se encontram nos dirios de bordo, actas confidenciais
e mais registos, alguns cifrados. Limitemo-nos a dizer que a
plataforma continental foi minuciosamente examinada, sem
resultado. Nenhuma fenda se encontrou, salvo as de nascena,
nenhum roar anormal foi percebido pelos microfones.
Frustrada esta primeira expectativa, passou-se aos abissos.
As gruas desceram os engenhos preparados para as grandes
presses, os quais, no profundo e silencioso mar, procuraram
procuraram e nada encontraram. O Archimde, obra
-prima da investigao submarina, manipulado pelos franceses
seus proprietrios, baixou aos mximos fundos perifri
cos, da zona euftica para a zona pelgica, e desta para a
zona batipelgica, usou faris, pinas, apalpadores
electrnicos, sondas de vrios tipos, varreu o horizonte
subaqutico
com o sonar panormico, em vo. As longas vertentes, as
escarpas declivosas, os precipcios verticais, exibiam-se na
sua soturna majestade, na sua intocada maravilha, os
instrumentos iam registando, com muitos cliques e luzes a
acender
e a apagar, as correntes ascendentes e descendentes,
fotografavam os peixes, os bancos de sardinhas, as colnias de
pescadas, as brigadas de atuns e bonitos, as flotilhas de

132

carapaus, as armadas de peixes-espadas, e se o Archimde
transportasse no seu bojo um laboratrio apetrechado com os
necessrios reagentes, solventes e mais tralha qumica, indi
vidualizaria os elementos naturais que esto dissolvidos nas
oceanicas guas, a saber, por ordem decrescente de
quantidades, e para abono cultural de uma populao que nem
sonha existir tanta coisa no mar em que se banha, cloro,
sdio, magnsio, enxofre, clcio, potssio, bromo, carbono,
estrncio, boro, silcio, flor, argon, azoto, fsforo, iodo,
brio, ferro, zinco, alumnio,' chumbo, estanho, arsnico,
cobre, urnio, nquel, mangansio, titnio, prata, tungst
nio, ouro, que riqueza, meu Deus, e as faltas que temos em
terra firme, s, no se consegue alcanar a fenda que viria
explicar o fenmeno que, aos olhos de toda a gente,,afinal,
se produz, patenteia e prova. Desesperado, um sbio norte
_americano, e dos ilustres, foi ao extremo de proclamar no
convs do navio hidrogrfico, contra os ventos e os horizon
tes, Declaro que  impossvel que a pennsula esteja a
mover-se, mas um italiano, ainda que muito menos sbio,
porm reforado pelo precedente histrico e cientfico,
murmurou, mas no to baixo que o no ouvisse aquele
providencial ser que tudo escuta, E pur si muove. De mos
vazias, speras de sal, humilhadas de frustrao, os governos
limitaram-se a publicar que, sob os auspcios das Naes
Unidas, se procedera a um exame das eventuais alteraes
introduzidas pela deslocao da pennsula no habitat das
espcies pisccolas. No foi caso de parir a montanha um
rato, mas sim de dar o oceano  luz uma petinga.
Ouviram os viajantes a informao  sada de Lisboa e
no lhe ligaram importncia, introduzida que fora a notcia
entre outras que se referiam igualmente ao afastamento da
pennsula e que, de importncia, tambm no pareciam ter
mui ta. Uma pessoa habitua-se a tudo, os povos ainda com
mais facilidade e rapidez, afinal  como se agora viajsse
mos num imenso barco, to grande que at seria possvel
viver nele o resto da vida sem lhe ver proa ou popa, barco

133


no era a pennsula quando ainda estava agarrada  Europa e
j muita era a gente que de terras s conhecia aquela em que
nascera, digam-me ento, por favor, onde est a diferena.
Agora que Joaquim Sassa e Pedro Orce parecem estar
definitivamente livres do furor analtico da cincia e no
haver mais que temer das autoridades, poderia regressar
cada qual a sua casa, e tambm Jos Anaio, de quem os
estorninhos se desinteressaram de modo inesperado, mas
esta aparecida mulher, por assim dizer, veio fazer voltar
tudo ao princpio, como de todas elas, alis,  apanagem,
ainda que nem sempre desta radical maneira. Foi aps um
encontro naquele mesmo jardim, onde na vspera tinham
estado Joana Carda e Jos Anaio, que os quatro decidiram,
aps novo exame dos factos, juntar-se para a viagem que os
levar ao lugar assinalado com o risco no cho, um entre
esses que todos ns temos vindo a fazer na vida, mas nico
em suas caractersticas, a acreditar no agente e na
testemunha, coincidentes em uma s pessoa. Joana Carda ainda
no
revelou o nome do lugar ou sequer duma cidade prxima
dele, limitou-se a dar a direco geral, Vamos para o norte,
pela auto-estrada, depois indico o caminho. Discretamente
Pedro Orce puxara Jos Anaio de lado para lhe perguntar se
achava bem irem assim  aventura, cegamente entregues ao
alvedrio duma estouvada de pau na mo, se no seria isto
uma armadilha, um rapto, uma ardilosa manha, De quem,
quis Jos Anaio saber, Isso no sei eu, podem estar a
querer levar-nos para o laboratrio de um sbio louco, como
se v nas fitas, um frankenstein qualquer, respondeu Pedro
Orce j a sorrir, Alguma razo h para tanto se falar das
i maginaes andaluzas, fervem em pouca gua, comentou
Jos Anaio, No  a gua que e pouca, o lume  que 
muito, respondeu Pedro Orce, Deixa l, rematou Jos Anai
o, o que tiver de ser ser, e aproximaram-se dos outros,
que tinham principiado um debatimento mais ou menos
assim, No sei por que aconteceu, a vara estava no cho,
agarrei-a e fiz o risco, Pensou depois que seria uma varinha

134

de condo, Para varinha pareceu-me grande, e as varinhas
de condo sempre ouvi dizer que so feitas de prata e cristal,
com uma estrela na ponta, a brilhar, Sabia que a vara era de
negrilho, Eu de rvores conheo pouco, mas, para o caso,
acho que um pau de fsforo teria causado o mesmo efeito,
Por que diz isso, O que tem de ser, tem de ser, e tem muita
fora, no se pode resistir-lhe, Acredita na fatalidade,
Acredito no que tem de ser, Ento est como o Jos Anaio,
disse Pedro Orce, ele tambm acredita. A manh, com um
ventinho que parecia um sopro a brincar, no prometia um
dia quente. Vamos, perguntou Jos Anaio, Vamos, respon
deram todos, incluindo Joana Carda, que os viera buscar.
A vida est cheia de pequenos acontecimentos que parecem ter
pouca importncia, outros h que num certo momen
to ocuparam a ateno toda, e quando mais tarde,  luz das
suas consequencias, os reapreciamos, v-se que destes es
moreceu a lembrana, ao passo que aqueles ganharam ttulo
de facto decisivo ou, pelo menos, malha de ligao duma
cadeia sucessiva e significativa de eventos em que, para dar
o exemplo de que se est  espera, no ter realmente lugar
esta azfama de tira-e-pe, aparentemente to justificada em
si mesma, que  a arrumao das bagagens de quatro
pessoas num automvel to pequeno como Dois Cavalos.
A difcil operao absorve as atenes de todos, cada um
sugere, prope e faz por ajudar, mas a questo principal
latente em toda esta agitao, que determina porventura at
a disposio ocasional dos quatro em redor do carro,  a de
saber-se ao lado de quem vai Joana Carda viajar. Que deva
Joaquim Sassa conduzir Dois Cavalos, bem est, no princ
pio duma viagem o carro deve ser sempre conduzido pelo
seu dono, trata-se de um ponto indiscutvel que envolve
prestgio, prerrogativa e sentido de posse. O condutor
alternativo, chegando a ocasio, ser Jos Anaio, uma vez que
Pedro Orce, no tanto pela idade mas por viver em terras
desterradas e ter ofcio de balco, nunca se aventurou em
complexas mecnicas de volante, pedal e alavanca, e a

135


Joana Carda  cedo para perguntar se sabe guiar. Apresentados
assim os dados do problema, parece que deveriam estes
dois viajar no banco de trs, indo  frente, logicamente,
piloto e co-piloto. Mas Pedro Orce  espanhol, Joana Carda
portuguesa, nenhum deles fala a lngua do outro, alm disso
acabaram agora mesmo de conhecer-se, l mais para diante
no diremos que no, quando houver outra familiaridade.
O lugar ao lado do condutor, embora para os supersticiosos,
com o apoio dos factos da experincia, seja chamado o lugar
do morto,  geralmente considerado lugar de distino,
devendo por isso ser oferecido a Joana Carda, a quem
Joaquim Sassa daria a direita, e indo os homens restantes
para trs, e no se entenderiam mal, depois de tantas
aventuras vividas em comum. Mas o pau de negrilho 
grande de mais para ir  frente, e Joana Carda por nada
deste mundo se separaria dele, conforme todos j compreen
deram. Ora, no havendo outras alternativas, ir Pedro Orce
 frente, e por duas razes explicveis, qual delas a de maior
excelncia, primeiro, como j foi mencionado, por ser de
distino o lugar, segundo, porque, afinal, sende- Pedro Orce
o mais velho dos que aqui esto,  tambm o que mais perto
estar de morrer, por aquilo a que, com negro humor,
chamamos lei natural da vida. Mas o que verdadeiramente
conta, por cima destes raciocnios bifurcados,  que Joana
Carda e Jos Anaio querem ir juntos no banco de trs, e em
movimentos, pausas e aparentes distraces alguma coisa
fizeram para isso. Sentemo-nos, pois, e partamos.
A viagem no teve histria,  o que sempre dizem os
narradores apressados quando julgam poder convencer-nos
de que nos dez minutos ou dez horas que vo fazer sumir
nada sucedeu que merecesse meno assinalvel.
Deontologicamente, seria bem mais correcto, e outra lealdade,
dizer
assim, Como em todas as viagens, sejam quais forem dura
o e percurso, aconteceram mil episdios, mil palavras, mil
pensamentos, e quem disse mil diria dez mil, mas o relato j
vai arrastado, por isso tomo licena de abreviar, usando trs

136

linhas para andar duzentos quilmetros, fazendo de conta
que quatro pessoas dentro de um automvel viajaram caladas,
sem pensamento nem movimento, fingindo elas, em fim,
que da viagem feita no fizeram histria. Neste nosso caso,
por exemplo, seria impossvel no encontrar alguma signifi
cao no facto de ter Joana Carda, com toda a naturalidade,
acompanhado Jos Anaio quando ele foi ocupar o lugar de
Joaquim Sassa, a quem apeteceu descansar do volante, e de,
no se sabe por que ginsticas, ter ela conseguido acomodar
o pau de negrilho  frente, sem embarao para a conduo
nem prejuzo da visibilidade. E torna-se agora intil dizer
que ao voltar Jos Anaio para o banco de trs foi Joana
Carda com ele, e assim passou a ser sempre, onde estava
Jos, Joana estava, embora nenhum deles, por enquanto,
saiba dizer porqu e para qu, ou, sabendo-o j, no se
atreveriam, cada momento tem o seu sabor prprio, e o
deste ainda no se esgotou.
Viam-se poucos automveis abandonados na estrada, e
esses, invariavelmente, estavam incompletos, faltavam-lhes
as rodas, os faris, os retrovisores, os limpa-vidros, uma
porta, todas as portas, os bancos, alguns dos carros apareciam
reduzidos  simples casca, como caranguejos sem
miolo. Mas, certamente por causa das dificuldades do
abastecimento de gasolina, o trnsito era escasso, s de longe
em
longe passava um carro. Tambm saltavam  vista certas
incongruncias, como seguir pela auto-estrada uma carroa
puxada por um burro, ou uma esquadra de ciclistas cujas
velocidades mximas possveis, ficariam muito aqum da
velocidade mnima que os sinais respectivos inutilmente
continuavam a impor, indiferentes ao dramtico significado
da realidade. E tambm havia gente que viajava a p,
geralmente de mochila s costas, ou, rusticamente, com dois
sacos meio ligados pelas bocas e postos sobre o ombro, 
laia de alforje, as mulheres de cesta  cabea. Muitas eram
as pessoas que viajavam sozinhas, mas tambm havia famlias,
aparentemente completas, com velhos, e novos, e

137


inocentes. Quando l adiante Dois Cavalos teve de sair da
auto-estrada, a frequncia destes caminheiros s diminuiu na
proporo da menor importncia viria do caminho. Por trs
vezes quis Joaquim Sassa perguntar s pessoas para onde
iam, e de todas a resposta foi a mesma, Vamos por a, a ver
o mundo. No podiam elas ignorar que o mundo, o mundo
imediato, em rigor, estava agora mais pequeno do que fora,
talvez por isso mesmo se tornara realizvel o sonho de
qonhec-lo todo, e quando Jos Anaio perguntou, Mas,
ento, a sua casa, o seu trabalho, respondiam tranquila
mente, A casa l ficou, o trabalho h-de arranjar-se, so
coisas de mundo velho que no devem atrapalhar o mundo
novo. E v l que, por mais discretas ou ocupadas com a sua
prpria vida, as pessoas no devolveram a pergunta, havia
de ser bonito ter de responder-lhes, Vamos com esta senhora
ver um risco que ela fez no cho com este pau, e sobre a
questo laboral fariam triste figura, diria Pedro Orce talvez,
Deixei mal amparados os meus doentes, e Joaquim Sassa,
Ora, ora, empregados de escritrio  o que mais se encontra,
no fao falta, alm disso encontro-me no gozo de mereci
das frias, e Jos Anaio, Estou no mesmo caso, se agora
fosse para a escola no encontraria l alunos, daqui at
Outubro todo o tempo  meu, e Joana Carda, De mim no
falarei, se at agora ainda no falei a estes com quem viajo,
muito menos a desconhecidos.
Tinham passado a cidade de Pombal quando Joana Carda
disse, A adiante h uma estrada para Soure, seguimos por
ela, depois que tinham deixado Lisboa foi esta a primeira
indicao dada de um destino concreto, at agora parecia
-lhes terem viajado no meio de um nevoeiro, ou, adequando
esta situao particular s circunstncias gerais, tinham sido
como antigos e inocentes navegantes, no mar estarnos, o
mar nos leva, para onde nos levar o mar. J estavam perto
de o saber. No pararam em Soure, meteram por estradas
estreitas que se cruzavam, bifurcavam e trifurcavam, e
algumas vezes pareciam rodar sobre si prprias, at que

chegaram a uma aldeia que  entrada anunciava o seu nome
numa tabuleta, Ereira, e Joana Carda disse,  aqui.
Num sobressalto, Jos Anaio, que era quem ento
conduzia Dois Cavalos, pisou bruscamente o travo, como
se o risco estivesse ali no meio da estrada e ele prestes o
fosse pisar, no que houvesse perigo de destruir-se a prova
fabulosa, indestrutvel no dizer de Joana Carda, mas por
aquela espcie de temor sagrado que acomete mesmo os
mais cpticos quando a rotina se quebra como se quebrou
um fio por onde amos fazendo escorregar a mo, confiados
e sem responsabilidades, a no ser as de conservar, reforar
e prolongar o dito fio, e tambm a mo at onde for
possvel. Joaquim Sassa olhou para fora, viu casas, rvores
por cima de telhados, campos rasos, adivinham-se os alaga
dios, os arrozais,  o suave Mondego, antes ele que uma
penha agreste. Fosse este pensamento de Pedro Orce e 
histria infalivelmente viriam D. Quixote e a sua triste
figura, a que tem e a que fez, em couro, aos saltos como
doido no meio dos penhascos da serra Morena, seria um
despropsito trazer tais episdios da andante cavalaria 
colao, por isso Pedro Orce, ao sair do carro, limita-se a
comprovar, de p no cho, que a terra continua a tremer.
Jos Anaio deu a volta a Dois Cavalos, foi abrir, cavaleiro,
a porta do outro lado, finge que no v o sorriso irnico e
benvolo de Joaquim Sassa, e tendo recebido de Joana
Carda o pau de negrilho estende-lhe a mo para a ajudar a
sair, ela d-lhe a sua, apertam-se uma  outra mais do que
o necessrio para garantir a segurana do apoio, mas no  a
primeira vez, a primeira, e nica at agora, foi no banco de
trs, um impulso, porm no disseram ento, e agora no
dizem, uma palavra mais alta, ou mais baixa, que com fora
igual se aperte na palavra do outro.
A hora  de explicaes,  verdade, mas outras, requere
-as a pergunta de Joaquim Sassa, como o capito do barco
que ao abrir a carta-de-prego suspeita que lhe vai sair um
papel em branco, E agora, Agora vamos por este caminho,

139


respondeu Joana Carda, e enquanto formos andando direi de
mim o que falta dizer, no que isso importe muito  razo
que aqui nos trouxe, mas porque no faria qualquer sentido
continuar a ser uma desconhecida para quem me acompa
nhou at aqui, Podia t-lo dito antes, em Lisboa, ou durante
a viagem, observou Jos Anaio, Para qu, ou vinham
comigo por acreditarem numa palavra s, ou essa palavra
precisaria de muitas outras para convencer, e ento de pouco
valia, Como prmio de termos acreditado nela, A mim  que
compete escolher o prmio e a hora de o dar. A isto no quis
Jos Anaio responder, disfarou, ps-se a olhar uma linha
de choupos ao longe, mas ouviu o murmrio de Joaquim
Sassa, Que menina.. Joana Carda sorriu, Menina j no sou '
nem a virago que lhe pareo ser, No direi virago,
Autoritria, senhora do seu nariz, pernstica, perliquitete,
Credo, o
que a vai, diga misteriosa e basta, Porque h um mistrio,
porque no traria aqui ningum que no acreditasse sem ver,
mesmo vocs, em quem tambm os outros no acreditam,
Agora j nos vo fazendo esse favor, Mais afortunada fui
eu, que s precisei de dizer uma palavra, Oxal agora no v
precisar de muitas. Este dilogo foi todo entre Joana Carda e
Joaquim Sassa, perante a dificuldade de entendimento de
Pedro Orce e a impacincia mal disfarada de Jos Anaio,
excludo dele por sua prpria culpa. Mas esta curiosa situa
o, repare-se, apenas repete, com as diferenas que sempre
distinguem as situaes que se repetem, aquela de Granada,
quando Maria Dolores falou com um portugus e teria
preferido falar com o outro, porm, neste caso de agora,
haver tempo para esclarecer tudo, aguado no ficar quem
verdadeira sede tiver.
Vo j pelo caminho, que  estreito, Pedro Orce 
obrigado a ir atrs, os outros lhe explicaro depois os casos,
se a espanhol interessam realmente vidas de portugueses.
No vivo nesta aldeia de Ereira, comeou Joana Carda, a
minha casa era em Coimbra, s aqui estou desde que me
separei do meu marido, h um ms, os motivos, de que

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adiantaria falar de motivos, s vezes basta um s, outras
vezes nem juntando todos, se as vidas de cada um de vocs
no vos ensinaram isto, coitados, e digo vidas, no vida,
porque temos vrias, felizmente vo-se matando umas s
outras, seno no poderamos viver. Saltou uma regueira
larga, os homens seguiram-na, e quando o grupo se recom
ps, agora pisando um cho macio e arenoso, de terra que as
cheias assorearam, Joana Carda continuou a falar, Estou em
casa de uns parentes, queria pensar, mas no o balance do
costume, terei feito bem, terei feito mal, o feito feito est,
queria era pensar na vida, para que serve, para que servi eu
nela, sim, cheguei a uma concluso e julgo que no h
outra, no sei como a vida . V-se na cara de Jos Anaio e
Joaquim Sassa que vo desorientados, a mulher que desceu 
cidade de pau na mo a proclamar impossveis actos de
agrimensora saiu-lhes filsofa nos campos do Mondego, e
da espcie negativa, ou, mais complicada ainda, dessa
categoria especial que diz sim quando disse no, que dir
no quando sim tiver dito. Jos Anaio, que recebeu preparo
de professor, est habilitado a perceber melhor estas contra
dies, no  o caso de Joaquim Sassa, apenas as pressente,
por isso o incomodam duplamente. Prossegue Joana Carda,
agora parada porque est perto do local aonde quer conduzir
os homens, e ainda lhe falta alguma coisa para dizer, outras
que houver ficaro para outra altura, Se fui a Lisboa
procur-los, no ter sido tanto por causa dos inslitos a que
esto ligados, mas porque os vi como pessoas separadas da
lgica aparente do mundo, e assim precisamente me sinto
eu, teria sido uma desiluso se no tivessem vindo comigo
at aqui, mas vieram, pode ser que alguma coisa ainda tenha
sentido, ou volte a t-lo depois de o ter perdido todo, agora
acompanhem-me.
 uma clareira afastada do rio, um crculo com freixos
ao redor que parece nunca ter sido cultivado, stios destes
so menos raros do que se imagina, pomos nele um p e o
tempo parece suspender-se, o silncio cala-se doutra manei
141


ra, a aragem sente-se toda no rosto e nas mos, no, no se
trata de bruxedos e feitios, no  lugar de aquelarres ou
porta para outro universo,  s por causa daquelas rvores
em crculo e do cho que est como intocado desde o
comeo do mundo, apenas veio a areia e o tornou brando,
mas por baixo o hmus pesa, a culpa de tudo isto  de quem
plantou as rvores assim. Joana Carda termina a sua
explicao, Era para aqui que eu vinha pensar na minha vida,
no 
deve haver no mundo lugar mais sossegado, mas tambm
inquieto, no precisam de mo dizer, mas se aqui no
tivessem vindo no poderiam compreender, e um dia, faz
hoje precisamente duas semanas, quando atravessava a clareira
de um lado para o outro, para me ir sentar  sombra de
uma rvore alm, encontrei este pau, estava no cho, nunca
o tinha visto antes, viera c no dia anterior e ele no
estava,
parecia que algum o havia pousado cuidadosamente, e no
se viam sinais de passos, as pegadas que esto a ver so
minhas, ou antigas, de antigas pessoas que por aqui passaram
h muito tempo. Esto na orla da clareira, Joana Carda
retm ainda os homens, so as ltimas palavras, Levantei o
pau do cho, sentia-o vivo como se ele fosse toda a rvore
de que tinha sido cortado, ou assim o sinto agora quando me
lembro, e nesse momento, num gesto que mais foi de
criana do que de pessoa adulta, tracei um risco que me
separava de Coimbra, do homem com quem vivi, definitiva
mente, um risco que cortava o mundo em duas metades,
v-se daqui.
Avanaram para o interior do crculo, aproximaram-se, o
risco l estava, vivo, como se tivesse sido acabado de traar,
a terra apartada para os lados, hmida a da camada inferior
apesar do sol quente. Agora esto calados, os homens no
sabem que dizer, Joana Carda no tem que acrescentar mais
palavras,  a vez de um acto arriscado que pode tornar em
motivo de escrnio toda a sua histria maravilhosa. Arrasta
o p pelo cho, arrasa o risco como uma rasoira, pisa e
calca,  como um sacrilgio. No instante seguinte, diante

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dos olhos assombrados de todos, o risco refaz-se, recompe
-se exactamente como fora antes, os torres minsculos, os
gros de areia reformam-se, reorganizam-se, reocupam o
seu lugar, e o risco reaparece. Entre a parte que fora
destruda e o resto, para um lado e para o outro, nenhum
sinal se percebe de separao dos efeitos, primeiro e segun
do. Diz Joana Carda, numa voz um pouco estridente de
nervosismo, J varri o risco todo, j lhe deitei gua, aparece
sempre, se quiserem experimentar, at lhe pus pedras em
cima, quando as tirei voltou tudo  mesma, experimentem
para poderem acreditar. Joaquim Sassa baixou-se, enterrou
os dedos no cho fofo, arrancou um punhado de terra,
lanou-o para longe, e acto contnuo o risco restabeleceu-se.
Foi a vez de Jos Anaio, mas esse pediu a vara a Joana
Carda, fez com ela um risco profundo ao lado do primeiro,
depois pisou-o em todo o comprimento. O risco no se
refez. Faa voc agora o mesmo, disse Jos Anaio a Joana
Carda. A ponta da vara cravou-se no cho, foi arrastada,
abriu uma ferida longa, logo fechada como uma cicatriz
defeituosa quando a calcaram, e assim ficou. Disse Jos
Anaio, No  da vara, no  da pessoa, foi do momento, o
momento  que conta. Ento Joaquim Sassa fez o que devia
ser feito, levantou do cho uma das pedras de que Joana
Carda se tinha servido, no peso e no feitio parecia-se com
aquela que atirara ao mar, e usando toda a fora que tinha
lanou-a para longe, o mais que alcanava, caiu onde
naturalmente devia cair, a poucos passos,  s isto o que
pode a fora humana.
Pedro Orce assistira s provas e experincias, mas no
quisera ser parte, talvez por lhe bastar a terra que debaixo
dos seus ps continuava a tremer. Tomou das mos de Joana
Carda a vara de negrilho e disse, Pode parti-la, atir-la
fora,
queim-la, j no serve para nada, a sua vara, a pedra de
Joaquim Sassa, os estorninhos de Jos Anaio, serviram
uma vez, no serviro mais, so como os homens e as
mulheres, que tambm s uma vez servem, tem razo Jos

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Anaio, o que conta  o momento, ns apenas o servimos,
Ser assim, respondeu Joana Carda, mas esta vara ficar
sempre comigo, os momentos no avisam quando vm. Um
co apareceu entre as rvores, do outro lado. Olhou-os
demoradamente, depois atravessou a clareira, era um animal
grande, robusto, de plo fulvo,, de repente numa faixa de sol
pareceu incendiar-se em fogo vivo. Enervado, Joaquim
Sassa atirou-lhe uma pedra, das correntes, No gosto de
ces, mas no lhe acertou. O co parou, nada assustado,
nada ameaador, parou apenas para olhar, no ladrou se
quer. Ao chegar s rvores voltou a cabea para trs, parecia
maior assim visto a distncia, depois afastou-se, a passo, e
desapareceu. Joaquim Sassa quis gracejar, aliviar a sua
prpria tenso, Guarde Joana a vara, pode vir a ser-lhe
precisa se andam por estes lados feras daquele tamanho,
Pelo comportamento, tinha pouco de fera.
Regressaram pelo mesmo caminho, agora havia certas
questes prticas para resolver, por exemplo ' , estando a
fazer-se tarde para regressar a Lisboa, onde vo ficar os
homens, Mas no  nada tarde, disse Joaquim Sassa, mesmo
sem ir a mata-cavalos chegamos a Lisboa a boas horas, de
jantar, Por mim, acharia melhor ficarmos na Figueira da
Foz, ou em Coimbra, amanh tornamos a passar por aqui,
pode ser que Joana precise de alguma coisa, disse Jos
Anaio, e havia uma extrema ansiedade na sua voz, Se
preferes assim, sorriu Joaquim Sassa, e o resto da frase
passou das palavras ao olhar, Bem te percebo, queres pensar
esta noite, queres decidir o que dirs amanh, os momentos
no avisam quando vm. Agora seguem  frente Pedro Orce
e Joaquim Sassa, a tarde est duma to grande suavidade
que a garganta se aperta de uma comoo que no se dirige
a ningum, apenas  luz, ao cu plido, s rvores que no
se movem,  mansido do rio que se adivinha e logo adiante
aparece, um espelho liso e as aves que lentamente o
atravessam. Jos Anaio segura a mo de Joana Carda, e
diz, Estamos do lado de c do risco, juntos, por quanto

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tempo, e Joana Carda respondeu, J no falta muito para o
sabermos.
Quando chegaram perto do automvel viram o co.
Joaquim Sassa agarrou outra vez numa pedra, mas no a
atirou. O animal, apesar do movimento, no se mexera.
Pedro Orce aproximou-se dele, estendeu a mo num gesto
de paz, como para acarici-lo. O co ficou quieto, de cabea
levantada. Tinha na boca um fio de l azul que pendia,
hmido. Pedro Orce passou-lhe a mo pelo dorso, depois
voltou-se para os companheiros, H momentos que avisam
quando chegam, a terra treme debaixo das patas deste co.

145


O homem pe, o co dispe, tanto vale este ditado
novissimo como o antigo, algum nome teremos de dar a
quem em instncia final decide, nem sempre o dos despachos 
Deus, como em geral se acredita. Cometeram-se ali
as despedidas, os homens para a Figueira da Foz, que  mais
cercano, a mulher para casa dos parentes hospitaleiros, mas
quando Dois Cavalos j soltara o travo e comeava a rodar,
foi visto com espanto- geral colocar-se o co diante de Joana
Carda, impedindo-a de avanar. No ladrou, no mostrou os
dentes, o gesto do pau deixou-o indiferente, que de gesto
no passou. O condutor Jos Anaio pensou que a amada
estivesse em perigo, e, outra vez cavaleiro andante, parou
bruscamente o carro, saltou e foi acudir, aco dramtica de
todo inadequada, como logo percebeu, o co, simplesmente,
deitara-se no caminho. Pedro Orce aproximou-se, veio
tambm Joaquim Sassa, este disfarando a antipatia com
uma aparncia de desprendimento, Que quer o bicho, perguntou,
mas ningum sabia responder-lhe, nem mesmo o
prprio. Pedro Orce, como antes fizera, foi para o animal,
ps-lhe a mo sobre a cabeorra. O co cerrou os olhos sob
o afago, duma maneira pungente, se tal palavra tem cabimento,
 de ces que vimos falando, no de pessoas sensveis que
praticam a sensibilidade, e depois levantou-se, fitou os huma
nos um por um, deu-lhes tempo para entenderem e comeou a
andar. Percorreu uns dez metros, parou, ficou  espera.

146

Ora, a experincia tem-nos ensinado, e tambm as fitas e
romances abundaram em iguais demonstraes, a Lassie,
por exemplo, dominava perfeitamente. esta tcnica, diz-nos a
experiencia que um co sempre faz isto quando quer que o
sigamos. No caso presente, mete-se pelos olhos dentro que
dificultou o passo de Joana Carda para obrigar os homens
a sair do carro, e se, agora que esto juntos, lhes mostra o
caminho que, no seu entendimento de co, devem seguir, 
porque, perdoadas nos sejam uma vez mais as repeties,
quer que juntos o sigam. No  preciso ser-se inteligente
como um homem para isto compreender, se um simples co
natural to simplesmente o sabe comunicar. Mas os homens,
de tantas vezes que foram enganados, aprenderam a ser
experimentalistas, certificam-se de tudo, principalmente pela
via da repetio, que  a mais fcil, e quando, como neste
caso, atingiram um nvel cultural mdio, no se contentam
com uma segunda experincia igual  primeira, introduzem
-lhe pequenas variantes que no modifiquem radicalmente os
dados bsicos, exemplificando, foram Jos Anaio e Joana
Carda para o carro, ficaram em terra Pedro Orce e Joaquim
Sassa, agora veremos o que faz o co. Digamos que fez o
que devia. O co, que sabe muito bem que no pode parar
um carro, a no ser metendo-se-lhe  frente, mas isso 
morte certa e nem um s condutor leva to longe o seu amor
pelos animais nossos amigos ao ponto de parar para
assistir-lhe nos seus ltimos momentos ou arredar para a
valeta o
miserando corpo, o co cortou o passo a Joaquim Sassa e
Pedro Orce como antes tinha feito a Joana Carda. Terceira e
decisiva comprovao foi terem entrado os quatro para o
automvel, comear o carro a andar, e porque quis o acaso
que Dois Cavalos estivesse na direco correcta, o co foi
pr-se-lhe  frente, desta vez no para o impedir de avanar,
mas para abrir caminho. Todos estes manejos tm decorrido
sem assistncia de curiosos porque, como outras vezes
aconteceu desde o princpio deste relato, certos importantes
episdios sempre-se deram  entrada ou sada das vilas e ci
147


dades, e no dentro delas, como no geral dos casos acontece,
e isto sem dvida mereceria explicao, porm no somos
competentes de d-la, pacincia.
Jos Anaio travou o carro, o co parou, a olhar ' e Joana
Carda resumiu finalmente, Quer que vamos com ele. Levaram
tempo a perceber uma coisa que j era evidente desde
que o animal atravessou a clareira, digamos que o momento
logo a avisou, mas as pessoas nem sempre esto atentas aos
sinais. E mesmo quando j deixou de haver razo para
dvidas, ainda teimam em resistir  lio,  o que faz
Joaquim Sassa, que pergunta, E por que  que ns havemos
de segui-lo, que disparate  esse de irem quatro pessoas
crescidas atrs dum co vadio que nem sequer traz recado na
coleira, salvem-me, ou a chapinha de identificao, chamo
-me piloto, se algum me achar levem-me ao meu dono,
senhor fulano de tal, ou fulana, em tal parte assim assim,
No te canses mais, disse Jos Anaio, to absurda  esta
histria. como outras que tm vindo a acontecer e que
pareciam no ter sentido, Ainda duvido que o tenham
completo, No te dem cuidado os sentidos completos, isto
disse Pedro Orce, uma viagem no tem outro sentido que
acabar-se, e ns ainda estamos a meio caminho, ou no
princpio dele, quem  que o pode saber, diz-me que fim
tiveste e eu te direi que sentido pudeste ter, Muito bem, e
enquanto esse dia no chega, decidimos qu. Fez-se ali um
silncio. A luz entardece, o dia afasta-se e deixa sombras
dentro das rvores, j se tornou diferente o cantar das aves.
O co vai-se deitar  frente do carro, a trs passos, assenta
a
cabea nas patas dianteiras estendidas, espera sem
impacincia.  ento que Joana Carda diz, Estou pronta a ir
para
onde ele nos levar, se foi para isso que veio, quando
chegarmos ao destino saberemos. Jos Anaio respirou pro
fundamente, no foi um suspiro, embora os haja de alvio,
Eu tambm, foi tudo quanto disse, E eu, ajuntou Pedro
Orce, Uma vez que toda a gente est de acordo, no serei eu
o malvado que vos obrigaria a ir a p atrs do piloto, iremos

148

de companhia, para alguma coisa as frias ho-de servir,
remate de Joaquim Sassa.
Decidir  dizer sim ou no, sopro da boca para fora, as
dificuldades  depois que vm, na parte prtica, como diz a
grande experincia do povo, ganha  custa de tempo e da
pacincia de suport-lo, com poucas esperanas e mudanas
ainda menos. Vamos atrs do co, sim senhor, mas  preciso
saber como, o guia, uma vez que no se sabe explicar, no
pode ir dentro do carro, vira '  esquerda, vira  direita, em
frente sempre at ao terceiro semforo, alm disto, que j 
grave embarao, como caberia um animal deste tamanho
num automvel que leva todos os lugares ocupados, sem
mencionar a bagagem e a vara de negrilho, embora esta mal
se d por ela se vo Joana Carda e Jos Anaio ao lado um
do outro. E por falar de Joana Carda, ainda falta a sua
bagagem, e mais, antes de chegar a arrum-la neste 
automvel  preciso ir busc-la, explicar aos primos a sbita
partida, mas no podem aparecer  porta da casa trs
homens, Dois Cavalos e um co, Vou com eles, seria a voz
da verdade inocente, mas uma mulher que h to pouco
tempo se separou do marido no deve dar mais razes ao
mundo, sobretudo neste meio pequeno como  Ereffia, uma
aldeia, as grandes rupturas esto bem para a capital e
cidades importantes, e mesmo assim s Deus sabe com que
lutas e trabalhos de corpo e sentimento.
O sol j se ps, a noite no tardar, no  hora de
principiar uma viagem para o desconhecido, e Joana Carda
mal faria se desaparecesse sem mais nem menos, disse aos
parentes que ia a Lisboa tratar de um assunto, foi num
comboio e veio noutro. Dificuldades assim parecem ns
-cegos, tanto podem as convenincias da sociedade e da
famlia. Eis seno quando Pedro Orce sai do carro, o co
levantou-se ao v-lo aproximar-se, e ali, no quase lusco
-fusco, ficaram os dois a conversar, pelo menos assim
diramos, apesar de sabermos que este co nem de ladrar 
capaz. Terminado o dilogo, Pedro Orce voltou ao carro e

149


disse, Acho que a Joana j pode ir para casa, o co fica
connosco, resolvam vocs aonde podemos ir dormir e
combinem como e onde nos encontraremos todos amanh.
Ningum ps em dvida a garantia, Joaquim Sassa abriu o
mapa. em trs segundos resolveram que ficariam em
Montemor-o-Velho, no agasalho da modesta penso, E se l
no a houver, perguntou Joaquim Sassa, Vamos para a
Figueira, disse Jos Anaio, alis o melhor ser jogar pelo
seguro, vamos mas  dormir  Figueira, e tu amanh tomas a
camioneta da carreira, esperamos-te ao p do casino, no
parque de estacionamento, -escusado ser dizer que estas
instrues se destinaram a Joana Carda, que as recebeu sem
pr em causa a competncia de quem as dava. Disse Joana
adeus at amanh, e no ltimo instante, quando j tinha um
p no cho, virou-se para trs e beijou Jos Anaio, na boca,
pois ento, no esse disfarce de face ou comissura, foram
dois relmpagos, um de rapidez, outro de choque, mas deste
prolongaram-se os efeitos, o que no seria se o contacto dos
lbios, to doce, se tivesse prolongado. Diriam os primos de
Ereira, se soubessem o que aqui acaba de passar-se, Afinal
no s mais que uma leviana, ns a acreditarmos que o
culpado era o teu marido, paciente deve ele ter sido, um
homem que conheceste ontem, e j o beijas, nem ao menos
deixaste que fosse ele a tomar a iniciativa,  o que uma
mulher sempre deve fazer, porque, enfim,  preciso resguardar
o respeito, e alm disso tinhas dito que ias e vinhas no
mesmo dia, dormiste em Lisboa, fora de casa, no  bonito,
no, o que fizeste, mas a prima, quando toda a gente est
deitada, levanta-se da sua cama e vai ao quarto de Joana
perguntar-lhe como foi, ela diz-lhe que no sabe bem, e 
verdade, Por que fiz eu isto, pergunta Joana Carda enquanto
se afasta sob a densa penumbra das rvores, vai de mos
soltas, assim pode lev-las  boca, como quem retm a
alma. A maleta ficou no carro, j a marcar lugar para o resto
da bagagem, a vara de negrilho est bem entregue,  guarda
de trs homens e um co, este que chamado por Pedro Orce

150

entrou para o carro e se acomodou no lugar de Joana Carda,
quando todos j dormirem na Figueira da Foz, ainda duas
mulheres estaro a conversar numa casa de Ereira, no
segredo da noite, Quem me dera ir contigo, diz a prima de
Joana, casada e mal-maridada.
O dia seguinte amanheceu carregado, no h que fiar no
tempo, ontem aquela tarde que parecia um reflexo do paraso,
lmpida e suave, as rvores brandamente meneando as
ramadas, o Mondego liso como a pele do cu, ningum. diria
aqui que  o mesmo rio, sob as nuvens baixas, o mar
espumando, mas os velhos encolhem os ombros, Primeiro
de Agosto, primeiro de Inverno, dizem eles, muita sorte ter
vindo o dia um atrasado quase um ms. Joana Carda chegou
matutina, mas Jos Anaio j estava  espera dela dentro do
carro, foi assim que os outros dois homens decidiram para
que os namorados pudessem estar ss e conversar antes de
todos se meterem  viagem, em que direco  que ainda
no se sabe. O co passara a noite no abrigo do automvel,
mas agora passeava na praia com Pedro Orce e Joaquim
Sassa, discreto, roando a cabea na perna do espanhol, cuja
companhia particular manifestamente escolhera.
No parque de estacionamento, entre outros automveis
de maior porte, Dois Cavalos no faz grande vulto, e esta 
uma, alm disso, como j foi explicado, a manh est
agreste, ningum anda por aqui, e esta so duas, portanto,
nada mais natural que terem-se logo abraado Jos Anaio e
Joana Carda como se h um ano estivessem separados e
padecessem de saudades desde o primeiro dia. Beijaram-se
em nsia, sfregos, no foi um relmpago mas uma sucesso
deles, as palavras. foram menos,  difcil falar num beijo,
mas enfim, passados minutos, puderam ouvir-se, Gosto de
ti, creio que te amo, disse Jos Anaio honestamente,
Tambm eu gosto de ti, e tambm creio que te amo, por isso
te beijei ontem, no, no  bem assim, no te teria beijado
se no sentisse que te amava, mas posso amar-te muito
mais, Nada sabes de mim, Se uma pessoa, para gostar


doutra, estivesse  espera de conhec-la, no lhe chegaria a
vida inteira, Duvidas que duas pessoas possam conhecer-se,
E tu, acreditas,  a ti que pergunto, Primeiro diz-me que 
conhecer, No tenho aqui um dicionrio, Neste caso, ir ao
dicionrio  ficar a saber o que j se sabia antes, Os
dicionrios s dizem o que pode servir a todos, Repito a
pergunta, que  conhecer, No sei, E contudo podes amar.
Posso amar-te, Sem me conheceres, Assim parece, Esse
apelido de Anaio donde  que te veio, Um av meu
chamava-se Incio, mas l na aldeia trocavam-lhe o nome.
deram em dizer Anaio, com o tempo tornou-se apelido da
famlia, e tu, por que  que te chamas Carda, Em tempos
passados a famlia tinha o apelido de Cardo, mas a uma av
que depois de lhe morrer o marido ficou com a famlia 
custa comearam-lhe a dar o nome de Carda, tinha merecido
bem o seu prprio nome de mulher, Julguei que fosses carda
de prego, Agora j podia ser, e outra coisa, uma vez fui
procurar-me ao dicionrio e vi que carda era tambm um
instrumento de dilacerar as carnes, pobres mrtires,
esfolados, queimados, degolados, cardados,  isso que me
espera.
Se eu voltasse ao nome de cardo no ganharias com a troca,
Sempre picars, No, eu no sou o nome que tenho, Quem s.
ento, Eu. Jos Anaio estendeu a mo, tocou-lhe no rosto,
murmurou, Tu, ela fez o mesmo, em voz baixa repetiu, Tu, e
os olhos arrasaram-se-lhe de lgrimas, ser por estar ainda
sensvel da sua m vida passada, agora, tinha de ser, vai
querer
saber da vida dele, s casado, tens filhos, que fazes, Fui
casado, no tenho filhos, sou professor. Ela respirou profunda
mente, se no foi antes um suspiro, de alvio, depois disse,
sorrindo,  melhor cham-los, coitados, morrem de frio. Jos
Anaio disse, Quando contei ao Joaquim o nosso prim eiro en
contro, quis dizer-lhe a cor dos teus olhos, mas no fui
capaz,
disse cor de cu novo, disse uns olhos no sei bem, e ele
pegou
na palavra, passou a chamar-te assim mesmo, Como, Dona
Olhos No Sei Bem, claro que na tua presena no se atreve,
Gosto do nome. Gosto de ti. e agora temos de cham-los.

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     Um brao acenando, outro ao longe que responde, devagar
pela areia vieram Pedro Orce e Joaquim Sassa, o co
grande e manso entre os dois. Pela maneira de acenar, disse
Joaquim Sassa, correu-lhes bem o encontro, qualquer ouvido
com experiencia de vida no teria dificuldade em reconhecer,
no tom destas palavras, uma contida melancolia, que 
nobre sentimento, disfarada de inveja, ou despeito, para
quem preferir expresso mais trabalhada. Tambm gostas da
rapariga, perguntou Pedro Orce, compreensivo, No, no 
isso, ou at poderia ser, o meu problema  que no sei de
quem gostar e como se faz para continuar a gostar. A esta
declarao toda negativa no soube Pedro Orce que respon
der. Entraram no carro, bons dias, felizes olhos a vejam,
bem-vinda seja a bordo, aonde  que nos levar esta aventura,
frases feitas e joviais, errada a ltima, mais exacta
seria
se a tivessem dito assim, Aonde nos levar aquele co. Jos
Anaio ligou o motor, se est ao volante pode continuar,
manobrou para sair do parque de estacionamento, agora que
fao, volto  direita, volto  esquerda, estava nesta fingida
hesitao, a dar tempo, ento o co rodou sobre si prprio e,
num trote travado mas rpido, to regular que parecia
mecnico, comeou a andar na direco do norte. Com o fio
azul pendurado na boca.
Este foi o dia assinalado em que a j distante Europa,
segundo as ltimas medies conhecidas ia em cerca de
duzentos quilmetros o afastamento, se viu sacudida, dos
alicerces ao telhado, por uma convulso de natureza psicol
gica e social que dramaticamente ps em mortal perigo a sua
identidade, negada, nesse decisivo momento, em seus
fundamentos particulares e intrnsecos, as nacionalidades,
to laboriosamente formadas ao longo de sculos e sculos.
Os europeus, desde os mximos governantes aos cidados
comuns, depressa se tinham acostumado, suspeita-se que
com um inexpresso sentimento de alvio,  falta das terras
extremas ocidentais, e se os novos mapas, rapidamente
postos em circulao para actualizao cultural do popular,

153


ainda causavam  vista um certo desconforto, seria to
-somente por motivos de ordem esttica, aquela indefinvel
impresso de mal-estar que ao tempo h-de ter causado, e
ainda hoje nos causa a ns, a falta de braos na Vnus de
Milos, que este  o nome mais certo da ilha onde foi
encontrada, Ento Milos no  o nome do escultor, No
senhor, Milos  a ilha onde a pobrezinha foi descoberta,
ressuscitou das profundas como Lzaro, mas no se arranjou
um milagre que lhe fizesse crescer outra vez os braos.
Com a continuao dos sculos, se eles continuarem, a
Europa nem se lembrar mais do tempo em que foi grande e
se metia pelo mar dentro, tal como ns, hoje, j no
conseguimos imaginar a Vnus com braos. Claro que no
se podem ignorar os danos e as aflies que vo por esse
Mediterrneo fora, com as mars altas, as cidades ribeirinhas
destrudas na sua franja martima, os hotis que tinham
degraus para a praia e agora no tm praia nem degraus, e
Veneza, Veneza est como um pntano,  uma aldeia palafi
ta ameaada, acabou-se o belo turismo, meus filhos, mas, se
os holandeses trabalharem depressa, em poucos meses a
cidade dos Doges, Aveiro da Itlia, poder reabrir as suas
portas ao pblico ansioso, muito melhorada, j sem perigo
de submerso catastrfica, pois os sistemas de equilbrio
hidrulico comunicante, os diques, as comportas, as vl
vulas de enchimento e descarga, asseguraro um nvel
constante das guas, agora cabe aos italianos a
responsabilidade de reforarem as estruturas inferiores da
cidade para
que ela no venha a enterrar-se tristemente no lodo, o mais
difcil, permita que lho diga, est a ser feito, agradeamo
-lo aos descendentes daquele herico rapazinho que, apenas
com a tenra ponta do dedo indicador, evitou que a cidade de
Harlem desaparecesse do mapa por alagamento e dilvio.
Remediando-se Veneza, tambm para o restante Medi
terrneo se encontrar soluo. Quantas vezes passaram por
aqui peste e guerra, terramotos e incndios, e sempre esta
terra envolvente ressurgiu do p e das cinzas, fazendo do

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amargo sofrimento doura de viver, da tentao barbrica
civilizao, campo de golfe e piscina, iate na marina
edescapotvel no cais, o homem  a mais adaptvel das
criaturas, principalmente quando vai para melhor. Ainda que
no seja lisonjeiro confess-lo, para certos europeus, verem
-se livres dos incompreensveis povos ocidentais, agora em
navegao desmastreada pelo mar oceano, donde nunca
deveriam ter vindo, foi, s por si, uma benfeitoria, promessa
de dias ainda mais confortveis, cada qual com seu igual,
comemos finalmente a saber o que a Europa , se no
restam nela, ainda, parcelas esprias que, mais tarde ou
mais cedo, por qualquer modo se desligaro tambm. Apostemos
que em nosso final futuro estaremos limitados a um s
pas, quinta-essncia do esprito europeu, sublimado perfeito
simples, a Europa, isto , a Sua.
Porm, se h desses europeus, tambm h europeus
destes. A raa dos inquietos, fermento do diabo, no se
extingue facilmente, por mais que se afadiguem os ugures
em prognsticos. Ela  a que segue com os olhos o comboio
que vai passando e entristece de saudade da viagem que no
far, ela  a que no pode ver um pssaro no cu sem
experimentar um apetite de alcinico voo, ela  a que, ao
sumir-se um barco no horizonte, arranca da alma um suspiro
trmulo, pensou a amada que foi de estarem to prximos,
s ele sabia que  de se achar to longe. Foi portanto uma
dessas inconformes e desassossegadas pessoas que pela pri
meira vez ousou escrever as palavras escandalosas, sinal
duma perverso evidente, Nous aussi, nous sonimes ibrics,
escreveu-as num recanto de parede, a medo, como
quem, no podendo ainda proclamar o seu desejo, no
aguenta mais escond-lo. Por ter sido, como se pode ler, na
lngua francesa, julgar-se- que foi em Frana,  caso para
dizer, Pense cada um o que quiser, tambm podia ter sido na
Blgica ou no Luxemburgo. Esta declarao inauguradora
alastrou rapidamente, apareceu nas fachadas dos grandes
edifcios, nos frontes, no asfalto das ruas, nos corredores

155


do metropolitano, nas pontes e viadutos, os europeus fiis
conservadores protestavam, Estes anarquistas so doidos, 
sempre assim, leva-se tudo  conta de anarquismo.
Mas a frase saltou as fronteiras, e depois de as ter
saltado verificou-se que afinal j aparecera tambm nos
outros pases, em alemo Auch wir sind Iberisch, em ingls
We are iberians too, em italiano Anche noi siamo iberici, e
de repente foi como um rastilho, ardia por toda a parte em
letras vermelhas, pretas, azuis, verdes, amarelas, violetas,
um fogo que parecia inextinguvel, em irrlands e flamengo Wij
zijn ook Iberirs, em sueco Vi ocks r iberiska, em
finlands Me myskin olemme iberialaisia, em noruegus Vi
ogs er iberer, em dinamarqus Ogsaa vi er iberiske, em
grego Eniaste beroi ki emes, em frsio Ek Wv Binne
Ibearirs, e tambm, embora com reconhecvel timidez, em
polaco My te~'jeste!~my iberyjczykarni, em blgaro Nie
saclito sme iberiytzi, em hngaro Mi is ibrek vagyunk, em
russo Mi toje iberitsi, em romeno Si noi sintem iberici, em
eslovaco Ai my sme iber'camia. Mas o cmulo, o auge, o
acine, palavra rara que no voltaremos a usar, foi quando
nos muros do Vaticano, pelas venerveis paredes e colunas
da baslica, no soco da Piet de Miguel Angelo, na cpula,
em enormes letras azul-celestes no cho da Praa de So
Pedro, a mesmssima frase apareceu em latim, Nos quoque
iberi sumus, como uma sentena divina no majesttico plural,
um manetecelfares das novas eras, e o papa,  janela dos seus
aposentos, benzia-se de puro espanto, fazia para o espao o
sinal da cruz, inutilmente, que esta tinta  das firmes, dez
congregaes inteiras no bastaro, armadas de palha-d'ao:
lixvia, pedra-pomes e raspadeiras, com reforo de diluentes
vo ter aqui trabalho at ao prximo conclio.
Da noite para o dia a Europa apareceu coberta destas
inscries. Aquilo que ao princpio talvez no tivesse passado
de um mero e impotente desabafo de sonhador, foi
alastrando at tornar-se grito, protesto, manifestao de rua.
O fenmeno comeou por ser menosprezado, as suas expres
156

ses alvo de irriso. Mas no tardou que as autoridades se
inquietassem com um processo que desta vez no podia ser
atribudo a manobras do exterior, ele prprio campo das
aces subversoras, e essa circunstncia poupou, ao menos,
o trabalho de averiguar que exterior seria esse, nominal
mente identificado. Tornara-se moda sarem os contestatrios 
rua com dsticos na lapela ou, mais libertariamente,
colados  frente e atrs, nas pernas, em todas as partes do
corpo e em todas aquelas lnguas, e tambm nos dialectos
regionais, nas diferentes grias, finalmente em esperanto,
mas a este era difcil entend-lo. Uma aco de contrafogo
decidida pelos governos europeus consistiu em organizar
debates e mesas-redondas na televiso, com a principal
participao de pessoas que tinham fugido da pennsula
quando a ruptura se consumou e tornou irreversvel, no
aquelas que l tinham estado como turistas e que, coitadas,
no tinham ganho para o susto, mas os naturais propriamente
ditos, aqueles que, apesar dos apertados laos da
tradio e da cultura, da propriedade e do poder, tinham
virado as costas ao desvario geolgico e escolhido a
estabilidade fsica do continente. Essas pessoas traaram o
negro
quadro das realidades ibricas, deram conselhos, com muita
caridade e conhecimento de causa, aos irrequietos que im
prudentemente estavam a pr em perigo a identidade euro
peia, e concluram a sua interveno no debate com uma
frase definitiva, olhos nos olhos do espectador, em atitude
de grande franqueza, Faa como eu, escolha a Europa.
O efeito no foi particulannente produtivo, a no ser nos
protestos contra a discriminao de que tinham sido vtimas
os partidrios da pennsula, os quais, se a iseno e o
pluralismo democrtico no fossem palavras vs, deveriam
ter estado presentes na televiso para exporem as suas
razes, se as tinham. Compreende-se a precauo. Armados
das razes que a discusso sobre a razo sempre cria, os
jovens, porque eram sobretudo eles quem realizava as
aces mais espectaculares, teriam podido fundamentar com

157



mais convico o seu protesto, tanto na escola como na rua,
e na famlia, no esqueamos. Pode-se discutir se os jovens,
munidos de razes, teriam dispensado a aco directa, caso
em que se concluiria pelo efeito apaziguador da inteligncia,
ao contrrio do que tem sido convico desde o princpio
dos sculos. Pode-se discutir, mas no vale a pena, porque
entretanto foram apedrejados os edifcios da televiso,
saqueadas as lojas que vendiam aparelhos de tv perante o
desespero dos comerciantes que clamavam, Mas eu no
tenho culpa, a sua inocncia relativa de nada lhes valia,
estoiravam as lmpadas como petardos, as caixas eram
empilhadas nas ruas, postas a arder, reduzidas a cinzas.
Vinha a polcia, que carregava, dispersavam-se os insurrec
tos, e neste jogo de empurra se andou por oito dias, at
quele em que estamos, quando da Figueira da Foz partiram,
atrs de um co, trs homens e a mulher de um deles,
que o era no o sendo ainda, ou que ainda no o sendo o era,
quem de acordos e encontros de corao tiver algum
conhecimento entender o anfiguri. Enquanto estes vo viajando
para o norte, Joaquim Sassa at,j disse, Se passarmos pelo
Porto ficamos todos na minha casa, centenas de milhares,
milhes de jovens em todo o continente saram  mesma
hora para a rua, armados no de razes mas de bastes, de
correntes de bicicleta, de croques, de facas, de sovelas, de
tesouras, como se tivessem enlouquecido de raiva, e tambm
de frustrao e dor antecipada, e gritavam, Ns tambm
somos ibricos,. com o mesmo desespero que fazia gemer os
comerciantes, Mas ns no temos culpa.
Quando os nimos tiverem serenado, daqui por dias e
semanas, viro os psiclogos e os socilogos demonstrar
que, no fundo, aqueles jovens no queriam ser realmente
ibricos, o que faziam, aproveitando um pretexto oferecido
pelas circunstncias, era dar vazo ao sonho irreprimvel
que, vivendo tanto quanto a vida dura, tem na mocidade
geralmente a sua primeira irrupo, sentimental ou violenta,
no podendo ser duma maneira  doutra. Entretanto tra
158

varam-se batalhas campais, ou de rua e praa, para falar
com mais rigor, os feridos contaram-se por centenas, houve
trs ou quatro mortos, embora as autoridades tivessem tentado
esconder os tristes casos na confuso e contradio das
notcias, nunca as mes de Agosto chegaram a saber ao certo
quantos foram os seus filhos desaparecidos, pela to simples
razo de no terem sabido organizar-se, h sempre umas
tantas que ficam de fora, estavam ocupadas a chorar o seu
desgosto, ou a tratar do filho que sobejara, ou debaixo do
pai dele a fazer outro filho, por isso  que as mes perdem
sempre. Gases lacrimogneos, carros de gua, bastes, es
cudos e viseiras, pedras arrancadas da calada, tubos das
vedaes, lanas de grades de jardins, eis algumas das
armas empregadas de um lado e do outro, certas novidades
de efeitos mais dolorosamente persuasivos comearam a ser
aqui ensaiadas pelas diferentes polcias, as guerras so como
as desgraas, nunca vem ss, a primeira experimenta, a
segunda aperfeioa, a terceira  para valer, sendo cada uma
delas, consoante donde se comece a contar, terceira, segunda e
primeira. Pata os almanaques de memrias e lembranas ficou a
ltima frase daquele gentil moo holands,
atingido por uma bala de borracha que, por deficincia de
fabrico, sara mais dura que ao, mas a lenda tomar logo
conta do episdio e cada pas jurar que o mocinho era seu,
ficando a bala, claro est, por reivindicar, e a frase no
ofoi
tanto pelo seu significado objectivo, mas por ser bela,
romntica, incrivelmente jovem, e os pases gostam disso,
principalmente tratando-se de causas perdidas, como esta,
Enfim, sou ibrico, e tendo dito, expirou. Sabia este rapaz o
que queria, ou julgava sab-lo, o que,  falta de melhor, faz
as vezes, no era como o Joaquim Sassa, que no sabe de
quem h-de gostar, mas este continua vivo, talvez lhe
chegue o dia, se estiver com ateno  oportunidade.
A manh fez-se tarde, a tarde se far noite, por esta
longa estrada quase cingida ao mar vai o co da guia no seu
trote certo, mas no  galgo corredor, longe disso, mesmo

159


Dois Cavalos, apesar de decrpito, seria capaz de andar
muito mais depressa como o tem provado nos ltimos
tempos, E este andamento no lhe faz bem nenhum,
inquieta-se Joaquim Sassa, agora ao volante, se alguma
avaria sobrevier  fatigada mecnica, que seja nas suas
mos. O rdio, com pilhas frescas, deu notcia dos calamitosos
acontecimentos da Europa e referiu fontes bem informadas,
segundo as quais estariam a ser feitas presses internacionais
sobre os governos portugus e espanhol para porem
cobro  situao, como se nas mos deles estivesse o poder
de realizar tal desiderato, como se ser governo numa penn
sula  deriva fosse, o mesmo que conduzir Dois Cavalos. Os
protestos foram dignamente rejeitados, com msculo orgulho
por banda dos espanhis e feminina altivez pelo lado dos
portugueses, sem desdouro ou vanglria de sexo, anunciando-se
que os primeiros-ministros falaro logo  noite, cada
um na sua terra, claro est, mas concertadamente. O que
tem causado certa perplexidade  a prudncia da Casa
Branca, em geral to pronta a intervir nos negcios do
mundo, onde quer que eles tragam vantagens, havendo
porm quem sustente que os norte-americanos no esto
dispostos a comprometer-se antes de verem aonde  que tudo
isto, literalmente falando, vai parar. Entretanto,  dos
Estados Unidos que tem vindo o abastecimento de carburantes,
com alguma irregularidade,  verdade, mas devemos-lhes
estar gratos por em lugares afastados ainda ser possvel
encontrar gasolina'bomba sim, bomba no. No fossem os
norte-americanos, e estes viajantes teriam de ir a p, se
insistiam em ir atrs do co.
Quando pararam para almoar, o animal ficou fora do
restaurante, sem resistncia, devia ter compreendido que os
seus companheiros humanos precisavam de alimentar-se. No
final da refeio Pedro Orce saiu antes dos outros, trazia uns
restos, mas o co no quis comer, e logo se percebeu
porqu, havia sinais de sangue fresco no plo e ao redor da
boca. Foi caar, disse Jos Anaio, Mas continua com o fio

160

azul, observou Joana Carda, facto este mais singular que o
outro, afinal, o nosso co, se  aquele que julgamos, vive
nesta vida vadia vai para duas semanas, e se atravessou toda
a pennsula a p, dos Pirenus at aqui, e sabe-se l mais
aonde, no deve ter tido quem lhe enchesse regularmente o
prato ou consolasse com um osso. Quanto ao fio azul, pode
ser largado no cho e depois retomado, como um caador
que suspende a respirao para dar o tiro e logo recomea,
naturalmente. Disse Joaquim Sassa, benevolente enfim,
Cozinho bonito, se fores capaz de tratar de ns como
pareces saber tratar de ti, estamos bem entregues  tua
canina competncia. O co sacudiu a cabea, movimento
que no aprendemos a traduzir. Depois desceu  estrada e
recomeou a andar, sem olhar para trs. A tarde est melhor
que a manh, h sol, e o diabo deste co, ou este co do
diabo, retoma o trote infatigvel, de cabea baixa' o focinho
alongado, a cauda no prolongamento do dorso, o plo
ruivo-escuro, De que raa ser, perguntou Jos Anaio, Se
no fosse aquela cauda podia ser filho de perdigueiro e de
pastor, disse Pedro Orce, Aumentou a velocidade, observou
Joaquim Sassa, satisfeito, e Joana Carda, talvez s para no
ficar calada, Que nome lhe tero dado, mais tarde ou mais
cedo,  inevitvel, vamos sempre  questo dos nomes.


O primeiro-ministro falou aos portugueses, e disse,
Portugueses, *durante os ltimos dias, com sbita intensifica
o nas ltimas vinte e quatro horas, tem vindo o nosso pas
a ser alvo de presses, que sem exagero poderei classificar
de inadmissveis, provenientes de quase todos os pases
europeus onde, como  sabido, se tm verificado srias
alteraes da ordem pblica, que se viram subitamente
agravadas, sem qualquer responsabilidade nossa, pela desci
da  rua de grandes massas de manifestantes que, de maneira
entusistica, quiseram exprimir a sua solidariedade com os
pases e povos da pennsula, o que veio evidenciar uma
grave contradio em que se debatem os governos da Europa, a
que j no pertencemos, diante dos profundos movimentos
sociais e culturais desses pases, que veem na aven
tura histrica em que nos achamos lanados a promessa de
um futuro mais feliz e, Para tudo dizer em poucas palavras,
a esperana de um rejuvenescimento da humanidade. Ora,
esses governos, em vez de nos apoiarem, como seria de
monstrao de elementar humanidade e duma conscincia
cultural efectivamente europeia, decidiram tornar-nos em
bodes expiatrios das suas dificuldades internas, intimando
-nos absurdamente a deter a deriva da pennsula, ainda que,
com mais propriedade e respeito pelos factos, lhe devessem
ter chamado navegao. Esta atitude  tanto mais lamentvel
quanto  sabido que em cada hora que passa nos afastamos

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setecentos e cinquenta metros do que so agora as costas
ocidentais da Europa, sendo que os governos europeus, que
no passado nunca verdadeiramente mostraram querer-nos
consigo, vm agora intimar-nos a fazer o que no fundo no
desejam e, ainda por cima, sabem no nos ser possvel.
Lugar indesmentvel de histria e de cultura, a Europa,
nestes dias conturbados, mostra, afinal, carecer de bom
senso. A ns, que conservamos a serenidade dos fortes e dos
justos, compete-nos, como governo legtimo e constitucional
que somos, rejeitar energicamente as presses e as ingern
cias de toda a ordem e de qualquer provenincia, proclamando 
face do mundo que apenas nos deixaremos guiar pelo
interesse nacional e, de modo mais amplo, dos povos e
pases da pennsula, afirmao que posso aqui fazer
solenemente e com inteira segurana, uma vez que os governos
de
Portugal e de Espanha tm trabalhado conjuntamente, e
assim continuaro, no exame e debate das medidas necessrias a
um feliz desenlace dos acontecimentos postos em
marcha desde a histrica ruptura dos Pirenus. Uma palavra
de reconhecimento  devida ao esprito humanitrio e ao
realismo poltico dos Estados Unidos da Amrica do Norte,
graas aos quais se tem mantido a nveis razoveis o
abastecimento de carburantes e tambm de produtos alimen
tares que at agora, no quadro das relaes comunitrias,
importvamos da Europa. Nas condies normais tais, questes
seriam, evidentemente, tratadas atravs dos canais
diplomticos competentes, porm, numa situao de tanta
gravidade, entendeu o governo a que presido que devia dar
conhecimento imediato dos factos a todo o povo, exprimin
do assim a sua confiana na dignidade dos portugueses, que
sabero, como em outras ocasies histricas, cerrar fileiras
em torno dos seus representantes legtimos e do smbolo
sagrado da ptria, oferecendo ao mundo a imagem de um
povo coeso e determinado, num momento particularmente
difcil e delicado da sua histria, viva Portugal.
Foi j nas proximidades do Porto que os quatro viajantes

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ouviram o discurso, entraram num caf que servia tambm
refeies ligeiras e a se demoraram tempo bastante para
verem na televiso imagens das grandes manifestaes e das
cargas da polcia, causava arrepios na espinha ver os
generosos jovens arvorando cartazes e panos onde se lia, nas
lnguas deles, a frase formidvel. Por que ser, perguntava
Pedro Orce, que esto preocupados assim connosco, e Jos'
Anaio, repetindo sem se dar conta, mas mais directamente '
a tese do primeiro-ministro, dizia, Eles esto  preocupados
consigo prprios, provavelmente no saberia explicar melhor
o seu pensamento. Acabaram de comer e saram, desta vez o
co aceitou os restos que Pedro Orce lhe trazia, e, posto
Dois Cavalos em movimento, agora mais devagar porque o
pia mal se distingue l adiante, Joaquim Sassa disse,
A sada da ponte vamos tentar convencer o co a entrar
para o carro, vai atrs, ao colo da Joana e do Jos, no
podemos  andar pela cidade como temos vindo at agora, e
ele, com certeza, no querer continuar a viajar pela noite
dentro.
Resultaram certos os prognsticos e foram satisfeitos os
votos de Joaquim Sassa, assim que percebeu o que queriam
dele o co entrou, lento e pesado deitou-se sobre as pernas
dos viajantes do banco de trs, repousou a cabea no
antebrao de Joana Carda, mas no adormeceu, ia de olhos
abertos, as luzes da cidade deslizavam neles como numa
superfcie de cristal negro. Ficamos em minha casa, disse
Joaquim Sassa, tenho l uma cama larga, e um sof de abrir
onde cabem menos mal duas pessoas se no forem gordas,
um de ns trs, referia-se aos homens, claro,  que ter de
dormir numa cadeira, bom, fico eu que sou o dono da casa,
ou ento vou dormir a uma penso perto. Os outros no
responderam, maneira de mostrar, pelo acatamento silencioso,
que estavam de acordo, ou qui preferissem resolver
mais tarde, em discreto, a melindrosa questo, agora sentia
-se no ar um constrangimento, uma dificuldade de estar,
parecia que Joaquim Sassa fizera de propsito, e era bem

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capaz disso, s para se divertir. Mas dois minutos ainda no
tinham passado e a estava Joana Carda a dizer em voz
clara, Ns ficamos juntos, em verdade est o mundo perdido
se j as mulheres tomam iniciativas deste alcance, antigamente
havia regras, comeava-se sempre pelo princpio, uns
olhares quentes e atractivos por banda do homem, o descer
suave das plpebras da mulher insinuando a mirada frecheira
por entre as pestanas, e depois, at ao primeiro toque de
mos, as coisas eram muito conversadas, havia cartas,
arrufos, reconciliaes, sinais de leno, tosses diplomticas,
claro que o resultado final acabava por ser o mesmo, de
costas na cama a donzela, por cima o galador, com casa
mento ou sem ele, mas nunca por nunca ser este despautrio,
esta falta de respeito diante de um homem de idade, e
ainda dizem que as andaluzas tm o sangue quente, vejam
esta portuguesa, a Pedro Orce que aqui vai nunca nenhuma
disse assim cara a cara, Ns ficamos juntos. Mas os tempos
esto muito mudados, oh se esto, se Joaquim Sassa queria
brincar com os sentimentos alheios saiu-lhe sria a conversa,
e Pedro Orce talvez tenha percebido mal, a palavra juntos
no se diz da mesma maneira em castelhano e em portugus.
Jos Anaio no abriu boca, que havia ele de dizer, faria
uma pssima figura se se mostrasse com suficincias de
gal, pior se se desse ares de escandalizado, o melhor foi
ter-se calado, no  preciso pensar muito para compreender
que s Joana Carda podia ter dito as palavras de compromisso,
imaginemos a grosseria se ele as tivesse dito sem
primeiro a consultar, e mesmo assim, ainda que lhe perguntasse
se estava de acordo, h atitudes que s uma mulher pode tomar,
depende da circunstncia e do momento, 
isso, o momento, aquele exacto segundo que est colocado
entre dois que dariam em erro e desastre. Sobre o dorso do
co esto juntas as mos de Joana Carda e de Jos Anaio,
pelo retrovisor Joaquim Sassa olha-os discretamente, vo a
sorrir, afinal a brincadeira terminou bem, Tem fibra esta
Joana, e Joaquim Sassa sente outra vez a picada da inveja,

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mas a culpa, j confessada,  sua, que no sabe de quem
gostar.
A casa no  nenhum palcio, tem um pequeno quarto de
dormir, interior, uma saleta ainda mais pequena onde est o
sof-cama, a cozinha, a casa de banho,  a morada duma
pessoa solteira, ainda assim com sorte, no tem de andar por
quartos alugados. A despensa est vazia, mas o apetite
confortou-se na ltima paragem. Olham a televiso  espera
doutras notcias, por ora no h reaces das chancelarias
europeias, mas para que no se finjam de desentendidas o
primeiro-ministro tornou a aparecer no ltimo noticirio,
Portugueses, disse ele, o resto tambm j conhecemos.
Antes de se deitarem houve conselho de guerra, no que
fosse preciso tomar decises, essas competiam ao co que
dormitava aos ps de Pedro Orce, mas cada qual ia adiantando
uma suposio, Talvez o fim da viagem seja aqui, dizia
Joaquim Sassa, interessado, Ou mais ao norte, admitia Jos
Anaio, a pensar noutra coisa, Acho que ser mais ao norte,
acrescentou Joana Carda, que pensava no mesmo, mas
Pedro Orce  que teve a palavra justa, Ele l sabe, depois
bocejou, disse, Tenho sono.
Agora j no eram precisas contradanas de quem vai
dormir com quem, Joaquim Sassa abriu o sof-cama ajudado
por Pedro Orce, Joana Carda retirou-se discretamente, 
Jos Anaio ficou uns momentos ainda, sem jeito, fingindo
que no era nada consigo, mas o corao batia-lhe dentro do
peito como um rufo de alarme, ressoava na boca do estma
go, fazia abalar todo o prdio at aos alicerces, embora esta
tremura no se parea nada com a outra, enfim disse, Boas
noites at amanh, e retirou-se,  bem certo que as palavras
nunca esto  altura da grandeza dos momentos. O quarto
fica mesmo ao lado, h uma janela rente ao tecto, maneira
de prolongar a luz do dia, e que nem cortina tem, compreen
de-se, o que parece ser uma falta de recato, a casa  de
pessoa s, mesmo que Joaquim Sassa tivesse esses perverti
dos gostos no poderia espreitar-se a si prprio, diga-se, em

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todo o caso, que seria muito interessante, alm de educativo,
sermos uma vez por outra espreitadores de ns prprios
provavelmente no gostaramos. Com tais precaues oratrias
no se quer insinuar que Joaquim Sassa e Pedro Orce
estejam a pensar em cometer rapazices desta gravidade, mas
aquela janela, agora s fantasma de janela, mal visvel no
escuro da saleta,  perturbadora, desarruma o sangue, como
se tudo isto aqui fosse um quarto nico, uma camarata, uma
promiscuidade, e Joaquim Sassa, deitado de costas, no quer
pensar, mas soergue a cabea da almofada para criar uma
aura de silncio e poder ouvir melhor, tem a boca seca e
resiste heroicamente  tentao de se levantar para ir 
cozinha beber gua e de caminho escutar os murmrios.
Pedro Orce, esse, de cansado, adormeceu logo, virou-se
para o lado de fora, deixou cair o brao sobte o dorso do
co, que ali se tinha ido deitar, o tremor de um  o tremor
do outro, o sono talvez o mesmo. Do quarto no vem um
rudo, nem uma inarticulada palavra, sequer um suspiro, um
gemido sufocado, Que silncio, pensa Joaquim Sassa, e
acha estranho, nem ele imagina at que ponto estranho ,
nem o saber ou imaginar nunca, que estas coisas usam
ficar no segredo de quem as viveu, Jos Anaio entrou em
Joana Carda e ela o recebeu, sem outro movimento, duro
ele, ela suavssima, e assim ficaram, os dedos apertando os
dedos, as bocas a sugarem-se em silncio, enquanto a vaga
violenta lhes sacode o centro do corpo, sem rumor, at 
ltima- vibrao, ao ltimo gotejar subtil, dissemo-lo assim,
discretamente, para que no nos acusem de exibio imode
rada de cenas de coito, feia palavra hoje felizmente quase
esquecida. Amanh, quando Joaquim Sassa acordar, pensar
que aqueles dois tiveram a pacincia de esperar, sabe Deus
com que custo, se Deus sabe destas sublimaes da carne,
esperaram que adormecessem estes, enganado est, que no
instante mesmo em que ele vai cair no sono Joana Carda
recebe outra vez Jos Anaio, agora no iro ser to silen
ciosos como foram, certas proezas so irrepetveis, J de
167


vem estar a dormir, disse um deles, e assim os corpos
puderam desafogar-se, que bem o tinham merecido.
Pedro Orce foi o primeiro a acordar, por uma frincha
estreita da janela tocou-lhe na boca cansada o dedo cinzento
da manh, sonhou ento que uma mulher o beijava, ali como
lutou para que o sonho se mantivesse e durasse, mas os
olhos abriram-se, e os lbios estavam secos, nenhuma boca
deixara na sua boca a verdade -da saliva, a frtil humidade.
O co levantou a cabea, soergueu-se nas mos, e olhou
fixamente Pedro Orce na penumbra espessa do quarto, era
impossvel descobrir donde poderia vir a luz que nas suas
pupilas se reflectia. Pedro Orce afagou o animal, e este,
uma s vez, lambeu-lhe a mo magra. Com os movimentos
acordou Joaquim Sassa, ao princpio sem norte do stio onde
se encontrava, embora fosse aqui a sua prpria casa, seria
por estranhar uma cama onde raramente dormira, e a vizi
nhana. Deitado de costas, com a cabea do co pousada no
peito, Pedro Orce disse, Comea outro dia, que ser que vai
acontecer, e Joaquim Sassa, Talvez ele tenha mudado de
ideias, talvez tenha perdido o sentido depois de dormir,
acontece muitas vezes, a gente dorme, e s isso fez mudar
as coisas, somos os mesmos e no nos reconhecemos. Neste
caso no parecia que tivessem mudado. O co levantara-se
todo, grande, corpulento, e caminhara para a porta fechada.
Via-se-lhe o contorno impreciso, o vulto, a cintilao do,
olhar, Est  nossa espera, disse Joaquim Sassa,  melhor
cham-lo, ainda  cedo para nos levantarmos. O co veio 
voz de Pedro Orce, deitou-se sem resistncia, os homens
agora falavam baixinho, dizia Joaquim Sassa, Vou retirar o
dinheiro que tenho no banco, no  muito, e peo algum
emprestado, E quando ele se acabar, Pode ser que se acabe a
aventura antes de se acabar o dinheiro, Sabemos ns l o
que nos espera, Arranjaremos maneira de viver, sendo
preciso rouba-se, estas palavras disse-as Joaquim Sassa a
sorrir. Mas talvez no venha a ser preciso chegar a tais
extremos de ilegalidade, aqui no Porto ir tambm Jos

168

Anaio  agncia do banco onde guarda as economias, Pedro
Orce trouxe todas as suas pesetas, de Joana Carda  que
nada sabemos quanto ao particular dos recursos, pelo menos
j vimos que no parece mulher para viver de caridades ou a
expensas de macho. Duvida-se  que venham os quatro a
encontrar trabalho, se trabalho exige permanncia, estabili
dade, residncia habitual, quando o seu destino imediato 
andarem atrs de um co que do seu prprio destino espera
mos que alguma coisa saiba, mas este no  o tempo em que
os animais, por falarem, podiam dizer aonde queriam ir, se
no lhes faltassem cordas vocais.
No quarto ao lado dormiam cansados os amantes, nos
braos um do outro, maravilha que infelizmente no pode
durar sempre, e  natural, um corpo  este corpo e no
aquele, um corpo tem um princpio e um fim, comea na
pele e acaba nela, o que est dentro pertence-lhe, mas
precisa de sossego, independncia, autonomia de funcionamento,
dormir abraados exige uma harmonia de encaixes
que o sono de cada um desajusta, acorda-se com o brao
dormente, um cotovelo fincado nas costelas, e ento dizemos
baixinho, reunindo toda a ternura possvel, Meu amor
chega-te para l. Dormem cansados Joana Carda e Jos
Anaio, que a meio da noite uma terceira vez se tinham
juntado, esto no princpio, por isso cumprem a boa regra de
no recusar ao corpo o que o corpo, por suas razes
prprias, reclama. Andando com todo o cuidado Joaquim
Sassa e Pedro Orce saram com o co, foram buscar comida
para o dejejum, Joaquim Sassa chama-lhe pequeno-almoo,
 francesa, Pedro Orce desayuno, mas o apetite comum
resolver a diferena lingustica. Quando regressarem j
Joana Carda e Jos Anaio se tero levantado, ouvimo-los
na casa de banho, a gua do duche corre, felizes estes dois,
e grandes caminhantes, que em to pouco tempo foram
capazes de andar tanto.
Na hora da partida, ainda em casa, puseram-se os quatro
a olhar para o co com o ar perplexo de quem, esperando

169


ordens, duvida tanto da fiadoria delas como da sensatez de
obedecer-lhes. Esperemos que para sair do Porto ele se
confie a ns como se confiou para entrar, disse Joaquim
Sassa, e os outros compreenderam o motivo da observao,
imagine-se que o co Fiel, fiel  sua cisma de seguir em
direco ao norte, lhe dava, aqui na cidade, para meter por
ruas de sentido nico em que o norte fosse precisamente a
direco proibida, no faltariam os conflitos com a polcia,
os acidentes, os entupimentos de trnsito, com todo o povo
do Porto reunido a rir do espectculo. Mas este co no 
um rafeiro qualquer, de paternidade suspeita ou clandestina,
a sua rvore genealgica tem razes no inferno, que, como
sabemos,  o lugar aonde vai dar toda a sabedoria, a antiga
que j l est, a moderna e a futura que ho-de seguir o
mesmo caminho. Por isso, e talvez tambm por ter Pedro
Orce repetido a manigncia de murmurar-lhe ao ouvido
palavras que at agora ainda no conseguimos averiguar, o
co entrou no carro com o mais gatural ar do mundo, o ar de
quem durante toda a vida sempre viajou assim. Mas, aten
o, agora no. pousou a cabea no antebrao de Joana
Carda, agora vai vigilante enquanto Joaquim Sassa conduz
Dois Cavalos pelas curvas e cotovelos das ruas, em todos os
sentidos, algum dado a estas observaes, vendo-os, dir,
Vo para o sul, daqui a pouco emendaria, Vo para ociden
te, ou, Vo para oriente, e estas so as direces principais
ou cardeais, se mencionssemos a rosa-dos-ventos completa
no chegaramos a sair do Porto e da confuso.
H um acordo entre este co e estas pessoas, quatro seres
racionais consentem em deixar-se conduzir pelo instinto
animal, salvo se esto todos eles a ser atrados por um man
colocado ao norte ou puxados pela outra ponta de um fio
azul gmeo deste que o co no larga. Saram da cidade,
sabe-se que a estrada, apesar das curvas, segue na direco
justa, o co d sinais de querer sair, abrem-lhe a porta e ele
a vai, revigorado pelo descanso da noite e pela farta pitana
que em casa lhe serviram. O trote  rapidssimo, Dois

170

Cavalos acompanha-o alegremente, no precisa de morder o
brido de impacincia. Agora a estrada no segue junto ao
mar, vai por terras interiores, s por isso no veremos a
praia onde Joaquim Sassa teve mais fora que Sanso numa
hora da sua vida. Ele prprio o disse,  pena que o co no
tenha querido ir pela costa, mostrava-lhes o stio onde me
aconteceu o caso da pedra, nem mesmo o Sanso da biblia
teria sido capaz de fazer o que eu fiz, mas por modstia
deveria calar-se, maior prodgio foi e continua a ser o de
Joana Carda l nos campos da Ereira, mais enigmtico  o
tremor que Pedro Orce sente, e se aqui  nosso guia terrestre
um co de alm, que diremos dos milhares de estorninhos
que acompanharam durante tanto tempo a Jos Anaio, s o
deixando na hora de principiar-se outro voo.
A estrada sobe, desce, e logo sobe outra vez, e vai
subindo sempre, e quando baixa  apenas para repousar-se
um pouco, no so mui altas estas serras, mas fatigam o
corao de Dois Cavalos que resfolga nas ladeiras, o co vai
adiante, alceiro. Pararam para almoar numa pequena casa
de pasto  beira da estrada, outra vez o co desapareceu para
ir tratar das suas prprias viandas, e quando voltou trazia
sangue na boca, mas a razo j a sabemos, no h mistrio
nenhum, se no tens quem te encha o comedouro, governa
-te com o que encontrares. Novamente a caminho, sempre
para o norte, em certa altura Jos Anaio disse, era a Pedro
Orce que se dirigia, A continuar assim vamos entrar em Es
panha, voltamos  tua terra, A minha terra  a Andaluzia,
Terra e pas so tudo o mesmo, No so, podemos no
conhecer o nosso pas, mas conhecemos a nossa terra, J
alguma vez foste  Galiza, Nunca fui  Galiza, a Galiza  a
terra doutros.
Se l entraro  o que falta ver, porque esta noite ainda
dormiro em Portugal. Registaram-se Jos Anaio e Joana
Carda na penso como marido e mulher, por mais economia
ficaro no mesmo quarto Pedro Orce e Joaquim Sassa, e o
co teve de ir dormir com Dois Cavalos, um animal de to

171


grande porte assustava a dona da casa, No quero uma
avantesma dessas de portas a dentro, fique na rua que  a
sala dos ces, no faltaria mais nada encher-me a casa de
pulgas, Este co no tem pulgas, protestou Joana Carda,
sem resultado, que o ponto essencial no era esse. A meio
da noite levantou-se Pedro Orce da sua cama, fiado de que a
porta da rua no estivesse fechada  chave, e realmente no
estava, foi dormir no automvel duas horas, abraado ao
co, quando no se pode ser amante, neste caso por bvios
impedimentos da natureza, a amizade far as vezes. Pareceu
a Pedro Orce, quando no carro entrou, que o co ganira
baixinho, mas ter sido alucinao sua, das tantas que nos
acontecem quando queremos muito uma coisa, o sbio corpo
apieda-se de ns, simula em si prprio a satisfao dos
desejos, o sonho  isso mesmo, que  que julgam, Se assim
no fosse digam-me c como seramos capazes de aturar esta
insatisfatria vida, o comentrio  da voz desconhecida que
fala de vez em quando.
Quando Pedro Orce voltou para o quarto, o co foi atrs
dele, mas, estando proibido de entrar, deitou-se nos degraus
da porta e a ficou, no h palavras que possam descrever o
susto e os gritos na primeira luz da manh, vinha a
madrugadora dona da penso inaugurar o novo dia de trabalho,
abre
os batentes  frescura da alvorada, e eis que no capacho se
levanta o leo da Nemeia, de fauces escancaradas, era
apenas um bocejo de quem ainda no tinha dormido tudo,
mas at dos bocejos h que desconfiar quando mostram uns
dentes formidveis e uma lngua que, de vermelha, parece
escorrer sangue. Foi tal o escndalo que a sada dos hspe
des teve mais de expulso que de retirada pacfica, j Dois
Cavalos ia alm, quase a virar a esquina, e ainda a dona da
penso se esgoelava na soleira da porta contra a fera calada,
que estas so as piores, a acreditar no ditado que diz, Co
que ladra no morde,  certo que este ainda no mordeu,
mas se a potncia das queixadas estiver na razo directa do
silncio, livre-nos Deus do bicho. Estrada fora, vo os

172

viajantes rindo do episdio, Joana Carda, por solidariedade
feminil, contemporizava. Se eu estivesse no lugar da mulher
tambm levaria um susto, e vocs no se faam de valentes,
sobretudo no sejam corajosos por obrigao, calou fundo o
reparo, cada um dos vares deu balano, em segredo, s
suas cobardias prprias, o caso mais interessante foi o de
Jos Anaio que delas decidiu dar contas -a Joana Carda na
primeira oportunidade, mal vai ao amor se no diz tudo, o
pior  quando o amor acaba, arrepende-se o confesso, e no
 raro que o confessor abuse da confidncia, arranjem-se l
Joana Carda e Jos Anaio para que desta vez no v ser
assim.
A fronteira j no est longe. De habituados que foram
s virtudes escuteiras do guia, no tm os viajantes reparado
na maneira expedita, sem sombra de hesitao ou sequer de
ponderao cautelar, como o Fiel ou Piloto, algum destes ou
outros nomes ser preciso dar-lhe um dia, escolhe o ramo de
bifurcao por onde h-de seguir, e pior que bifurcao
encruzilhada. Ainda que o esperto animal tenha feito esta
mesma caminhada de norte para o sul, e a certeza disso
ningum pode ter, a experincia de pouco lhe servir, se nos
lembrarmos da diferena do ponto de vista, na qual, como
felizmente no ignoramos, tudo reside.  bem certo que as
pessoas vivem ao lado dos prodgios, mas dos prodgios no
chegam a saber nem metade, e sobre a metade conhecida o
mais comum  enganarem-se, principalmente porque querem, 
viva fora, como Deus Nosso Senhor, que esse e os
outros mundos estejam feitos  sua imagem e semelhana,
para o caso pouco importando quem os fez. O instinto
conduz este co, mas no sabemos o qu ou quem conduz o
instinto, e se um destes dias tivermos do estranho caso
apresentado uma primeira explicao, o mais provvel  que
tal explicao no passe de aparncia dela, excepto se da
explicao pudermos ter uma explicao e assim sucessiva
mente, at quele derradeiro instante em que no haveria
nada para explicar a montante do explicado, da para trs

173


supomos que ser o reino do caos, mas no  da formao
do universo que falamos, sabemos ns l disso, aqui s
tratamos de ces.
E de pessoas. Destas que vo atrs de um co a caminho
de uma fronteira que j est perto. Vo sair da terra
portuguesa ao recolher do dia, e de repente, talvez por obra
do lusco-fusco que se aproxima, do conta de que o animal
desapareceu, e logo ficam como crianas perdidas na floresta,
agora que fazemos, Joaquim Sassa aproveita para desdenhar da
fidelidade canina, o que valeu foi a experincia de
vida com que Pedro Orce tem feito o seu sereno saber,
Provavelmente foi atravessar o rio a nado e espera-nos na
margem de alm, se as pessoas andassem realmente atentas
aos elos e valncias que ligam as existncias e as qumicas
teriam logo percebido, referimo-nos a Jos Anaio e Joa
quim Sassa, que as razes de um co podem ser iguais s razes
de mil estorninhos, se o Fiel veio do norte e passou
neste posto, talvez no queira repetir a experincia, sem
coleira nem aaimo, porventura suspeito de raiva, se calhar
correram -no a tiros.
Os guardas-fiscais olham distraidamente os papis,
mandam seguir, v-se que o trabalho no sobrecarrega estes
funcionrios,  verdade que as pessoas, como j tivemos
ocasio de verificar, viajam muito, mas por enquanto  mais
no interior das fronteiras, parece que tm medo de se perder
da sua casa maior, que  o pas, mesmo tendo abandonado a
casa pequena, a do seu prprio e mesquinho viver. No outro
lado do Minho o enfado no difere, que se note s um
lampejo de curiosidade sem fora, por vir com estes portu
gueses um espanhol doutra gerao, se estivssemos em
tempo de mais numerosas entradas e sadas nem em tal se
repararia. Joaquim Sassa andou um quilmetro e encostou
Dois Cavalos  berma do passeio, parou, Vamos esperar
aqui, se o co, como diz Pedro, sabe o que faz, vir
procurar-nos. Nem tiveram tempo de perder a pacincia.
Dez minutos depois o co aparecia-lhes pela frente do carro,

174

com o plo ainda molhado. Pedro Orce tivera razo, e ns,
se no tivssemos duvidado um pouco, teramos ficado na
margem do rio a assistir  corajosa travessia, que com tanto
gosto haveramos de descrever, em vez duma banal passagem de
fronteiras com guardas s diferentes nas fardetas,
Siga, Passe, a isto se resumiu o episdio, mesmo o lampejo
de curiosidade no passou de inveno pobre para estofar a
matria.
Outras melhores invenes viriam agora a jeito para
adornar o que ainda falta de viagem, com duas noites e dois
dias de permeio, dormidas elas em rsticas pousadas, anda
dos eles em estradas de antigamente, para o norte, sempre
para o norte, terras de Galiza e de bruma, com chuviscos
que anunciam o outono,  s o que apetece dizer, e no foi
preciso inventar. O mais seriam os abraos nocturnos de
Joana Carda e Jos Anaio, a insnia intermitente de Joa
quim Sassa, a mo de Pedro Orce no dorso do co, aqui tm
deixado entrar o animal nos quartos e dormir l. E os dias na
estrada, a direito para um horizonte que no se deixa
aproximar. Joaquim Sassa tornou a dizer que tudo isto  uma
loucura, ir atrs de um co idiota at ao fim do mundo, sem
sabermos porqu nem para qu, ao que Pedro Orce respon
deu com certa secura e melindre, At ao fim do mundo no
ser, antes disso chegaramos ao mar. Nota-se que o co j
vai cansado, leva baixa a cabea, descaiu a bandeira do
rabo, e as almofadas das patas, apesar da rijeza da pele,
devem estar doridas da rapao de terra e pedras, logo 
noite ir Pedro Orce examin-las e ver esfoladuras que
sangram, no admira que to secamente tenha respondido a
Joaquim Sassa, o qual observa de parte e diz, como quem
tenta desculpar-se, Uns parches de gua oxigenada  que lhe
fariam bem,  ensinar o padre-nosso ao vigrio, de artes de
farmcia sabe Pedro Orce, no precisa que lhe venham falar
 mo. Porm, com este pouco, ficaram as pazes feitas.
Por alturas de Santiago de Compostela o co derivou
para noroeste. Devia estar perto do seu destino, percebia-se

175


pelo vigor renovado com que trotava agora, pela segurana
dos jarretes, pelo porte da cabea, pela firmeza da cauda.
Joaquim Sassa teve de acelerar um pouco Dois Cavalos para,
acompanhar o andamento, e, porque assim se aproximaram,
quase a tocar o animal, Joana Carda exclamou, Vejam,
vejam o fio azul. Todos viram. O fio no parece o mesmo.
O outro, de sujo que se tornara, tanto j podia ter sido azul
como castanho ou negro, mas 'este brilhava na sua cor
prpria, azul nem do cu nem do mar, quem assim o teria
tingido e dobado, quem o lavara, se o mesmo era, e outra
vez colocara na boca do co, dizendo, Vai. A estrada
tornou-se estreita,  quase apenas um caminho que ladeia as
colinas. O sol vai a descer sobre o mar que daqui ainda no
se v, a natureza  mestra na composio de espectculos
adequados  humana circunstncia, ainda esta manh e
durante a tarde o cu estivera encoberto e triste, peneirando
a morrinha galega, e agora uma luz fulva derrama-se pelos
campos, o co  como uma jia cintilante, um animal de
ouro. At Dois Cavalos no parece o fatigado carro que
conhecemos, e dentro os passageiros so todos formosas
criaturas, d-lhes de frente a luz e vo como bem
-aventurados. Jos Anaio olha Joana-Carda e arrepia-se de
a ver to bela, Joaquim Sassa baixa o retrovisor para ver os
seus prprios olhos resplendentes, e Pedro Orce contempla
as suas'velhas mos, no so velhas, no, saram duma
operao alqumica, tornaram-se imortais, ainda que o resto
do seu corpo tenha de morrer.
Subitamente o co pra. O sol est raso com a cuineada
dos montes, adivinha-se o mar do outro lado. A estrada
desce em curvas, duas colinas parecem estrangul-la l em
baixo, mas  iluso dos olhos e da distncia. Em frente, a
meia encosta, h uma casa grande, de arquitectura simples,
tem um ar de abandono, antigo, apesar de haver sinais de
cultivo nos campos que a rodeiam. Parte da casa est j na
sombra, a luz vai-se amortecendo, parece o mundo todo que
se afunda em desmaio e solido. Joaquim Sassa parou o

176

carro. Todos saram. O silncio ouve-se, vibra como um eco
final, talvez no seja mais que o bater distante das ondas nos
penhascos,  sempre a melhor explicao, at dentro dos
bzios a lembrana interminvel das vagas ressoa, porm
no  este o caso, aqui o que se ouve  o silncio, ningum
deveria morrer antes de conhec-lo, o silncio, ouviste-o,
podes ir, j sabes como . Mas essa hora ainda no chegou
para nenhum destes quatro. Sabem que o seu destino 
aquela casa, aqui os trouxe o co prodigioso, quieto como
uma esttua,  espera. Jos Anaio est ao lado de Joana
Carda mas no lhe toca, compreende que no deve tocar
-lhe, ela compreende-o tambm, h momentos em que
mesmo o amor deve conformar-se com a sua insignificncia,
perdoai que assim reduzamos o extremo dos afectos a quase
nada, ele que em outras ocasies  quase tudo. Pedro Orce
foi o ltimo a sair do carro, pe os ps no cho e sente
vibrar a terra com uma intensidade assustadora, aqui se
partiriam todas as agulhas dos sismgrafos, e estas colinas
parecem elas ondular com o movimento das ondas que alm
no mar se encavalgam umas sobre as outras, empurradas por
esta jangada de pedra, lanando-se contra ela em refluxo das
poderosas correntes que vamos cortando.
O sol escondeu-se. Ento um fio azul ondulou no ar,
quase invisvel na transparncia, como se procurasse apoio,
roou as mos e os rostos, Joaquim Sassa segurou-o, foi
acaso, foi destino, deixemos ficar assim estas hipteses
mesmo havendo tantas razes para no acreditar nem numa
nem noutra, e agora que far Joaquim Sassa, no pode
meter-se no automvel, com a mo de fora a segurar e
seguir o fio, um fio que o vento sustenta e impele no
acompanha obediente o traado das estradas, Que fao com
isto, perguntou, mas os outros no podiam responder, o co,
sim, saiu da estrada e ps-se a descer a encosta suave, foi
atrs dele Joaquim Sassa, a sua mo levantada seguia o fio
azul como se tocasse as asas ou o peito duma ave sobre a
sua cabea. Jos Anaio voltou ao carro com Joana Carda e

177


Pedro Orce, p-lo em movimento, e, devagar, acompa
nhando sempre com os olhos Joaquim Sassa, foi descendo a
estrada, no queria chegar antes dele, e muito depois
tambm no, a harmonia possvel das coisas depende do seu
equilbrio e do tempo em que. acontecem, no cedo de mais,
no tarde de mais, por isso nos  to difcil alcanar a
perfeio.
Quando pararam num terreirio defronte da casa, chegava
Joaquim Sassa a dez passos da porta, que estava aberta.
O co deu um suspiro que parecia humano e deitou-se,
estendendo o pescoo sobre as mos. Com as unhas puxou
da boca o pedao de fio, sacudiu-o para o cho. Do interior
escuro da casa surgiu uma mulher. Tinha na mo um fio, o
mesmo que Joaquim Sassa continuava a segurar. A mulher
desceu o nico degrau da porta, Entrem que devem vir
cansados, disse. Joaquim Sassa foi o primeiro a avanar,
levava enrolada no pulso a ponta do fio azul.

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Um dia passado, contou Maria Guavaira, por uma hora
como esta e a luz como ainda agora estava, apareceu o co,
com ar de vir de muito longe, trazia o plo sujo, as patas
sangravam, veio e deu com a cabea contra a porta, e
quando eu fui abrir, julgando que era um desses mendigos
que vo de terra em terra, que chegando batem com o'
bordo e dizem, Uma esmolinha ao pobrezinho, minha
senhora, o que  que eu vejo, o co, ansiava como se tivesse
vindo a correr do cabo do mundo e o sangue sujava a terra
debaixo das patas, o mais de espantar ainda foi no me ter
eu assustado, e no era o caso para menos, quem no souber
o paz_de-alma que ele  julgar que est ali a mais terrvel
das feras, coitado, assim que me viu deixou-se ir abaixo das
mos, como se s estivesse  minha espera para descansar,, e
parecia que chorava, assim como algum que quisesse falar
e no pudesse, durante o tempo que aqui esteve nunca o
ouvi ladrar, Connosco anda h seis dias e tambm nunca
ladrou, disse Joana Carda, Trouxe-o para casa, curei-o,
tratei dele, no  co vadio, nota-se-lhe no plo, e v-se que
os donos o alimentavam bem, davam-lhe cuidados e aten
o, para perceber a diferena basta comparar com os ces
galegos, que nascem famintos e morrem famintos tendo
vivido famintos, e so tratados a pau e pedra, por isso  que
o co galego no  capaz de levantar a cauda, esconde-a
entre as pernas com a esperana de passar despercebido, a

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sua desforra, quando pode,  morder, Este no morde, disse
Pedro Orce, Saber donde veio, provavelmente nunca saberemos,
disse Jos Anaio, e talvez tenha pouca importncia, o
que me faz espcie  ter ido  nossa procura para trazer-nos
aqui, no se pode deixar de perguntar para qu, No sei, s
sei que um dia partiu com os dentes um bocado de fio, olhou
para mim como se quisesse dizer No saias daqui enquanto eu
no voltar, e foi pelo monte acima, por onde agora desceu
subiu ento, Que fio  este, perguntou Joaquim Sassa enquanto
enrolava e desenrolava do pulso a ponta que ainda o ligava
a Maria Guavaira, Quem me dera a mim saber, respondeu ela
dobando entre os dedos a ponta do seu lado e assim esticando
o fio como uma tensssima corda de guitarra, mas nem ele
nem ela pareciam reparar que estavam atados, os outros, sim,
olhavam, que pensamentos tiveram calaram-nos, ainda que
no seja assim to difcil adivinh-los, Porque eu no fiz
mais
do que desmanchar uma meia velha, dessas que serviam para
guardar dinheiro, mas a meia que desmanchei daria um
punhado de l, ora o que a est corresponde  l de cem
ovelhas, e quem diz cem diz cem mil, que explicao se
encontrar para este caso, Atrs de mim andaram durante dias
dois mil estorninhos, disse Jos Anaio, Atirei ao mar uma
pedra que pesava quase tanto como eu e foi cair muito longe,
acrescentou Joaquim Sassa, percebendo que exagerava, e
Pedro Orce apenas disse, A terra treme e tremeu.
Maria Guavaira levantou-se para abrir uma porta, disse,
Vejam, estava Joaquim Sassa ao lado dela, mas no o
puxara o fio, e o que viram foi uma nuvem azul, de uma cor
azul que se tornava densa e quase negra no centro, Se deixo
a porta aberta h sempre pontas que saem, como ainda agora
aquela que subiu  estrada e o trouxe aqui, falou Maria
Guavaira para Joaquim Sassa, e a cozinha onde se tinham
reunido todos ficou como deserta, s aqueles dois, ligados
pelo fio azul, e a nuvem azul que parecia respirar, ouvia-se
o estalar da lenha na lareira onde ferve um caldo de couves
adubado com fveras de carne, galego aliviado.

180

No podem Joaquim Sassa e Maria Guavaira estar assim
ligados mais do que o tempo suficiente para ganhar no
duvidoso sentido a ligao, por isso ela doba todo o fio,
chegando ao pulso dele rodeia-o como se invisivelmente o
atasse outra vez, e depois mete o pequeno novelo no peito,
sobre,o significado deste gesto s um tolo teria dvidas, mas
seria preciso ser muito tolo para que as tivesse. Jos Anaio
afastou-se do lume, que queimava, Embora parea absurdo,
acabmos por acreditar que existe uma relao qualquer
entre o que nos aconteceu e a separao de Espanha e
Portugal da Europa, deve ter ouvido falar, Ouvi, mas aqui
nestes stios no se deu por nada, se saltarmos os montes e
descermos  costa  sempre o mesmo mar, A televiso
mostrou, No tenho televiso,  rdio tem dado notcias, As
notcias so palavras, nunca se chega bem a saber se as
palavras so notcias.
Com esta cptica sentena se interrompeu por alguns
minutos a conversa, Maria Guavaira foi buscar umas tigelas
 cantareira, deitou para dentro o caldo, a penltima para
Joaquim Sassa, a ltima para si prpria, de sbito pareceu a
toda a gente que ia faltar uma colher, mas no, chegavam
para todos, por isso  que Maria Guavaira no teve de
esperar que Joaquim Sassa acabasse de comer. Ento ele
quis saber se ela vivia sozinha, porque at este momento no
se viram outras pessoas na casa, e ela respondeu que era
viva h trs anos, que vinham trabalhadores fazer o servio
da terra, Estou entre o mar e os montes, sem filhos nem
mais famlia, irmos que tenho emigraram para a Argentina,
meu pai morreu, minha me est doida na Corunha, mais
sozinhas do que eu deve haver poucas pessoas no mundo,
Podia ter voltado a casar, lembrou Joana Carda, mas logo se
arrependeu, no tinha o direito de dizer tal coisa, ela que
ainda h poucos dias quebrara um casamento e j andava
com outro homem, Estava cansada, e uma mulher, na minha
idade, se torna a casar, ser por causa das terras que tiver,
os homens vm casar com a terra, no com a mulher,

181


E ainda to nova, Fui nova, e j mal me lembro do tempo
em que o fui, e tendo dito inclinou-se para a lareira, para
que o lume a mostrasse melhor, olhava Joaquim Sassa por
cima da fogueira e era como se estivesse a dizer-lhe,
 assim que eu sou, repara bem em mim, vieste ter  minha
porta agarrado a um fio que estava na minha mo, poderei,
se quiser, puxar-te para a minha cama, e tu virs, tenho a
certeza, mas bela nunca serei, a no ser que tu me trans
formes na mais formosa mulher que alguma vez existiu, 
obra que s homens so capazes de fazer, e fazem-na, pena
 que no possa durar sempre.
Joaquim Sassa olhava-a do outro lado do lume e achou
que as labaredas danando lhe modificavam sucessivamente
o rosto, agora cavando superfcies, depois alisando sombras,
mas o que no se alterava era o brilho dos olhos escuros,
acaso uma lgrima suspensa se tornara pelcula de pura luz.
No  bonita, pensou, mas tambm no  feia, tem as mos
gastas e fatigadas, no se comparam com as minhas, que so
de empregado de escritrio em gozo de frias pagas, e a
propsito, amanh, se no me perdi na conta do tempo,  o
ltimo dia do ms, depois de amanh terei de voltar ao
trabalho, mas no, isso no pode ser, como  que eu iria
aqui deixar Jos e Joana, Pedro e o Co, no tm nenhum
motivo para -quererem acompanhar-me, e se levo o Dois
Cavalos vo ter grande dificuldade em voltar s suas terras,
mas provavelmente no querem, a nica coisa verdadeira
que existe neste momento sobre a terra  estarmos aquii
juntos, Joana Carda e Jos Anaio a conversarem baixinho,
talvez sobre a vida de ambos, talvez sobre a vida de cada
um, Pedro Orce com a mo sobre a cabea do Piloto, devem
estar a medir vibraes e sismos que mais ningum sente,
enquanto eu olho e continuo a olhar esta Maria Guavaira que
tem uma maneira de olhar que no  olhar mas mostrar os
olhos, veste de escuro, viva que o tempo j aliviou mas que
o costume e a tradio ainda enegrecem, felizmente brilham
-lhe os olhos, e ali est a nuvem azul que no parece

182

pertencer a esta casa, os cabelos so castanhos, e tem o
queixo redondo, e os lbios cheios, e os dentes, ainda h
pouco os vi, so brancos, graas a Deus, afinal esta mulher
 bonita e eu no tinha reparado, estive ligado a ela e no
sabia a quem, tenho de resolver, regresso ou deixo-me ficar
aqui, mesmo que volte ao trabalho uns dias mais tarde
desculpam-me, com esta confuso peninsular quem  que
vai reparar nos atrasos dos empregados que regressam,
pode-se alegar. a dificuldade nos transportes, agora ficou
vulgar, agora mais bonita, e agora, agora, ao lado de Maria
Guavaira no vale nada Joana Carda, a minha  muito mais
bela senhor Jos Anaio, ora veja se se pode comparar a sua
mulher citadina e perluxosa com esta criatura silvestre que
com certeza sabe ao sal que o vento traz por cima dos
montes e deve ter o corpo branco debaixo daquelas roupas,
se agora eu pudesse, Pedro Orce, dizia-te uma coisa, Que
coisa me dirias, Que j sei de quem gostar, Parabns, h
quem tenha tardado muito mais, ou nunca o venha a saber,
Conheces algum, Por exemplo, eu, e tendo assim respondi
do disse Pedro Orce em voz alta, Vou dar uma volta com o

co.
Ainda no  noite fechada, mas est frio. Na direco do
monte que esconde o mar h um carreiro que mais adiante
comea a subir a encosta em lanos sucessivos,  esquerda e
 direita, como uma dobadoira, at se perder num invisvel
que os olhos j no podem trespassar. No tarda muito que
este vale esteja como na noite do apagn, se no seria mais
exacto dizermos que no vale onde vive Maria Guavaira so
de apagn todas as noites, para isso no foi preciso partirem
-se as linhas de transporte de electricidade da Europa civili
zada e culta. Pedro Orce saiu de casa porque no fazia l
falta nenhuma. Avana sem olhar para trs, primeiro to
rapidamente quanto lho permitem as foras, depois, porque
elas foram quebrando, devagar. No sente qualquer impresso de
medo neste silncio entre os paredes que so os
montes,  homem que nasceu e viveu num deserto, sobre

183


poeira e pedras, onde sem espanto  possvel encontrar uma
queixada de cavalo, um casco ainda com a ferradura pregada, h
quem diga que nem os ginetes do Apocalipse sobrevi
veram ali, morreu de guerra o cavalo da guerra, morreu de
peste o cavalo da peste, morreu de fome o cavalo da fome, a
morte  a suma razo de todas as coisas e sua infalvel
concluso, a ns o que nos ilude  esta.linha de vivos em
que estamos, que avana para'isso a que chamamos futuro
s porque algum nome lhe havamos de dar, colhendo dele
incessantemente os novos seres, deixando para trs
incessantemente os seres velhos a que tivemos de dar o nome de
mortos para que no saiam do passado.
~ Velho ou cansado j vai estando o corao de Pedro
Orce. Agora tem de repousar amide e mais tempo de cada
vez, mas no desiste, conforta-o a presena do co. Trocam
sinais um com o outro, como um cdigo de comunicaes
que mesmo indecifrado  bastante, por ser bastante o facto
simples de existir, a espdua do animal roa a coxa do
homem, a mo do homem afaga a pele macia do interior da
orelha do co, o mundo est povoado de um rumor de
passos, de respiraes, de atritos, e agora sim, ouve-se por
trs da crista o clamor surdo do mar, cada vez mais alto,
cada vez mais claro, at surgir diante dos olhos a imensa
superfcie, vagamente faiscante sob a noite sem lua e de
raras estrelas, e em baixo, como a linha viva que separa
noite e morte, a brancura violenta da espuma constantemente
desfeita e renovada. As rochas onde as ondas batem so
mais negras, como se a pedra tivesse ali uma densidade-maior ou estivesse 
ensopada em gua desde o princpio dos
tempos. O vento vem do mar, uma parte dele  sopro
natural, a outra parte, mnima, ser de estar-se deslocando a
pennsula sobre as guas, no  mais do que um bafejo, bem
o sabemos, e contudo nunca houve um furaco como este
desde que o mundo  mundo.
Pedro Orce mede a dimenso do oceano e nesse momen
to acha-o pequeno, porque ao inspirar fundo se lhe dilatam

184

os pulmes tanto que neles poderiam entrar de golfo todos
os abismos lquidos e ainda sobrar espao para a jangada que
com os seus espores de pedra vai abrindo caminho contra
as vagas. Pedro Orce no sabe se  homem, se peixe. Desce
para o mar, o co vai adiante a reconhecer e escolher o
caminho, e bem preciso era o batedor prudente e subtil,
antes de nascer o dia Pedro Orce, sozinho, no encontraria a
entrada e a sada deste labirinto de pedras. Enfim chegaram
s grandes lajes que descaem para o mar, a  ensurdecedor
o estrondo da rebentao. Sob este cu escurssimo e os
gritos do mar, se a lua agora nascesse, um homem podia
morrer de felicidade, julgando que -morria de angstia, de
medo, de solido. Pedro Orce deixou de sentir o frio.
A noite tornou-se mais clara, aparecem outras'estrelas, e o
co, que durante um minuto se ausentara, voltou a correr,
no foi ensinado a puxar a cala do dono, mas j o
conhecemos bastante para saber que  muito capaz de
comunicar o que for sua vontade, e agora dever Pedro Orce
acompanh-lo  descoberta, afogado que deu  costa, arca
do tesouro, vestgio da Atlntida, destroo do Holands
Voador, obsessiva memria, e quando chegou viu que no
eram mais do que pedras entre pedras, mas, no sendo este
animal co de enganar-se, alguma coisa ali haveria de
singular, foi ento que reparou que os seus prprios ps
assentavam sobre ela, a coisa, uma pedra enorme, com a
forma tosca de um barco, e ali outra, comprida e estreita
como um mastro, e outra ainda, esta seria o leme com o seu
timo, ainda que partido. Crendo que a pouqussima luz o
enganava foi dando a volta s pedras, tacteando e apalpando, e
assim deixou de ter dvidas, este lado, alto e aguado,
 a proa, este outro, rombo, a popa, o mastro inconfundvel,
e o leme s poderia ser, por exemplo, espadela de gigante se
isto no fosse, verdadeiramente, onde est, um barco de
pedra. Fenmeno geolgico, pela certa, Pedro Orce conhece
de qumicas mais do que o suficiente para a si prprio poder
explicar o achado, uma antiga barca de madeira trazida pelas

185


vagas ou deixada pelos mareantes, varada sobre estas lajes
desde imemoriais tempos, depois cobriram-nas as terras,
mineralizou-se a matria orgnica, outra vez as terras se
retiraram, at hoje, ho-de ser precisos milhares de anos
para que se apaguem os contornos e apouquem os volumes,
vento, chuva, a lima do frio e do calor, um dia no se
distinguir a pedra da pedra. Pedro Orce sentou-se no fundo
do barco, na posio em que est no v mais que o cu e o
mar distante, se esta nave balouasse um pouco julgaria que
ia navegando, e ento, quanto Podem imaginaes,
representou-se-lhe uma ideia absurda que seria ser verdadeira
mente navegante este barco petrificado, aos pontos de ser
ele que consigo arrastava a pennsula a reboque, no se pode
confiar nos delrios da fantasia, claro que no seria impossi
vel acontecer, outras acrobacias se tm visto mais difceis,
mas d-se o caso irnico de ter o barco a popa voltada para o
mar, nenhuma embarcao que se respeite navegaria alguma
vez s arrecuas. Pedro Orce levantou-se, tem agora frio, e o
co saltou a amurada, so horas de voltar para casa, senhor
meu amo, no tem. idade para estas noitadas, no as viveu
enquanto novo, agora  tarde.
Quando alcanaram a cumeada dos montes, Pedro Orce
mal podia com as pernas, e os seus pobres pulmes, que
ainda h pouco eram capazes de respirar o inteiro oceano,
arfavam como foles rotos, o ar spero raspava-lhe o interior
das narinas, ressequia-lhe a garganta, estas aventuras monta
nheiras so imprprias de um boticrio a cair da idade.
Deixou-se cair numa pedra, a descansar, com os cotovelos
fincados nos joelhos, a cabea baixa repousando nas mos, o
suor faz-lhe brilhar a testa, o vento sacode-lhe as farripas
de
cabelo,  uma runa de homem, cansado e triste, infeliz
mente ainda no se inventou o processo de mineralizar uma
pessoa na flor da juventude para a transformar em eterna
esttua. A respirao est mais calma, o ar abrandou, entra e
sai sem aquele raspo de lixa. Por se dar conta destas
mudanas, o co, que esperara deitado, fez meno de

186

levantar-se. Pedro Orce ergueu a cabea, olhou para baixo,
para o vale onde a casa estava. Parecia haver sobre ela uma
aura, um fulgor sem brilho, uma espcie de luz no luminosa,
se esta frase, que, igual a todas as outras, s de
palavras
pode~compor-se, chega ao entendimento com unvoco sentido. A
lembrana de Pedro Orce veio aquele epilptico de
Orce que, aps os acessos que o derrubavam, tentava expli
car as confusas sensaes com que eles se anunciavam, seria
uma vibrao das partculas invisveis do ar, seria a
irradiao duma energia como o calor na distncia, seria a
distoro dos raios luminosos no limite do seu alcance, esta
noite
verdadeiramente povoou-se de assombros, o fio e a nuvem
de l azul, a barca de pedra varada sobre as lajes da costa,
agora uma casa que prodigiosamente estremece, ou assim
diramos, vista daqui. A imagem.oscila, fundem-se os
contornos, de repente parece afastar-se at se tornar num
ponto quase invisvel, depois regressa, pulsando lentamente.
Por um instante temeu Pedro Orce ser deixado ao abandono
neste outro deserto, mas o susto passou, foi s o tempo de
ter compreendido que l em baixo se tinham juntado Maria
Guavaira e Joaquim Sassa, os tempos mudaram muito, agora
 encher, atar e pr ao fumeiro, se me  permitida a
grosseira, plebia e arcaica comparao. Levantara-se Pedro
Orce para comear a descer a encosta, mas tornou a sentar
-se e pacientemente esperou, transido de frio, que a casa
tornasse  sua imagem de casa, onde no houvesse mais
labaredas do que aquela, final, que ainda arde na lareira,
demorando-se ele muito o mais certo  encontrar apenas
cinzas no lugar do fogo.

187


Maria Guavaira acordou na primeira luz da madrugada.
Estava no seu quarto, na sua cama, e havia um homem
adormecido a seu lado. Ouvia-o respirar, profundamente,
como se andasse a transportar da medula dos ossos o renovo
das foras, e, meio inconsciente, quis que a sua prpria
respirao acompanhasse, a dele. Foi o movimento diferente
do peito que a fez sentir que estava nua. Percorreu com as
mos o corpo, desde o meio das coxas, rodeando o pbis,
depois pelo ventre at aos seios, e de sbito lembrou-se do
seu grito de espanto quando dentro de si o gozo explodirma
como um sol. Agora de todo desperta, mordeu os dedos para
no gritar o mesmo grito, mas quereria reconhecer no som
reprimido as sensaes, torn-las para sempre inseparveis,
ou talvez fosse o desejo reacordado, quem sabe se o remorso, a
angstia que diz a conhecida frase, Agora que vai ser
de mim, os pensamentos no so isolveis doutros pensa
mentos, as impresses no so puras doutras impresses,
esta mulher vive no campo, longe das artes amatrias da
civilizao, e daqui a pouco chegaro os dois homens que
vm trabalhar nas terras de Maria Guavaira, que vai ela
dizer-lhes, com a casa desta maneira cheia de estranhos, no
h nada como a luz do dia para mudar a figura das coisas.
Mas este homem que dorme lanou um rochedo ao mar, e
Joana Carda cortou o cho em dois, e Jos Anaio foi o rei
dos estorninhos, e Pedro Orce faz tremer a terra com os ps,

188

e o Co veio no se sabe donde para juntar estas pessoas,
E mais que aos outros me juntou a ti, puxei o fio e vieste at
 minha porta, at  minha cama, at ao interior do meu
corpo, at  minha alma, que s dela pode ter sado o grito
que dei. Durante alguns minutos os olhos cerraram-se-lhe,
quando os abriu viu que Joaquim Sassa acordara, sentiu-lhe
a dureza do corpo, e a soluar de ansiedade abriu-se para
ele, no gritou, mas chorou rindo, e tornou-se dia claro. Do
que disseram no vale a pena fazer registo indiscreto, ponha
cada um na sua ideia, tente tirar da sua imaginao, o mais
provvel  no acertar, mesmo parecendo to limitado o
vocabulrio do amor.
Levantou-se Maria Guavaira e o seu corpo  branco
como Joaquim Sassa sonhara, ela diz, No queria vestir
estas minhas roupas escuras, mas agora no tenho tempo de
procurar outras, os homens esto a no tarda. Vestiu-se,
voltou  cama, cobriu com os cabelos o rosto de Joaquim
Sassa e beijou-o, depois fugiu, saiu do quarto. Joaquim
Sassa rolou na cama, fechou os olhos, vai adormecer. Est
uma lgrima numa das suas faces, tanto pode ser de Maria
Guavaira como sua, os homens tambm choram, no  vergonha
nenhuma e s lhes faz bem.
Este  o quarto onde ficaram Joana Carda e Jos Anaio,
tm a porta fechada, ainda dormem. Esta outra porta est
entreaberta, o co veio olhar Maria Guavaira, depois voltou
para dentro, tornou a deitar-se, vigilante do sono de Pedro
Orce, que descansa das suas aventuras e descobertas. Que o
dia de hoje ser de calor, adivinha-se na atmosfera. As
nuvens vm do lado do mar e parecem correr maisdepressa
do que o correr do vento. Ao p de Dois Cavalos esto dois
homens, so os assalariados que vieram para o trabalho,
dizem um para o outro que a viva, que tanto se queixa dos
resultados da lavoura, afinal comprou um carro, Depois de
morto o homem, elas sempre se governam, esta sarcstica
sentena foi do, mais velho. Maria Guavaira chamou-os, e
enquanto acendia o lume e aquecia o caf explicou que tinha

189


dado guarida a uns viajantes perdidos, trs so portugueses,
mas h um espanhol, ainda dormem, coitados, A senhora,
aqui sozinha, est muito sujeita, disse o mais novo, mas esta
frase, to humanamente solidria,  apenas variante de
muitas outras que tm vindo a ser ditas, orientadas para bem
diferente sentido, A senhora devia era casar outra vez,
precisa de um homem que lhe olhe pela casa, A senhora no
encontrava, e no  por me gabar, um homem mais capaz do
que eu, tanto para o trabalho como para o resto, A senhora
acredite que gosto muito de si, A senhora, um dia destes
v-me entrar pela porta dentro e olhe que ser para ficar:
A senhora faz-me perder a cabea, a senhora julga que um
homem  feito de pau, No sei, mas posso vir a saber, se te
aproximas de mim levas com um tio na cara, isto foi o que
disse uma vez Maria Guavaira, e o homem mais novo no
teve outro remdio que voltar  primeira frase, modificando
-a um pouco, A senhora precisa de quem olhe por si, mas
nem assim conseguiu, at hoje, alcanar o fim em vista.
Foram-se os trabalhadores para o campo e Maria Guavai
ra tornou ao quarto. Joaquim Sassa dormia. Devagar, para
que ele no acordasse, abriu o ba e comeou a escolher
roupas do seu tempo de claridade, tons de rosa, de verde, de
azul, o branco e o vermelho, o laranja e o lils, e mais os
misturados colores femininos, no que isto seja guarda
-roupa de teatro ou ela abastada lavradora, mas toda a gente
sabe que dois vestidos de mulher fazem uma festa e com
duas saias e duas blusas se arma um arco-ris. A roupa
cheira a ' naftalina e a fechado, Maria Guavaira ir
pendur-la
ao sol para que se evaporem os miasmas da qumica e do
tempo morto, e quando assim vai a descer, com os braos
cheios de cores, encontra Joana Carda que tambm deixou o
seu homem no quente dos lenis e que, porque compreende
logo o que est a acontecer, quer ajudar. Riem as duas no
estendal, o vento d-lhes nos cabelos, as roupas estalam e
drapejam como bandeiras, apetece gritar viva a liberdade.
Voltam  cozinha para preparar a refeio, cheira a caf

190

feito de fresco, h leite, po de dias mas saboroso, queijo
duro, doce de frutas, estes aromas conjuntos iro acordar os
homens, primeiro apareceu Jos Anaio, depois Joaquim
Sassa, o terceiro no foi homem mas co, assomou  porta,
olhou e voltou para trs, Foi chamar o dono, disse Maria
Guavaira, que tem teoricamente mais direitos de propriedade,
mas j fez acto de renncia. Apareceu enfim Pedro
Orce, deu os bons-dias e sentou-se calado, nota-se-lhe no
olhar uma certa rrtao quando observa os ainda assim
muito discretos gestos de ternura com que se exprimem os
quatro, tanto dois por dois como todos juntos, o mundo,do
contentamento tem o seu prprio e diferente sol.
No ficar bem o despeito a Pedro Orce, que se sabe
velho, mas ser nosso dever compreend-lo, se ainda no se
resignou. Jos Anaio quer met-lo na conversa, pergunta
-lhe se gostou do passeio nocturno, se o co lhe fizera boa
companhia, e Pedro Orce, j pacificado, agradece interior
men te a mo estendida, veio no tempo certo, antes que a
amargura complicasse ainda mais o sentimento de privao,
Fui at ao mar, disse, e aqui foi grande o espanto, maior o
de Maria Guavaira, que sabe muito bem onde o mar fica e a
dificuldade de l chegar. Mas se no tivesse levado o co
comigo, no teria conseguido, explicou Pedro Orce, e subi
tamente veio-lhe  recordao a barca de pedra, ficou
perturbado, incapaz de perceber, durante alguns segundos,
se ela estivera apenas num sonho ou fora concreta e real, Se'
no sonhei, se no foi tudo imagem sonhada, ele existe, est
l neste preciso momento, estou aqui sentado a beber caf e
o barco est l, e, tais so os poderes da imaginativa, apesar
de s o ter visto sob o escasso luzeiro de umas raras
estrelas,
agora representava-se dentro da sua cabea no pleno dia,
com o sol e o azul do cu, a rocha negra sob o barco
mineralizado, Encontrei um barco, disse, e sem pensar que
poderia estar enganado desenvolveu a sua teoria, exps,
ainda que com alguma impreciso nos termos, o processo
qumico, mas aos poucos as palavras comearam a faltar
191


-lhe, inquietara-o a expresso de Maria Guavaira,
desaprovadora, e rematou com outra hiptese de salvaguarda,
Tambm admito que se trate de um efeito extraordinrio da
eroso, claro est.
Joana Carda disse que queria ir ver, Jos Anaio e
Joaquim Sassa concordaram logo, s Maria Guavaira no
falava, olhavam-se ela e Pedro Orce. Aos poucos os outros
calaram-se, compreendiam que a ltima palavra estava por
dizer, se realmente existe para todas as coisas uma ltima
palavra, o que levanta a delicada questo de saber-se como
as coisas ficaro depois de, sobre elas, ter sido dito tudo.
Maria Guavaira segurou a mo de Joaquim Sassa como se
fosse prestar juramento,  um barco de pedra, declarou, Isso
foi o que eu disse, tornou-se em pedra com o tempo, pode
ter sido por mineralizao, mas  igualmente possvel que
seja obra de acaso e que a sua forma de hoje tenha sido
afeioada pelo vento e outros agentes atmosfricos, a chuva,
por exemplo, e mesmo o mar, ter havido uma poca em
que o nvel do mar esteve mais alto,  um barco de pedra
que sempre foi de,pedra,  um barco que veio de muito
longe, e ali ficou depois de terem desembarcado as pessoas
que nele viajaram, As pessoas, perguntou Jos Anaio, Ou
uma pessoa, disso no posso dar a certeza, E do que se diz
que h certeza, que certeza se pode ter, duvidou perguntando
Pedro Orce, Diziam os antigos, que lho tinham dito os
'mais antigos, e a estes outros mais antigos ainda, que nesta
costa desembarcaram, em barcas de pedra, vindos dos desertos
do outro lado do mundo, uns santos, alguns chegaram vivos,
outros mortos, como foi o caso de Santiago, as barcas ficaram
encalhadas desde esse tempo, e esta  apenas uma delas, Cr
no que est a dizer, perguntou Pedro Orce, A questo no est
em crer ou no crer, tudo o que ns vamos dizendo se
acrescenta ao que , ao que existe, primeiro disse granito,
depois
digo barco, quando chego ao fim do dizer, ainda que no creia
no que disse, tenho de acreditar no t-lo dito, muitas vezes 
quanto basta, tambm a gua, a farinha e o fermento fazem o
po.

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Saiu a Joaquim Sassa uma zagala erudita, uma minerva
dos montes galaicos, no geral no damos por isso, mas a
verdade  que as pessoas sabem todas muito mais do que
julgamos, a maior parte delas nem sonha a cincia que tem,
o al est em quererem passar por aquilo que no so,
perdem o saber e a graa, faam antes como Maria Guavaira
que se lim ita a dizer, Li alguns livros na minha vida,
maravilha foi ter tirado tal proveito deles, no  esta mulher
to presunosa que o dissesse de si prpria, o narrador,
amante da justia,  que no pde resistir ao comentrio.
Vai Joana Carda agora perguntar quando iro ver a barca de
pedra, no momento em que Maria Guavaira, talvez para que
no se prolongue o debate em terrenos que j no sero da
sua competncia, dizamos, nesse momento ligou Maria
Guavaira o rdio que tem na cozinha, o mundo h-de ter
notcias para dar,  assim todas as manhs, e so assustadoras
as notcias, mesmo tendo-se perdido as primeiras palavras,
mais tarde reconstitudas, Desde ontem  noite,
inexplicavelmente, a velocidade de deslocao da pennsula
alterou-se, a ltima medio regista mais de dois mil metros
por hora, praticamente cinquenta quilmetros em cada dia,
isto , o triplo da que se verificava desde que a deriva
comeou.
Neste momento deve haver na pennsula um silncio
geral, as noticias ouvem-se nas casas e nas praas, porm
no falta quem delas s venha a ter conhecimento 'mais
tarde, como aqueles dois homens que trabalham para Maria
Guavaira, esto alm no campo, afastados, apostemos que o
mais novo por de parte cortejamentos e galanteios e no
pensara em mais que na sua prpria vida e segurana. Mas o
pior est para vir, quando o locutor l uma notcia de
Lisboa, mais tarde ou mais cedo tinha de se saber, muito
durou o segredo, H grande preocupao nos meios oficiais
e cientficos portugueses, uma vez que o arquiplago dos
Aores se encontra precisamente no caminho que a pennsula tem
vindo a seguir, j se notam os primeiros indcios de

193


inquietao entre as populaes, por enquanto no se pode
falar de pnico, mas  de prever que nas prximas horas seja
posto em execuo um plano de evacuao das cidades e
outras povoaes do litoral mais directamente ameaadas
pelo choque, quanto a ns, espanhis, podemos considerar
-nos a salvo de efeitos imediatos, porquanto, distribuindo-se
os Aores entre os paralelos trinta e sete e quarenta, e
estando toda a regio da Galiza a norte do paralelo quarenta
e dois, facilmente se observar que, no havendo modificao
no rumo, s o pas irmo, sempre infeliz, sofrer o
impacte directo, no esquecendo, claro est, as prprias e
no menos infelizes ilhas que, pela sua reduzida dimenso,
correm o risco de desaparecer sob a grande massa de pedra
que agora se desloca, como dissemos,  impressionante
velocidade de cinquenta quilmetros dirios, podendo ainda,
por outro lado, acontecer que as mesmas ilhas venham a
constituir-se como o travo providencial que deteria esta
marcha at agora insustada, estamos todos na mo de Deus,
j que no bastaro as foras do homem para evitar a
catstrofe se ela tiver de dar-se, felizmente, repetimos, ns,
os espanhis, estamos mais ou menos a salvo, no entanto
nada de optimismos exagerados, h sempre que temer as
consequncias secundrias do choque, recomendando-se
portanto a mxima vigilncia, apenas se devendo manter
junto  costa galega as pessoas que, pela natureza das suas
obrigaes e deveres, no possam recolher-se s regies do
interior. Calou-se o locutor, veio uma msica feita para bem
diferente ocasio, e Jos Anaio, lembrando-se, disse para
Joaquim Sassa, Tinhas razo quando falavas dos Aores, e,
tanto pode a humana vaidade, mesmo neste extremo risco de
vida, gostou Joaquim Sassa que diante de Maria Guavaira
fosse publicamente reconhecida uma razo que ele tivera,
ainda que sem mrito, recolhida como foi entre portas nos
laboratrios aonde com Pedro Orce fora levado.
Como num sonho repetido, Jos Anaio fazia contas,
pedira papel e lpis, desta vez no iria dizer quantos dias

194

levaria Gibraltar a passar em frente das almenaras da serra
de Gdor, esse fora o tempo da festa, agora era preciso
apurar quantos dias faltavam para esbarraro cabo da Roca
com a ilha Terceira, arrepiam-se as carnes e o cabelo s de
imaginaro assombroso momento, depois de a ilha de So
Miguel se ter enterrado como um espigo nas brandas terras
do Alentejo, em verdade, em verdade vos digo, no h mal
que lhe no venha. Diz Jos Anaio ao fim dos clculos,
Andmos at agora cerca de trezentos quilmetros, ora,
como a distncia de Lisboa aos Aores , mais ou menos, de
mil e duzentos quilmetros, teremos ainda que percorrer
novecentos, e novecentos quilmetros a cinquenta quilme
tros por dia, nmeros redondos, d dezoito dias, quer dizer,
l pelo vinte de Setembro, provavelmente antes, estaremos a
chegar aos Aores. A neutralidade da concluso era uma
forada e amarga ironia que no fez sorrir ningum. Maria
Guavaira lembrou, Mas ns estamos aqui na Galiza, fora do
alcance, No h que fiar, preveniu Pedro Orce, basta que o
rumo se altere um pouco, para o sul, e seremos ns a bater
em cheio, o melhor, a nica coisa a fazer  fugir para o
interior, como o locutor anunciou, e mesmo assim nada 
seguro, Deixar a casa e as terras, Se acontecer o que se
anuncia, no haver mais casa nem terras. Estavam sentados,
por enquanto podiam estar sentados, podiam estar
sentados durante dezoito dias. O lume ardia na lareira, o po
estava sobre a mesa, havia outras coisas ali, o leite, o caf,
o queijo, mas era o po que atraa os olhares de todos,
metade de um po grande, com a cdea espessa e o miolo
compacto, sentiam ainda na boca o sabor dele, h tanto
tempo, mas a lngua reconhecia o granulado que ficara da
mastigao, chegando o dia do fim do mundo olharemos a
ltima formiga com o doloroso silncio de quem sabe que se
despede para sempre.
Joaquim Sassa disse, As minhas frias acabam hoje, para
tudo ser como a regra manda deveria estar amanh no Porto,
no meu trabalho, estas objectivas palavras foram apenas o

195


princpio duma declarao, No sei se iremos continuar
juntos,  questo que aqui ter de ser resolvida, mas, por
mim, quero estar onde estiver Maria, se assim ela o aceitar e
quiser tambm. Ora, porque cada coisa dever ser dita em
seu tempo, porque cada pea dever ser ajustada segundo
ordem e sequncia, esperaram que Maria Guavaira, convo
cada, falasse em primeiro lugar, e ela disse, Isso quero, sem
outros desnecessrios desenvolvimentos. Disse Jos Anaio,
Se, a pennsula for bater nos Aores as escolas no abriro
to cedo, ou talvez nem abram mais, ficarei com Joana e
convosco se ela decidir ficar. Agora era a vez de Joana
Carda, que como Maria Guavaira disse somente duas palavras, as
mulheres esto pouco faladoras, Fico contigo,
foram estas porque o estava a olhar directamente a ele, mas
todos entenderam o resto. Enfim, ltimo porque algum
teria de o ser, Pedro Orce disse, Aonde formos, vou, e esta
frase, que obviamente ofende a gramtica e a lgica por
excesso de lgica e talvez de gramtica, dever ficar sem
correco, tal qual foi dita, acaso se lhe encontrar um
particular sentido que a justifique e absolva, quem de
palavras tenha experincia sabe que delas se deve esperar
tudo.
Os ces,  sabido, no falam, e este nem um sonoro latido
pode soltar em mostra de jovial aprovao.
Nesse dia foram  costa ver a barca de pedra. Maria
Guavaira levava as suas roupas de cor, nem se dera ao
trabalho de pass-las a ferro, o vento e a luz lhes apagariam
os vincos da longa estao no limbo profundo.  frente do
grupo ia Pedro Orce, guia emrito, embora mais se confie ao
instinto e sentido do co do que aos seus prprios olhos,
para os quais, em verdade,  claridade do dia, tudo 
caminho novo. De Maria Guavaira, por enquanto, no podemos
esperar orientao, a sua rota  outra, tudo nela so
pretextos para tomar a mo de Joaquim Sassa e deixar-se
puxar, ficando o corpo encostado ao corpo o tempo de um
beijo, medida como sabemos varivel, por isso mais se
atrasam da expedio do que so capazes de acompanh-la.

196

Jos Anaio e Joana Carda usam doutra discrio, h uma
semana que esto juntos, mataram a primeira fome, saciaram a
primeira sede, digamos que a sofreguido lhes vem se
a convocam, e, a bem dizer, no a poupam. Ainda esta noite
que passou, quando Pedro Orce viu de longe o esplendor,
no foi s terem-se amado Joaquim Sassa e Maria Guavaira,
dez casais tivessem dormido naquela casa e amar-se-iam ao
mesmo tempo.
As nuvens vm do mar e correm depressa, fazem-se e
desfazem-se rapidamente, como se cada minuto no durasse
mais que um segundo ou fraco dele, e todos os gestos
destas mulheres e destes homens so, ou parecem ser, num
mesmo e igual instante, lentos e cleres, dir-se-ia que o
mundo variou, se ao entendimento pode chegar o significado
pleno duma expresso pobre e popular. Chegam ao alto do
monte e o mar  um tumulto. Pedro Orce mal reconhece os
lugares, os gigantescos pedregulhos rolados que se amon
toam, o quase invisvel carreiro que desce em degraus, como
foi possvel ter passado aqui de noite, mesmo com ajuda do
co,  proeza que a si prprio no  capaz de explicar.
Procura com os olhos a barca de pedra e no a v, mas agora
 Maria Guavaira quem se coloca  frente do grupo, j era
tempo, melhor do que ningum conhece os caminhos. Che
gam ao local, e Pedro Orce vai abrir a boca para dizer, No
 aqui, mas calou-se, tem diante dos olhos a pedra do leme
com o seu timo partido, o grande mastro que  luz parece
mais grosso, e a barca, mas nela  que observa as maiores
diferenas, como se a eroso de que esta manh falara
tivesse feito numa noite o trabalho de 'milhares de anos,
onde est, que a no vejo, a proa alta e aguada, o cncavo
bojo,  certo que a pedra tem a forma geral de um barco,
mas nem o melhor dos santos conseguiria obrar o milagre de
manter a flutuar embarcao to precria, sem amuradas, a
dvida no  ser ela de pedra, a dvida vem de quase ter-se
desvanecido a forma de barco, afinal, uma ave s voa
porque se parece com uma ave, pensa Pedro Orce, mas

197


agora est Maria Guavaira a dizer,  esta a barca em que
veio do oriente um santo, aqui ainda se vem os sinais dos
ps quando desembarcou e se meteu pela terra dentro, os
sinais eram umas cavidades na rocha, agora pequenos lagos
que o vaivm da onda, estando alta a mar, constantemente
renovaria, claro que toda a dvida  legtima, mas as coisas
dependem do que se aceita ou nega, se um santo veio de
longe navegando sobre uma laje, no se v por que seria
impossvel que os seus ps de fogo fundissem a rocha at
aos dias de hoje. Pedro Orce no tem mais remdio que
aceitar e confirmar, mas guarda para si a lembrana duma
outra barca que s ele viu, na noite quase sem estrelas e
contudo povoada de supremas vises.
O mar salta sobre as rochas como se estivesse a lutar
contra o avano desta mar irresistvel de pedras e terras. J
no olham a barca mtica, olham as ondas que se atropelam,
e Jos Anaio diz, Vamos a. caminho, sabemo-lo e no o
sentimos. E Joana Carda, Que destino~ Ento Joaquim Sassa
disse, Somos cinco pessoas e um co, no cabemos no Dois
Cavalos,  um problema que teremos de resolver, uma
hiptese seria irmos ns dois, o Jos e eu,  procura de um
carro maior, desses que por toda a parte esto abandonados,
a dificuldade ser encontrar um em bom estado, faltava
sempre qualquer coisa queles que vimos, Chegando a casa
decidimos o que vamos fazer, disse Jos Anaio, temos
tempo, Mas a casa, as terras, murmurava Maria Guavaira,
No h escolha, ou nos vamos daqui, ou morremos todos, as
palavras disse-as Pedro Orce, e eram as definitivas.
Depois do almoo foram Joaquim Sassa e Jos Anaio
no Dois Cavalos  procura de um carro maior, de prefern
cia um jipo, um da tropa calharia bem, ou, ainda melhor,
um desses veculos de carga, um furgo de caixa fechada,
que pudesse ser transformado em casa ambulante e dormitrio,
mas, tal como Joaquim Sassa mais ou menos previra,
nada encontraram que lhes servisse, alm de no ser a regio
em que estamos especialmente bem provida de parque auto
198

mvel. Regressaram ao fim da tarde por estradas que aos
poucos se enchiam de um trfego intenso, de poente para
nascente, era o comeo da fuga das populaes que viviam
na costa, havia automveis, carroas, outra vez os imemoriais
burros carregados, e bicicletas, ainda que poucas em
terrenos to acidentados, e motos e camionetas de carreira,
de cinquenta e mais lugares, que transportavam aldeias
inteiras, era a maior migrao da histria da Galiza. Algumas
pessoas olhavam com estranheza os viajantes que iam
no sentido inverso, chegaram a mand-los parar, talvez no
saibam do que aconteceu, Sabemos, muito obrigado, vamos
s buscar umas pessoas, por enquanto ainda no h perigo, e
depois Jos Anaio disse, Se aqui  assim, que no ser em
Portugal, e de repente ocorreu-lhes a ideia salvadora, Que
estpidos ns somos, a soluo  faclima, fazemos a viagem
duas vezes, ou trs, quantas forem precisas, escolhemos um
lugar no interior para nos instalarmos, uma casa,
no- deve ser difcil, as pessoas esto a abandonar tudo. Esta
foi'a boa nova que levaram, festejada como merecia, no dia
seguinte comeariam a escolher e a pr de parte o que fosse
indispensvel transportar, e para adiantar trabalho houve
depois do jantar sesso plenria, fez-se o inventrio das
necessidades, elaboraram-se listas, cortou-se, acrescentou
-se, Dois Cavalos ia ter muito que andar e carregar.
Na manh seguinte os trabalhadores no apareceram e o
motor de Dois Cavalos no funcionou. Dito desta maneira
parece querer insinuar-se que h uma qualquer relao entre
os dois factos, por exemplo, terem os ausentes agrcolas
furtado uma pea essencial do automvel, por necessidade
urgente ou maldade instante. No  assim. Tanto o mais
velho como o mais novo foram levados no xodo que
rapidamente despovoava toda a faixa costeira numa profun
didade de mais de cinquenta quilmetros, mas, daqui por
trs dias, quando j os habitantes da casa tiverem partido,
voltar a este lugar o trabalhador mais novo, aquele que
cortejava Maria Guavaira e as terras de Maria Guavaira, por

199


esta ordem ou pela inversa, e ns nunca viremos a saber se
ele vai voltar para satisfazer o sonho de ver-se proprietrio
de bens de raiz, nem que seja por alguns dias antes de
morrer numa subverso geolgica que levar consigo tanto
as terras como o sonho, ou se decidiu ficar de guarda,
lutando contra a solido e o medo, arriscando tudo para
poder ganhar tudo, a mo de Maria Guavaira e o seu
peclio, se a pavorosa ameaa no vier, quem sabe, a
concretizar-se. Um dia que Maria Guavaira aqui volte, se
voltar, encontrar um homem cavando a terra, ou dormindo,
cansado do trabalho, numa nuvem de l azul.
Durante todo o dia Joaquim Sassa lutou com a mecnica
renitente, Jos Anaio ajudou quanto podia, mas a cincia
de ambos no foi bastante para resolver o problema. No
faltavam peas, no faltava energia, mas nos ntimos pro
fundos do motor alguma coisa se fatigara e partira, ou
lentamente se viera desgastando, acontece com as pessoas,
tambm pode acontecer com as mquinas, um dia, quando
nada o fazia prever, o corpo diz, No, ou a alma, ou o
esprito, ou a vontade, e j nada o pode demover, a esse
ponto chegou tambm Dois Cavalos, trouxe aqui Joaquim
Sassa e Jos Anaio, no os deixou no meio da estrada, ao
menos agradeam-lho, no se mostrem furiosos, murros no
resolvem, pontaps no adiantam, Dois Cavalos morreu.
Quando desanimados entram em casa, sujos de leo, com as
mos esfoladas por terem lutado, quase sem ferramentas,
contra porcas, parafusos e engrenagens, e foram lavar-se,
docemente auxiliados pelas suas mulheres, a atmosfera era
de desastre, Agora como iremos sair daqui, perguntava
Joaquim Sassa, que como dono do automvel se sentia, no
s responsvel, mas culpado, parecia-lhe uma ingratido do
destino, uma ofensa pessoal, certos pruridos de honra no 
por serem absurdos que comicham menos.
Depois convocou-se o conselho de famlia, parecia que
ia haver uma sesso agitada, mas Maria Guavaira tomou
logo a palavra para uma proposta, Tenho a uma galera

200

velha que talvez possa servir, e um cavalo que j foi novo,
mas se o tratarmos com cuidado talvez seja capaz de nos
levar. Houve uns segundos de perplexidade, reaco natural
em gente acostumada  locomoo automvel e que de
repente se v obrigada pelas difceis circunstncias da vida a
regressar a velhos costumes. E a galera  coberta, perguntou
Pedro Orce, prtico e da gerao mais antiga, A lona j no
estar em bom estado, mas remenda-se onde for preciso,
tenho a pano grosso que servir para as primeiras impres
ses, E se for preciso, disse Joaquim Sassa, arranca-se a
lona do Dois Cavalos, j no vai precisar dela e ser o
ltimo favor que lhe devo. Esto todos de p, felizes,
parece-lhes grande a aventura, de galera por esse mundo
fora, mundo  uma maneira de dizer, e dizem eles, Vamos
ver o cavalo, vamos ver a carroa,  preciso que Maria
Guavaira lhes explique que uma galera no  uma carroa,
tem quatro rodas, jogo dianteiro de direco, e, sob o toldo
que os abrigar das intempries, espao suficiente para a
famlia, com ordem e boa administrao dos meios pouca
diferena far de estar em casa.
O cavalo  velho, viu-os entrar na estrebaria e virou para
eles o seu grande olho negro, assustado pela luz e o
alvoroo. E bem certo o que ensina o sbio, enquanto no
chegar a tua ltima hora, ainda tudo pode acontecer, no
desesperes.

201


Estando longe, sabemos pouco das laadas e ns-cegos,
da crise que, latente desde o desgarre da pennsula, tinha
vindo a agravar-se no interior dos governos, sobretudo desde
a clebre invaso dos hotis, quando as massas ignaras
tripudiaram sobre a lei e a ordem, em termos de no se
prever como nos tempos prximos se h-de resolver a
situao, devolvendo o seu aos seus donos, como determi
nam os superiores interesses da moral e da justia. Sobretudo
porque no se sabe se haver tempos prximos. A notcia
de que a pennsula se precipita  velocidade de dois
quilmetros por hora em direco aos Aores foi aproveitada
pelo
governo portugus para apresentar a demisso, com fundamento
na evidente gravidade da conjuntura e no perigo
colectivo iminente, o que permite pensar que os governos s
so capazes e eficazes nos momentos em que no haja
razes fortes para exigir tudo da sua eficcia e capacidade.
O primeiro-ministro, na declarao ao pas, apontou o carc
ter monopartidrio do seu governo como obstculo ao
consenso nacional amplo que, nas condies do terrvel
transe que vivemos, considerava indispensvel ao
restabelecimento da normalidade. Nessa ordem de ideias,
propusera
ao presidente da Repblica a formao de um governo de
salvao nacional, com participao de todas as foras
polticas, com ou sem representao parlamentar, tendo em
conta que sempre se encontraria um lugar de subsecretrio

202

adjunto de qualquer secretrio adjunto de qualquer adjunto
ministro para ser entregue a formaes partidrias que,
numa situao normal, no seriam chamadas nem para abrir
uma porta. E no se esqueceu de deixar muito claro e
explicado que tanto ele como os seus ministros se consideravam
ao servio do pas para, em novas ou diferentes fun
es, colaborarem na salvao da ptria e contriburem para
a felicidade do povo.
O presidente da Repblica aceitou o pedido de demisso
e, cumprindo a constituio e as normas do funcionamento
democrtico das instituies, convidou o primeiro-ministro
demissionrio, como dirigente mximo do partido mais votado e
que, at aqui, governara sem alianas, convidou-o,
dizamos, a formar o proposto governo de salvao nacional.
Porque,  bom que sobre isto ningum tenha dvidas, os
governos de salvao nacional so tambm muito bons,
pode-se mesmo dizer que so os melhores que h, lstima 
que as ptrias s de longe.em longe precisem deles, por isso
no temos, habitualmente, governos que nacionalmente sai
bam governar. . Sobre esta matria, delicada, como as que
mais o sejam, tem havido infinitos debates entre
constitucionalistas, politlogos e outros conhecedores, e em
tantos anos
no se pde adiantar grande coisa  evidncia dos significados
que as palavras tm, isto , que um governo de salvao
nacional, sendo nacional e de salvao,  de salvao
nacional. Diria assim Pero Grulho, e diria bem. E o que- de
mais interessante h em tudo isto  sentirem-se as populaes
desde logo salvas, ou muito em vias de o serem, mal
foi anunciada a formao do dito governo, no se podendo,
em todo o caso, evitar certas manifestaes de cepticismo
congnito quando  conhecido o elenco ministerial e se
veem os retratos dos ministros nos jornais e na televiso,
Afinal so as mesmas caras, e que  que ns espervamos,
se to renitentes somos a dar as nossas.
Tem-se falado nos perigos que Portugal corre se vier a
chocar com os Aores, e tambm nos efeitos secundrios, se

203


directos no chegarem a ser, de que est ameaada a Galiza,
mas muito mais grave , por certo, a situao da populao
das ilhas. Afinal, que  uma ilha. Uma ilha, neste caso um
arquiplago inteiro,  o afloramento de cordilheiras
submarinas, quantas vezes apenas os agudos picos de agulhas
rochosas que por milagre se sustentam de p em fundos de
milhares de metros, uma ilha, em resumo,  o mais contin
gente dos acasos. E agora vem a o que, tambm de ilha no
passando,  to grande e veloz que h grande perigo de
assistirmos, oxal que de longe,  decapitao sucessiva de
So Miguel, ilha Terceira, o So Jorge e o Faial, e outras
ilhas dos Aores, com perda geral de vidas, se o governo de
salvao nacional, que amanh tomar posse, no encontrar
solues para a deslocao, em tempo curto, de centenas de
milhares e milhes de pessoas para regies de suficiente
segurana, se as h. O presidente da Repblica, mesmo
antes da entrada em funes do novo governo, j apelou
para a solidariedade internacional, graas  qual, como
estamos lembrados, e este  apenas um dos muitos exemplos
que poderamos apresentar, se evitou a fome em frica. Os
pases da Europa, onde felizmente se tem verificado um
certo abaixamento de tom na linguagem quando se referem a
Portugal e Espanha, depois da sria crise de identidade com
que se debateram quando milhes de europeus resolveram
declarar-se ibricos, acolheram com simpatia o apelo e j
mandaram saber como  que queremos ser auxiliados, ainda
que, como de costume, tudo dependa de poderem as nossas
necessidades ser satisfeitas pelas disponibilidades
excedentrias deles. Quanto aos Estados Unidos da Amrica do
Norte,
que assim por extenso inteira devero ser sempre nomeados,
apesar de terem mandado dizer que a frmula de
governo de salvao nacional no  do seu agrado, mas que
enfim, v l, atendendo  circunstncia, declararam-se
dispostos a evacuar toda a populao dos Aores, que no
chega a duzentas e cinquenta mil pessoas, ficando todavia
para resolver mais tarde onde podero ser instaladas essas

204

pessoas, nos prprios Estados salvadores, nem pensar, por
causa das leis da imigrao, o ideal, se querem que vos
diga, e esse  o sonho secreto do Departamento de Estado e
do Pentgono, seria que as ilhas detivessem, mesmo que
com alguns estragos, a pennsula, que assim ficaria fixada a
meio do Atlntico para benefcio da paz do mundo, da
civilizao ocidental e de bvias convenincias estratgicas.
Ao vulgo vai comunicar-se que todas as esquadras norte
-americanas receberam ordem para se dirigirem  rea dos
Aores, logo a se recolhero muitos milhares de aorianos,
ficando o resto para a ponte area cuja organizao se
encontra em curso. Portugal e Espanha tero de resolver os
seus problemas locais, menos os espanhis do que ns, que
a eles sempre a histria e o destino trataram com mais do
que evidente parcialidade.
Tirando o caso da Galiza, caso e regio puramente
perifricos, ou, com outro rigor, apendiculares, a Espanha
est ao abrigo das consequncias mais nefastas do
abalroa"mento, visto que, substancialmente, Portugal lhe serve
de
tampo ou pra-choques. H problemas de certa complexi
dade logstica para resolver, como sejam as importantes
cidades de Vigo, Pontevedra, Santiago de Compostela e
A Corunha, mas, quanto ao resto, o povo das aldeias est
to acostumado ao precrio governo da sua vida, que, quase
sem esperar ordens, conselhos e opinies, ps-se em marcha
para o interior, pacfico e resignado, usando os meios j
referidos, e outros, a' comear pelo mais primitivo, os
prprios ps.
Mas a situao de Portugal  radicalmente diferente.
Repare-se que toda a costa, com excepo da parte sul do
Algarve, se encontra exposta ao apedrejamento das ilhas
aricas, palavra que aqui se usa, apedrejamento, porque,
enfim, no h grande diferena, nos efeitos, entre bater em
ns uma pedra ou batermos ns na pedra,  tudo questo de
velocidade e inrcia, no esquecendo todavia, no caso
vertente, que a cabea, mesmo ferida e rachada, far todos

205


aqueles calhaus em estilhas. Ora, com uma costa assim,
quase toda de terras baixas e com as cidades maiores 
beirinha da gua, e tendo em conta a impreparao dos
portugueses para a mais insignificante das calamidades
pblicas, terramoto, inundao, fogo na floresta, seca
persistente, duvida-se que o governo de salvao nacional
saiba cumprir o seu dever. A soluo seria mesmo fomentar
o pnico, levar as pessoas a largarem precipitadamente as
suas casas e a refugiarem-se nos campos recuados. O pior 
se em viagem e ao instalarem-se essas pessoas se vem
privadas de alimentos, a no se imagina a que extremos
podero chegar indignao e revolta. Tudo isto, natural
mente, nos preocupa, mas, confessemo-lo, muito mais nos
preocuparia se no calhasse estarmos na Galiza, observando
os preparativos de viagem de Maria Guavaira e Joaquim
Sassa, de Joana Carda e Jos Anaio, de Pedro Orce e o
Co, a importncia relativa dos assuntos  varivel, ele  o
ponto de vista, ele  o humor do momento, ele  a simpatia
pessoal, a objectividade do narrador  uma inveno moderna,
basta ver que nem Deus Nosso Senhor a quis no seu Livro.
Esto passados dois dias, o cavalo tem recebido alimen
tao reforada, aveia e fava  discrio, ele que j estava
~no regime bsico, Joaquim Sassa chegou mesmo a propor
sopas de vinho, e a galera, remendados os buracos do toldo
com a lona retirada a Dois Cavalos, a mais do conforto
interior que proporciona, proteger da chuva quando ela vier
com mais constncia do que os eflvios ltimos, que Setembro
j chegou e estamos em terra muito aqutica. Neste levar
e trazer, calcula-se que a pennsula ter navegado uns cento
e cinquenta quilmetros desde que Jos Anaio fez contas
competentes. Faltar, portanto, andar ainda setecentos e
cinquenta quilmetros, ou quinze dias, para quem preferir
medidas mais empricas, ao cabo dos quais, minuto mais,
minuto menos, se dar o primeiro choque, Jesus Maria Jos,
pobrezinhos dos alentejanos, o que lhes vale  estarem
habituados, so como os galegos, tm a pele to rija que

206

bem se justificaria voltarmos s palavras velhas, chamemos
 pele couro e ficam dispensadas outras explicaes. Aqui,
em terras setentrionais, neste paradisaco vale da Galiza, o
tempo chega e sobeja para pr-se a salvo a companhia.
A galera j l tem colches, lenis e cobertores, leva as
bagagens de todos, e um trem de cozinha elementar, comida
feita para os primeiros dias, tortilhas, se se considera
necessrio especificar, e vveres diversos, dos rsticos e
caseiros,
feijo branco e encarnado, arroz e batatas, um barril de
gua, um pipo de vinho, duas'galinhas a pr, uma delas
pedrs e de pescoo pelado, bacalhau, a bilha do azeite, o
frasco do vinagre, e sal, que no se pode viver sem ele, a
no ser que se escape ao baptismo, a pimenta e o colorau,
todo o po que havia em casa, a farinha numa saca, feno,
aveia e fava para o cavalo, o co no d cuidados, sabe
governar-se sem ajudas, quando as aceita  por comprazer.
Maria Guavaira, sem dizer porqu, mas talvez no soubesse
explicar se lho perguntassem, teceu com o fio azul pulseiras
para todos e coleiras para o cavalo e o co. To grande  o
monte de l que nem se deu pela diferena. Alis, diga-se,
ainda que o quisessem levar, no caberia na galera, nem
nunca esteve previsto que o fizessem, seno onde se deitaria
aquele trabalhador mais novo que aqui h-de vir.
Na ltima noite que passaram na casa deitaram-se tarde,
ficaram a conversar durante horas, como se o dia seguinte
fosse de dolorosas despedidas, cada um para seu lado. Mas
estarem assim juntos ainda era um modo de fortalecer os
nimos,  sabido que as varas comeam a partir-se no
momento em que se afastam do feixe, tudo o que  quebr
vel j est quebrado. Desdobraram em cima da mesa da
cozinha o mapa da pennsula, nesta sua figurao ainda
incongruentemente ligada  Frana, e marcaram o itinerrio
da primeira jornada, inaugural, tendo o cuidado de escolher
os percursos menos acidentados, por mor das poucas foras
do lzaro cavalar. Mas teriam de fazer um desvio mais para
norte, at  Corunha, era a que estava asilada a me doida

207


de Maria Guavaira, o simples amor de filha ordenaria que a
fosse retirar daquele rilhafoles, imaginemos o pnico na casa
dos orates, uma ilha a entrar-lhes pela porta dentro, a
lanar-se enorme sobre a cidade levando  frente os barcos
ancorados, e todas aquelas janelas envidraadas da avenida
marginal a estilhaarem-se no mesmo instante, e os doidos a
julgarem, se na sua doidice julgar podem, que tinha enfim
chegado o dia do juzo.. Maria Guavaira vai ter a lealdade de
dizer, No sei como poder ser a nossa vida com a minha
me dentro da galera, ainda que ela, v l, no  violenta,
ser apenas tempo de chegarmos a lugar seguro, tenham
pacincia. Responderam 'que a teriam, que no lhe desse
cuidado, que tudo se haver de arranjar pelo melhor, mas
bem sabemos que nem o muito amor resiste intacto  sua
prpria loucura, que far tendo de viver com a alheia, neste
caso a louca me de um dos loucos. Valeu ali ter tido Jos
Anaio a feliz ideia de telefonarem do primeiro lugar onde
isso seja possvel, a saber de notcias, pode bem acontecer
que as autoridades sanitrias tenham transferido j ou
venham a transferir os alienados para stio seguro, que este
naufrgio no  dos clssicos, primeiro salvam-se os que j
esto perdidos.
Recolheram-se enfim os casais aos quartos, fizeram o
que sempre se faz em ocasies destas, quem sabe se voltaremos
aqui algum dia, ento fiquem os ecos do humano amor
carnal, esse que no tem par entre as espcies, porque 
feito de suspiros, de murmrios, de palavras impossveis, de
saliva e de suor, de agonia, de martrio implorado, Ainda
no, morre-se de sede e recusa-se a gua libertadora, Agora,
agora, meu amor, e  isto que a velhice e a morte nos ho-de
roubar. Pedro Orce, que est velho e tem j da morte o
primeiro sinal, que  a solido, saiu uma vez mais de casa
para ir ver a barca de pedra, foi com ele o co que tem todos
os nomes e nenhum, e quem a estiver dizendo que, por ir o
co, no vai Pedro Orce s, esse esquece a origem remota
do animal, ces de inferno j viram tudo, e tendo vida to

208

longa no so eles companhia de algum, os humanos, que
to pouco vivem,  que acompanham os ces. A barca de
pedra est l, e a proa  alta e aguda como na primeira
noite, Pedro Orce no estranha, cada um de ns v o mundo
com os olhos que tem, e os olhos vem o que querem, os
olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravi
lhas, ainda que sejam de pedra, e as altas proas, ainda que
sejam de iluso.
A manh acordou encoberta, chuviscosa, maneira de
dizer que sendo corrente no  exacta, as manhs no
acordam, acordamos ns nelas, e ento, vindo  janela,
vemos que o cu est tapado de nuvens baixas e cai uma
chuvinha mida, de molha-parvos que a ela se vo meter,
porm, sendo to grande a fora da tradio, se esta nossa
viagem levasse dirio de bordo, por certo o escrivo da nau
lavraria, assim a sua. primeira lauda, A manh acordou
encoberta e chuviscosa, como se aos cus estivesse
desagradando a aventura, sempre nestes casos se invocam os
cus,
tanto faz que chova como faa sol. Dois Cavalos, de
empurro, foi tomar o lugar da galera, debaixo de telha,
quer dizer, de colmo, que isto no  garagem mas alpendre,
aberto a todos os ventos. Assim abandonado, sem a cobertura de
lona que serviu para reparar o toldo da galera, parece
j uma runa, s coisas acontece-lhes o mesmo que s
pessoas, quando.no servem acabam, acabam se deixam de
servir. A galera, pelo contrrio, apesar da sua vetustez,
rejuvenesceu com a sada para o ar livre, e a chuva que cai
banha-a de novidade, admirvel foi sempre o efeito da
aco, repare-se no cavalo, debaixo do oleado que lhe
resguarda os lombos apetece imagin-lo horsa de torneio,
axairelado para a batalha.
No deveriam causar estranheza estas demoras descritivas, so
modos de mostrar como custa arrancarem-se as
pessoas aos lugares onde foram felizes, tanto mais que no
vo estas fugir em pnico desgarrado, agora Maria Guavaira
fecha cuidadosamente as portas, solta as galinhas que ficam,

209


os coelhos da coelheira, o porco da pocilga, so animais
habituados a mesa posta e que ficam agora  graa de Deus,
se no s artes do diabo, que o porco  bem capaz, se os
apanha a jeito, de fazer razia nos outros bichos. Quando o
mais novo dos trabalhadores aparecer ter de arrombar uma
janela para entrar em casa, no h, lguas em redor,
ningum para testemunhar o assalto, Se o fiz, foi por bem,
so palavras dele, e talvez seja verdade.
Maria Guavaira subiu para a boleia, ao lado sentou-se
Joaquim Sassa de guarda-chuva aberto,  o seu dever,
acompanhar a mulher amada e defend-la dos maus tempos,
s no pode  tomar-lhe o ofcio, que destas cinco pessoas
apenas Maria Guavaira sabe como se conduz uma galera e
um cavalo. L para a tarde, quando o cu aliviar, haver
lies, Pedro Orce far questo de ser o'primeiro a receber
os rudimentos,  grande bondade a sua, assim j podem os
dois casais repousar debaixo do toldo, sem indesejadas
separaes, e, sendo o assento do cocheiro to espaoso,
podem ali viajar trs, soluo ideal para a intimidade dos
restantes, mesmo que seja apenas para estarem calados,
quietos e juntos. Agitou Maria Guavaira as rdeas, o cavalo,
atrelado  lana da galera, sem parceiro do outro lado, deu o
primeiro estico, sentiu a resistncia dos tirantes, depois o
peso da carga, a memria voltou aos seus velhos ossos e
msculos, e o som quase esquecido repetiu-se, a terra
esmagada pelo rolar das rodas caladas de ferro. Tudo se
aprende, esquece e reaprende, exigindo-o a necessidade.
Durante uns cem metros o co acompanhou a* galera 
chuva. Depois percebeu que podia viajar, ainda que por seu
p, ao abrigo da incomodidade. Meteu-se debaixo da galera,
acertou o passo pelo andamento do cavalo, assim o iremos
ver durante todo o tempo que esta viagem durar, quer chova,
quer faa sol, desde que no lhe apetea fazer trabalho de
batedor ou distrair-se nas idas e vindas sem aparente sentido
que tornam to parecidos os homens e os ces.
Neste dia no andaram muito. Havia que poupar o

210

cavalo, tanto mais que o terreno acidentado exigia dele
contnuos esforos, quer a subir, puxando, quer a descer,
aguentando. Aonde os olhos alcanavam, no se via vival
ma, Devemos ter sido os ltimos a partir destes stios, disse
Maria Guavaira, e o cu baixo, o ar pardento, a paisagem
aflita, eram j o desmaio de um mundo final, despovoado,
miserando depois de tanto sofrimento e canseira, de tanto
viver e morrer, de tanta vida teimosa e morte sucessiva. Mas
nesta galera viajante vo amores novos, e os amores novos,
como no ignoram os observadores, so a mais forte coisa
que existe no mundo, por isso no se temem de acidentes,
sendo eles prprios, os amores, como por excelncia so, a
mxima. representao do acidente, o relmpago sbito, a
sorridente queda, o atropelamento ansioso. No se deve
portanto confiar por inteiro nas primeiras impresses, esta
quase fnebre despedida de um pas deserto, sob chuva
melanclica, prefervel seria, se no fssemos to discretos,
apurar o ouvido  conversa de Joana Carda e Jos Anaio,
de Maria Guavaira e Joaquim Sassa, o silncio de Pedro
Orce  mais discreto ainda, dele se poderia dizer que nem
parece que vai aqui.
A primeira aldeia que atravessaram no fora deixada por
todos os seus habitantes. Certos velhos tinham declarado aos
inquietos filhos e parentes que, morrer por morrer, antes
assim que de fome ou doena maligna, se uma pessoa foi to
gloriosamente escolhida ao ponto de ir morrer com o seu
prprio mundo, ainda que no seja um heri wagneriano,
espera-o o Valhal supremo aonde as grandes catstrofes se
recolhem. Velhos galegos ou portugueses, que tudo  a
mesma galeguice e portuguesice, no sabem nada destas
coisas, mas por alguma razo inexplicvel foram capazes de
dizer, No saio daqui, vo vocs se tm medo, e isto no
significa que eles sejam supremamente corajosos, apenas
que neste momento da vida acederam  compreenso de que
a coragem e o medo so simplesmente os dois pratos
oscilantes de uma balana cujo fiel se mantm fixo, parali
211


sado pelo espanto da intil inveno das emoes e senti
mentos.
Quando a galera atravessava a aldeia, a curiosidade, que
provavelmente  a ltima qualidade a perder-se, fez sair 
estrada os ancios, acenaram lentamente, e era como se
estivessem a'despedir-se de si prprios. Disse ento Jos
Anaio que seria acto de sensatez aproveitarem, para
dormir, uma das casas desabitadas, aqui ou noutra povoa
o, ou num ermo, certamente haveria camas, um conforto
melhor que o da galera, mas Maria Guavaira declarou que
nunca ficaria numa casa sem licena dos donos, h pessoas
assim, escrupulosas, outras se vem uma janela fechada
arrombam-na, mas diro, Foi por bem, e, seja o bem o seu
ou doutro, sempre ficar a dvida sobre o primeiro e o
ltimo motivo. Jos Anaio arrependeu-se da ideia, no
porque fosse m, mas por ser absurda, bastaram as palavras
de Maria Guavaira para definir uma regra de dignidade,
Bastar-te-s a ti prprio enquanto puderes aguentar, depois
confia-te a quem mereceres, melhor se esse for algum que
te merea. Tal como vo as coisas, parecem merecer-se
estes cinco uns aos outros, reciprocamente e complementar
mente, fiquem pois na galera, comam as tortilhas, conversem
sobre a viagem feita e a viagem a fazer, Maria Guavaira
reforar com a teoria as lies prticas de conduo que j
deu, debaixo duma rvore o cavalo mi e remi a sua rao
de feno, o co satisfez-se desta vez com o abastecimento
domstico, anda por a a farejar e a assombrar os noitibs.
Deixou de chover. Uma lanterna ilumina por dentro o toldo
da galera, quem aqui passasse diria, Olha um teatro,  verdade
que so personagens, mas no representantes.
Quando amanh Maria Guavaira, enfim, puder telefonar
para a Corunha, dir-lhe-o que sua me e os outros internados
j foram transferidos para o interior, E ela como est,
To louca como antes, mas esta resposta serve a qualquer.
Vo continuar a viagem at que a terra se torne de novo
povoada. A ficaro  espera.

212

Constituiu-se o governo de salvao nacional dos portu
gueses, comeou logo logo a trabalhar, tendo o primeiro
-ministro, o mesmo, ido  televiso produzir uma frase que a
histria certamente registar, uma coisa no gnero, Sangue,
suor e lgrimas, ou, Enterrar os mortos e cuidar dos vivos,
ou, Honrai a ptria, que a ptria vos contempla, ou,
O sacrifcio dos mrtires far germinar as messes do futuro.
Neste caso de agora, e tendo em conta os particulares da
situao, o primeiro-ministro achou por bem dizer apenas,
Portugueses, portuguesas, a salvao est na retirada.
Porm, alojar nas linhas recuadas do interior os milhes
de pessoas que habitam a faixa litoral era tarefa de to
extrema complexidade que ningum teve a pretenso, no
menos que estulta, de apresentar um plano nacional de
evacuao, geral e capaz de integrar as iniciativas locais.
Em relao, por exemplo,  cidade e termo de Lisboa, a
anlise da situao e as medidas dela decorrentes partiram
de um pressuposto, objectivo e subjectivo, que poder ser
resumido desta maneira, A grande maioria, por que no
diz-lo, a maioria esmagadora dos habitantes de Lisboa no
nasceram l, e os que nela nasceram encontram-se ligados
aqueles por laos familiares. As consequencias de um tal
facto so amplas e decisivas, sendo a primeira que uns e
outros devero transferir-se para os lugares de origem, onde,
regra geral, ainda tm parentes, alguns mesmo que as


circunstncias da vida fizeram perder de vista, assim se
aproveitando esta oportunidade forada para reintroduzir a
harmonia nas famlias, sanando-se antigos desentendimentos,
dios por heranas ms e partilhas pssimas, rixas de
mal-dizer, a grande infelicidade que nos cai em cima ter o
mrito de aproximar os coraes. A segunda consequncia,
naturalmente decorrente da primeira, toca o problema da
alimentao das pessoas deslocadas. Pois mesmo a, e sem
que o Estado v ser obrigado a intervir, ter a comunidade
familiar um grande papel a desempenhar, o qual, traduzindo
em nmeros, se poderia exprimir por uma actualizao
macroeconmica do velho ditado, Onde comem dois,
comem trs, conhecida resignao aritmtica e familiar de
quando se espera um filho, agora se dir, em tom de maior
autoridade, Onde comem cinco milhes, comam dez, e, com
brando sorriso, Um pas no  mais do que uma grande
famlia.
Ficariam sem recurso os solitrios, os sem famlia, os
misantropos, mas mesmo estes no ficaro automaticamente
excludos da sociedade, h que ter confiana nas
solidariedades espontneas, naquele irreprimvel amor ao
prximo que
em todas as ocasies se manifesta, veja-se o exemplo dado
pelas viagens de caminho-de-ferro, especialmente as de
segunda classe, quando chega a hora de abrir o cesto do
farnel a me-de-famlia nunca se esquece de convidar ao
repasto os viajantes desconhecidos que ocupam os lugares
prximos, So servidos, pergunta ela, se algum aceita no
se lhe leva a mal, embora se conte que todos respondam em
coro, Muito obrigado, bom proveito. A dificuldade mais
embaraosa vai ser o alojamento, uma coisa  oferecer um
pastel de bacalhau e um copo de vinho, outra, bem diferen
te, seria ceder metade da cama onde vamos dormir, mas se
conseguirmos meter na cabea das pessoas que estes solitrios
e abandonados so novas encarnaes de Nosso Senhor,
como no tempo em que andava pelo mundo, disfarado de
pobrezinho, a experimentar a bondade dos homens, ento

214

sempre se encontrar para eles um desvo de escada, um
esconso no sto, ou, ruralmente falando, uma telha e um
molho de palha. Deus, desta vez, por muito que se multipli
que , ser tratado como se deve ao merecimento de quem
criou a humanidade.
Temos falado de Lisboa, com diferena apenas quantitativa nos
termos poderamos ter falado do Porto ou de
Coimbra, e de Setbal e Aveiro, de Viana ou Figueira, sem
esquecer essa miualha de vilas e aldeias que esto por toda
a parte, embora em alguns casos se suscite a perturbadora
questo de saber-se para onde devem ir as pessoas que
precisamente vivam no lugar onde nasceram, e tambm
aquelas que, vivendo numa terra do litoral, nasceram noutra
terra do litoral. Levados os buslis a conselho de ministros,
trouxe o porta-voz a resposta, O governo confia que o
esprito de iniciativa particular resolva, qui de modo
original e com ulterior proveito geral, as situaes que no
se enquadrem no esquema nacional de evacuao e reinstalao
das populaes. Assim superiormente autorizados a
deixar de parte, por pessoais, esses destinos, limitemo-nos a
referir, quanto ao Porto, o caso dos patres e colegas de
Joaquim Sassa. Bastar dizer que se ele, por imperativo da
disciplina e conscincia profissional, tivesse vindo a toque
de caixa -dos montes galegos, abandonando  sorte amor e
amigos, encontraria o escritrio fechado e na porta afixado
um letreiro com o ltimo aviso da gerncia, Os empregados
que regressem de frias devero apresentar-se nas novas
instalaes que abrimos em Penafiel, onde esperamos conti
nuar a receber as estimadas ordens dos nossos prezados
clientes. E os primos de Joana Carda, aqueles da Ereira,
encontram-se agora em Coimbra, em casa do primo abando
nado, que no lhes mostrou boa cara, compreende-se, afinal
ele  que  o dorido, ainda teve um lampejo de esperana,
pensou que os primos vinham  frente a preparar o regresso
da fugitiva, mas quando, prolongando-se a demora, pergun
tou, E a Joana, a prima confessou, contrita, No sabemos,

215


ela esteve l em casa, esteve, mas desapareceu ainda antes
deste alvoroo, nunca mais tivemos notcias, do que sabe
sobre o resto da histria guarda-se de falar, mas, se com
esse pouco se espantou, que no diria se a conhecesse toda.
Est pois o mundo suspenso, em expectativa ansiosa,
que ser, que no ser que vai acontecer s praias lusitanas e
galegas, ocidentais. Mas, uma vez mais o repetimos, ainda
que j fatigadamente, no h coisa m que no traga na
barriga uma coisa boa, este , pelo menos, o ponto de vista
dos governos da Europa, pois viram, de uma hora para a
outra, a par dos salutares resultados da represso a seu
tempo aqui noticiada, baixar e quase apagar-se de todo o
entusiasmo revolucionrio dos jovens, a quem os sensatos
pais agora esto dizendo, Vs, meu filho, o perigo em que te
ias meter se continuasses naquela teima de seres ibrico, e o
rapaz, enfim edificado, responde, Sim, pap. Enquanto
decorrem estas cenas de reconciliao familiar e pacificao
social, os satlites geoestacionrios, regulados. para
manterem uma posio relativa constante, emitem para a terra
fotografias e medies, as primeiras naturalmente invari
veis quanto  forma do objecto em deslocao, as segundas
registando em cada minuto que passa uma reduo de cerca
de trinta e cinco metros na distncia que separa a ilha grande
das ilhas pequenas. Num tempo como este nosso, de aceleradores
de partculas, trinta e cinco metros por minuto,
como factor de preocupao, seria caso para rir, mas se nos
lembrarmos de que atrs destas aprazveis e macias areias,
destes recortados e pitorescos litorais, destas alcantiladas
varandas para o mar, vm quinhentos e oitenta mil quilme
tros quadrados de superfcie e um nmero incalculvel,
astronmico, de milhes de toneladas, se, para s falarmos
de serras, cordilheiras e montanhas, tentarmos ver na nossa
ideia o que ser a inrcia de todos os sistemas orogrficos da
pennsula agora postos em movimento, sem esquecer os
Pirenus, apesar de reduzidos a metade da sua antiga grandeza,
ento no temos seno que admirar a coragem destes

216

povos de tantos sangues cruzados, e tambm louvar neles
um sentido fatalista da existncia que, com a experincia dos
sculos, veio a condensar-se na notabilssima frmula, Entre
mortos e feridos algum h-de escapar.
Lisboa  uma cidade deserta. Ainda andam por a patru
lhas do exrcito, com apoio areo, de helicpteros, como em
Espanha e Frana se praticou quando se deu a ruptura e
durante aqueles conturbados dias que se seguiram. Enquanto
no vierem a ser retirados, o que se prev ser feito vinte e
quatro horas antes do momento previsvel do choque, os
soldados tm por misso velar e vigiar, embora verdadeira
mente no valesse a pena, uma vez que todos os valores
foram, a seu tempo, levados dos bancos. Mas ningum
perdoaria a um governo que abandonasse uma cidade como
esta, bela, harmoniosa, perfeita de propores e felicidade,
como inevitavelmente dela se h-de dizer depois de ter sido
destruda. Por isso os soldados esto aqui como a representa
o simblica do povo ausente, a guarda de honra que
dispararia as salvas da ordenana se para tal ainda houvesse
tempo naquele instante supremo em que a cidade baixar 
gua.
Entretanto, os soldados vo dando alguns tiros em saltea
dores e arrombadores, aconselham e orientam as raras
pessoas que teimam em no querer abandonar as suas casas
e aquelas que finalmente se decidiram a partir, e quando
encontram, como acontece uma vez por outra, loucos a
vaguear pelas ruas, da espcie de mansos que, tendo tido,
por pouca sorte sua, licena de sada do manicmio no dia
da debandada, e, no tendo sabido ou compreendido a
ordem de regresso, acabaram por ficar a ao deus-dar, dois
modos de agir geralmente se verificam. Certos graduados
opinam que o louco  sempre mais perigoso do que o
salteador, tendo em conta que este, ao menos, conservou um
juzo parecido com o seu. Em tal caso no pensam duas
vezes, mandam abrir fogo. Outros, menos intolerantes, e
sobretudo conscientes da necessidade vital de descompres
217


ses nervosas em tempo de guerra ou similar, autorizam que
os seus subordinados se divirtam  custa do tolinho, um
pouco, mandando-o depois seguir em paz, mas no, se em
vez de tolo for -tola, exactamente no mesmo estado, deve-se
isto ao facto de no faltar, na tropa, mas tambm fora dela,
quem abuse da verificao elementar e bvia de que o sexo,
instrumentalmente falando, no  na cabea.
Mas quando nesta cidade, por avenidas, ruas e praas,
por bairros e jardins, no se avistar j uma s pessoa,
quando s janelas no se vir assomar um vulto, quando os
canrios que ainda no morreram de fome e sede cantarem
no silncio absoluto da casa ou na varanda para os quintais
desertos, quando as guas das fontes e fontanrios brilharem
ao sol e mo nenhuma vier molhar-se nelas, quando os olhos
das esttuas, mortos, girarem em redor  procura de olhos
que os vejam, quando os portes abertos dos cemitrios
mostrarem que no h diferena entre uma ausncia e outra
ausncia, quando, enfim, a cidade estiver  beira de um
agnico minuto esperando que uma ilha do mar a venha
destruir, ento  que acontecer a histria maravilhosa e
miraculosa salvao do navegador solitrio.
Passava de vinte anos que o navegador andava nos mares
do mundo. Herdara o barco, ou comprara-o, ou fora-lhe
dado por outro navegador que tambm nele tinha navegado
durante vinte anos, e antes deste, se as memrias ao fim de
tanto tempo no acabam por confundir-se, parece que por
outros vinte anos um primeiro navegador sulcara solitariamente
os oceanos. A histria dos barcos e dos marinheiros
que os governam  cheia de peripcias, com tempestades
terrveis e calmas to assustadoras como o pior dos tufes,
e, para que lhes no falte o ingrediente romntico,  comum
dizer-se, e sobre a matria se tm feito canes, que em
cada porto h sempre uma mulher  espera do marujinho,
maneira particularmente optimista de imaginar a vida, mas
que os factos da vida e os feitos da mulher as mais das vezes
desmentem. O navegador solitrio, quando desembarca, 

218

para fazer aguada, comprar tabaco e peas de motor, ou para
abastecer-se de leo e carburante, farmcia, agulhas de vela,
um gabo de plstico contra a chuva e os borrifos, anzis,
fio de pesca, o jornal do dia para confirmar o que j sabe,
que no vale a pena, mas nunca, por nunca ser, o navegador
solitrio ps p em terra com o fito de levar mulher para ser
sua companhia na navegao. Se realmente acontece que no
porto uma mulher est  espera, absurdo seria que desdenhasse
dela, mas no geral  ela quem quer e pelo tempo que
entende, nunca o navegador solitrio lhe disse, Espera por
mim, que um dia hei-de voltar, no  um pedido que ele se
permitisse fazer, Espera por mim, nem ele poderiagarantir
que estar de volta nesse dia ou alguma vez, e, voltando,
quantas vezes lhe aconteceria encontrar o cais deserto, ou,
mulher havendo nele, est  espera doutro marinheiro, no
sendo contudo raro que, faltando este, sirva o que apareceu.
A culpa, se  preciso diz-lo, no est nas mulheres nem nos
navegadores, a culpa est nesta solido que s vezes no se
aguenta, tambm ela pode levar o navegador ao porto, e a
mulher ao cais.
Porm, estas consideraes so espirituais e metafsicas,
no resistimos a faz-las quer antes quer depois dos singelos
factos, que nem sempre ajudam a tornar mais claros. Falando
com simplicidade, digamos que muito ao largo desta
pennsula que se tornou ilha ambulante navegava o navegador
solitrio, com sua vela e seu motor, seu rdio e seu
culo de ver ao longe, e aquela pacincia infinita de quem
um dia decidiu dividir a vida em metade de cu e metade de
mar. O vento, subitamente, deixou de soprar, e ele recolheu
a vela, caiu a brisa de repente, e a vaga larga em que o
barco vinha navegando perde aos poucos o mpeto, rebaixa o
dorso, antes que uma hora passe estar o mar liso e calmo,
chega a parecer-nos impossvel que este abismo de gua,
com milhares de metros de profundidade, possa manter-se
equilibrado sobre si mesmo, sem cair para um lado ou para o
outro, a observao s parecer estpida a quem achar que


todas as coisas neste mundo se explicam pelo facto simples
de serem como so, o que, evidentemente, se aceita, mas
no basta. O motor est a trabalhar, tunc-tunc, tunc-tunc, o
mar, at onde os olhos chegam, corresponde, cintilao por
cintilao,  clssica imagem do espelho, e o navegador,
apesar de ter disciplinado desde h muitos anos o sono e a
viglia, fecha os olhos, entorpecido pelo sol, e adormece,
talvez julgasse que por minutos ou horas, e foram apenas
segundos, acordou sacudido pelo que lhe pareceu ser um
grande estrondo, no relance do sono sonhou que tinha
abalroado um destroo animal, uma baleia. Estremunhado,
com o corao a bater desritmado, procurou a origem do
som, no conseguiu perceber logo que o motor tinha parado.
O-repentino silncio acordara-o, mas o corpo, para poder
acordar de modo mais natural, inventara um leviato, um
choque, um trovo. Motores avariados, no mar e em terra, 
o que mais se encontra, de um soubemos a que no se pde
dar remdio, partiu-se-lhe a alma e foi recolhido a um
alpendre exposto a todos os ventos, l para o norte, onde
est a cobrir-se de ferrugem. Mas este navegador no 
como aqueles automobilistas,  experiente e entendido, com
prou peas sobressalentes na ltima vez que tocou terra e
mulher, vai desmontar at onde lhe for possvel, sondar o
mecanismo.. Penas perdidas vo ser. O mal est nas bielas e
profundas, os cavalos deste motor esto feridos de morte.
O desespero, sabemo-lo todos,  humano, no consta da
histria natural que os animais desesperem. Mas o mesmo
homem, inseparvel do desespero, habituou-se a viver com
ele, aguenta-o numa ltima linha de fronteira, e no ser por
avariar-se um motor no meio do mar que o navegador vai
arrepelar-se os cabelos, implorar os cus ou contra eles
lanar maldies e improprios, to intil um acto como o
outro, o remdio  esperar, quem levou o vento tornar a
traz-lo. Mas o vento, que foi, no voltou. Passaram as
horas, veio a noite serenssima, outro dia nasceu, e o mar
no se move, um leve fio de l aqui suspenso cairia como se

220

de prumo fosse, no h um mnimo embalo de gua,  uma
barca de pedra sobre uma laje de pedra. O navegador no
est muito preocupado, esta no  a sua primeira calmaria,
mas o rdio, agora, inexplicavelmente, tambm deixou de
funcionar, no se ouve mais do que um zumbido, a onda de
sustentao, se ainda as h, que no transporta mais que
silncio, como se para alm deste crculo de gua coalhada o
mundo se ' tivesse calado, para assistir, de invisvel
maneira,
 inquietao crescente do navegador,  loucura, talvez 
morte no mar. No faltam os alimentos nem a gua para
beber, mas as horas passam, cada uma mais longa que a
outra, o silncio aperta-se em redor do barco como os anis
duma cobra sedosa, de vez em quando o navegador bate
com um croque na borda, quer ouvir um som que no seja o
do seu prprio sangue a correr nas veias, grosso, ou do
corao, de que s vezes se esquece, e ento acorda depois
de ter julgado que acordara, porque sonhava que estava
morto. A vela est levantada contra o sol, porm a imobili
dade do ar retm o calor, o navegador solitrio tem a pele
queimada, os beios rebentados. Passou este dia, e o seguin
te foi igual. O navegador foge para o sono, desceu 
pequena cabina apesar de ela ser como um forno, h ali uma
nica cama, estreita, prova de que realmente este navegador
 solitrio, e, completamente nu, alagado em suor, primeiro,
depois com a pele seca, eriada de arrepios, luta com os
sonhos, uma ala de rvores muito altas oscilando sob um
vento que vai bandeando as folhas de um lado a outro, e
depois de as deixar regressa e torna a tom-las, sem fim.
O navegador acorda para beber gua, e a gua acaba.
Regressa ao sono, as rvores j no se movem, mas uma
gaivota veio pousar-se sobre o mastro.
Do horizonte avana uma massa imensa e escura. Quan
do se aproximar mais ver-se-o as casas ao longo das praias,
os faris como dedos brancos levantados, uma delgada linha
de espuma, e para l da larga embocadura de um rio uma
grande cidade construda sobre colinas, uma ponte vermelha,

221


que liga as duas margens, a esta distncia  como um
desenho traado por uma pena subtil. O navegador continua
a dormir, afundou-se no ltimo torpor, mas o sonho voltou
subitamente, uma brisa rpida agitou os ramos das rvores,
o barco oscilou na mareta da barra, e, engolido pelo rio,
entrou terra dentro, salvo do mar, imvel ainda, mas a terra
no. O navegador solitrio sentiu nos ossos e nos msculos o,
balano, abriu os olhos, pensou, O vento, voltou o vento, e,
quase sem foras, deixou-se escorregar do catre, arrastou-se
para fora, parecia-lhe que em cada momento morria e em
cada momento ainda podia renascer, a luz do sol bateu-lhe
nos olhos, mas era luz de terra, trazia consigo o que pudera
tirar ao verde das rvores, ao escuro profundo dos campos,
s cores suaves das casas. Estava salvo, e primeiro no sabia
como, o ar no se movia, o sopro de vento fora iluso.
Levou tempo a compreender que o salvara uma ilha inteira,
a antiga pennsula que navegara ao seu encontro e lhe abrira
os braos de um rio. To impossvel h-de isto parecer, que
o prprio navegador solitrio, que h tantos dias ouvira as
notcias do despegamento geolgico, apesar de saber que
estava na rota da nave terrestre, nunca lhe viera  ideia que
pudesse ser salvo desta maneira, pela primeira vez desde
que h naufrgios e perdidos no mar. Mas em terra no se
via ningum, nas cobertas dos barcos fundeados ou atracados
no aparecia um vulto, o silncio era outra vez o do mar
cruel, Isto  Lisboa, murmurou o navegador, mas as pessoas
onde esto. As janelas da cidade brilham, vem-se autom
veis e autocarros parados, uma grande praa rodeada de
arcadas, um arco triunfal ao fundo com figuras de pedra e
coroas de bronze, seria bronze, pela cor. O navegador
solitrio, que conhece os Aores e sabe encontr-los tanto no
mapa como no mar, lembrou-se ento de que as ilhas se
encontram numa rota de coliso, o que o salvou a ele
destru-las- a elas, o que as ir destruir, destru-lo-
tambm, se rapidamente no se afastar destes stios. Vento
ausente, motor parado, no pode subir o rio, a nica sada 

222

encher o bote de borracha, lanar a ncora para segurar o
barco, gesto intil, ir para terra a remos. As energias voltam
sempre quando a esperana volta.
     O navegador solitrio vestira-se para desembarcar, cal
o, camisola, um gorro na cabea, alparcatas, tudo branco
de neve,  o ponto de honra dos marinheiros. Puxou o barco
de borracha para os degraus inclinados do cais, ficou durante
alguns segundos parado, a olhar, tambm  espera que novas
foras voltassem, mas sobretudo a dar tempo para que
algum aparecesse vindo da sombra das arcadas, ou que
subitamente os automveis e os autocarros recomeassem a
andar, e a praa se enchesse de gente, podia mesmo aconte
cer que se aproximasse sorrindo uma mulher, suavemente
meneando as ancas no andar, sem exagero, apenas o insi
nuante apelo que perturba o olhar e a palavra do homem,
mormente se acabou de pr p em terra. Mas o que deserto
estava, deserto continuou. O navegador compreendeu enfim
o que faltava compreender, Foram-se todos por causa do
choque com as ilhas. Olhou para trs, viu o seu barco no
meio do rio, era esta a ltima vez, tinha a certeza, nem um
couraado se salvaria do tremendo abalroamento, que far
uma casquinha de noz veleira, abandonada do seu dono.
O navegador atravessou a praa, ainda trpego da longa
imobilidade, parece um espantalho com a sua pele queimada, os
cabelos eriados para fora do gorro, as alparcatas
mal
seguras nos ps. Levanta os olhos ao aproximar-se do
grande arco, v as letras latinas, Virtutibus Majorum ut sit
omnibus documento P.P.D., nunca aprendeu latim, mas
vagamente percebe que o monumento est. consagrado s
virtudes dos antepassados do povo daqui, e avana por uma
rua, estreita, ladeada de prdios iguais, at sair numa outra
praa, mais pequena, com um edifcio grego ou romano ao
fundo, e no meio dela duas fontes com mulheres nuas, de
ferro, a gua corre, e ele sente de repente a grande sede, o
desejo de mergulhar a boca naquela gua e o corpo naquela
nudez. Vai de mos estendidas, como em delrio, ou em

223


sonho, ou em transe, vai murmurando, no sabe o que diz,
sabe s o que quer.
A patrulha apareceu na esquina, cinco soldados comandados por
um alferes. Viram o doido a fazer trejeitos de
doido, ouviram-no pronunciar incoerncias de doido, nem
foi preciso dar a ordem. O navegador solitrio ficou estendido
no cho, ainda lhe faltava muito caminho para chegar 
gua. As mulheres, como sabemos, so de ferro.

224

Estes dias foram tambm os do terceiro xodo.
O primeiro, de que na devida altura se deu notcia
substancial, foi o dos turistas estrangeiros, quando espavori
dos fugiram ao que ento, como o tempo passa, ainda
parecia a simples ameaa de abrir-se uma racha nos pirenai
cos montes at ao nvel do mar, e lstima  que o acidente
inopinado no tivesse ficado por a, imagine-se qual no
seria o orgulho da Europa, dispor, para todos os efeitos, de
um canho geolgico comparado com o qual o do Colorado
no faria melhor figura que uma regueira de gua. O segun
do xodo foi o dos ricos e poderosos, ao tornar-se irreparvel
a fractura, quando a deriva da pennsula, se bem que
ainda pachorrenta, como a tomar balano, veio mostrar, de
modo que cremos definitivo, a precariedade das estruturas e
ideias assentes. Viu-se ento como o edifcio social, com
toda a sua complexidade, no passa de um castelo de cartas,
slido apenas de aparncia, se dermos um safanona mesa
em que est armado, vai-se abaixo. E a mesa, neste caso, e
pela primeira vez na histria, movera-se por si prpria, meu
Deus, meu Deus, para que sejam salvos os preciosos bens e
as vidas preciosas, fujamos.
O terceiro,xodo, este de que falvamos antes de resumir
os dois primeiros, teve, por assim dizer, duas componentes,
ou partes, as quais, se levarmos em conta as diferenas
essenciais que as distinguem, deveriam, na opinio de al
225


guns, ser designadas por terceiro xo do e quarto xodo.
Amanh, quer dizer, no futuro distante, os historiadores que
se dedicarem ao estudo de acontecimentos que, em sentido
no apenas alegrico, mas literal, mudaram a face do
mundo, decidiro, esperamos que com a ponderao e a
imparcialidade de quem desapaixonadamente observa os
fenmenos do passado, se sim ou no dever ser feito o
desdobramento que,alguns defendem j hoje. Dizem estes
que revela grave falta de sentido crtico e noo das
propores tomar no mesmo p de igualdade a retirada de
milhes
de pessoas das terras litorais para o interior e a fuga de
alguns poucos milhares para o estrangeiro, s porque entre
um xodo e o outro xodo houve uma inegvel coincidncia
no tempo. No sendo intuito nosso tomar posio no debate
e muito menos adiantar juzos, no custa,no entanto reconhecer
que, sendo o medo de uns e outros semelhante,
iguais no eram os meios e recursos de dar-lhe remdio.
No primeiro caso, o comum foi de gente de poucos
haveres, que, ao ser obrigada pelas autoridades e pelos duros
factos a mudar-se para outros lugares, esperava, quando
muito, salvar a vida pelas vias tradicionais, milagre, sorte,
acaso, sina, boa estrela, orao, f no Esprito Santo,
sino-saimo, figa e comicho pendurados ao pescoo, medalha
benzida, e o mais que por economia- de espao se omite,
mas que pode ser resumido naquela outra frmula, to
clebre como as que mais o forem, Ainda no tinha chegado
a minha hora. No segundo caso, os fugitivos foram pessoas
de recursos mdios e altos, e disponibilidades rpidas
tinham-se deixado ficar a ver em que paravam as modas,
mas agora no havia lugar para dvidas, encheram-se os
avies da nova ponte area, levaram carga mxima os
paquetes, cargueiros e outras embarcaes de menor porte,
sobre os episdios ocorridos, de nenhuma edificao moral,
lancemos um piedoso vu, os subornos, as intrigas, as
traies, at os crimes, houve gente assassinada s por causa
de um bilhete de passagem, um quadro ignominioso, mas,

226

sendo o mundo o que , ingnuos seramos se esperssemos
dele outra coisa. Enfim, tudo visto e ponderado, o mais
provvel, de facto,  virem os livros da histria a registar
quatro xodos e no trs, no por excesso de rigor
classificativo, mas para que no se vejam misturados os alhos
com os
bugalhos.
Ressalvemos, no entanto, o que, na sumria anlise que
a fica, possa reflectir, ainda que involuntariamente, uma
certa atitude mental infectada de maniquesmo, isto , a
inclinao para uma viso idealizante das classes baixas e
para a condenao liminar das altas classes, logo de modo
acintoso marcadas pelo rtulo, nem sempre adequado, de
ricos e poderosos, o que, naturalmente, suscita dios e
antipatias, a par desse mesquinho sentimento que  a inveja,
fonte de todos os males. Sem dvida os pobres existem, 
uma evidncia difcil de negar, mas no se deve
sobrevalorizalos. Tanto mais que eles no so, e no foram,
como
nesta conjuntura conviria, modelo de pacincia, de resignao,
de disciplina livremente consentida. Quem, por estar
longe destes acontecimentos e lugares, imaginou que os
retirantes ibricos, amontoados em casas, asilos, hospitais,
quartis, armazns, barraces, ou nas tendas e barracas de
campanha que foi possvel requisitar, mais as que foram
cedidas e armadas pelos exrcitos, e aquela outra gente,
ainda mais numerosa, que no encontrou alojamento, e vive
por a debaixo das pontes, ao abrigo das rvores, dentro de
automveis abandonados, quando no ao puro relento, quem
imaginou que Deus veio viver com estes anjos, saber muito
de anjos e de Deus, mas de homens no conhece nem a
primeira letra.
Pode-se dizer, sem nenhum exagero, que o inferno, nos
mitolgicos tempos distribudo uniformemente por toda a
pennsula, como foi recordado logo no comeo deste relato,
est agora concentrado numa faixa vertical de mais ou
menos trinta quilmetros de largura, desde o norte da Galiza
at ao Algarve, tendo a ocidente as terras desabitadas em


cujo efeito de pra-choques poucas pessoas verdadeiramente
acreditam. Por exemplo, se o governo,espanhol no precisou
de sair de Madrid, to confortavelmente interior, j o governo
portugus, quem o quiser encontrar ter de ir a Elvas,
que  a cidade mais distante da costa, tirando uma linha
recta, mais ou menos horizontal e meridiana, a partir de
Lisboa. Entre os refugiados, mal alimentados, mal dormidos,
com gente velha a morrer, crianas em gritos e choros,
os homens sem trabalho, as mulheres carregando s costas
a famlia toda, sucedem-se os conflitos, as ms palavras,
as desordens e agresses, os roubos de roupas e comida, as
expulses e os assaltos, e tambm, quem o imaginaria,
instalou-se uma libertinagem de costumes que transformou
estes acampamentos em alcouces colectivos, uma vergonha,
um mau exemplo para os filhos crescidos, que se ainda vo
sabendo quem so pai e me, no sabem que filhos andam
eles prprios a fazer, e onde ou de quem. Claro que a
importncia deste aspecto da questo  menor do que 
primeira vista parece, haja vista a pouca ateno que do os
historiadores de hoje a perodos que, por uma razo ou
outra, tiveram pontos de semelhana, no particular, com
este. No fim de contas, provavelmente, o livro exerccio da
carne, em momentos de crise,  o que mais convm aos
interesses profundos da humanidade e do homem, ambos
costumadamente aperreados de moral. Mas, sendo a hipte
se controversa, passemos adiante, a simples aluso satisfaz o
escrpulo do observador imparcial.
Nesta balbrdia e confuso existe, porm, um osis de
paz, estes sete seres que vivem na mais perfeita das
harmonias, duas mulheres, trs homens, um co e um cavalo,
embora este tenha de calar algumas razes de queixa no que
toca  distribuio das tarefas, ter de puxar sozinho uma
galera carregada, mas mesmo isto ter remdio um dia
destes. As duas mulheres e dois dos homens fazem dois
casais, e felizes, s o terceiro homem  que no tem par,
acaso no lhe custar a privao, vista a idade que j leva,

228



pelo menos at este momento no se notaram aqueles
inconfundveis sinais de nervosismo que denunciam a pltora
das
glndulas. Quanto ao co, se nas ocasies em que vai 
procura de alimento, busca e encontra outras satisfaes,
no sabemos, o co, sendo nesta rea do comportamento o
mais exibicionista dos animais, em certos indivduos da
espcie  discreto, oxal que ningum se lembre de ir atrs
deste, h curiosidades malss que  dever de higiene frus
trar. Talvez que estas consideraes sobre relao e
comportamento no estivessem to marcadas pela sexualidade se
os
casais que se formaram, por efeito da intensidade da paixo
ou da recenticidade dela, no se mostrassem to exuberantes
em demonstraes, o que, diga-se antes que mal se pense,
no significa que por toda a parte andem aos beijos e
abraos, sbrios so-no at a, o que eles no podem 
esconder a aura que os envolve ou emitem, ainda h poucos
dias viu Pedro Orce do alto de um monte o resplendor do
braseiro. Aqui, na orla da floresta onde agora vivem, sufi
cientemente afastados de povoaes para se imaginarem
sozinhos, perto delas o bastante para no se tornar o
abastecimento de vveres em quebra-cabeas, poderiam acreditar
na felicidade se no vivessem, por quantos dias ainda, sob a
ameaa do cataclismo. Mas aproveitam, diriam, como acon
selhou o poeta, Carpe diem, o mrito destas velhas citaes
latinas est em conterem um mundo de significaes segun
das e terceiras, sem contar com as latentes e indefinidas, que
quando a gente vai a traduzir, Goza a vida,, por exemplo,
fica uma coisinha frouxa, insossa, que no merece sequer o
esforo de a tentarmos. Por isso insistimos em dizer, Carpe
diem, e sentimo-nos como deuses que tivessem decidido no
ser eternos para- poderem, no exacto sentido da expresso,
aproveitar o tempo.
Que tempo haver ainda, no se sabe. Os rdios e as
televises esto a funcionar nas vinte e quatro horas do dia,
j no h noticirios a horas certas, interrompe-se o programa
a cada momento para ler o ltimo boletim, e as informa
229


es sucedem-se, estamos a trezentos e cinquenta quilmetros
de distncia, estamos a trezentos e vinte e sete, podemos
informar que as ilhas de Santa Maria e So Miguel
foram completamente evacuadas, prossegue em ritmo acelerado a
evacuao das restantes, estamos a trezentos e doze
quilmetros, na base das Lajes ficou um pequeno grupo de
cientistas norte-americanos que apenas se retiraro, por via
area, claro est, nos ltimos minutos, para poderem assistir
do ar  coliso, digamos apenas, coliso, sem adjectivos, no
foi atendido um pedido do governo de Portugal para que um
cientista portugus integrasse o referido grupo a ttulo de
observador, faltam trezentos e quatro quilmetros, os
responsveis pelos programas recreativos e culturais da
televiso e da rdio discutem o que devem transmitir, msica
clssica, dizem uns, atendendo  gravidade da situao, a
msica clssica  deprimente, argumentam outros, o melhor
seria dar msica ligeira, canonetas francesas dos anos
trinta, fados portugueses, malaguenhas espanholas e outras
sevilhices, e muito rock, e muito folk, os vencedores da
Euroviso, mas msicas alegres vo chocar e ofender
pessoas que vivem horas verdadeiramente cruciais, respon
dem os clssicos, pior seria tocar-lhes marchas fnebres,
alegam os modernos, e disto no se sai, era no era andava
lavrando, faltam duzentos e oitenta e cinco quilmetros.
O rdio de Joaquim Sassa tem sido utilizado com parci
mnia, h umas pilhas de reserva, mas que convm poupar,
ningum sabe o que o dia de amanh nos reservar,  uma
frase popular, das que se dizem muito, aqui quase poderamos
apostar sobre o que esse dia vai ser, morte e destruio,
milhes de cadveres, o afundamento de metade da
pennsula. Mas os minutos em que o rdio est desligado
depressa se tornam insuportveis, o tempo vai ficando
palpvel, viscoso, aperta-lhes a garganta, a todo o momento
parece que vai sentir-se o choque embora ainda estejamos
longe, quem  que poderia aguentar uma tenso destas,
Joaquim Sassa liga o rdio,  uma casa portuguesa com

230

certeza  com certeza uma casa portuguesa, canta a voz
deliciosa da vida, Donde vs de manton de Manila donde
vs con el rojo clavel, a mesma delcia, a vida mesma, mas
noutra lngua, ento todos respiram de alvio, esto mais
prximos da morte vinte quilmetros, mas isso que importa,
ainda a morte no foi anunciada, os Aores no esto 
vista, Canta rapariga canta.
Esto sentados  sombra duma rvore, acabaram de
comer, e so como nmadas nos modos e no trajar, em to
pouco tempo tanta transformao,  o resultado da falta de
comodidades, roupa amarrotada e suja, os homens com
barba de dias, no os recriminemos, nem a elas, que nos
lbios j s usam a cor natural, agora plida por causa dos
cuidados, talvez nas ltimas horas se pintem e preparem
para receber dignamente a morte, a vida, a acabar-se, no
merece tanto. Maria Guavaira est apoiada ao ombro de
Joaquim Sassa, agarrou-lhe a mo, por entre as pestanas
assomam duas lgrimas, mas no  medo do que est para
acontecer, foi o amor que assim lhe subiu aos olhos. E Jos
Anaio aconchega Joana Carda nos braos, beija-a na testa,
depois as plpebras que se fecham, se ao menos este momento
pudesse ir comigo l para onde eu v, no peo mais,
um momento s, este, no precisamente este de agora
quando falo, o outro, o anterior, o que precedeu o anterior,
aquele que j mal se distingue daqui, no o agarrei enquanto
o vivia, agora  tarde. Pedro Orce levantou-se e afasta-se, os
cabelos brancos brilham ao sol, tambm ele leva a sua aura
de lume frio. O co seguiu-o, de cabea baixa. Mas no iro
Muito longe. Agora mantm-se juntos tanto quanto podem,
nenhum deles quer estar sozinho quando acontecer o desastre. O
cavalo que, como afirmam os sbios,  o nico
animal que no sabe que vai morrer, sente-se feliz, apesar
dos grandes trabalhos por que passou na longussima caminhada.
Remi a palha, faz estremecer a pele para sacudir os
moscardos, varre com as crinas compridas da cauda o lombo
pigaro, e provavelmente nem sabe que esteve para acabar

231


os dias na meia escurido duma cavalaria arruinada, entre
teias de aranha e bonicos, a arfar de pulmoeira,  bem certo
que o mal de uns  o bem de outros, ainda que tenha de ser
por to pouco tempo.
O dia passou, outro veio e se foi, faltam cento e cin
quenta quilmetros. Sente-se o medo a crescer como uma
negra sombra, o pnico  uma inundao  procura dos
pontos fracos do dique, roendo o enrocamento profundo,
finalmente saltou, e as pessoas que at a se tinham mantido
mais ou menos aquietadas nos lugares onde haviam assentado
arraiais, comearam a mover-se para leste, compreenden
do agora que estavam perto de mais da costa, apenas a
setenta, a oitenta quilmetros, representava-se-lhes na ima
ginao que as ilhas iriam rasgar a terra at ali, e o mar
invadir tudo, o cone do Pico como um fantasma, e quem
sabe se, com o choque, o vulco no entraria em actividade,
Mas no h nenhum vulco na ilha do Pico, ningum dava
ouvidos a esta e outras explicaes. As estradas, claro,
entupiram-se, cada cruzamento era um n impossvel de
desatar, s tantas deixou de ser possvel avanar, recuar
tambm, todos apanhados como ratos, mas foram raros os
que renunciaram aos poucos bens que transportavam, para
tentarem salvar a vida no desafogo dos campos. Para suster
a onda com o bom exemplo, o governo portugus deixou a
segurana de Elvas para ir instalar-se em vora, e o de
Espanha, mais comodamente, alojou-se em Len, da difun
diram comunicados, que o presidente da Repblica de c e o
rei da Monarquia deles tambm assinaram, cada qual o seu,
lamentavelmente nos esquecemos de dizer que presidente e
rei tm acompanhado em todos os transes os respectivos
executivos, como explicaramos agora, se no corrigssemos
a omisso, que um e outro se ofereceram para irem ao
encontro das multides desvairadas, e, de braos abertos,
oferecendo a vida ao sacrifcio por gesto violento ou
atropelo, outra vez Friends, Romans, countrymen, and so, and
so,
no, majestade, no, senhor presidente, a massa em pnico,

232

ainda por cima ignara, no compreenderia,  preciso ser
muito culto e civilizado para ver um rei ou um presidente de
braos abertos, no meio duma estrada, e parar para saber o
que ele quer. Mas tambm houve quem, num assomo de
clera, se voltasse para trs e gritasse, Para pouca vida mais
vale nenhuma, acabemos com isto, e esses ficaram  espera,
olhando as serenas montanhas no horizonte, o rseo da
manh, o azul profundo da tarde quente, a noite estrelada,
talvez a ltima, mas quando a hora chegar no desviarei dela
os meus olhos.
Ento, aconteceu. A uns setenta e cinco quilmetros de
distncia do extremo oriental da ilha de Santa Maria, sem
que nada o fizesse anunciar, sem que se sentisse o mais
ligeiro abalo, a pennsula comeou a navegar em direco ao
norte. Durante alguns minutos, enquanto em todos os insti
tutos geogrficos da Europa e da Amrica do Norte os
observadores analisavam, incrdulos, os dados recebidos dos
satlites e hesitavam em torn-los pblicos, milhes de
aterrorizadas pessoas em Portugal e Espanha j estavam salvas
da morte e no sabiam. Durante esses minutos, tragicamente,
houve quem entrasse em brigas na esperana de ser morto
e tivesse recebido satisfao, e quem, por no poder suportar
mais o medo, se suicidasse. Houve quem pedisse perdo dos
seus pecados, e quem, por achar que j no haveria tempo
para o arrependimento, pedisse a Deus e ao Diabo que lhe
dissessem que pecados novos poderia ainda cometer. Houve
mulheres que deram  luz, desejando que os filhos nascessem
mortos, e outras que souberam estar grvidas de filhos que,
julgavam elas, nunca iriam ter. E quando um grito universal
soou em todo o mundo, Esto salvos, esto salvos, houve
quem no acreditasse e continuasse a chorar o prximo fim,
at que no pode haver mais dvidas, juravam-no em todos os
tons os governos, os sbios vinham dar explicaes, falava-se
que a salvao tinha como causa uma poderosa corrente
martima artificialmente produzida, a discusso era grande se
teriam sido os norte-americanos ou os soviticos.

233


A alegria foi um rastilho que encheu de risos e danas
toda a pennsula, em especial na grande faixa onde se
juntavam os milhes de pessoas deslocadas. Felizmente que
isto aconteceu em pleno dia, a pela hora do almoo para
aqueles que tinham que comer, seno a confuso e o caos
teriam sido terrveis, diziam as autoridades responsveis,
mas cedo se arrependeram da opinio precipitada, porque,
mal houve a certeza de que a notcia era verdadeira, milhares
e milhares de pessoas iniciaram a caminhada de regresso
a casa, foi preciso pr a correr, com alguma crueldade, a
hiptese de poder voltar a pennsula  trajectria inicial,
agora um pouco mais ao norte. Nem todos acreditaram,
sobretudo porque uma nova inquietao se introduzia
sorrateiramente no esprito das pessoas, viam no seu
pensamento
as cidades, as vilas e as aldeias abandonadas, a cidade, a
vila ou a aldeia onde tinham vivido, a rua onde moravam, e
a casa, a casa saqueada por gente expedita que no acreditava
em histrias da carochinha ou aceitava o hipottico risco
com a naturalidade de quem, por ofcio, tivesse de dar todas
as noites um triplo salto mortal, e no eram estas vises
fantasias da imaginao doente, porque por todas essas
desertas paragens j se iam insinuando, ainda acautelados
mas levando na mente o desonesto fito, todos os ladres,
gatunos e meliantes antigos e modernos, entre os quais ia
passando uma palavra de ordem corporativa, O primeiro a
chegar serve-se, quem vier a seguir procura outra casa, no
armem zaragatas, que para todos haver. Que nenhum destes
se deixe tentar, dizemos ns, pela casa de Maria Guavaira, 
o melhor que lhes poder acontecer, porque o homem que l
est dentro tem uma espingarda caadeira carregada e s
abrir a porta  dona da casa para lhe dizer, Guardei os seus
bens, agora a senhora case comigo, salvo se, tresnoitado das
viglias, de puro cansao, se tiver deixado dormir em cima do
monte de l azul, e assim ter falido a sua vida de homem.
Usando de prudncia, os aorianos ainda no regressaram s
suas ilhas e casas, imaginemo-nos no lugar deles, 

234

verdade que o perigo imediato se afastou, mas continua por
aquelas paragens, a rondar, parece isto a verso nova da
histria da panela de ferro e da panela de barro, com a
substancial diferena de que com o barro daqui apenas foi
possvel fazer os pcaros das ilhas, no deu para a panela de
um continente, e esse, se chegou a existir, foi ao fundo,
chamavam-lhe Atlntida, bem tolos seramos se no tivsse
mos aprendido, com a experincia, ou com a memria dela,
ainda que falsas uma e outra. Mas o sentimento que retm
debaixo daquela rvore as cinco pessoas que l esto no  a
prudncia, agora que toda a gente se ps em movimento na
direco das costas de Portugal e da Galiza, por assim dizer,
em regresso triunfal, levam ramos, flores, bandas a tocar, e
lanam-se foguetes, e os sinos tocam  passagem, as fam
lias reentram em casa, talvez faltem algumas coisas, mas a
vida veio com eles, e isso  o mais importante, a vida, a
mesa onde comemos, a cama onde dormimos e onde esta
noite, de puro jbilo, se far o mais alegre amor do mundo.
Debaixo da rvore, com a galera  espera e o cavalo j
refeito de foras, as cinco pessoas que se deixaram ficar
para trs olham o co como se dele  que devesse vir ordem
ou conselho, Tu que vieste donde no sabemos, tu que me
apareceste um dia vindo de longe to cansado que chegando
a mim te foste abaixo das mos, tu que estando eu a mostrar
a estes homens o lugar, onde risquei o cho com uma vara
passaste e olhaste, tu que estavas  espera de ns ao p do
carro que deixmos debaixo do alpendre, tu que tinhas um
fio de l azul na boca, tu que nos guiaste por tantas estradas
e tantos caminhos, tu que foste comigo ao mar e encontraste
a barca de pedra, diz-nos tu, por um movimento, um gesto,
um sinal, j que nem ladrar sabes, diz-nos para onde
deveremos ir, que nenhum de ns quer voltar  casa do vale,
seria para todos o princpio do ltimo regresso, a mim me
diria o homem que quer casar comigo senhora case comigo,
a mim me diria o chefe do escritrio onde trabalho preciso
dessa factura, a mim me diria o meu marido afinal sempre

235


voltaste, a mim me diria o pai do pior aluno senhor professor
d-lhe umas palmatoadas, a mim me diria a mulher do
notrio que se queixa de dores de cabea d-me uns compri
midos para a dor de cabea, diz-nos tu ento para onde
deveremos ir, levanta-te e caminha, esse ser o nosso
destino.
O co, que estava deitado debaixo da galera, levantou a
cabea como se tivesse ouvido vozes, saltou bruscamente e
correu para Pedro Orce que lhe segurou a cabea com as
duas mos, Se quiseres levo-te comigo, disse, s as palavras
 que foram ditas pelo homem. Maria Guavaira  a dona do
cavalo e da galera, e ela ainda no decidiu, mas Joana Carda
olhou para Jos Anaio, que a entendeu, Resolvam o que
resolverem, eu no volto, foi ento que Maria Guavaira
disse em voz alta e clara, H um tempo para estar e um
tempo para partir, ainda no chegou o tempo de voltar, e
Joaquim Sassa perguntou, Para onde queremos ir, Por a
sem destino, Vamos ao outro lado da pennsula, props
Pedro Orce, nunca vi os Pirentis, Tambm no os vers
agora, metade deles ficou na Europa, lembrou Jos Anaio,
No importa, pelo dedo se conhece o gigante. Festejavam a
deciso, mas Maria Guavaira disse, O cavalo trouxe-nos at
aqui sozinho, mas no aguentar sozinho o resto da viagem,
est velho, e uma galera  feita para ser puxada por dois
cavalos, com um cavalo s  uma galera maneta, Ento,
perguntou Joaquim Sassa, Precisamos de encontrar outro,
No deve ser fcil descobrir cavalos aqui, alm disso um
cavalo, penso eu,  um bicho caro, talvez nem tenhamos
dinheiro que chegue.
A dificuldade parece no ter remdio, mas aqui veremos
uma demonstrao mais da ductilidade do esprito humano,
ainda no h muitos dias Maria Guavaira rejeitou, sem
ambages, a ideia de dormirem numa casa desocupada, a lio
ainda ecoa nos ouvidos de quem teve a lembrana, e agora,
tanto pode a necessidade, vai Maria Guavaira condenar uma
vida inteira de limpidez moral, prouvera que ningum lhe

236

lance em rosto a relaxido, No o compraremos, roubamo-lo,
estas foram as palavras, e agora  Joana Carda que tenta
emendar, de modo indirecto, para no ferir os melindres,
Nunca roubei nada na minha vida. Meteu-se ali um silncio
incmodo, as pessoas tm de se habituar aos novos cdigos
morais, neste caso o primeiro passo foi dado por Pedro Orce,
contra o costume de serem os velhos endurecidos observadores
da lei velha, Na nossa vida nunca roubamos nada, 
sempre na vida dos outros, podia ser uma mxima de filsofo
cnico,  apenas uma verificao de facto, Pedro Orce
disfarou com um sorriso, mas as palavras estavam ditas. Muito
bem, est decidido, roubamos um cavalo, e como  que
fazemos, tiramos  sorte para saber quem vai na expedio,
Eu terei de ir, disse Maria Guavaira, vocs no percebem de
cavalos, seriam incapazes de o trazer, Eu vou contigo, disse
Joaquim Sassa, mas seria bom que o co tambm quisesse
ir connosco, podia defender-nos de qualquer mau encontro.
Nessa noite saram os trs do acampamento, dirigiram-se
para leste, onde talvez, por ser regio que se mantivera em
relativa calma, houvesse mais probabilidades de encontrarem
o que queriam. Antes de partirem disse Joaquim Sassa, No
sabemos quanto tempo iremos demorar-nos, esperam aqui por
ns, Talvez, pensando bem, fosse prefervel trazer um carro
grande, onde pudssemos caber todos, com as bagagens e o
co, disse Jos Anaio, No h carros desses, seria preciso
um camio, alm disso recorda-te que no encontrmos
nenhum completo, capaz de andar, e temos o cavalo, no o
podemos deixar por a ao abandono, Um por todos e todos
por um, gritaram no seu tempo os trs mosqueteiros, que
eram quatro, e agora so cinco, sem falar no co. E no
cavalo.
Meteram-se  estrada Maria Guavaira e Joaquim Sassa, o
animal ia  frente a farejar os ventos e a investigar as
sombras. A expedio tem o seu qu de absurdo, procurar
um cavalo, Mula tambm serve, dissera Maria Guavaira,
sem saber se existir um animal desses cinco lguas em

237


redor, porventura seria mais fcil encontrar um boi, mas no
se atrelam juntos boi e cavalo a uma galera, ou um burro,
neste caso, para tanta carga, seria o mesmo que juntar duas
fraquezas para delas fazer uma fora, coisa s acontecvel
nas parbolas, como a dos vimes, j citada. Andaram,
andaram, saam da estrada sempre que viam no claro dos
campos habitaes e casas de lavoura, se cavalos houvesse
a  que se encontrariam, pois  de bestas de tiro que
precisamos, no de corcis de parada ou trotadores de pista.
Mal se aproximavam, os ces largavam a ladrar, mas da a
pouco calavam-se, nunca pde saber-se que artes eram as do
Co, o mais ruidoso e frentico guarda ficava subitamente
mudo, e no porque o matasse a fera vinda de alm,
ter-se-iam ouvido rumores de'luta, ganidos de dor, o silncio
s no  sepulcral porque, de facto, no morre ningum.
     Ia a madrugada alta, Maria Guavaira e Joaquim Sassa j
mal podiam mexer os ps de fadiga, ele dissera, Temos de
encontrar um stio para descansarmos, mas ela insistia,
Procuremos, procuremos, e tanto procuraram que acharam,
que achar foi e no descobrir, e aconteceu da mais simples
maneira do mundo, j o cu aclarava, a negra noite a oriente
tornara-se azul profundo, quando de um rebaixo do caminho
ouviram um relincho abafado, um suave milagre, aqui estou,
foram ver e era um cavalo peado, no fora Deus Nosso
Senhor que ali o pusera para enriquecimento do catlogo dos
seus milagres prprios, mas o legtimo dono da besta a quem
o ferrador dissera, Ponha-lhe este unguento na matadura e
deixe-o a apanhar o relento da noite, faa isto trs noites
seguidas comeando a uma sexta-feira, e se o cavalo no
ficar curado torno a dar-lhe o dinheiro e perco o nome que
tenho. Um cavalo travado, se no h a uma navalha rpida
para lhe cortar a corda, no  animal que se possa transportar
s costas, mas Maria Guavaira sabe como falar a estes
bichos, e, apesar do nervosismo da besta, que no reconhece
quem a conduz, pde encaminh-la para a sombra dumas
rvores, e a, arriscando-se a ser pisada ou a levar patada

238

violenta, conseguiu desfazer o n da corda spera, em geral
d-se nestes casos um n prprio, fcil de desatar, mas talvez
seja cincia que aqui j no se pratique. Valeu tambm ter
percebido o cavalo que o queriam libertar,  sempre boa
a liberdade, mesmo quando - vamos para o desconhecido.
Regressaram por caminhos muito desviados, mais do que
nunca confiando-se ao mrito do co para prevenir aproxima
es suspeitas e remediar vizinhanas inoportunas. Quando o
dia se fez claro, j distantes do local do roubo, comearam a
encontrar pessoas nos campos e nas estradas, mas nenhuma
delas conhecia o cavalo, e mesmo que, conhecendo-o, o
pudessem reconhecer, acaso no reparariam nele, to admir
vel e inocente era o quadro, por assim dizer medievo, a
donzela sentada  amazona na hacaneia,  e  frente o andante
cavaleiro, pedestremente caminhando, levando o cavalo pela
arreata, que felizmente no se tinham esquecido de trazer.
O dogue completava a viso encantadora, que a alguns pareceu
sonho, a outros sinal de mudana de vida, no sabem uns
e outros que vo ali apenas dois malvados ladres de cavalos,
 bem verdade que as aparncias enganam, o que geralmente
se ignora  que enganam duas vezes, razo por que talvez o
melhor ainda ser confiar nas primeiras impresses e no
levar por diante a investigao. Por isso hoje no vai faltar
quem diga, Esta manh vi Amadis e Oriana, ela a cavalo, ele
a p, ia com eles um co, Amadis e Oriana no podem ter
sido, que nunca nenhum co foi visto com eles, Vi-o, e basta,
uma testemunha vale tanto como cem, Mas na vida, amores e
aventuras desses dois no se fala de co, Ento torne-se a
escrever a vida, e tantas vezes quantas forem precisas para
que l venha a caber tudo, Tudo, Enfim, o mais possvel.
Ao princpio da tarde chegaram ao acampamento e foram
recebidos com abraos e risos. O cavalo pigaro olhou de
lado o alazo que resfolgava, Tem uma matadura no lombo,
quase seca, com certeza puseram-lhe um unguento e deixaram-no
-ao sereno durante trs noites, a contar de
sexta-feira,
 remdio infalvel.

239


Enquanto as populaes regressam aos seus lares e a
vida retoma, aos poucos, como  costume dizer-se, o curso
normal, vo de vento em popa os debates entre os cientistas
sobre as causas do desvio in extremis da pennsula,, quando
j nada parecia poder evitar a catstrofe. As teses so
vrias,
quase todas antagnicas entre si, o que, matematicamente,
contribui para a irredutibilidade dos sbios polemistas.
Uma primeira tese sustenta a fortuitidade absoluta do
novo rumo, porquanto, fazendo ele um ngulo rigorosamente
recto com o anterior, seria inaceitvel uma qualquer explica
o que pressupusesse, digamos assim, um acto de vontade,
que ainda por cima no se saberia a quem atribuir, uma vez
que ningum ousar pretender que uma massa enorme de
pedra e terra, sobre a qual se agitam algumas dezenas de
milhes de pessoas, possa produzir, por simples adio ou
multiplicao recproca, uma inteligncia e um poder capazes
de conduzir-se com preciso, apetece diz-lo, diablica.
Uma outra tese defende que o avano da pennsula, ou,
com mais rigor, a sua progresso, e logo veremos por que 
esta a palavra usada, far-se-, de cada vez, em novo ngulo
recto, o que, ipso facto, permite admitir a espantosa
probabilidade do regresso da pennsula ao ponto de partida,
aps
uma sucesso, ou, aqui est, progresso de lanos, que
podero ser, a partir de certa altura, menos que milimtri
cos, at ao ajustamento final, perfeito.

24O

A terceira tese prope a hiptese da existncia de um
campo magntico na pennsula, ou fora similar, que, 
aproximao de um corpo estranho suficientemente volumoso,
reaja e desencadeie um processo de repulso de natureza
muito particular, dado que essa repulso, como se viu, no
procede em sentido inverso do sentido do movimento inicial,
ou ltimo, mas sim, para usar uma comparao retirada da
prtica da conduo de automveis, derrapando, porqu para
o norte ou porqu para o sul foi questo que a proposta se
esqueceu de contemplar.
Finalmente, a quarta tese, mais heterodoxa, recorre s
potncias a que chama metapsquicas, afirmando que a
pennsula foi desviada da coliso por um vector formado
pela concentrao, em uma dcima de segundo, das nsias
de salvao e dos terrores das populaes afligidas. Esta
explicao ganhou grande popularidade, sobretudo quando,
para a tornar acessvel aos crebros do vulgo sem preparao,
o seu defensor usou um smile do domnio da fsica,
mostrando como a incidncia de raios solares numa lente
biconvexa faz convergir esses raios num ponto ou foco real,
com os conhecidos resultados, calor, queimadura, fogo,
logo, portanto e por conseguinte o efeito intensificador da
lente tem bvio paralelo na fora da mente colectiva, que
seria o catico sol, estimulada, concentrada e potenciada
num momento de crise, at ao paroxismo. A incongruncia
da explicao no fez sombra a ningum, pelo contrrio, no
faltou quem viesse propor que doravante todos os fenmenos
da psique, do esprito, da alma, da vontade, da criao,
passassem a ser explicados em termos fsicos, ainda que por
simples analogia ou induo imperfeita. A tese est a ser
estudada e desenvolvida no sentido da aplicao dos seus
princpios fundamentais  vida quotidiana, em particular no
funcionamento dos partidos polticos e nas competies
desportivas, para citar apenas dois exemplos comuns.
Argumentam, porm, alguns cpticos que a prova real
de todas estas hipteses, uma vez que disso mesmo no

241


passam, ver-se- daqui a algumas semanas, se a pennsula
prosseguir a rota que agora leva e que a far entalar-se entre
a Gronelndia e a Islndia, terras inspitas para portugueses
e espanhis, geralmente habituados s suavidades e abandonos
de um clima temperado, a tender para o quente na maior
parte do ano. Se tal vier a acontecer, a nica concluso
lgica a extrair de tudo quanto se viu at agora,  que,
afinal, a viagem no valeu a pena. O que, por outro lado,
seria, ou ser, uma maneira demasiado simplificada de
encarar a questo,. pois nenhuma viagem  ela s, cada
viagem contm uma pluralidade de viagens, e se, aparente
mente, uma delas parece apresentar to pouco sentido que
nos sentimos autorizados a sentenciar, No valeu a pena,
mandaria o senso comum, se por preconceito e preguia o
no obliterssemos tantas vezes, que verificssemos se as
viagens de que aquela foi contedo ou continente no sero
valiosas bastante para terem, afinal, valido a pena e as
penas. Todas estas consideraes reunidas nos aconselham a
suspendermos os juzos definitivos e outras presunes. As
viagens sucedem-se e acumulam-se como as geraes, entre^
o neto que foste e o av que sers, que pai ters sido, Ora,
ainda que ruim, necessrio.
Jos Anaio fez as contas  viagem que os espera, por
caminhos que no iro ser a direito se quiserem evitar as
grandes ladeiras dos montes Cantbricos, e comunicou os
resultados, De Palas de Rei, onde mais ou menos agora
estamos, at Valhadolid, sero uns quatrocentos quilmetros, e
da at  fronteira, desculpem, aqui neste mapa ainda
tenho uma fronteira, so outros quatrocentos, ao todo oito
centos quilmetros, uma grande viagem a passo de cavalo,
De cavalo, no, isso acabou, e no vai ser a passo, mas a
trote, emendou Maria Guavaira. Disse ento Joaquim Sassa,
Com dois cavalos a puxar, interrompeu-se neste ponto da
frase, com a expresso de quem v uma luz no interior da
sua prpria cabea, e largou a rir, O que so as coisas,
tnhamos ns deixado um Dois Cavalos e agora vamos viajar


242

noutro, proponho que a galera passe a chamar-se Dois
Cavalos, de facto et de jure, como parece que em latim se
diria, que eu latim no aprendi,  s de outiva, como dizia
um av meu que tambm no conhecia a lngua desses seus
antepassados. Dois Cavalos comem feno, na revessa da
galera, a matadura do alazo sarou por completo, e o
pigaro, se no rejuvenesceu, melhorou de aspecto e de
foras, levanta menos a cabea que o outro, mas no far
m figura na parelha. Retomou Joaquim Sassa a pergunta,
depois do riso geral, Dizia eu, com dois cavalos a puxar,
quantos quilmetros, em mdia, andaremos por hora, e
Maria Guavaira, A umas trs lguas, Portanto quinze
quilmetros, pela medida moderna, Exactamente, Dez horas a
quinze quilmetros faz cento e cinquenta, em menos de trs
dias estamos em Valhadolid, com outros trs chegamos aos
Pirentis,  rpido. Maria Guavaira fez cara de consternao,
respondeu,  um bom programa, sobretudo se quiser
mos rebentar os animais em pouco tempo, Mas tu disseste,
Eu disse quinze quilmetros, mas era se fosse em terreno
plano, e em qualquer caso nunca os cavalos andaro dez
horas por dia, Com descanso, Ainda bem que no te esque
ceste do descanso, pela ironia do tom via-se que Maria
Guavaira estava quase a zangar-se.
Em ocasies destas, mesmo que no entrem cavalos no
caso, os homens ficam humildes,  uma verdade que as
mulheres geralmente ignoram, reparam apenas no que lhes
pareceu ser o- despeito masculino, a reaco da autoridade
contrariada,  assim que os equvocos e mal-entendidos se
arranjam, provavelmente a causa de tudo isto estar na
insuficincia do aparelho auditivo dos seres humanos, das
mulheres em particular, ainda que se gabem de finssimas
ouvidoras, Realmente, eu de cavalos no sei nada, sou da
infantaria, resmungou Joaquim Sassa. Os outros assistem ao
duelo verbal, sorriem porque o caso no  srio, o fio azul 
a mais forte atadura do mundo, como daqui a pouco se h-de
ver. Maria Guavaira disse, Seis horas por dia ser o mxi
243


mo, podendo ser andaremos as trs lguas por hora, no
podendo ser o que os cavalos derem, Partimos amanh,
perguntou Jos Anaio, Se todos estiverem de acordo,
respondeu Maria Guavaira, e com a sua voz de mulher, para
Joaquim Sassa, Achas bem, e ele, subitamente desarmado,
Acho, e sorriu.
. Nessa noite fizeram balano aos haveres em numerrio,
tantos escudos, tantas pesetas, algum dinheiro estrangeiro de
Joaquim Sassa, que o conseguira quando saram do Porto,
h to poucos dias e parece terem-se passado sculos:
reflexo que nada tem de original, se alguma o tem, mas
irresistvel, como tantas outras vulgaridades. Os viveres que
trouxeram de casa de Maria Guavaira esto a chegar ao fim,
h que reforar a despensa, e no vai ser fcil, com todo
este desconcerto dos abastecimentos, essa multido devoradora
que por onde passava nem talos de couve deixava atrs
de si, sem falar nas capoeiras saqueadas, consequncia
tambm da indignao dos necessitados, a quem se pedia
uma fortuna por um frango magricela. Depois que a situao
comeou a normalizar-se, os preos baixaram um pouco,
mas no voltaram ao que tinham sido antes, j se sabe,
nunca voltam. E agora o problema  haver falta de tudo, at
roubar seria difcil, se quisessem continuar por esse caminho
perverso, o caso do cavalo foi especial, no sofresse ele da
matadura e ainda adornaria a cavalaria e ajudaria aos
trabalhos do seu antigo dono, que do destino da besta s
sabe que a levaram dois meliantes e um co, estavam l os
rastos. diz-se e insiste-se que h males que vm por bem, h
tanta gente que o afirma, tanta o afirmou, que bem pode ser
que se trate duma verdade universal, desde que nos dmos
ao trabalho de separar cuidadosamente a parte do mal e a
parte do bem, e a quem uma e outra calharam em sorte.
Disse pois Pedro Orce, Vamos ter de trabalhar para ganhar
algum dinheiro, a ideia pareceu lgica, mas, aps o inventrio
das profisses, chegou-se  desoladora concluso esperada,
assim, Joana Carda, apesar de ter um curso de letras,

244

~

nunca exerceu o magistrio, foi sempre, desde que casou,
senhora da sua casa, e aqui em Espanha no  to grande
como isso o interesse pela literatura portuguesa, alm de os
espanhis, nesta altura, terem mais em que pensar, Joaquim
Sassa, j o declarou irritadamente,  da infantaria, o que, na
sua boca, significava que pertence  arraia-mida dos
empregados de escritrio, preciosa actividade, ningum o por
em dvida, mas em pocas de calma social e negcios
correntes, Pedro Orce aviou remdios em toda a sua vida,
quando o conhecemos estava a fazer hstias de quinino,
pena no se ter lembrado de trazer consigo a farmcia, podia
agora dar consultas pblicas e ganhar bom dinheiro, pois
nestas paragens rurais quem diz boticrio diz mdico, Jos
Anaio  professor dos primeiros anos, e com isto se disse
tudo, sem falar que est em terra doutra geografia e doutra
histria, como iria ele explicar aos meninos espanhis que
Aljubarrota foi uma vitria quando esto habituados a esquecer
que foi uma derrota, s falta falar de Maria Guavaira, 
a nica que pode ir pedir trabalho nessas herdades e faz-lo,
 proporo das suas foras e sabedoria, que no chegam a
tudo.
Olham uns para os outros, sem saberem que voltas daro
 vida, e Joaquim Sassa, hesitando, diz, Se tivermos de
parar constantemente para ganhar algum dinheiro, nunca
chegaremos aos Pirenus, dinheiro assim ganho  dinheiro
que no dura, chapa ganha, chapa gasta, a soluo seria
fazermos como fazem os ciganos, refiro-me aos que vo de
terra em terra, de alguma coisa eles ho-de viver, era uma
pergunta, era uma dvida, talvez casse o man do cu aos
ciganos. Pedro Orce foi o que respondeu, por ser das terras
do sul, onde a espcie mais abunda, H os que fazem
negcios de cavalos, os que vendem roupas nas feiras,
outros vo comerciando de porta em porta, as mulheres lem
a sina, Histrias de cavalos no queremos mais, para vergonha
bastou este, alm disso  ofcio de que no percebemos
nada, e quanto a ler a sina oxal no nos d a nossa cuidado,

245


E sem contar que para vender cavalos  preciso comear por
compr-los, a tanto no chegaria o dinheiro, se at o cavalo
que a est teve de ser roubado. Fez-se um silncio, como
conseguiu ele fazer-se no se sabe, e quando acabou de estar
feito, disse Joaquim Sassa, que est a revelar-se esprito
convenientemente prtico, S vejo uma sada para a situa
o, compramos roupas num desses armazns de revenda,
.certamente os haver na primeira cidade grande por onde
passarmos, e depois vendemo-las pelas aldeias, com um
lucro razovel, da -contabilidade encarrego-me eu. Pareceu
boa a ideia,  falta doutra melhor, fazia-se a experincia, j
que no poderiam ser agricultores, nem boticrios, nem
professores, nem alquiladores. venderiam roupas de homem,
senhora e criana, que no  desonra nenhuma, e com uma boa
administrao dar para viver.
Traado assim o plano de vida, foram-se deitar, sendo
agora a altura de dizer como se arrumam os cinco na galera
que agora se chama Dois Cavalos, pois  assim, Pedro Orce
fica  frente, atravessado, num enxergo estreito que d 
justa para ele, depois Joana Carda e Jos Anaio, ao comprido,
no espao lateral que sobra duma parte dos objectos com
que viajam, o mesmo acontecendo com Maria Guavaira e
Joaquim Sassa, mais recuadamente. H panos pendurados a
formar simblicas divisrias, o respeito  grande, se Joana
Carda e Jos Anaio, que ocupam o meio da galera, precisam de
sair para o ar livre durante a noite, passam pelo lado
de Pedro Orce, que no se queixa, a incomodidade, aqui,
divide-se como se divide o resto. E os beijos, e os abraos,
os amplexos carnais, quando se praticam e exercitam,
perguntaro aqueles espritos curiosos a quem a natureza dotou
de um particular gosto da malcia. Digamos que tem havido
duas maneiras de satisfazerem os amantes os doces impulsos
da natureza, ou vo por esses campos  procura de um lugar
isolado e aprazvel, ou aproveitam o afastamento temporrio e
propositado dos companheiros, para o que nem so precisas

246

palavras, h sinais duma grande eloquncia, s fazendo-nos
desatentos, e aqui o dinheiro faltar, mas no o entendimento.
No partiram ao romper da alvorada como o aconselharia
a potica, para qu madrugar se agora tm o tempo todo por
sua conta, mas esta razo no foi a nica nem a mais forte,
aconteceu demorarem-se nos arranjos corporais, barbeados
os homens, polidas as mulheres, e as roupas escovadas, num
recanto adequado do arvoredo, para onde transportaram, a
balde, gua da ribeira, lavaram-se, um por um, os casais,
no se sabe se inteiramente nus, porque deles no houve
testemunhas. Pedro Orce foi o ltimo a tomar banho, levou
consigo o co, pareciam dois bichos tontos, apetece dizer
que tanto ria um como ria o outro, o co a empurrar Pedro
Orce e Pedro Orce a atirar chapadas de gua ao co, um
homem com esta idade no devia expor-se tanto  irriso
pblica, algum que passou foi logo dizer, devia dar-se mais
ao respeito, j tem idade para isso. Do acampamento quase
no ficaram sinais, apenas o cho calcado, a patinhao do
banho debaixo das rvores, cinzas entre pedras enegrecidas,
o primeiro vento varrer tudo isto, a primeira chuvada forte
alisar a terra levantada, diluir as cinzas, apenas as pedras
mostraro que por ali passou gente, sendo preciso serviro a
outra fogueira.
O dia est bonito para viajar. Da encosta do cabeo onde
se tinham abrigado descem  estrada, de cocheira vai Maria,
Guavaira que no confia as rdeas a ningum,  preciso
saber falar aos cavalos, h pedras, barrocos, partir-se ali um
eixo seria o fim dos trabalhos, longe v o agoiro. O alazo e
o pigaro ainda no se entendem bem, Al parece desconfiar
da segurana dos jarretes de Pig, e Pig, depois de atrelado
em parelha, tem tendncia para puxar para o lado de fora,
como se quisesse afastar-se do companheiro, obrigando Al a
um esforo suplementar de compensao. Maria Guavaira
observa os desentendimentos, chegando  estrada comear a
meter Pig na ordem, com doses equilibradas de bons
modos, chicote e jogo de rdea h-de emendar-lhe o sestro.

247


Os nomes de Pig e Al inventara-os Joaquim Sassa, tendo em
conta que estes Dois Cavalos no so como os do automvel, que
esses, vivendo to juntos, no se distinguiam, e
ambos queriam o mesmo e ao mesmo tempo, ao passo que
os de agora so diferentes em tudo, na cor, na idade, na
fora, no porte, no temperamento, ento justifica-se e
necessita-se que cada um leve o seu nome prprio, Mas Pig,
em ingls, quer dizer porco, e Al  abreviatura de Alfred,
por exemplo, protestou Jos Anaio, ao que Joaquim Sassa
respondeu, No estamos em terra de ingleses, Pig  pigaro,
Al  alazo, e eu sou o padrinho. Joana Carda e Maria
Guavaira trocam sorrisos perante a infantilidade dos seus
homens. E Pedro Orce, inesperadamente, Se fossem gua e
cavalo e tivessem um filho, podamos chamar-lhe Pigal, os
mais informados de cultura europeia olharam para ele
surpreendidos, por que bulas se teria lembrado Pedro Orce de
Pigalle, mas o equvoco era seu, coincidncias sempre as
houve, e certos bem achados trocadilhos so involuntrio
fruto duma ocasio. Pedro Orce, de Pigalle, no sabe nada.
Neste primeiro dia no andaram mais do que setenta
quilmetros, em primeiro lugar porque no seria nada bom
forar os cavalos depois do longo descanso em que tinham
vivido, um por motivo de maleita, o outro  espera de
decises que tardavam, e em segundo lugar porque foi preciso
passar pela cidade de Lugo, que lhes ficava um pouco fora do
caminho, a nordeste, onde foram abastecer-se da mercadoria
para o negcio graas ao qual contavam poder viver. Com
praram um jornal da cidade para saberem as ltimas notcias,
o que encontraram de mais eloquente nele foi uma fotografia
da pennsula, com atraso de um dia, era visvel a deslocao
para norte a partir do sentido da rota anterior,
didacticamente
assinalada pela redaco a tracejado. No havia dvidas, o
ngulo era recto a mais no poder ser. Mas sobre as clebres
teses em debate, j aqui resumidas, pouco se adiantava, e
quanto  posio prpria do jornal notava-se, fruto talvez de
antigas desiluses, um certo cepticismo, porventura saudvel,

248 

mas que tambm poder ser atribudo  conhecida curteza de
vistas dos pequenos centros urbanos de provncia.
Nos armazns de pronto-a-vestir, as mulheres, que a elas
coube, naturalmente, a escolha da coleco, com Joaquim
Sassa ao lado a fazer clculos, hesitaram muito quanto aos
critrios a seguir, se roupas para o inverno que se
aproximava, se, trabalhando no mdio prazo, para a prxima
primavera, Acho que no se diz no mdio prazo, mas a mdio
prazo,
emendou Joana Carda, ao que Joaquim' Sassa respondeu,
seco, L no escritrio  assim que se diz, no curto, no mdio
e no longo. Para a deciso final foram deterininantes as suas
prprias necessidades, era evidente que estavam todos mal
enroupados, com artigos de meia estao, a isto se
acrescentando no ter sido possvel evitar que Maria Gua
vaira e Joana Carda cedessem a algumas tentaes pessoais.
Harmonizando tudo, pde concluir-se a aquisio das
mercadorias em termos de boas perspectivas para o futuro, se a
procura se mostrasse  altura da oferta. Joaquim Sassa
mostrava-se um tanto inquieto, Empatmos mais de metade
do dinheiro que tnhamos, se dentro duma semana no
recuperarmos metade dessa metade, vamos ter problemas,
em casos como o nosso, sem fundo de maneio nem possibili
dade de recorrer ao crdito bancrio, a boa gesto dos stocks
 o fundamental, uma perfeita harmonia entre escoamentos e
reposies, sem estrangulamentos, quer a montante, quer a
jusante. Este discurso f-lo Joaquim Sassa na primeira paragem
depois de sarem de Lugo, com autoridade de adminis
trador, benevolamente aceite pelos outros.
Que o negcio no iria vogar em mar de rosas compreen
deram-no todos quando o talento regateador duma compra
dora os levou a baixar o preo de duas saias at ao
arrastamento do lucro. Por acaso o vendedor foi Joana Carda,
que
depois pediu desculpa  sociedade e prometeu que seria, de
futuro, a mais feroz das negociantes em actividade na
pennsula,  que se no nos acautelamos j, daremos com os
burrinhos na gua, ficamos sem o dinheiro e sem a mercado
249


ria, lembrou uma vez mais Joaquim Sassa, no se trata
apenas da nossa subsistncia, temos ainda trs bocas a
sustentar, o co e os cavalos, O co governa-se, disse Pedro
Orce, At aqui tem-se governado, mas um dia corre-lhe mal
a caada, volta para ns de rabo cado, e se no tivermos
comida para lhe dar, como  que vai ser, Metade do que me 
couber a mim  para ele,  muito bonita a tua atitude, mas a
nossa preocupao no dever ser dividir a pobreza, mas sim
aumentar a riqueza, Riqueza e pobreza, neste caso, observou
Jos Anaio, so maneiras de dizer, mas neste momento
da nossa vida estamos a ser mais pobres do que realmente
somos, a situao  estranha, vivemos como se tivssemos
escolhido ser pobres, Se se tratasse duma escolha, creio que
no seria de boa-f, foram as circunstncias, mas delas s
aceitmos algumas, as que serviam os nossos fins pessoais,
somos como actores, ou somos apenas personagens, se, por
exemplo, eu voltasse para o meu marido, quem seria eu, o
actor fora da sua personagem, ou uma personagem a fazer o
papel de actor, e entre um e outro, eu estaria onde, isto
disse
e perguntou Joana Carda. Maria Guavaira estivera a ouvir,
calada, agora dizia como quem comea do princpio uma
nova conversa, talvez no tivesse compreendido bem o que
os outros disseram, As pessoas nascem todos os dias, s
delas  que depende continuarem a viver o dia de ontem ou
comearem de raiz e de bero o dia novo, hoje, Mas h a
experincia, tudo quanto viemos aprendendo, lembrou Pedro
Orce, Sim, tens razo, disse Jos Anaio, mas a vida fazemo-la
geralmente como se no tivssemos nenhuma experincia
anterior, ou servimo-nos apenas daquela sua parte que nos
permite insistir em erros, alegando explicaes e lies da
experincia, e agora ocorre-me uma ideia que talvez vos
parea absurda, um contra-senso, que talvez o efeito da
experincia seja muito maior no conjunto da sociedade do que
em cada um dos seus membros, a sociedade aproveita a
experincia de todos, mas nenhuma pessoa quer, sabe ou
pode aproveitar por inteiro a sua prpria experincia.

250



Debatem-se estas interessantes questes  sombra duma
rvore, na hora do almoo, frugal como convm a viajantes
que ainda no terminaram a jornada, e se algumas pessoas
considerarem o exame desajustado, quer ao local, quer 
circunstncia, teremos de recordar-lhes que, globalmente, a
instruo e cultura dos peregrinos admitem, sem escandalosa
impropriedade, uma conversao cujo teor, de um exclusivo
ponto de vista de composio literria que buscasse uma
tambm exclusiva verosimilhana, apresentaria, de facto,
algumas deficincias. Porm, qualquer um, independente
mente das habilitaes que tenha, ao menos uma vez na sua
vida fez ou disse coisas muito acima da sua natureza e
condio, e se a essas pessoas pudssemos retirar do quoti
diano pardo em que vo perdendo os contornos, ou elas a si
prprias por violncia se retirassem de malhas e prises,
quantas mais maravilhas seriam capazes de obrar, que pedaos
de conhecimento profundo poderiam comunicar, porque
cada um de ns sabe infinitamente mais do que julga e cada
um dos outros infinitamente mais do que neles aceitamos
reconhecer. Cinco pessoas esto aqui por motivos
extraordinrios, de estranhar seria que no conseguissem dizer
algumas coisas um pouco fora do comum.
Por estas paragens  raro encontrar-se um automvel.
Uma vez por outra passa um grande camio, leva abastecimentos
s populaes, principalmente munies de boca,
com todos estes acidentes  natural que se tenha desorganizado
o comrcio local de vveres, h faltas, e de repente
passa a haver excessos, mas tudo tem desculpa, lembremo
-nos de que a humanidade nunca se viu numa situao
destas, navegar sempre navegou, mas em barcos pequenos.
Anda muita gente a p, outros vo de burro, se no fosse to
acidentado o terreno veramos mais bicicletas. No geral, as
pessoas daqui so de boa ndole, pacficas, mas o sentimento
da inveja  talvez o nico que no escolhe classes sociais e o
de mais assdua manifestao na alma humana, por isso no
foi uma nem duas vezes que Dois Cavalos, passeando-se na

251


paisagem em tempo de tanta dificuldade de transportes,
despertou vidas cobias. Qualquer grupo decidido e violen
to daria rpida conta dos ocupantes, um daqueles homens 
velho, os outros tm pouco de sanso e hrcules, e, quanto
s mulheres, uma vez os companheiros vencidos, seriam
presa fcil,  verdade que Maria Guavaira  mulher para
enfrentar um homem, mas precisa de um tio aceso. Bem
podia ter acontecido, portanto, que no se livrassem os
viajantes de um assalto celerado, ficando ali ao desbarato,
na perdio ltima, mseras e violadas as mulheres, feridos
e vexados os homens, mas estava l o co, que, vendo
aproximar-se gente, saa de debaixo da galera e,  frente ou
atrs, parado ou andando, com o focinho descado como um
lobo, fitava os seus olhos de fogo frio em viandantes quase
sempre inocentes, mas tanto pavor estes sentiam como medo
os facinorosos. Este co, se considerarmos tudo quanto fez
at hoje, mereceria o ttulo de anjo-da-guarda, apesar das
constantes insinuaes que continuam a ser feitas sobre a sua
pretensa origem infernal. Objectar-se-, adiantando a autori
dade da tradio crist e no crist, que os anjos sempre
foram representados com asas, mas naqueles casos, que
muitos so, em que o anjo necessrio no precisasse de
voar, que mal haveria que aparecesse, familiarmente, em
figura de co, sem ter obrigao de ladrar, o que, alis, no
assentaria bem  espiritual entidade. Admita-se, portanto, e
ao menos, que os ces que no ladram so anjos em funo.
Acamparam ao fim do dia nas margens do rio Minho, no
arrabalde duma povoao chamada Portomarin. Enquanto
Jos Anaio e Joaquim Sassa ficavam a desatrelar e a cuidar
dos cavalos, a preparar o lume, a descascar as batatas e a
migar a hortalia, as mulheres, acompanhadas por Pedro
Orce e pelo seu anjo-da-guarda, aproveitaram a ltima luz
do entardecer para ir bater a algumas portas da aldeia. Por
causa da lngua, Joana Carda no abria a boca, provavelmente
as dificuldades de comunicao  que a tinham
enganado antes, mas est a aprender para o futuro, que  o

252

lugar nico onde se podem emendar erros. No lhes correu
mal o negcio, o que venderam foi por justo preo. Quando
regressaram, o acampamento parecia um lar, a fogueira
confortava-se entre as pedras, o candeeiro pendurado da ga
lera fazia para o espao desafogado meia roda de luz, e o
cheiro
da fervedura era como a presena de Deus Nosso Senhor.
Quando depois da ceia conversavam ao redor do lume,
Joaquim Sassa teve uma sbita inspirao e perguntou,
Donde  que te veio esse nome de Guavaira, que  que
significa, e Maria Guavaira respondeu, Guavaira, que eu
saiba,  nome que ningum mais tem, sonhou-o a minha
me quando eu ainda estava dentro dela, queria que eu me
chamasse Guavaira, s assim, mas o meu pai teimou que
tambm havia de ser Maria, e fiquei como no devia, Maria
Guavaira, Ento no sabes o que quer dizer, O meu nome
veio de um sonho, Os sonhos significam sempre alguma
coisa, Mas no o nome que estiver no sonho, agora digam
-me dos nomes que tm. Disseram-lho, cada qual o seu, um
por um. Ento Maria Guavaira, remexendo com um tio o
lume, disse, Os nomes que temos so sonhos, com quem
estarei eu a sonhar se sonhar com o teu nome.

253


Mudou o tempo, frmula de uma conciso exemplar
que, de modo suavizado ou neutralmente objectivo, nos
informa que, tendo mudado, mudou para pior. Chove, e 
uma chuva mansa, de outono comeado, que enquanto no
empapar as terras nos dar vontade de passear por esses
campos, de botas e impermevel, recebendo no rosto a
poalha dulcssima da gua e gozando a melancolia das
distncias brumosas, as primeiras rvores que deixam ir as
folhas e aparecem despidas, friorentas, como se estivessem
a pedir-nos afagos, alguma a h que apetece apertar ao
peito com terna piedade, chegamos o rosto  casca hmida e
 o mesmo que uma face molhada de lgrimas.
Mas o toldo da galera vem dos primrdios dos toldos, a
tecnologia, slida na teia e na trama, cuidava pouco de
impermeabilidades, era o sculo e o lugar das pessoas capazes
de enxugarem a roupa no corpo tendo como nica proteco,
e no em todos os casos, um copo de aguardente. Acresceu
-lhe o efeito das estaes, o ressequimento das fibras, o
esgaramento das costuras,  fcil ver que a lona retirada do
automvel no pde remediar todos os danos. Por isso vem
pingando dentro de Dois Cavalos, e continua a pingar, em
contrariedade da convico de Joaquim Sassa, que defendia
que o ensopamento e engrossamento dos fios, com a consequente
reduo dos espaos entre eles, teria o seu lado
benfico, desde que houvesse pacincia para esperar. Teori
254

camente, nada mais exacto, mas a evidncia prtica  outra,
se no tivessem tido o cuidado de enrolar e proteger os
colches, to cedo ningum poderia dormir neles.
Quando a chuva cai com mais fora e a oportunidade
surge, os viajantes recolhem-se debaixo dos viadutos, mas
nesta estrada so raros,  apenas um caminho provincial,
fora dos grandes eixos rodovirios, esses que, para evitar
cruzamentos e permitir as grandes velocidades, fazem passar
por cima de si as vias secundrias. Em um destes dias ter
Jos Anaio a ideia de comprar um verniz ou uma tinta
impermevel, e assim far, mas a nica tinta apropriada que
encontrou, um vermelho estridente, no chegar sequer
para uma quarta parte do toldo. Se Joana Carda no viesse a
ter melhor e mais razovel ideia, coser folhas largas de
plstico umas s outras at com elas formar uma cobertura
completa, e de caminho segunda para os cavalos, e adivi
nhando-se que no seria provvel encontrar trinta quilme
tros adiante tinta impermevel da mesma cor e tonalidade,
poderia vir a acontecer passear-se a galera pelo vasto mundo
com um toldo de furta-cores, s riscas, crculos e quadrados,
segundo a inspirao do artista, de verde e amarelo, de
laranja e azul, de violeta, de branco sobre branco, de
castanho, talvez de preto. Por enquanto chove.
Depois do breve e inconcluso dilogo sobre o sentido dos
nomes e o significado dos sonhos, tem sido objecto de
discusso que nome se dever dar ao sonho que este co .
Dividem-se as opinies, as quais, como tambm deveramos
saber j, so simples questo de gosto, digamos mesmo que
a opinio  a expresso aparentemente racionalizada do
gosto. Pedro Orce prope e justifica um nome rstico e
tradicional, Fiel, ou Piloto, ambos muito pertinentes se
considerarmos as caractersticas morais do animal, guia
infalvel e de uma lealdade sem mcula. Joana Carda hesita
entre Fronteiro e Combatente, nomes de blica ressonancia
que no parecem acertar com a personalidade de quem os
sugere, mas a alma feminina tem profundidades insondveis,

255


Margarida ao tear vai lutar toda a vida para reprimir os
mpetos da Lady Macbeth que leva dentro, e at  sua ltima
hora no ter a certeza de ganhar. Quanto a Maria Guavaira,
embora no sabendo explicar porqu, facto que no lhe
acontece pela primeira vez, props, meio envergonhada com
a sua prpria ideia, que se lhe chamasse Anjo-da-Guarda, e
corou ao diz-lo, tinha a percepo de quanto seria ridculo,
sobretudo em pblico, apelar ao anjo-da-guarda, e em vez de
um ente luminoso, vestido de alvinitente tnica, anunciando
-se com um fru-fru de asas, aparecer, sujo de lama e do
sangue do ltimo coelho, um terror canino que s respeita os
donos, se estes o so. Quis Jos Anaio lanar gua na
fervura dos risos que a sugesto de Maria Guavaira levantara,
e props que fosse dado ao co o nome de Constante,
tinha lembrana de haver lido esse nome num livro qual
quer, Agora no me lembro, mas Constante, se entendo bem
a palavra, contm todas as que foram sugeridas, Fiel, Piloto,
Fronteiro, Combatente, e at Anjo-da-Guarda, porque se
nenhum destes for constante perde-se a fidelidade, desorien
ta-se o piloto, o fronteiro abandena o posto, o combatente
entrega as armas, e o anjo-da-guarda deixa-se seduzir pela
menina a quem devia defender das tentaes. Todos aplaudiram,
embora Joaquim Sassa fosse de parecer que o melhor
ainda seria chamar-lhe simplesmente Co, porque, sendo o
nico que ali h, no pode haver possibilidade de confun
direm-se os apelos e as respostas. Vo pois chamar
Constante ao co, mas realmente no tinha valido a pena
tanto trabalho de baptismos, pois o animal responde a todos
os nomes que lhe derem se tiver entendido que a palavra,
qualquer que seja,  para ele, embora um certo outro nome
lhe flutue s vezes na memria, Ardent, mas desse ningum
aqui se lembrou. Razo tinha quem uma vez disse, contra a
opinio de Maria Guavaira
sequer um sonho.
Seguem, e no o sabem, o antigo caminho de Santiago,
passam por terras que tm nomes de esperana ou lembrana

, que um nome no  nada,

256

.~

m, consoante os episdios que nelas viveram os viajantes
daquele primitivo tempo, Sirri,Samos, ou a privilegiada
it
Villafranca del Bierzo, onde o peregrino doente ou cansado
que fosse tocar na porta da igreja do apstolo ficava
dispensado de chegar a Santiago de Compostela, ganhando as
mesmas indulgncias que se l tivesse ido. J a f, ento,
tinha os seus acomodamentos, porm nada que se compare
com os nossos dias de hoje, em que os acomodamentos so
mais retributivos que a prpria f, esta ou outra qualquer.
Ao menos, estes viajantes sabem que se quiserem ver os
Pirenus tero mesmo de l chegar, pr-lhes a mo em
cima, que o p no basta, por ser menos sensvel, e os
olhos, muito mais do que se julga, deixam-se enganar.
A chuva, aos poucos, tem vindo a diminuir, cai em gotas
espaadas, at que pra de todo. O cu no se descobriu, a
noite vem mais depressa. Acampam sob umas rvores para
se protegerem doutras possveis chuvadas, embora Pedro
Orce cite o refro ibrico, Quem a uma rvore se recolhe,
duas vezes se molha, esta  a verso portuguesa, modificada.
No foi fcil acender o lume, mas as artes de Maria
Guavaira acabaram por vencer a relutncia da lenha molhada,
que estalava e refervia nas extremidades como se vertesse a
seiva. Comeram conforme puderam, o suficiente para
que o estmago no viesse a ganir de fome durante a noite,
porque, como ensina o outro refro, Quem se deita sem
ceia, toda a noite rabeia, verso autntica. Comeram dentro
da galera,  luz do candeeiro fumegante, numa atmosfera
pesada, de roupas hmidas, com os colches enrolados e
sobrepostos, os restantes haveres em monte, para uma boa
dona de casa seriam punhaladas um espectculo assim. Mas
como no h mal que sempre dure nem chuva que se no
acabe, deixa a vir uma rstia de bom tempo e logo se far a
grande barrela, os colches abertos para que possam secar
at ao mais fino fio de palha, e as roupas estendidas sobre os
arbustos e as pedras, quando as formos recolher, tero
aquele bom cheiro quente que o sol deixa por onde passa, e

257


isto se far enquanto as mulheres, compondo um formoso
quadro familiar, ajustam e costuram as longas faixas de
plstico que ho-de resolver todos os problemas aquticos,
bendito seja quem inventou o progresso.
     Tm estado a conversar com a indolncia e vaguidade de
quem tem de passar o tempo enquanto a hora de dormir no
chega, e ento Pedro Orce interrompe o que ele prprio
estava dizendo e vai comear a falar, Li uma vez no sei
onde que a galxia a que pertence o nosso sistema solar se
dirige para uma constelao de que agora tambm no me
lembra o nome, e essa constelao dirige-se, por sua vez,
para um certo ponto do espao, gostaria de ser mais exacto,
mas a minha cabea no reteve os pormenores, no entanto o
que eu queria dizer era o seguinte, ora reparem, ns aqui
vamos andando sobre a pennsula, a pennsula navega sobre
o mar, o mar roda com a terra a que pertence, e a terra vai
rodando sobre si mesma, e, enquanto roda sobre si mesma,
roda tambm  volta do sol, e o sol tambm gira sobre si
mesmo, e tudo isto junto vai na direco da tal constelao,
ento o que eu pergunto, se no somos o extremo menor
desta cadeia de movimentos dentro de movimentos, o que.eu
gostaria de saber  o que  que se move dentro de ns e para
onde vai, no, no me refiro a lombrigas, micrbios e
bactrias, esses vivos que habitam em ns, falo doutra
coisa,
duma coisa que se mova e que talvez nos mova, como se
movem e nos movem constelao, galxia, sistema solar,
sol, terra, mar, pennsula, Dois Cavalos, que nome final
mente tem o que a tudo move, de uma extremidade da
cadeia  outra, ou cadeia no existir e o universo talvez
seja um anel, simultaneamente to delgado que parece que
s ns, e o que em ns cabe, cabemos nele, e to grosso que
possa conter a mxima dimenso do universo que ele prprio
, que nome tem o que a seguir a ns vem, Com o homem
comea o que no  visvel, foi a resposta surpreendida de
Jos Anaio, que a deu sem pensar.
Sobre o toldo caem, espaadas, as grandes gotas de gua

258

que vieram escorregando de folha em folha, ouvem-se l
fora os movimentos de Pig e Al sob os oleados que os no
cobrem por completo,  para isto que o silncio verdadeira
mente serve, para que possamos ouvir o que se diz no ter
importncia. Cada uma das pessoas que aqui se encontram
pensa que  obrigao sua contribuir com o saber que tenha
para to alto conclio, mas todos se temem de que, ao abrir a
boca, lhes saiam, se no os sapinhos da lenda, umas sortidas
banalidades sobre o ser, ontolgicas, mesmo tendo dvidas
sobre a pertinncia da palavra num contexto primrio de
galera, pingos de chuva e cavalos, sem esquecer o co, que
dorme. Maria Guavaira, por ser a menos instruda, foi a
primeira a falar, Ao no visvel daramos o nome de Deus,
mas  curioso como se introduziu na frase um certo tom
interrogativo, Ou vontade, a proposta veio de Joaquim
Sassa, Ou inteligncia, acrescentou Joana Carda, Ou histria,
e este remate foi de Jos Anaio, Pedro Orce no tinha
qualquer sugesto a fazer, limitara-se a perguntar, quem
julgue que isso  o mais fcil est muito enganado, no tem
conta o nmero de respostas que s est  espera das
perguntas.
Ensina a prudncia que o exame de to complexas
matrias deva suspender-se antes que cada interveniente
comece a dizer coisas diferentes das que antes sustentara,
no porque seja necessariamente errado mudar de opinio,
mas porque, variando essas diferenas tanto, pode aconte
cer, e geralmente acontece, que a discusso tenha voltado ao
princpio sem que os disputantes se tivessem apercebido de
tal. Neste caso, aquela inspirada primeira frase de Jos
Anaio, aps ter feito a roda dos amigos, veio a concluir-se
banalmente pela evidncia mais do que bvia da invisibilidade
de Deus, ou da vontade, ou da inteligncia, e, porventura
menos banal e um pouco menos evidente, da histria.
Enquanto puxa para si Joana Carda, que se queixa de frio,
Jos Anaio tenta no adormecer, quer reflectir na sua ideia,
se a histria  realmente invisvel, se os visveis
testemunhos

259


da histria lhe conferem visibilidade suficiente, se a
visibilidade assim relativa da histria no passar de uma
mera
cobertura, como as roupas que o homem invisvel vestia,
continuando invisvel. No aguentou muito tempo estes
volteios cerebrais, e ainda bem, que nos ltimos instantes
antes de cair no sono, o seu pensamento tinha-se concentrado,
absurdamente, na destrina da diferena que h entre o
invisvel e o no visvel, que,' sendo patente a quem se
demore um pouco a pensar, no tinha relevncia particular
para o caso.  luz do dia todos os enredos tm muito menos
importncia, Deus, o mais ilustre dos exemplos, criou o
mundo porque era noite quando se lembrou disso, sentiu
naquele supremo instante que no podia aguentar mais as
trevas, fosse ele dia e Deus teria deixado ficar tudo como
estava. E como este cu daqui amanheceu livre e descoberto, e
o sol surgiu sem impedimento de nuvens, e assim se
conservou, as filosofias nocturnas dissiparam-se, agora toda
a ateno se concentra no bom andamento de Dois Cavalos
sobre uma pennsula, tanto faz que ela vogue como no
vogue, mesmo que a rota da minha vida me leve a uma
estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos
do mundo.
Nessa tarde, quando estavam no seu negcio, souberam
que a pennsula, depois de alcanar um ponto logo ao norte
da mais setentrional ilha dos Aores, o Corvo, em linha
recta, devendo entender-se por esta descrio sumria que o
extremo sul da pennsula, a Ponta de Tarifa, se encontrava,
noutro meridiano a leste, ao norte do extremo norte do
Corvo, a Ponta dos Tarsais, ora bem, a pennsula, depois do
que tentmos explicar, retomara imediatamente a sua deslocao
para ocidente, numa direco paralela  da sua primeira rota,
isto , a ver se nos entendemos de vez, prosseguin
do-a uns graus acima. Com este acontecimento triunfaram os
autores e defensores da tese de deslocao em linha recta,
quebrada em ngulos rectos, e se at agora no se verificou
ainda qualquer movimento que fundamente a hiptese de um

260

regresso ao ponto de partida, enunciada, alis, mais como
demonstrao do sublime do que como confirmao previsvel da
tese geral, isto no significava a impossibilidade de
recuos, sendo de admitir, at, que a pennsula no venha a
parar nunca mais, vagabundeando eternamente pelos mares
do mundo, como o tantas vezes citado Holands Voador,
agora, a pennsula, com outro nome, aqui por prudncia no
posto para se evitarem exploses nacionalistas e xenfobas,
que seriam trgicas nas circunstncias actuais.
, aldeia onde os viajantes se encontravam no chegaram
notcias destes diferendos, apenas que os Estados Unidos da
Amrica tinham anunciado, pela boca do prprio presidente,
que os pases que a vinham podiam contar com o apoio e
a solidariedade moral e material da nao norte-americana,
Se continuarem a navegar de l para c, sero recebidos
de braos abertos. Mas esta declarao, de extraordinrio
alcance, tanto do ponto de vista humanitrio como
geoestratgico, veio a apagar-se um pouco com o sbito
alvoroo
das agncias de turismo de todo o mundo, assediadas pelos
clientes que queriam viajar para o Corvo o mais rapidamente
possvel, sem olhar a meios nem a despesas, e porqu,
Porque, se no houver modificao do rumo, a pennsula vai
passar  vista da ilha do Corvo, espectculo que no pode
ser comparado ao insignificante desfilar da pedra gibraltina,
quando a pennsula se desligou do rochedo e o deixou para
ali abandonado s vagas. Agora  uma massa imensa que
passar diante dos olhos dos privilegiados que conseguirem
um lugarzinho na metade norte da ilha, mas, apesar da
vastido da pennsula, o sucesso poucas horas durar, dois
dias quando muito, porque, tendo em conta a configurao
peculiar desta jangada, s a parte extrema do sul poder ser
observada, e  se estiver descoberto o tempo. O resto, por
causa da curvatura da terra, passar longe da vista, imagine
-se o que seria se, em vez daquele seu feitio esquinado, a
pennsula tivesse ao sul uma costa toda cortada a direito, no
sei se est seguir o desenho, seriam dezasseis dias a ver

261


passar o desfile, umas frias, se viesse a manter-se a
velocidade de cinquenta quilmetros por dia. Seja como for,
so grandes as probabilidades de um afluxo de dinheiro 
ilha do Corvo como nunca se viu, o que j obrigou os
habitantes a mandarem vir fechaduras para as portas e
serralheiros para as instalarem, com trancas e sinais de
alarme.
De vez em quando ainda caem chuviscos, no pior caso
um aguaceiro rpido, mas o mais do dia  feito de sol, cu
azul e nuvens altas. A grande cobertura de plstico foi
armada, cosida e reforada, e agora, se ameaa chuva,
suspende-se a marcha, e, em trs tempos, primeiro desdobra,
segundo puxa, terceiro ata, est o toldo protegido.
Dentro da galera vo os colches mais secos que j se viu, o
relento do bafio e da humidade foi-se, este interior, limpo e
arrumado,  verdadeiramente um lar. Mas agora  que se v
bem como a chuva tem sido muita para estes lados. As terras
esto ensopadas, h que ter cuidado com a galera, no a
meter, sem prvia sondagem, nos terrenos moles  beira da
estrada, depois seria ' o cabo dos trabalhos para a tirar de
l,
dois cavalos, trs homens e duas mulheres no valem um
tractor. A paisagem tem-se modificado, ficaram para trs
montanhas e montes, as ltimas ondulaes vo des
maiando, e o que comea a aparecer diante dos olhos  uma
plancie que parece no ter fim, tendo por cima um cu
to, grande que de pasmo faz duvidar que o cu seja todo
um, o mais certo  ter cada lugar, se no cada pessoa,
o seu prprio cu, maior ou menor, mais alto ou mais
baixo, e esta agora foi uma grande descoberta, sim senhor,
o cu como uma infinitude de cpulas sucessivas e embre
chadas, a contradio dos termos  s aparente, basta olhar.
Quando Dois Cavalos atinge o teso da ltima colina julga
-se que nunca mais, at ao fim do mundo, a terra tornar a
levantar-se, e, sendo to comum terem diferentes causas
o mesmo efeito, aqui se nos cortou a respirao, como se
nos tivessem levado ao alto do monte Evereste, diga-o.

262

quem l esteve, se no lhe aconteceu o mesmo que a ns
neste cho raso.
Boas contas deita Pedro, mas outras bem diferentes o
patro faz. Porm, diga-se j que este Pedro no  Orce,
nem o narrador alis sabe quem seja, embora admita que por
trs do dito esteja aquele apstolo com o mesmo nome que a
Cristo negou trs vezes, e estas so tambm as contas que
Deus fez, provavelmente por ser trino e no ser forte em
cincia aritmtica. Costuma-se dizer que deita Pedro boas
contas quando as contas que os Pedros fazem saem furadas,
 um modo popular e irnico de significar que no deveriam
uns decidir do que s a outros caber cumprir, quer dizer, se
errou Joaquim Sassa ao estipular cento e cinquenta quilmetros
de marcha por dia, tambm Maria Guavaira no acertou
quando emendou para noventa. Da tenda sabe o tendeiro, de
puxar sabem os cavalos, e assim como se diz, ou dizia, que
a m moeda elimina a moeda boa, tambm o andamento do
cavalo velho moderou o andamento do cavalo novo, se no
foi antes comiserao deste, bondade de corao, respeito
humano, alardear foras o forte diante do fraco  sinal de
perverso moral. Todas estas palavras foram consideradas
necessrias para explicar que temos vindo mais vagarosamente
do que estava previsto, mas a conciso no  uma
virtude definitiva, s vezes perde-se por falar muito, de
acordo, mas quanto no foi ganho por se ter dito mais do
que o suficiente. Os cavalos vo pelo passo que querem,
puseram-nos a trote e eles obedecem ao capricho ou necessi
dade do cocheiro, mas, aos poucos, to subtilmente que nem
se repara, Pig e Al vo reduzindo o andamento, como to
harmoniosamente o conseguem  um mistrio, no se ouviu
um deles dizer ao outro, Mais devagar, e o outro responder,
Depois daquela rvore.
Felizmente os viajantes no tm pressa. Ao princpio,
quando partiram das j distantes terras galegas, parecia-lhes
que tinham datas a cumprir e itinerrios a respeitar, havia
mesmo um certo sentimento de urgncia, como se cada um

263


deles tivesse de ir salvar o pai da forca e chegar ao patbulo
antes de o carrasco fazer cair o alapo. Aqui no se trata de
pai nem me, que de uns e outros nada sabemos, excepto a
me de Maria Guavaira, que  louca e j no est na
Corunha, ou porventura para l voltou, passado o perigo.
Das outras mes e dos outros pais, antigos e modernos, nada
foi revelado, quando os filhos se calam devem calar-se
tambm as perguntas e recolher-se as indagaes, afinal
cada um de ns comea e acaba o mundo, se com esta
declarao no ficaram mortalmente ofendidos o esprito
de famlia, o interesse da herana e a limpeza do nome.
A estrada, em poucos dias, tornou-se num mundo fora do
mundo, como qualquer homem que, no mundo estando, se
descobre ele prprio um mundo, e nem  difcil, basta fazer
um pouco de solido  sua volta, como estes viajantes que
indo juntos, vo ss. Por isso no tm pressa, por isso
deixaram de deitar contas ao caminho andado, as pausas so
para o negcio e para o repouso, e no  raro que apetea
parar sem outra razo que no seja esse mesmo apetite, para
o qual, se h sempre razes, no geral no perdemos tempo a
procur-las. Todos acabamos por chegar aonde queremos, 
tudo uma questo de tempo e pacincia, a lebre vai mais
depressa do que a tartaruga, chegar talvez primeiro, desde
que no encontre no seu caminho o caador e a espingarda.
Deixmos o pramo leons, entrmos e estamos andando
pela Tierra de Campos, onde nasceu e floresceu aquele
famoso pregador frei Gerndio de Campazas, cujos ditos e
feitos miudamente relatou o no menos clebre padre Isla,
para escarmento de oradores prolixos, citadores impeniten
tes, refranistas convulsos e escritores derramados, mal  que
nos tenha aproveitado to pouco a lio, sendo to clara.
Cortemos, porm,  nascena, o divagante exrdio, e diga
mos, com recta simplicidade, que os viajantes iro dormir
esta noite a uma povoao chamada Villalar, no longe de
Toro, Tordesilhas e Simancas, lugares todos eles que 
histria portuguesa de perto tocam, por batalha, tratado e

264



arquivo. Sendo Jos Anaio professor de ofcio, so nomes
que acordam nele fceis evocaes, alis, sem grande
desenvolvimento, pois a sua cincia histrica, sendo geral, 
de
rudimentos, pouco mais abastecida de pormenores que a dos
seus ouvintes, espanhis e portugueses, que alguma coisa
ho-de ter aprendido, e de todo no esqueceram, a respeito
de Simancas, Toro e Tordesilhas, consoante a prodigalidade
informativa e o interesse nacionl dos manuais de histrias
ptrias de um lado e do outro. Mas de Villalar ningum aqui
sabe nada, salvo Pedro Orce que, apesar de oriundo de terras
andaluzas, tem luzes de quem andou, em qualquer tempo,
nas terras gerais da pennsula, o facto de ter dito que no
conhecia Lisboa, quando l entrou h dois meses, no depe
contra a hiptese, pode simplesmente no a ter reconhecido,
como no a reconheceriam hoje os fundadores fencios, os
povoadores romanos, os dominadores visigticos, acaso com
alguns vislumbres os muulmanos, e cada vez mais confusa
mente os portugueses.
Esto sentados ao redor da fogueira, dispostos aos pares,
Joaquim e Maria, Jos e Joana, Pedro e Constante, a noite
est um pouco fria, mas o cu sereno e limpo, quase no se
vem estrelas, porque a lua, que nasceu cedo, inunda de
claro os campos rasos e, aqui perto, os telhados de Villalar,
cujo alcaide, homem de bom feitio, no ps objeces a
instalarem-se to de perto da povoao as gentes da caravana
hispano-portuguesa, apesar do mester que praticam, de
nmadas e fanqueiros de obra feita, concorrentes, nesta
especialidade mercantil, do comrcio local. A lua no vai
alta, mas j tem o aspecto com que mais estimamos olh-la,
um disco luminoso inspirador de versos fceis e sentimentos
faclimos, peneira de seda que vai espoando uma alva
farinha sobre a paisagem rendida. Dizemos ento, Que lindo
luar, e fazemos por esquecer o arrepio de medo que senti
mos quando o astro aparece enorme, vermelho, ameaador,
sobre a curva da terra. Aps tantos e tantos milnios, a lua
nascente continua ainda hoje a surgir como uma ameaa, um

265


sinal de fim, o que nos vale  durar a ansiedade poucos
minutos, subiu o astro, tornou-se pequeno e branco, podemos
respirar descansados. E os animais tambm se afligem,
ainda h pouco, quando a lua nasceu, o co ficou a olhar
para ela, teso, hirto, teria talvez uivado se no lhe
faltassem
as cordas vocais, mas todo ele se ouriava como se uma mo
gelada lhe corresse o dorso ao contrrio do plo. So
momentos em que o mundo sai dos eixos, percebemos que
nada est seguro, e se pudssemos dar voz plena ao que
sentimos diramos, com expressiva ausncia de retrica, Foi
por um triz.
Que histrias de Villalar conhece Pedro Orce vamos
agora sab-lo, ao findar da ceia, enquanto a fogueira dana
no ar parado, olham-na pensativamente os viajantes, esten
dem para ela as mos como se as impusessem ou ao fogo se
rendessem, h um velho mistrio nesta relao entre ns e o
lume, mesmo com o cu por cima,  como se estivssemos,
ele e ns, no interior da caverna original, gruta ou matriz.
A lavagem da loua compete hoje a Jos Anaio, mas no
h pressa, a hora  pacfica, quase doce, o luzeiro das
chamas perpassa nos rostos tisnados pelo ar livre, tm a cor
que neles d o sol quando nasce, o sol  doutra natureza
e est vivo, no morto como a lua, essa  a diferena.
E diz Pedro Orce, Acaso no sabem, mas h muitos e
muitos anos, em mil quinhentos e vinte e um, houve nestas
paragens de Villalar uma grande batalha, maior pelas
consequncias do que pela gente morta, que se tem sido ganha
por
quem a perdeu, outro mundo teramos herdado, os vivos de
hoje. De grandes batalhas que ficaram na histria tem Jos
Anaio suficiente informao, e se  queima-roupa lho
pedissem, recitaria sem hesitar uma dezena de nomes,
comeando, classicamente, por Maratona e as Terinpilas,
e, sem preocupaes de cronologia, Austerlitz e Borodino,
Marne e Monte Cassino, Ardenas e AI-Alamein, Poitiers e
Alccer Quibir, e tambm Aljubarrota, que para o mundo 
nada e para ns  tudo, aquelas vieram emparelhadas sem

266

1

nenhuma razo particular, Mas batalha de Villalar nunca
ouvi, concluiu Jos Anaio. Ora essa batalha, explicou
Pedro Orce, foi quando as comunidades de Espanha se
levantaram contra o imperador Carlos Quinto, estrangeiro,
mas no tanto por ser estrangeiro, que nos sculos de
antigamente o mais comum da vida era verem os povos
entrar-lhes pela porta dentro um rei a falar outra lngua, o
negcio era todo entre casas reais que jogavam os seus e
outros pases, no direi aos dados ou s cartas, mas por
interesses de dinastia, com truques de alianas e triques de
casamentos, por isto no se pode dizer que se levantaram as
comunidades contra o rei intruso, e tambm no v imagi
nar-se que foi a grande guerra dos pobres contra os ricos,
quem dera que todas as coisas, estas e as outras, fossem to
simples como diz-las, o caso  que os nobres espanhis no
gostaram nada, mesmo nada, que aos estrangeiros do imperador
tivessem sido distribudos tantos ofcios, e uma das
primeiras resolues dos novos senhores foi aumentar os
impostos,  o infalvel remdio para pagar os luxos e
aventuras, ora a primeira cidade rebelde foi Toledo, e logo
outras foram atrs do exemplo, Toro, Madrid, vila, Soria,
Burgos, Salamanca, e mais, e mais, mas os motivos de
umas no eram os motivos das outras, algumas vezes coinci
diam, sim senhores, mas outras contradiziam-se, e se era
assim com as cidades muito mais era com as pessoas,que
viviam nelas, havia cavaleiros que apenas defendiam os seus
interesses e ambies, e por isso variavam de campo con
soante lhes soprasse o vento e viesse o ganho, ora, como
sempre acontece, o povo estava metido nisto, pelas suas
razes prprias mas sobretudo pelas alheias,  assim desde
que o mundo  mundo, ainda se o povo fosse todo um, bem
estaria, porm o povo no  todo um, esta  uma ideia que
custa muito a entrar na cabea das pessoas, sem falar que os
povos geralmente vivem enganados, tantas vezes levaram os
seus procuradores um voto a cortes e chegados l, por
suborno ou ameaa, votaram os deputados ao contrrio da

267

vontade de quem os mandou, maravilha foi que apesar de
tanto desencontro e contradio foram as comunidades capazes
de organizar milcias e ir para a guerra contra o exrcito
do rei, nem vale a pena dizer que houve batalhas ganhas e
perdidas, aqui em Villalar foi que se perdeu a ltima, e
porqu, o costume, erros, incompetncias, traies, gente
que se cansou de esperar pelo soldo e foi embora, deu-se a
batalha, uns a ganharam, outros a perderam, nunca se
chegou a saber exactamente quantos comuneiros -aqui morreram,
pelas contas modernas no foram muitos, houve quem
dissesse que foram dois mil, houve quem jurasse que no
passaram do milheiro, e at que tinham sido apenas duzentos,
no se sabe, no se vir a saber, salvo se algum um dia
tiver a lembrana de remover estas terras cemitras e contar
os crnios enterrados, que contar os outros ossos s aumen
taria a confuso, trs dos capites das comunidades foram no
dia seguinte julgados, condenados  morte e decapitados na
praa de Villalar, chamavam-se eles Juan de Padilla, toleda
no, Juan Bravo, segoviano, e Francisco Maldonado, salmantino,
esta foi a batalha de Villalar que se tivesse sido ganha
por quem a perdeu faria mudar o destino de Espanha, com
um luar como este de agora quem poder imaginar o que
ter sido a noite e o dia da batalha, chovia, os campos
estavam alagados, combatia-se enterrado na lama, sem dvi
da pelas contas modernas morreu pouca gente, mas d
vontade de dizer que a pouca gente morta nas guerras de
antigamente pesou mais na histria do que as centenas de
milhares e milhes do sculo vinte, o luar  que no varia,
tanto cobre Villalar como Austerlitz ou Maratona, ou, Ou
Alccer Quibir, disse Jos Anaio, Que batalha foi essa,
perguntou Maria Guavaira, Se tambm ela tivesse sido
ganha em vez de perdida, no posso eu imaginar como seria
hoje Portugal, respondeu Jos Anaio, Uma vez li num livro
que o vosso rei D. Manuel entrou nesta guerra, disse Pedro
Orce, Nos compndios por onde eu ensino no se fala de
terem os portugueses andando em guerra com Espanha nessa

268

poca, No vieram portugueses de carne e osso, vieram
cinquenta mil cruzados que o vosso rei emprestou ao imperador,
Ah bom, disse Joaquim Sassa, cinquenta mil cruzados
para o exrcito real, as comunidades tinham de perder, os
cruzados ganham sempre.
Nesta noite o co Constante sonhou que andava a desen
terrar ossos no campo de batalha. J tinha reunido cento e
vinte e quatro crnios quando a lua se ps e a terra
escureceu. Ento o co voltou a adormecer. Dois dias depois,
uns
garotos que andavam no campo a brincar s guerras foram
dizer ao alcaide que tinham encontrado um monto de
caveiras num campo de trigo, nunca se chegou a saber como
l apareceram, to juntinhas. Mas daqueles portugueses e
espanhis que vieram na galera e j partiram, as mulheres de
Villalar s dizem bem, Em preo e qualidade foi da gente
mais honesta que por aqui tem passado.

269


i

Por bem fazer, mal haver, diziam os antigos, e tinham
razo, pelo menos aproveitaram o seu tempo para julgar os
factos ento novos  luz dos ento factos velhos, o nosso
erro contemporneo  a persistncia duma atitude cptica em
relao s lies da antiguidade. Disse o presidente dos
Estados Unidos da Amrica que a pennsula seria bem
-vinda, e o Canad, vai-se a ver, no gostou.  que,
observam os canadianos, se o rumo no se alterar, ns  que
seremos os anfitries, passar a haver aqui duas Terras
Novas em vez de uma, e mal sabem os peninsulares,
coitados, aquilo que os espera, frio de morrer, gelo, a nica
vantagem  ficarem os portugueses mais perto do bacalhau
de que tanto gostam, perdem no vero, ganham na rao.
O porta-voz da Casa Branca acudiu logo a explicar que a
declarao do presidente fora movida, fundamentalmente,
por razes de humanidade, sem qualquer inteno de prevalncia
poltica, tanto mais que os pases peninsulares no
deixaram de ser soberanos e independentes pelo facto de
andarem a flutuar sobre as guas, algum dia ho-de parar e
ser iguais aos outros, e acrescentou, Por nossa parte, damos
a solene garantia de que o tradicional esprito de boa
vizinhana entre os Estados Unidos e o Canad no ser
afectado por qualquer circunstncia, e, como demonstrao da
vontade norte-americana de preservar a amizade com a
grande nao canadiana, propomos a realizao duma confe
270









rncia bilateral para exame dos diversos aspectos que, no
mbito desta dramtica transformao da fisionomia poltica
e estratgica do mundo, constituir o primeiro passo, certa
mente, para o alvorecer duma nova comunidade internacional,
composta pelos Estados Unidos, pelo Canad e pelos
dois pases ibricos, que sero convidados a participar, a
ttulo de observadores, nesta reunio, uma vez que no se
encontra ainda consumada a aproximao fsica a uma
distncia suficientemente prxima para, desde logo, se po
der definir uma perspectiva de' integrao.
O Canad, publicamente, deu-se por satisfeito com as
explicaes, mas mandou dizer que no considerava oportu
na a realizao imediata da conferncia, que, nos termos em
que havia sido proposta, poderia ofender os brios patriticos
de Portugal e de Espanha, sugerindo, em alternativa, uma
conferncia quadripartida para estudar as providncias a
tomar em caso de embate violento, quando a pennsula
arribasse s costas do Canad. Os Estados Unidos concordaram
logo, e em privado os seus dirigentes deram graas a
Deus por ter criado os Aores.  que se a pennsula no se
tivesse desviado para norte, se o movimento seguisse sempre
uma linha recta desde a separao da Europa, a cidade de
Lisboa ficaria, positivamente, com as janelas viradas para
Atlantic City, e de reflexo em reflexo concluram que
quanto mais para o norte se desviassem melhor, imagine-se
o que seria ficarem Nova iorque, Boston, Providence, Fila
dlfia, Baltimore, transformadas em cidades do interior,
com o consequente abaixamento do nvel de vida, no h
dvida de que o presidente se precipitou quando fez a
primeira declarao. Numa subsequente troca de notas
diplomticas confidenciais, a que se seguiram encontros
secretos entre autoridades dos dois governos, o Canad e os
Estados Unidos concordaram que a soluo prefervel seria,
podendo ser, fixar a pennsula num ponto da sua rota
suficientemente prximo para ficar fora da rea de influncia
europeia e suficientemente afastado para no causar danos

271


imediatos ou mediatos aos interesses canadianos e norte
-americanos, devendo desde j iniciar-se um estudo com
vista a introduzir alteraes convenientes nas respectivas
leis
de imigrao, reforando sobretudo as suas disposies cau
telares, no julguem os espanhis e os portugueses que
podem entrar-nos pela casa dentro sem mais nem qu, a
pretexto de passarmos a ser vizinhos de patamar.
Protestaram os governos de Portugal e de Espanha contra
a displicncia com que assim -pretendiam dispor as potncias
dos seus, deles, interesses e destino, com mais veemncia o
governo portugus, por a isso estar obrigado, sendo de
salvao nacional. Graas a uma iniciativa do governo
espanhol, vo ser estabelecidos contactos entre os dois
pases peninsulares para a definio de uma poltica
concertada tendente a tirar o melhor partido possvel da nova
situao, mas em Madrid desconfia-se que o governo portu
gus ir para essas negociaes com uma reserva mental,
qual seja a de pretender, futuramente, extrair benefcios
particulares da maior proximidade em que se achar das
costas canadianas ou norte-americanas, depende. E sabe-se,
ou julga-se saber, que entre certos meios polticos
portugueses circula um movimento tendente a um entendimento
bilateral, embora de carcter no oficial, com a regio da
Galiza, o que, evidentemente, no ir agradar nada ao poder
central espanhol, pouco disposto a tolerar irridncias, por
muito disfaradas que se apresentem, havendo mesmo quem
diga, com acerba ironia, e tenha posto a correr, que nada
disto teria acontecido se Portugal fosse do lado dos
Pirentis,
e, melhor ainda, se ficasse agarrado a eles ao dar-se a
ruptura, seria a maneira de acabar, de uma vez para sempre,
pela reduo a um s pas, com esta dificuldade de ser
ibrico, mas a enganam-se os espanhis, que a dificuldade
subsistiria, e mais no diremos. Deitam-se contas aos dias
que faltam para chegar  vista das costas do Novo Mundo,
estudam-se planos de aco para que a fora negocial se
exera em pleno no momento mais adequado, nem cedo de

272

mais, nem demasiado tarde, que  alis a regra de ouro da
arte diplomtica.
     Alheia a estes bastidores da intriga poltica, a
pennsula
continua a navegar para ocidente, tanto e to bem que da
ilha do Corvo j se retiraram os observadores de vria casta,
milionria ou cientfica, que l se tinham instalado, por
assim dizer na primeira fila, para assistirem  passagem.
O espectculo foi assombroso, basta dizer que a ponta
extrema da pennsula passou a pouco mais de quinhentos
metros do Corvo, com um grande marulhar de guas, parecia
aquilo um lance de pera wagneriana, mas a melhor
comparao ainda seria outra, estannos no mar, num pequeno
batel, e ver passar a poucos metros a enorme massa de
um petroleiro sem carga, com a maior parte das obras vivas
fora de gua, enfim, uma vertigem, um pasmo, por pouco
no caamos de joelhos a clamar, mil vezes arrependidos das
heresias e do mal feito, Deus existe, tanto podem no esprito
dos homens, mesmo civilizados, os efeitos da bruta na '
tureza.
Mas enquanto a pennsula cumpre assim a sua parte nos
movimentos -do universo, j os viajantes vo alm de
Burgos, to prsperos de comrcio que decidiram meter
Dois Cavalos pela auto-estrada, que sempre  melhor caminho.
L para diante, passando Gasteiz, tomaro s carretei
rs que servem as pequenas povoaes, a estar a galera no
seu natural elemento, em caminho campestre um carro de
cavalos, no esta inslita e chocante exibio de vagares
numa estrada para altas velocidades, o trote ronceiro de
quinze quilmetros por hora, se no  a subir e esto de
mar propcia os animais. O mundo ibrico est to mudado
que a polcia de estrada, que a isto assiste, no manda parar,
no multa, sentados nas suas potentes motos os polcias
fazem sinaizinhos de boa viagem, quando muito perguntam
o que quer dizer aquela pintura vermelha no toldo, se esto
do lado em que o quadrado se v. O tempo est bom, h dias
que no chove, julgaramos que tnhamos voltado ao vero
se no fosse o vento s vezes frio, de legtimo outono,

i

273


mormente estando to perto das altas montanhas. Jos Anai
o, de uma vez que as mulheres se queixavam da aspereza
do ar, aludiu, a modos como de passagem, s consequncias
duma excessiva aproximao das altas latitudes, disse
meimo, Se vamos parar  Terra Nova, acaba-se-nos a
viagem, para viver ao ar livre naquele clima  preciso ser
esquim, mas elas no lhe deram ateno, talvez porque no
estivessem a ver o mapa.
E talvez porque estivessem a falar no tanto do frio que
sentissem, mas de um frio maior que outra pessoa, quem,
pudesse sentir, no de si prprias, realmente, que todas as
noites tinham o aconchego dos seus homens, ou tambm
durante o dia se eram favorveis as circunstncias, quantas
vezes fazia um casal companhia a Pedro Orce na boleia
enquanto o outro, deitado, se deixava embalar pelo anda
mento de Dois Cavalos, depois de meio despidos, homem e
mulher, terem satisfeito uma exigncia sbita ou adiada do
desejo. Quem soubesse que naquela galera viajavam cinco
pessoas assim distribudas por sexos, poderia, com alguma
experincia de vida, saber o que se passava debaixo do
toldo, de acordo com a composio do grupo  vista na
boleia, exemplificando, se nela viajavam os trs homens
podia-se apostar que as mulheres iam entregues aos cuidados
domsticos, sobretudo os de costura, ou se, como j foi dito,
viajavam dois homens e uma mulher, a outra mulher e o
outro homem estariam na sua intimidade, mesmo vestidos e
apenas conversando. No eram estas as nicas combinaes
possveis, claro est, mas do que no h memria  de ir na
boleia uma mulher com um homem que no fosse o seu,
porque o mesmo teria de estar acontecendo debaixo do
toldo, e isso se tinha de evitar, por causa do que digam.
Estes arranjos dispuseram-se por si prprios, no foi preciso
reunir o conselho de famlia para deliberar sobre os modos
de proteger a moral dentro e fora do toldo, e deles resultou,
por inelutvel efeito matemtico, que quase sempre viajasse
Pedro Orce na boleia, salvo nas ocasies, raras, em que os

274




trs homens repousavam ao mesmo tempo, conduzindo as
mulheres, ou quando, pacificados todos os sentidos, podia ir
 frente um casal enquanto o outro, debaixo do toldo, no
cometia, na sua intimidade agora diminuda, actos que a
Pedro Orce pudessem embaraar, ofender ou alterar no seu
estreito enxergo, posto de travs, Coitado do Pedro Orce,
dizia Maria Guavaira para Joana Carda quando Jos Anaio
falou dos frios da Terra Nova e da vantagem de ser esquim,
e Joana Carda concordou, Coitado do Pedro Orce.
Quase sempre acampavam antes que anoitecesse, gostavam de
escolher um bom stio, com gua perto, se possvel 
vista de povoado, e se um lugar lhes agradava muito a
paravam, mesmo havendo ainda duas ou trs horas de sol.
A lio dos cavalos fora bem aprendida, com geral proveito,
os animais porque folgavam agora mais, os humanos porque
perderam o humano vezo da pressa e da impacincia. Mas
desde que Maria Guavaira disse naquele dia, Coitado do
Pedro Orce, uma atmosfera diferente envolve a galera na sua
viagem e as pessoas que dentro dela vm. D isto que pensar
se nos lembrarmos de que s Joana Carda ouviu as palavras
ditas e que, repetindo-as, as ouviu por sua vez apenas Maria
Guavaira, e sabendo ns que ambas as guardaram para si,
no era isto assunto para dilogo sentimental, ento conclui
remos que uma palavra, quando dita, dura mais que o som e
os sons que a formaram, fica por a, invisvel e. inaudvel
para poder guardar o seu prprio segredo, uma espcie de
semente oculta debaixo da terra, 'que germina longe dos

olhos, at que de repente afasta o torro e aparece  luz, um
talo enrolado, uma folha amarrotada que lentamente se
desdobra. Acampavam, desatrelavam os cavalos, libertavam-nos
dos arreios, acendiam o lume, actos e gestos
quotidianos que todos j executavam com igual competn
cia, consoante as tarefas a cada um diariamente distribudas.
Mas, contra o que desde o princpio era costume, no
falavam muito, e decerto eles prprios ficariam surpreendi
dos se lhes fssemos anunciar, H mais de dez minutos que

275


nenhum de vocs diz uma palavra, ento tomariam conscin
cia da natureza particular daquele silncio, ou responderiam
como quem no quer reconhecer um facto evidente e procura
uma intil justificao, s vezes acontece, e na verdade no
se pode estar sempre a falar. Mas se nesse momento
olhassem uns para os outros, veriam no rosto de cada um,
como num espelho, o seu prprio constrangimento, o embarao de
quem sabe que as explicaes so palavras vazias.
Ainda que deva ser notado que nos olhares trocados entre
Maria Guavira e Jona Carda h sentidos para elas explci
tos, de tal maneira que no aguentam durante muito tempo a
mirada e desviam os olhos.
Costumava Pedro Orce, depois de terminado o trabalho
que lhe competia, afastar-se do acampamento com o co
Constante, dizia ele que para reconhecer os arredores.
Demorava-se sempre muito, talvez porque andasse devagar,
talvez porque fizesse grandes rodeios, talvez porque se
deixasse ficar sentado numa pedra a ver o desmaiar da tarde,
longe das vistas dos companheiros. Um dia destes, passados,
Joaquim Sassa dissera, Quer estar sozinho, se calhar
sente-se triste, e Jos Anaio comentou, Se eu estivesse no
lugar dele, faria provavelmente o mesmo. As mulheres
tinham acabado de lavar alguma roupa e estendiam-na numa
corda esticada entre o arco do toldo e um ramo de rvore,
ouviram e calaram, que a conversa no era com elas. foi
poucos dias depois que Maria Guavaira, por causa dos frios
da Terra Nova, disse para Joana Carda, Coitado do Pedro
Orce.
Esto sozinhos, caso estranho, que quatro dem a impresso de
estarem sozinhos, esperam que a sopa acabe de
apurar-se, ainda h muita luz de dia, e para aproveitar o
tempo Jos Anaio e Joaquim Sassa verificam o estado dos
arreios, enquanto as mulheres repetem e registam as contas
do comrcio de hoje, que depois Joaquim Sassa, contabilis
ta, passar aos livros. Pedro Orce afastou-se, desapareceu
entre aquelas rvores, h uns dez minutos, o co Constante

276

foi com ele, como de costume. Agora no se sente frio, e a
aragem que corre ser talvez o ltimo bafo morno do
outono, ou sentimo-la assim por comparao com estes dias
j agrestes. Maria Guavaira diz, Temos de comprar aven
tais, h poucos de reserva, e depois de o dizer ergueu a
cabea e olhou as rvores, o corpo sentado fez um movi
mento, como um impulso primeiro reprimido e logo solto,
no se ouvia mais que o remoer spero dos cavalos, ento
Maria Guavaira levantou-se e caminhou na direco das
rvores, por onde Pedro Orce fora'. No olhou para trs, nem
mesmo quando Joaquim Sassa lhe perguntou, Aonde vais,
mas tambm a pergunta, verdadeiramente, no chegou a ser
concluda, suspendeu-se digamos que a meio, porque a
resposta se antecipara e no admitia emenda. Passados
alguns minutos o co apareceu, foi deitar-se debaixo da
galera. Joaquim Sassa afastara-se uns metros, parecia estudar
com grande ateno uns cerros distantes. Jos Anaio e
Joana Carda no olhavam um para o outro.
Enfim, Maria Guavaira voltou, j era a primeira sombra
da noite. -Veio sozinha. Aproximou-se de Joaquim Sassa,
mas ele virou-lhe violentamente as costas. O co saiu de
debaixo da galera e desapareceu. Joana Carda acendeu o
candeeiro. Maria Guavaira tirou a sopa do lume, deitou
azeite para uma frigideira, que ps sobre a trempe, esperou
que o azeite fervesse, entretanto partira uns ovos, que
mexeu, juntou-lhes rodelas de chourio, da a pouco
espalhava-se no ar um cheiro que noutra ocasio faria
crescer gua na boca. Mas Joaquim Sassa no veio comer,
Maria Guavaira chamou-o e ele no veio. Sobejou comida.
Joana Carda e Jos Anaio, tinham pouco apetite, e quando
Pedro Orce voltou j o acampamento estava s escuras,
apenas a fogueira consumia os ltimos ties. Joaquim Sassa
deitara-se debaixo da galera, mas a noite arrefecia muito, do
lado das montanhas vinha, sem vento, uma massa de ar frio.
Ento Joaquim Sassa pediu a Joana Carda que fosse deitar-se
com Maria Guavaira, no disse o nome, disse, Deita-te ao

277


lado dela, eu fico com o Jos, e como lhe parecia que era
boa altura para um sarcasmo, acrescentou, No h perigo '
isto  tudo gente sria, nada promscua. Pedro Orce, ao
regressar, subiu pela boleia, no se sabe porqu o co
Constante arranjou maneira de subir com ele, foi a primeira
vez.
No dia seguinte Pedro Orce viajou sempre na boleia.
A seu lado iam Jos Anaio e Joana Carda, dentro da galera,
sozinha, Maria Guavaira. Os cavalos foram levados a passo.
Quando queriam, por seu gosto e vontade, romper num
trote, Jos Anaio moderava-lhes o despropositado mpeto.
Joaquim Sassa caminhava a p, muito atrs da galera.
Andaram poucos quilmetros neste dia. Ainda a tarde ia em
meio quando Jos Anaio parou Dois Cavalos num stio que
parecia gmeo do outro, era como se no tivessem chegado
a partir de l ou tivessem descrito um crculo completo, at
as rvores pareciam as mesmas. Joaquim Sassa s apareceu
muito mais tarde, quando o sol caa sobre o horizonte. Ao
v-lo. aproximar-se, Pedro Orce afastou-se, as rvores
esconderam-no logo, o co foi atrs dele. A fogueira ardia
alta, mas ainda era cedo para preparar a ceia, alis a sopa
estava feita e havia os ovos com chourio que tinham
sobejado. Joana Carda disse para Maria Guavaira, No
comprmos os aventais, j s temos dois. Joaquim Sassa
disse para Jos Anaio, Amanh vou-me embora, tiro a
minha parte do dinheiro, mostras-me no mapa onde estamos,
h-de haver por aqui um caminho de ferro qualquer. Ento
Joana Carda levantou-se e caminhou na direco das rvores,
para onde Pedro Orce tinha ido com o co. Jos Anaio
no perguntou, Aonde vais. O co apareceu da a poucos
minutos e foi-se deitar debaixo da galera. Passou tempo, e
Joana Carda voltou, vinha com ela Pedro Orce, que resistia,
mas ela puxava-o mansamente, como se no precisasse de
fazer muita fora, ou era uma fora diferente. Chegaram
diante da fogueira, de cabea baixa Pedro Orce, com os seus
cabelos brancos despenteados, que por causa do luzeiro

278



instvel das chamas pareciam danar-lhe sobre a cabea, e
Joana Carda, que tinha a camisola solta de um lado, por fora
das calas, disse, e quando falava reparou no descomposto
em que estava, falando o remediou, sem disfarce, naturalmente,
A vara com que risquei o cho deixou de ter virtude,
mas ainda pode servir para fazer outro risco aqui, ento
saberemos quem fica de um lado e quem fica do outro, se
no pudermos ficar todos juntos do mesmo lado, Por mim,
tanto se me d, vou-me embora amanh, disse Joaquim
Sassa, Eu  que me irei embora, disse Pedro Orce, Assim
como nos juntmos, assim poderemos separar-nos, disse
Joana Carda, mas se para justificar a separao for preciso
encontrar um culpado, no o procurem em Pedro Orce,
culpadas, se o nome tem de ser esse, somos ns duas, eu e
Maria Guavaira, e se entendem que o que fizemos ter de
ser explicado, ento andvamos equivocados desde o dia em
que nos conhecemos, Eu parto amanh, disse Pedro Orce,
No parte, disse Maria Guavaira, e, se partir, o mais certo 
que nos separemos todos, porque eles no sero capazes de
ficar connosco nem ns com eles, e no  porque no nos
amemos, ser por no sermos capazes de compreender. Jos
Anaio olhou para Joana Carda, estendeu de repente as mos
para o lume como se de repente elas tivessem arrefecido, e
disse, Eu fico. Maria Guavaira perguntou, E tu, queres
partir, ou ficas. Joaquim Sassa no respondeu logo, afagou a
cabea do co que se aproximara, depois com as pontas dos
dedos tacteou-lhe a coleira de l azul, fez o mesmo 
pulseira que tinha no brao, enfim disse, Ficarei, mas com
uma condio. No precisou de dizer qual, Pedro Orce
estava a falar, Sou um homem velho, ou quase velho, estou
naquela idade em que no se sabe bem, mas mais velho que
novo, Pelos vistos, nem tanto assim, sorriu Jos Anaio, e o
sorriso era melanclico, H coisas que acontecem na vida, e
s vezes so tais que no podem repetir-se, parecia que ia
continuar, mas percebeu que j tinha dito tudo, abanou a
cabea e afastou-se dali para poder chorar. Se muito foi, ou

279


pouco, no se pde saber, para chorar tinha de estar sozinho.
Nessa noite j dormiram todos dentro da galera, mas as
feridas ainda sangravam, ficaram juntas as duas mulheres,
juntos os homens atraioados, e Pedro Orce, de cansado,
levou a noite inteira de um sono, queria mortificar-se de
insnia, mas teve mais fora a natureza.
Acordaram cedo como as avezinhas, primeiro, ainda mal
aclarava, saiu Pedro Orce, pela frente da galera, depois
Joaquim Sassa e Jos Anaio pela traseira, e finalmente as
mulheres, como se tivessem vindo todos de mundos diferen
tes e aqui devessem encontrar-se pela primeira vez. Ao
princpio mal se olharam, apenas a furto, dir-se-ia que a
viso de um rosto completo seria insuportvel, excessiva
para as fracas foras com que tinham sado da crise destes
dias. Depois do caf matinal comearam a ouvir-se algumas
palavras soltas, uma recomendao, um pedido, uma ordem
cautelosamente formulada, mas o primeiro problema delicado ia
surgir agora, como iriam arrumar-se os viajantes na
galera, tendo em conta as complicadas variantes de organi
zao dos grupos, como antes tivemos ocasio de explicar.
Que fosse Pedro Orce na boleia, a no estaria a dvida, mas
os homens e as mulheres em rescaldo de conflito no
podiam continuar separados, repare-se na desagradvel e
equvoca situao, viajarem Joaquim Sassa e Jos Anaio 
frente com Pedro Orce, que conversa poderiam eles ter, ou,
embarao ainda pior, irem na boleia Joana Carda e Maria
Guavaira, que conversa seria a delas com o cocheiro, que
evocaes, e entretanto, debaixo do toldo, que mordimentos
de unhas haveria, os dois maridos a perguntarem um ao
outro, Que estaro eles a dizer. So situaes que causam
riso quando as olhamos do lado de fora, mas perde-se logo a
vontade de rir se nos imaginarmos a ns prprios no angustioso
transe em que estes se encontram. Felizmente, tudo
tem remdio, s a morte  que ainda no. J Pedro Orce
estava sentado no seu lugar, empunhando as rdeas,  espera
do que decidissem os outros, quando Jos Anaio disse,

280



assim, como se se dirigisse aos espritos invisveis do ar,
A galera que v andando, eu e a Joana vamos a p um
bocado, Ns tambm, disse Joaquim Sassa. Pedro Orce
sacudiu as rdeas, os cavalos deram o primeiro puxo,
segundo mais convincente, mas nem que quisessem poderiam desta
vez ir depressa, a estrada  toda a subir, entre
montes que para o lado esquerdo vo crescendo, Estamos
nos contrafortes dos Pirenus, pensa Pedro Orce, porm 
to grande a serenidade destas *alturas que nem parece ter
sido este o lugar dos dramticos rompimentos relatados. L
atrs vm dois casais, no juntos, claro est, o que tm para
discutir  entre homem e mulher, sem testemunhas.
As montanhas no so boas para o negcio, e estas menos
o seriam que quaisquer outras. Ao escasso povoamento que
no geral afecta estas encrespadas orografias, junta-se, neste
caso, o susto de populaes que ainda no se habituaram 
ideia de que aos Pirentis do lado de c falta o complemento e
o apoio do lado de l. Estas aldeias esto quase desertas,
algumas de todo abandonadas,  lgubre a impresso que
causa o rudo das rodas de Dois Cavalos no empedrado das
ruas, entre portas e janelas que no se abrem, Antes me
queria ver na serra Nevada, pensa Pedro Orce, e estas
mgicas e deslumbradas palavras encheram-lhe o peito de
saudade, ou ailoranza, para usar o vernculo castelhano. Se
de tal desolao alguma vantagem se puder tirar, ser a de
dormirem os viajantes, depois de tantas noites de desconforto
e alguma promiscuidade, no nos referimos a uma sua recente
e particular manifestao, sobre a qual se dividem os juzos e
que justamente os principais interessados tm vindo a
discutir,
a vantagem ser poderem dormir nestas casas deixadas pelos
seus habitantes, bens e valores foram levados no xodo, mas
as camas, no geral, ficaram. Quo longe estarnos daquele dia
em que Maria Guavaira energicamente rejeitou a sugesto de
dormir em casa alheia, oxal esta fcil complacncia de agora
no seja indcio de rebaixamento moral, mas o simples efeito
das lies da dura _experincia.

281


Pedro Orce ficar sozinho numa destas casas,  escolha,
em companhia do co, se lhe vier o apetite dum passeio
nocturno est  vontade para sair e voltar quando quiser, e
desta vez no dormiro separados os outros homens das suas
mulheres, vo enfim deitar-se juntos Joaquim Sassa e Maria
Guavaira, e Jos Anaio e Joana Carda, talvez j tenham
dito tudo quanto havia a dizer, talvez pela noite dentro
continuem a conversar, porm, se a natureza humana conti
nua a ser o que tem sido,  natural que por fadiga e
desgosto, por compreensiva ternura e instante amor, mulher
e homem se aproximem, troquem um primeiro beijo receo
so, depois, bendito seja quem assim nos fez, o corpo acorda
e pede o outro corpo, ser uma loucura, ser, as cicatrizes
ainda latejam, mas a aura cresce, se a esta hora anda Pedro
Orce por essas encostas ver resplandecerem duas casas da
aldeia, acaso sentir cime, acaso se lhe enchero outra vez
de lgrimas os olhos, porm no saber que nesse momento
soluam de mgoa feliz e paixo liberta os amantes reconci
liados. Amanh ser realmente outro dia, j no ter
importncia decidir quem ir dentro da galera ou na boleia,
todas
as combinaes so possveis e nenhuma duvidosa.
Os cavalos esto cansados, as ladeiras no acabam e
todas so a subir, Jos Anaio e Joaquim Sassa foram falar a
Pedro Orce, com muito tacto e cuidado para que no se
confundissem umas razes com outras, queriam perguntar
-lhe se~ ele considerava suficiente o que dos Pirenus estava
visto, ou se queria continuar mais para cima, para as alturas
superiores, e Pedro Orce respondeu-lhes que no eram tanto
as alturas que o atraam, mas o fim das terras, embora no
ignorasse que do fim das terras sempre se v o mesmo mar,
Por isso  que. ns no fomos na direco de Donostia, que
graa tinha ver uma praia cortada, estar no bico da areia
com gua de um lado e do outro, Mas para vermos o mar
assim to de cima, no sei se os cavalos aguentam, disse
Jos Anaio, No precisaremos de subir a dois mil ou trs
mil metros, supondo que haja estradas nos picos, mas

282


realmente 'gostaria que fssemos subindo, at ver. Abriram o
mapa, Joaquim Sassa disse, Devemos estar por aqui, o dedo
viajou entre Navascus e Burgui, depois moveu-se na direco
da fronteira, No parece haver grandes alturas para este
lado, a estrada segue ao longo dum rio, o Esca, depois
larga-o para continuar a subir, a  que deve complicar-se o
caso, do outro lado h um pico com mais de mil e setecentos
metros, H, no, havia, disse Jos Anaio, Pois claro,
havia, concordou Joaquim Sassa, tenho de pedir  Maria
uma tesoura para cortar o mapa pela fronteira, Poderemos
tentar esse caminho, se se tornar muito custoso para os
cavalos, voltamos para trs, disse Pedro Orce.
Levaram dois dias a chegar aonde queriam.  noite
ouviam uivar os lobos nos cerros, e tiveram medo. Gente
das terras baixas, compreenderam enfim o perigo em que
estavam, se as feras viessem ao acampamento comeariam
por matar os cavalos, depois seria a vez das pessoas, sem ao
menos uma arma de fogo com que pudessem defender-se.
Pedro Orce disse, Por minha causa corremos riscos, voltamos
para trs, mas Maria Guavaira respondeu, Continua
mos, est a o co que nos defende, Um co no pode fazer
frente a uma alcateia, lembrou Joaquim Sassa, Este pode, e,
por muito extraordinrio que o caso parea a quem destas
matrias saiba mais do que o narrador, Maria Guavaira tinha
razo, que uma noite vieram os lobos mais perto, os cavalos
aterrorizados comearam a relinchar, uma aflio, e a dar
estices s cordas que os prendiam, os homens e as mulheres
procuravam onde pudessem abrigar-se do assalto, s
Maria Guavaira ainda dizia, embora trmula, Eles no vm,
e repetia, Eles no vm, a fogueira ardia alta, que assim a
mantinham na noite insone, e os lobos no se aproximaram
mais, o co parecia crescer no crculo de luz, por efeito das
sombras movedias era como se se, lhe multiplicassem as
cabeas, as lnguas e os dentes, tudo iluses de ptica, e o
corpo engrossava, inchava desmedido, os lobos continuavam
a uivar, sim, mas do seu medo de lobos.

283


A estrada estava cortada, cortada mesmo, no sentido
literal da palavra.  esquerda e  direita, os montes e os
vales interrompiam-se subitamente, numa linha ntida, como
um corte de navalha ou um recorte de cu. Os viajantes
tinham deixado a galera l atrs, guardada pelo co, e
avanavam com temor e prudncia. A uns cem metros do
corte havia um posto de alfndega. Entraram. Duas mquinas de
escrever ainda ali estavam, uma delas com uma folha
de papel metida no rolo, um formulrio da Duana, com
algumas palavras escritas. O vento frio entrava por uma
janela aberta e remexia os papis cados no cho. Havia
penas de aves.  o fim do mundo, disse Joana Carda,
Vamos ento ver como ele acabou, disse Pedro Orce. Sa
~am. Caminhavam com cuidado, preocupados com a possi
bilidade de aparecerem fendas no cho que prevenissem
duma instabilidade dos terrenos, fora Jos Anaio quem
tivera esta lembrana, mas a estrada apresentava-se lisa e
contnua, apenas com as irregularidades resultantes do uso.
A dez metros do corte, Joaquim Sassa disse,  conveniente
no nos aproximarmos de p, por causa das tonturas, eu vou
de gatas. Baixaram-se e avanaram, primeiro apoiando-se
nas mos e' nos joelhos, depois arrastando-se, sentiam o
corao a bater de susto e de ansiedade, o corpo cobria-se
-lhes de suor apesar do frio intenso, de si para si duvidavam
se seriam capazes de atrever-se at  borda do abismo, mas
nenhum deles queria dar parte de fraco, e numa espcie de
sonho acharam-se a olhar para o mar, a quase mil e oitocen
tos metros de altitude, a escarpa cortada a pique, na
vertical,
e o mar refulgindo, as ondas minsculas ao largo, e a
espuma branca, uma linha de espuma, das vagas ocenicas
que batiam contra a montanha e pareciam querer emP~Urr-la.
Pedro Orce gritou, exaltado, numa jubilosa dor,  o
fim do mundo, repetia as palavras de Joana Carda, repetiam
-nas todos, Meu Deus, a felicidade existe, disse a voz
desconhecida, e pode no ser mais do que isto, mar, luz e
vertigem.

284

O mundo est cheio de coincidncias, e se uma certa
coisa no coincide com outra que lhe esteja prxima, no
neguemos por isso as coincidncias, s quer dizer que a
coisa coincidente no est  vista. No exacto instante em que
os viajantes se debruavam para o mar, a pennsula parou.
Ningum ali deu pelo que sucedera, no houve qualquer
saco de travagem, nenhum sbito sinal de instabilidade do
equilbrio, nenhuma impresso de rigidez. S passados dois
dias, tendo descido das alturas magnficas, ao chegarem ao
primeiro lugar habitado, tiveram informao da estupenda
notcia. Mas Pedro Orce disse, Se afirmam que parou, ser
verdade, mas que a terra continua a tremer, essa verdade
juro-a eu, por mim e por este co. A mo de Pedro Orce
descansava sobre o dorso do co Constante.

285


Os jornais de todo o mundo publicaram, alguns a toda a
largura da primeira pgina, a histrica fotografia que mos
trava a pennsula, se definitivamente no deveremos passar a
chamar-lhe ilha, ali quieta no meio do oceano, mantendo,
com milimtrica aproximao, a sua posio em relao aos
pontos cardeais por que se rege e orienta o orbe, o Porto to
ao norte de Lisboa como sempre esteve, Granada ao sul de
Madrid desde que Madrid nasceu, e o resto pela mesma
conhecida conformidade. A potncia imaginativa dos jornalistas
encontrou vazo quase exclusiva na armao estentrea dos
ttulos, porquanto os segredos da deslocao geolgica, melhor
dizendo, o enigma tectnico, continuavam por
desvendar, to indecifrveis hoje como no primeiro dia.
felizmente, a presso da chamada opinio pblica baixara, o
vulgo deixara de fazer perguntas, bastava-lhe o estmulo das
sugestes directas e indirectas suscitadas pelas formidveis
parangonas, Nasceu A Nova Atlntida, No Xadrez Mundial
Moveu-se Uma Pedra, Um Trao De Unio Entre A Amri
ca E A Europa, Entre A Europa E A Amrica Um Ponto De
Discrdia, Um Campo De Batalha Para O Futuro, mas o
ttulo que maior impresso causou produziu-o um jornal
portugus, foi assim, Precisa-se Novo Tratado De Tordesi
lhas,  realmente a simplicidade do gnio, o autor da ideia
olhou para-o mapa e verificou que, mais milha menos milha,
a pennsula estaria posta sobre o que fora a linha que,

286
naqueles tempos gloriosos, dividira o mundo em duas
partes, pataca a mim, pataca a ti, a mim pataca.
Em editorial no assinado propunha-se a adopo, pelos
dois pases peninsulares, de uma estratgia conjunta e com
plementar que os tornasse no fiel de balana da poltica
mundial, Portugal virado para ocidente, para os Estados
Unidos, a Espanha voltada para oriente, para a Europa. Um
jornal espanhol, s para no ficar atrs em originalidade,
defendeu uma tese administrativa que fazia de Madrid o
centro poltico de toda esta maquinaria, a pretexto de que a
capital espanhola se encontra, por assim dizer, no centro
geomtrico da pennsula, o que, alis, nem  verdade, basta
olhar, mas h pessoas que no olham aos meios para
alcanar os fins. O coro de protestos no se limitou a
Portugal, tambm as regies autnomas espanholas se insur
giram contra a proposta, considerada como uma nova mani
festao do centralismo castelhano. Do lado portugus deu
-se o que seria de esperar, uma sbita revivescncia dos
estudos ocultistas e esotricos, que s no foi a mais porque
a situao se veio a alterar radicalmente, mas mesmo assim
ainda deu tempo para se esgotarem todas as edies da
Histria do Futuro do Padre Antnio Vieira e das Profecias
do Bandarra, alm da Mensagem de Fernando Pessoa, mas
isso nem era preciso dizer.
De um ponto de vista de poltica prtica, o problema que,
se discutia nas chancelarias europeias e americanas era o das
zonas de influncia, isto ,' se, apesar da distncia, a
pennsula, ou ilha, deveria conservar os seus laos naturais
com a Europa, ou se, no os cortando completamente,
deveria orientar-se, de preferncia, para os desgnios e
destino da grande nao norte-americana. Ainda que sem
esperanas de influir decisivamente na questo, a Unio
Sovitica lembrava e tornava a lembrar que nada poderia ser
resolvido sem a sua participao nas discusses, e entre
tanto reforou a esquadra que desde o princpio viera acom
panhando a errante viagem,  vista, claro est, das esqua
287


dras das outras potncias, a norte-americana, a britnica, a
francesa.
Foi no mbito destas negociaes que os Estados Unidos
fizeram saber a Portugal, numa audincia urgente pedida
pelo embaixador Charles Dickens ao presidente da Repblica,
que deixara de fazer qualquer sentido a permanncia, de
um governo de salvao nacional, uma vez que tinham
cessado as razes que, Muito discutivelmente, senhor presi
dente, se me permite a opinio, tinham levado  sua consti
tuio. Desta impoltica diligncia houve conhecimento por
portas travessas, no porque os servios competentes da
Presidncia tivessem tornado pblico qualquer comunicado,
ou por declaraes prestadas pelo embaixador  sada de
Belm, de facto limitou-se a declarar que tivera com o
senhor presidente uma conversa muito franca e construtiva.
Mas foi o suficiente para que os partidos que inevitavelmente
teriam de sair do governo, havendo remodelao dele
ou eleies gerais, viessem  estacada contra a ingerncia
intolervel consubstanciada na interveno imperativa do
embaixador. As questes internas dos portugueses, dizia-se,
compete aos portugueses resolv-las, e acrescentavam com
desapiedada ironia, O facto de o senhor embaixador ter
escrito David Copperfield no o autoriza a vir dar ordens na
ptria de Cames e dos Lusadas. Estava-se nisto, quando a
pennsula, sem dar aviso, se moveu outra vez.
Pedro Orce tivera razo, l nas faldas dos Pirentis, ao
dizer, Ter parado, sim senhor, mas continua a tremer, e
para no ser o nico a afirm-lo pssa a mo no dorso do co
Constante, tremia tambm o animal, como ento mesmo
puderam comprovar os dois homens e as duas mulheres,
repetindo a experincia que nas ridas terras entre Orce e
Venta Micena, debaixo da oliveira cordovil, nica, tinham
feito Joaquim Sassa e Jos Anaio. Mas agora, e o espanto
foi geral e mundial, o movimento no era para ocidente nem
para oriente, para sul ou para norte. A pennsula girava
sobre si mesma, em sentido diablico, isto , contrrio ao

dos ponteiros do relgio, o que, ao divulgar-se, foi causa
imediata de tonturas na populao portuguesa e espanhola,
embora a velocidade da rotao fosse tudo menos vertiginosa.
Perante o fenmeno definitivamente inslito, que punha
em causa, agora de modo absoluto, todas as leis fsicas,
sobretudo as mecnicas, por que a terra se tem regido,
interromperam-se as negociaes polticas, as combinaes
de gabinete e corredor, as manobras diplomticas a gume
vivo ou gota de gua. Convenhamos, alis, que no seria
fcil manter a serenidade, o sangue-frio, quando se sabia,
por exemplo, que a mesa do conselho de ministros, com o
prdio, e a rua, e a cidade, e o pas, e a pennsula inteira,
eram como um carrossel que lentamente fosse girando,
como num sonho. As pessoas mais sensveis juravam que
sentiam a deslocao circular, ainda que reconhecessem que
no davam pela da prpria terra no espao, porm, demons
trando, estendiam os braos para se agarrarem, s tantas no
o conseguiam, caam mesmo, e ficavam no cho de costas, a
ver o cu rodando lentamente,  noite as estrelas e a lua, o
sol tambm, durante o dia, com vidros fumados, na opinio
de certos mdicos tratava-se apenas de manifestaes his
tricas.
Claro que no faltaram cpticos mais radicais, podia l
ser, a pennsula a girar sobre si mesma, completamente
impossvel, l deslizar ainda v, aceita-se, sabemos o que
so escorregamentos de terras, o que acontece a um talude
por chover muito pode acontecer a uma pennsula mesmo
no chovendo nada, mas a apregoada rotao significaria
que a pennsula estaria a torcer-se sobre o seu prprio eixo,
e, alm de isso ser objectivamente impossvel, se subjectiva
o no fosse tambm, o resultado seria partir-se o
ncleo central mais tarde ou mais cedo, e ento, sim,
ficaramos  deriva sem amarras, entregues aos baldes da
sorte. Esqueciam esses que a rotao poderia estar a fazer-se
simplesmente como uma placa pode rodar sobre outra placa,
este xisto lameloso, repare-se, composto, como o seu nome

288  289


290

est a dizer, de lamelas sobrepostas, se a adeso entre duas
placas afrouxasse, uma poderia perfeitamente rodar sobre a
outra, mantendo,  certo que teoricamente, um certo grau de
unio entre si que impedisse o total desligamento,  o que
est a acontecer, afirmavam os defensores desta hiptese.
E para poderem confirm-la mandaram outra vez os mergu
lhadores ao fundo do mar, to fundo'quanto lhes fosse
possvel nesta regio abissal do oceano, e foram tambm o
Archimde, o Cyana e um engenho japons de nome difcil,
o resultado de todos estes esforos foi repetir o investigador
italiano a frase clebre, saiu da gua, abriu a escotilha e
disse para os microfones das televises do mundo inteiro,
No pode mover-se, e apesar disso move-se. No havia
nenhum eixo central torcido como uma corda, no havia
placas, mas a pennsula rodava majestosamente no meio do
Atlntico, e  medida que ia rodando tornava-se cada vez
menos reconhecvel aos nossos olhos,  realmente aqui que
temos vivido, perguntava-se, a costa portuguesa toda incli
nada para sudoeste, o que fora o antigo extremo oriental dos
Pirentis apontando para a Irlanda. Tornara-se parte
obrigatria dos voos comerciais transatlnticos uma observao
da
pennsula, ainda que, verdade seja dita, o proveito no fosse
grande, por faltar a indispensvel referncia fixa a que o
movimento pudesse ser reportado. Na verdade, nada podia
substituir a imagem recolhida e transmitida por satlite, a
fotografia de grande altitude, ento- sim, tinha-se uma
adequada ideia da magnitude do fenmeno.
Durou um ms este movimento. Visto da pennsula, o
universo transformava-se pouco a pouco. Todos os dias o sol
nascia num ponto diferente do horizonte, e a lua, e as
estrelas era preciso procur-las no cu, no bastava j o seu
movimento prprio, de translao em torno do centro do
sistema da Via Lctea, agora havia este outro movimento
que fazia do espao um delrio de luzeiros instveis, como
se o universo estivesse a ser reorganizado duma ponta 
outra, talvez por se achar que o primeiro no dera resultado.

Um dia chegou em que o sol se ps no mesmo lugar onde
em tempos normais havia nascido, e no adiantava nada
dizer que no era verdade, que se tratava duma mera
aparncia, que o sol fazia a trajectria do costume nem
podia fazer outra, as pessoas simples argumentavam,
Desculpe, meu caro senhor, dantes o sol entrava-me de
manh pela janela da frente e agora entra-me em casa pelas
traseiras, faa-me o favor de explicar isto de maneira que eu
entenda. Explicar, explicava o sbio, mostrava fotografias,
fazia desenhos, desdobrava uma carta do cu, porm o
instruendo a nada se movia, e a aula terminava. rogando ele
que fizesse o senhor doutor o favor de providenciar que o
sol, ao nascer, voltasse a iluminar-lhe a frontaria do prdio.
Em desespero de causa e de cincia dizia o professor, Deixe
l, se a pennsula der uma volta completa, o senhor ver o
sol como via dantes, mas o aluno, desconfiado, respondeu,
Ento o senhor professor acha que tudo isto est a acontecer
para tudo ficar na mesma. E realmente no ficou.
Devia ser j inverno, mas o inverno, que parecera estar 
porta, tinha recuado, no se encontra outra palavra. No era
inverno, outono no era, primavera nem pensar, vero
tambm no podia ser. Era uma estao suspensa, sem data,
como se estivssemos no princpio do mundo e no tivessem
sido ainda decididas as estaes e os tempos para elas. Dois
Cavalos seguia devagar, ao longo das faldas inferiores dos
montes, agora os viajantes demoravam-se nos lugares,
maravilhavam-se sobretudo com o espectculo do sol, que
deixara de aparecer por cima dos Pirentis para surgir do
mar, lanando os seus primeiros raios contra os contrafortes
altssimos da montanha at aos cumes nevados. Foi aqui,
numa destas aldeias, que Maria Guavaira e Joana Carda
perceberam que estavam grvidas. Ambas. O caso nada
tinha de assombroso, pode-se mesmo dizer que estas mulheres
bem fizeram por isso ao longo destes meses e semanas,
entregando-se aos seus homens com saudvel franqueza,
sem a mnima precauo, tanto deles como delas. E a

291


simultaneidade dos factos tambm no deveria surpreender
ningum, foi apenas mais uma dessas coincidncias que
fazem a vida organizada do mundo, bom  que algumas
possam ser claramente identificadas, uma vez por outra,
para ilustrao dos cpticos. Mas a situao  embaraosa,
como salta aos olhos, e o embarao resulta da dificuldade de
deslindar duas duvidosas paternidades.  que, no fosse o
mau passo dado por Joana Carda e Maria Guavaira, indo,
movidas de piedade ou outro mais complexo sentimento, por
esses bosques e matos,  procura do homem sozinho, a
quem quase tiveram de rogar para que ele, trpego de
comoo e ansiedade, nelas entrasse e derramasse as suas
penltimas seivas, no fosse este lrico e to pouco ertico
episdio, e nenhuma dvida se aceitaria de que o filho de
Maria Guavaira fosse de Joaquim Sassa e de que o filho de
Joana Carda tivesse como autor eficaz Jos Anaio. Mas eis
que sai Pedro Orce ao caminho, se no seria mais exacto
dizer que ao caminho de Pedro Orce saltaram as tentadoras,
e a normalidade ocultou, envergonhada, o rosto. No sei
quem  o pai, disse Maria Guavaira, que foi a do exemplo,
Nem eu, disse Joana Carda, que a seguiu depois por duas
razes, a primeira para no ficar de menos em heroicidade,
a segunda para emendar o erro com o erro, tornando regra a
excepo.
Mas este discorrer, ou outro ainda mais subtil, no ilude
a questo agora principal de ser preciso informar Jos
Anaio e Joaquim Sassa, como iro eles reagir quando as
respectivas mulheres lhes disserem, e com que cara, Estou
grvida. Nas circunstncias da harmonia, ficariam, segundo
o costume ou o que de costume se diz, loucos de contenta
mento, e talvez que sob o primeiro choque o rosto e olhar
revelem o sbito jbilo que lhes vai na alma, mas imediata
mente o rosto se carregar, os olhos tornam-se trevas, uma
terrvel cena se anuncia. Props Joana Carda que nada se
dissesse, passando o tempo e crescendo a barriga, a fora do
facto consumado encarregar-se-ia de amaciar as
susceptibilidades, a honra ofendida, o despeito reacordado,
mas dessa
opinio no foi Maria Guavaira, parecia-lhe mal que os
procedimentos primeiros, de coragem e generosidade de
todas as partes, tivessem por concluso a desmaiada cobardia
do fingimento, a cobardia ainda pior que a complacncia
tcita, Tens razo, reconheceu Joana Carda, mais vale segurar
o boi pelos cornos, disse-o sem reparar no que dizia, as
frases feitas tm destes perigos, quando no damos suficiente
;ateno ao contexto.
Nesse mesmo dia as duas mulheres chamaram os seus
homens de parte, foram com eles passear ao campo, l onde
os largos espaos reduzem a murmrios os gritos mais
colricos ou dilacerados, por essa triste razo , que as
vozes
dos homens no chegam ao cu, e ali, sem rodeios, como
tinham combinado, lhes disseram, Estou grvida, e no sei
se  de ti, se de Pedro Orce. Reagiram Joaquim Sassa e Jos
Anaio como estvamos  espera, uma exploso de fria,
um esbracejar violento, uma pungente mgoa, no estavam 
vista um do outro, mas os gestos repetiam-se, as palavras
eram igualmente amargas, No te basta o que se passou,
ainda me vens dizer que ests grvida e no sabes quem  o
autor, Como querias tu que eu soubesse, mas no dia em que
a criana nascer deixar de haver dvidas, Porqu, H-de ter
parecenas, Pois sim, mas imagina que se parece s contigo,
Se se parecer s comigo, ser porque  s meu filho e de
mais ningum, Ainda por cima troas de mim, No estou a
troar,  uma coisa que no sei fazer, E agora, como  que
vamos resolver esta situao, Se pudeste aceitar que eu me
tivesse ido deitar uma vez com Pedro Orce, aceita esperar
agora nove meses antes de tomares uma deciso, se a
criana se parecer contigo  teu filho, se se parecer com
Pedro Orce  filho dele e tu rejeit-lo-s, e a mim tambm,
se for essa a tua vontade, e quanto a ser parecido s comigo,
no acredites, h sempre uma linha no rosto que pertence a
outro novelo, E Pedro Orce, que procedimento teremos,
dizes-lhe, No, durante os dois primeiros meses no se

293


notar, e talvez mais, da maneira como ns andamos vestidas,
estas camisolas grandes, estes casacos folgados, Acho
melhor que no se fale no caso, confesso que me irritaria
muito ver o Pedro Orce a olhar para ti, para vocs, com um
ar de padreador emrito, esta frase foi de Jos Anaio, que
domina melhor a linguagem, Joaquim Sassa exprimiu-se
terra a terra, Embirraria ver o senhor Pedro Orce com ares
de galo na capoeira. Deste modo, enfim pacfico, aceitaram
os homens o afrontoso facto, ajudados pela esperana de que
talvez venha a deixar de o ser no dia em que o enigma, hoje
ainda sem figura, se resolver pela via natural.
A Pedro Orce, que nunca soube o que era ter filhos, no
lhe passa pela cabea que no ventre das duas mulheres
germinam talvez fecundaes suas,  bem verdade que o
homem jamais chega a conhecer todas as consequncias dos
seus actos, eis aqui um bom exemplo, vai-se apagando a
lembrana dos felizes momentos gozados, e o possvel efeito
fecundante deles, nfimo ainda, mas mais importante para si
que todo o resto, se a termo chegar e houver confirmao, 
invisvel aos
mesmo Deus
todo o caso, no  inteiramente cego, est-lhe parecendo que
a harmonia dos casais sofreu um abalo, h neles uma certa
distncia, no diramos uma frieza, antes uma espcie de
reserva sem hostilidade, mas geradora de grandes silncios,
comeou esta viagem to bem e agora  como se se tivessem
acabado as palavras ou no se ousasse dizer as nicas que
teriam sentido, Acabou, o que viveu morreu, se  disso que
se trata. Tambm pode ser que se tenha reacendido a
fogueira dos primeiros zelos, talvez deixando passar o
tempo, E talvez passando eu despercebido, por isto voltou
Pedro Orce a dar grandes passeios pelos arredores sempre    
     
que acampavam, chega a parecer inacreditvel que este
homem possa andar tanto.
Um dia que Pedro Orce, era este um tempo em que -j
tinham deixado para trs as primeiras ondulaes orogrficas

seus olhos, ocultado ao seu conhecimento, o
fez os homens e no os v. Pedro Orce, em


que de muito longe anunciavam os Pirenus, um dia que
Pedro Orce se adiantara por caminhos desviados, por pouco
poderia at ceder  tentao de no voltar mais ao
acampamento, so ideias que vm  cabea em horas de exausto,
encontrou sentado na berma da estrada, a descansar, um
homem que deveria andar pela sua idade, se no mais velho-gasto e cansado 
parecia. Perto dele estava um burro, de
albarda e ceires, ratando com os dentes amarelos a erva
rua, que o tempo, como j foi dito, no vai propcio a
novas reverdescncias, ou as faz surgir fora do lugar e da
ocasio, a natureza perdeu-se do caminho, diria o amador de
metforas. O homem roa um bocado de po duro, sem
conduto, devia estar em apuros de necessidade, vagabundo
sem mesa nem tecto, mas tinha um ar tranquilizador, no
meliante, alis Pedro Orce no  pessoa timorata, como
bastamente tem demonstrado nestas grandes caminhadas
pelos ermos,  certo que o co no o abandona nem por um
instante, quer dizer, deixou-o duas vezes, mas em melhor
companhia e por pura discrio.
Deu Pedro Orce a salvao ao homem, Boas tardes, e o
outro respondeu, Boas tardes, os ouvidos de ambos registaram a
pronncia familiar, o acento do sul, andaluz, para
tudo dizer numa palavra. Mas ao homem do po duro
pareceu motivo de desconfiana ver nestes stios, arredados
de lugar habitado, um homem e um co, com ar de terem
sido largados ali por um disco voador, e,  cautela, mas sem
disfarar, puxou para si um pau ferrado que estava no cho.
Pedro Orce deu pelo gesto e pela inquietao do outro, devia
estar preocupado com a atitude do co, de cabea baixa,
imvel, a olhar, No lhe d o animal cuidado,  manso, quer
dizer, manso no , mas no, ataca ningum que no pense
em fazer mal, Como  que ele sabe o que as pessoas
pensam, Ora a est uma boa pergunta, quem me dera saber
responder-lhe, mas nem eu nem os meus companheiros
conseguimos perceber que co  este e donde veio, Julguei
que andasse sozinho ou vivesse aqui por perto, Ando com

294  295


uns amigos, temos uma galera, por causa destes casos que se
deram metemo-nos  estrada e ainda no samos dela,
Vossemec  andaluz, conheo-lhe a fala, Venho de Orce,
que  na provncia de Granada, Eu sou de Zufre, que  na
provncia de Huelva, Bons olhos o vejam, Bons olhos o
vejam a vossernec, D licena que me sente ao p de si,
Sente-se a seu gosto, no posso  oferecer-lhe mais do que
tenho, po seco, Agradeo como se aceitasse, comi com os
meus companheiros, Quem so, So dois amigos e as
mulheres deles, eles dois e uma das mulheres so portugueses,
a outra mulher  galega, E como  que se juntaram, Ah,
isso  uma histria muito comprida para se poder contar
agora.
O outro no insistiu, percebeu que no devia, e disse,
H-de estar a pensar por que  que, sendo eu da provncia de
Huelva, me veio encontrar aqui,. Nestes tempos de agora 
difcil encontrar algum que esteja onde sempre esteve, Sou
natural de Zufre e tenho l a famlia, se  que ela ainda l
est, mas quando se comeou a dizer que a Espanha se
estava a separar da Frana resolvi ir ver com os meus olhos,
A Espanha, no, a pennsula ibrica, Ou isso, E no foi da
Frana que a pennsula se separou, foi da Europa, parece a
mesma coisa, mas faz a sua diferena,. Desses melindres no
entendo, eu s quis ir ver, E que  que viu, Nada, cheguei
aos Pirenus e s vi o mar, Ns tambm no vimos mais que
o mar, No havia Frana, no havia Europa, ora, na minha
opinio, uma coisa que no h  o mesmo que no ter
havido, foram penas perdidas minhas ter andado tantas e
tantas lguas  procura do que no existia, Bom, a h um
engano, Que engano, Antes de a pennsula se separar da
Europa, a Europa estava l, havia uma fronteira, claro, ia-se
de um lado para o outro, passavam os espanhis, passavam
os portugueses, vinham os estrangeiros, nunca viu turistas
na sua terra, s vezes, mas no havia nada que ver l, Eram
turistas que vinham da Europa, Mas se quando eu vivia em
Zufre nunca vi a Europa, e agora sa de Zufre e tambm,

296

Europa no vi, onde  que est a diferena, Tambm nunca
foi  lua, e ela existe, Mas vejo-a, anda agora desviada, mas
vejo-a, Como  o seu nome, Chamam-me Roque Lozano,
para o servir, Eu chamo-me Pedro Orce, Tem o nome da
terra onde nasceu, No nasci em Orce, nasci foi em Venta
Micena, que  perto, Estou-me a lembrar de que no princpio da
minha viagem encontrei dois portugueses que iam a
Orce, Quem sabe se no sero os mesmos, Bem gostaria de
saber, Venha comigo e sair de dvidas, Se me convida,
vou, j ando sozinho h tanto tempo, Levante-se devagar,
para o co no julgar que me quer fazer mal, eu dou-lhe o
pau. Roque Lozano ps a trouxa s costas, puxou o burro e
l foram todos, o co ao lado de Pedro Orce, talvez devesse
ser sempre assim, onde estivesse um homem estar um
animal com ele, um papagaio pousado no ombro, uma cobra
enrolada no pulso, um escaravelho na lapela, um escorpio
embolado, diramos mesmo um piolho na cabea se o
anopluro no pertencesse  aborrecida espcie dos parasitas,
que nem em insectos se atura, embora, coitados, no tenham
culpa, foi a vontade divina.
No passo sem destino em que tm caminhado entraram
profundamente na Catalunha. O negcio prosperou, foi real
mente uma ideia brilhante terem-se lanado neste ramo do
comrcio. V-se menos gente agora nas estradas, o que
significa que, apesar de a pennsula continuar no seu movi
mento de rotao, as pessoas regressam aos hbitos e
comportamentos normais, se  este o nome que devemos dar
aos antigos hbitos e comportamentos. J no se encontram
povoaes desertas, porm, o que no se pode  apostar que
todas as casas receberam todos os ocupantes da primitiva, h
homens com outras mulheres e mulheres com outros homens, os
filhos esto misturados, sempre das grandes guerras e das
grandes migraes resultaram tais efeitos. Foi hoje
de manh que Jos Anaio, de modo sbito, disse que era
necessrio resolverem sobre o futuro do grupo, uma vez que
parecia no haver mais perigo de abalroamentos e concus
297


ses. O mais certo, ou pelo menos plausvel hiptese, em
sua opinio, seria ficar a pennsula a rodar sem sair do
mesmo stio, o que no traria quaisquer inconvenientes 
vida quotidiana das pessoas, salvo nunca mais ser possvel
saber onde esto os diversos pontos cardeais, o que alis
pouca importncia ter, no h nenhuma lei que diga que
no se pode viver sem norte. Mas agora que estavam vistos
os Pirenus, e fora uma grande felicidade, o mar de to
grande altitude,  como estar num avio, dissera Maria
Guavaira, e Jos Anaio corrigiu, como pessoa com experincia,
No se pode comparar, basta dizer que  janela de
um avio ningum sente vertigens, e aqui, se no nos
agarrssemos com todas as foras, de nossa prpria vontade
nos lanaramos ao mar. Mais tarde ou mais cedo, concluiu
Jos Anaio o matinal aviso, teremos de decidir os nossos
destinos, com certeza no tencionamos viver na estrada o
resto da vida. Joaquim Sassa concordou, as mulheres no
quiseram dar opinio, suspeitam que h motivo oculto nesta
sbita pressa, s Pedro Orce, timidamente, lembrou que a
terra continuava a tremer, e que se isto no era sinal de que
a viagem no chegara ao fim, ento ele gostaria que lhe
explicassem porque razo a tinham comeado. Em outra
altura a sageza do argumento, ainda que por dubitao, teria
impressionado os espritos, mas h que contar que as feridas
da alma so fundas, ou no seriam de alma, agora quanto
Pedro Orce diga  suspeito de interesse escondido, este  o
pensamento que se pode ler nos olhos de Jos Anaio
enquanto vai dizendo, Logo, depois da ceia, cada um dir o
que sobre o assunto pensou, se devemos voltar para casa ou
se continuamos como at agora, e Joana Carda perguntou
apenas, Qual casa.
Agora vem a Pedro Orce e traz outro homem consigo, a
esta distncia parece velho, ainda bem, para problemas de
coabitao j so de sobra os que temos. O homem puxa um
burro arreado de albarda e ceires, o que h de mais visto
em burros ao modo antigo, mas este tem uma rara cor de

298


prata, chamasse-se Platero e honraria o nome, como Rocinante,
sendo antes rocim, no desmerecia o seu. Pedro Orce
pra na linha invisvel que delimita o territrio do
acampamento, tem de cumprir as formalidades de apresentao e
introduo do visitante, o que sempre h-de ser feito do lado
de l da barbac, so regras que no precisamos aprender,
cumpre-as dentro de ns o homem histrico, um dia quisemos
entrar no castelo sem autorizao e ficou-nos de emenda. Diz
Pedro Orce enftico, Encontrei este conterrneo meu
e trouxe-o para comer um prato de sopa connosco, h
evidente exagero na palavra conterrneo, que se desculpa, a
esta hora, na Europa, um portugus do Minho e outro do
Alentejo tm saudades da mesma ptria, e contudo qui
nhentos quilmetros os separavam um do outro, agora so
seis mil os que dela o separam.
     Joaquim Sassa e Jos Anaio no reconhecem o homem,
mas j do burro no podero dizer o mesmo, h qualquer
coisa de reconhecvel e familiar, salvo seja, nele, nem
admira, um burro no muda em to poucos meses, ao passo
que um hom * em, se est sujo e despenteado, se deixou
crescer a barba, se emagreceu ou engordou, se de cabeludo
se fez calvo, a prpria mulher teria que o despir para ver se
o sinal particular est no mesmo stio, s vezes tarde de
mais, quando tudo se consumou e o arrependimento no
colher o fruto do perdo. Disse Jos Anaio, cumprindo a
regra da hospitalidade, Seja bem-vindo, sente-se aqui ao pe
de ns, e se quiser desalbardar o burro, ponha-o  vontade,
h a palha que chegue para ele e para os cavalos. Sem os
ceires e a albarda o burro parecia mais novinho, agora
via-se bem que era feito de duas qualidades de prata, uma
escura, outra clara, ambas de quilate. O homem foi instalar
o animal, os cavalos olharam de soslaio o recm-chegado e
duvidaram que pudesse servir-lhes de ajuda, por deficincia
de compleio e dificuldade de atrelagem. Voltou o homem
para a fogueira, e antes de puxar a pedra que iria servir-lhe
de assento, apresentou-se, Chamo-me Roque Lozano, o

299


resto mandam as tcnicas elementares da narrativa que tenha
dispensa de repetio. Ia Jos Anaio perguntar se o burro
tinha nome, se, por exemplo, se chamava Platero, mas as
ltimas palavras ditas por Roque Lozano, que afinal sempre
se repetem, Vim para ver a Europa, fizeram-no calar, uma
sbita recordao levantou um dedo na sua memria e
murmurou, Eu conheo este homem, ainda bem que foi a
tempo, seria nada menos que ofensivo ser preciso um burro
para se reconhecerem as pessoas. Movimentos semelhantes
estariam tambm a dar-se na cabea de Joaquim Sassa, que
disse, hesitando, Tenho a impresso de que j nos vimos
num dia qualquer, Tambm eu, respondeu Roque Lozano,
lembram-me dois portugueses que encontrei ao princpio da
viagem, mas esses iam de automvel e no levavam senhoras, O
mundo d tantas voltas,' senhor Roque Lozano, e
nelas  tanto o que se ganha e perde, que pode bem
acontecer perderem um automvel Dois Cavalos e acharem
uma galera com dois cavalos, duas mulheres e ainda outro
homem, disse Maria Guavaira, Fora o que ainda estar para
ver-se, esta frase foi de Joana Carda, nem Pedro Orce nem
Roque Lozano sabiam do que ela estava a falar, mas sabiam
-no Jos Anaio e Joaquim Sassa, e no gostaram da aluso
aos segredos do organismo humano, particularmente do
feminino.
Estava o reconhecimento feito, desvanecidas as dvidas,
Roque Lozano era aquele viajante encontrado entre as serras
Morena e Aracena, com o seu burro Platero a caminho da
Europa, que afinal no vira, mas ficava a inteno, sempre
salvadora. E agora, para onde vai, perguntou Joana Carda,
Agora volto para casa, no ser por tanto andar a terra s
voltas que ela deixou de estar no mesmo stio, A terra, No,
a casa, a casa est sempre onde estiver a terra. Maria
Guavaira comeou a encher as tigelas de sopa, um pouco
acrescentada de gua para poder chegar para todos, comeram em
silncio, excepto o co, que triturava metodica
mente um osso, e as bestas,de tiro e carga que moam e

300


remoam a palha, de vez em quando ouvia-se estalar uma
fava seca, no se podem queixar estes animais de mau
passadio, tendo em conta as dificuldades da hora presente.
Uma dessas dificuldades, mas particulares, vai tentar
resolv-la o conselho de famlia convocado para esta noite,
no ser impedimento a presena de um estranho, pelo
contrrio, foi aqui dito que Roque Lozano vai de regresso a
casa, e ns, que faremos ns, ao acaso andando como
ciganos, a comprar e vender roupas feitas, ou voltamos para
casa, para o trabalho, para a regularidade da vida, pois que
mesmo que a pennsula nunca mais haja de parar, a gente
toda acabar por habituar-se, como a humanidade se habituou a
viver numa terra que est sempre em movimento, ns
nem somos capazes de imaginar como h-de ter custado ao
equilbrio de cada um viver num pio zumbidor que gira em
redor dum aqurio com um peixe-sol l dentro, Desculpe ter
de corrigi-lo, disse a voz desconhecida, mas peixe-sol no
existe, h peixe-lua, peixe-sol no, Pois olhe, eu no vou
teimar consigo, mas se no h, faz falta, Infelizmente no se
pode ter tudo, resumiu Jos Anaio, conforto e liberdade so
incompatveis, esta vida vagabunda tem os seus encantos,
mas quatro paredes slidas, com um tecto por cima, protegem
melhor que um toldo aos solavancos e com buracos.
Disse Joaquim Sassa, Comeamos por levar Pedro Orce a
casa, e depois, suspendeu a frase, no sabia como complet-la,
foi ento que Maria Guavaira interveio, disse claramente
o que era necessrio que fosse dito, Muito bem, deixamos
Pedro Orce na farmcia, depois seguimos para Portugal,
ficar Jos Anaio na sua escola, numa terra de que nem sei
o nome, continuamos para o que tinha nome de norte, Joana
Carda ter de escolher se quer ficar em Ereira, com os
primos, ou voltar para os braos do marido em Coimbra,
resolvido esse assunto rumamos para o Porto e vamos largar
Joaquim Sassa  porta do escritrio, os patres j devem ter
voltado de Penafiel, e enfim eu sozinha regressarei a minha
casa, onde est um homem  espera para poder casar

301


comigo, dir que ficou de guarda aos meus bens enquanto
estive ausente, Agora case comigo, senhora, e eu com um
tio queimarei esta galera como quem queima um sonho,
depois talvez consiga empurrar para o mar a barca de pedra
e embarcar nela.
Um discurso 'assim, contnuo, tira a respirao a quem
fala e no deixa respirar quem ouve. Por um minuto; ficaram
todos calados, finalmente Jos Anaio. lembrou, Numa
jangada de pedra j ns vamos;  grande de mais para que
nos sintamos marinheiros, respondeu Maria Guavaira, e
Joaquim Sassa observou, a sorrir, Bem dito, tambm no
nos tomou astronautas viajarmos pelo espao em cima do
mundo. Outro silncio, agora era a vez de Pedro Orce falar,
Faamos uma coisa de cada vez, Roque Lozano pode juntar
-se a ns, vamos lev-lo  famlia, que deve estar em Zufte
 - espera dele, e depois decidiremos a nossa prpria vida,
Mas dentro da galera no cabe outra pessoa a dormir, disse
Jos Anaio, No seja essa a dvida, se outra no tiverem de
que eu vos acompanhe, estou habituado a ficar ao ar livre,
basta que no chova, e agora com a galera, dormindo
debaixo dela,  como se tivesse todas as noites um tecto, j
me ia cansando a solido, se querem que vos diga, confessou
Roque Lozano.
No dia seguinte recomearam a viagem. O Pig e o Al
murmuram contra a sorte dos burros, este vem trotando atrs
da galera, suavemente preso a ela e aliviado da carga, em
plo como veio ao mundo, com o seu brilho de prata bonita,
o dono dele, na boleia, fala da vida com Pedro Orce, os
casais conversam debaixo do toldo, o co vai adiante, em
patrulha. De um momento para o outro, quase por milagre,
voltou a harmonia  expedio. Ontem, depois da ltima
deliberao, traaram um itinerrio, nada de muito rigoroso,
s para no avanarem s cegas, primeiro descer a Tarrago
na, ir pela costa at Valncia, meter para o interior por
Albacete, at Crdova, baixar a Sevilha, e finalmente, a
menos de oitenta quilmetros, Zufre, l  que diremos, Aqui

302

1

vem Roque Lozano, so e salvo regressado da grande
aventura sua, pobre foi, pobre voltou, no descobriu Europa
nem Eldorado, nem todos os que buscaram encontraram,
mas a culpa no  sempre de quem procura, quantas vezes
no h riqueza nenhuma onde, por malcia ou ignorncia,
nos tinham dito que havia, depois ficaremos de parte a ver
como o recebem, querido av, querido pai, querido marido,
que pena teres voltado, pensei que tivesses morrido num
descampado, comido pelos lobos, nem tudo quanto a fica 
para ser dito em voz alta.
Ento, em Zufre, se tornar a reunir o conselho de
famlia, agora para onde vamos, e de ns que diro quando
chegarmos, onde, para qu, para quem, Nas perguntas que
fazes  que mentes, se j sabias antes a resposta, em to
pouco tempo duas vezes falou a voz desconhecida.

303


Quando, girando e rodando, de oriente para ocIdente,
meia volta perfeita foi completada, a pennsula comeou a
cair. Nesse preciso instante, e em sentido absolutamente
rigoroso, se podem as metforas, como transportadoras do
literal sentido, ser rigorosas, Portugal e Espanha foram dois
pases de pernas para o ar. Deixemos l para os espanhis,
que sempre desdenharam das nossas ajudas, o encargo e a
responsabilidade de evocarem, o melhor que saibam e alcancem,
as avataras configuracionais do espao fsico em que
vivem, e digamos ns aqui, com a modesta simplicidade que
sempre caracterizou os povos elementares, que o Algarve,
pas ao sul domapa desde a noite dos tempos, foi, naquele
sobrenatural minuto, a regio mais ao norte de Portugal.
Incrvel, mas verdadeiro, como at hoje vem doutrinando
um Padre da Igreja, no porque esteja vivo, os Padres da
Igreja morreram, todos, mas porque a toda a hora lhe pegam
na lio e indiferentemente se servem dela, tanto para os
interesses divinos como para as convenincias humanas. Se
os fados tivessem querido que a pennsula se imobilizasse de
vez naquela posio, as consequncias do facto, sociais e
polticas, culturais e econmicas, sem olvidar a vertente
psicolgica, a que nem sempre damos a devida ateno, as
consequncias, amos dizendo, em sua multiplicidade e
efeitos, teriam sido drsticas, radicais, numa nica palavra,
csmicas. Baste lembrar, por exemplo, que a clebre cidade

304

do Porto se veria despojada, sem qualquer possibilidade de
recurso lgico e topogrfico, do seu mais querido ttulo de
capital do norte, e se a referncia, aos olhos de alguns
cosmopolitas, pecar por provincianismo e vista curta, imagi
nem ento esses o que seria achar-se de sbito Milo ao sul
da Itlia, na Calbria, e os calabreses prosperando no
comrcio e indstria do norte, transformaes no de todo
impossveis, se tivermos em conta o que aconteceu  Pennsula
Ibrica.
Mas foi, como dissemos, um minuto s. Caa a pennsu
la, mas a rotao no se interrompeu. Porm, antes de
prosseguirmos, convir explicar que significado  que deve
mos atribuir, neste contexto, ao verbo cair, certamente no o
seu sentido imediato, o da queda dos graves, que,  letra,
estaria dizendo-nos que a pennsula comeara a afundar-se.
Ora, se durante tantos dias de navegao, no poucas vezes
atribulada e com risco iminente de catstrofe, tal calamidade
no se produziu nem outra de calibre semelhante, seria do
infortnio o cmulo rematar-se agora a odisseia em submer
so completa. Ainda que muito nos custe, j nos resignmos
a que Ulisses no chegue  praia a tempo de encontrar a
doce Nausicaa, mas ao menos permita-se que o cansado
mareante d  costa na i lha dos Fecios, e, no podendo ser
essa, outra qualquer, basta que repouse a cabea no seu
prprio antebrao, se um colo feminino, oferecido, o no
espera. Tranquilizemo-nos, pois. A pennsula, juramo-lo,
no est a afundar-se no mar cruel, onde, se tal cataclismo
acontecesse, desapareceria toda, sem deixar  mostra, se
quer, o mais alto pico dos Pirentis, to profundos so aqui
os abissos. A pennsula cai, sim, no h outra maneira de o
dizer, mas para o sul, porque  assim que ns dividimos o
planisfrio, em alto e baixo, em superior e inferior, em
branco e preto, figuradamente falando, ainda que devesse
causar certo espanto no usarem os pases abaixo do equador
mapas ao contrrio, que justiceiramente dessem do mundo a
imagem complementar que falta. Mas as coisas so o que

305


so, tm essa irresistvel virtude, e at uma criana da
escola
entende a lio logo  primeira, sem mais explicaes, o
prprio dicionrio de sinnimos, to levianamente despre
zado, no-lo confirmaria, para baixo desce-se, cai-se, e 
grande
fortuna nossa no ir esta jangada de pedra mergulhando a
fundo, a gorgolejar por cem milhes de pulmes misturando as
doces guas do Tejo e
amarga do infinito mar.
No falta por a, nunca faltou, quem afirme que os
poetas, verdadeiramente, no so indispensveis, e eu
pergunto o que seria de todos ns se no viesse a poesia
ajudar-nos a compreender quo pouca claridade tm as
coisas a que chamamos claras. At esta altura, quando j
vo escritas tantas pginas, a matria narrativa tem-se
resumido  descrio de uma viagem ocenica, ainda que no de
todo banal, e mesmo neste dramtico instante em

1
do Guadalquivir na onda

que a
pennsula retoma o seu caminho, agora na direco do sul,
ao tempo que continua a rodar em torno do seu imaginrio
eixo, por certo no saberamos ultrapassar e enriquecer o
simples enunciado dos factos se no viesse ajudar-nos a
inspirao daquele poeta portugus que comparou a revolu
o e descida da pennsula  criana que no ventre de sua
me d a primeira trambolha da sua vida. O  smile 
magnfico, embora tenhamos de censurar nele a cedncia s
tentaes do ntropomorfismo, que tudo v e tudo julga em
relao obrigatria com o homem, como se, de facto, a
natureza no tivesse mais que fazer que pensar em ns.
Seria tudo mais fcil de entender se confessssemos,
simplesmente, o nosso infinito medo, esse que nos leva a
povoar o mundo de imagens  semelhana do que somos ou
julgamos ser, salvo se to obsessivo esforo , pelo
contrrio, uma inveno da coragem, ou a mera teimosia de quem
se recusa a no estar onde o vazio estiver, a no dar sentido
ao que sentido no ter. Provavelmente, o vazio no pode
ser preenchido por ns, e isso a que chamamos sentido no
passar de um conjunto fugaz de imagens que num certo

306

momento pareceram harmoniosas, ou onde a inteligncia em
pnico tentou introduzir razo, ordem, coerncia.
No geral dos casos, a voz dos poetas  uma incompreen
dida voz, o que, sendo a regra, tem no entanto excepes,
como se v neste episdio lrico, quando a feliz metfora foi
glosada de todas as maneiras e repetida por todas as bocas,
no se incluindo, contudo, neste entusiasmo popular a maio
ria dos mais poetas, o que no devemos estranhar, tendo em
ateno no estarem eles isentos dos muito humanos senti
mentos do despeito e da inveja. Uma das mais interessantes
consequencias da inspirada comparao foi a ressurgncia,
se bem que mitigada pelas transformaes que a modernidade
transportou para a vida familiar, do esprito matricial, do
influxo mtrio, de que, revendo os factos conhecidos, h
muitas razes para pensarmos terem sido Joana Carda e
Maria Guavaira precursoras, pelos modos da subtilidade
natural, no de peito feito e caso pensado. As mulheres,
decididamente, triunfavam. Os seus rgos genitais, com
perdo da crueza anatmica, eram afinal a expresso, simul
taneamente reduzida e ampliada, da mecnica expulsria do
universo, toda essa maquinaria que procede por extraco,
esse nada que vai ser tudo, essa ininterrupta passagem do
pequeno ao grande, do finito ao infinito. Neste ponto,  bom
de ver, os glosadores e hermeneutas perdiam o p, nem 
para admirar, porque de mais nos tem ensinado a experincia
quanto so insuficientes as palavras  medida que nos
aproximamos da fronteira do inefvel, queremos dizer amor
e no nos chega a lngua, queremos dizer quero e dizemos
no posso, queremos pronunciar a palavra final e percebemos
que j tnhamos voltado ao princpio.
Mas na aco recproca das causas e dos efeitos, uma
outra consequncia, ao mesmo tempo facto e factor, veio
aligeirar a gravidade das discusses e pr, por assim dizer,
toda a gente a sorrir e aos abraos. Foi o caso que, de uma
hora para a outra, descontando o exagero que estas frmulas
expeditas sempre comportam, todas ou quase todas as



307


mulheres frteis se declararam grvidas, apesar de no se ter
verificado qualquer importante alterao nas prticas
contraceptivas delas e deles, referimo-nos, claro est, aos
homens
com quem coabitavam, regular ou acidentalmente., No ponto
em que as coisas esto, as pessoas j no se surpreendem.
Passaram alguns meses desde que a pennsula se separou da
Europa, viajmos milhares de quilmetros por este mar
violentamente aberto, por pouco no esbarrava o leviato
contra as espavoridas ilhas dos Aores, ou no tinha de
esbarrar, como depois se viu, mas no o sabiam os homens e
as mulheres que de um lado e do outro foram obrigados a
fugir, aconteceram estas e tantas mais coisas, esperar o sol 
mo esquerda e v-lo aparecer  direita, e a lua, a que no
bastava a inconstncia em que anda desde que se desligou da
terra, e tambm os ventos que de toda a parte sopram, e as
nuvens que correm de todos os horizontes e giram sobre as
nossas cabeas deslumbradas, sim, deslumbradas, porque h
por cima de ns um lume vivo, assim como se o homem,
afinal, no tivesse de sair com histricos vagares da animali
dade e pudesse ser posto outra vez, inteiro e lcido, num
mundo novamente formado, limpo e de beleza intacta.
Tendo tudo isto acontecido, dizendo o tal portugus poeta
que a pennsula  uma criana que viajando se formou e
agora se revolve no mar para nascer, como se estivesse no
interior de um tero aqutico, que motivos haveria para
espantar-nos de que os humanos teros das mulheres ocupassem
acaso as fecundou a grande pedra que desce para o sul,
sabemos ns l se so realmente filhas dos homens estas
novas crianas, ou se  seu pai o gigantesco talha-mar que
vai empurrando as ondas  sua frente, penetrando-as, guas
murmurantes, o sopro e o suspiro dos ventos.
Deste engravidamento colectivo tiveram informao os
viajantes pela rdio, pelos jornais tambm, e a televiso no
largava o assunto, mal apanhava uma mulher na rua metia
-lhe o microfone  cara, salteava-a com perguntas, como
foi e quando, e que nome vai dar ao beb, a pobre coitada,

308


com a cmara a devor-la viva, corava, balbuciava, s no
invocava a constituio por saber que a no tomariam a
srio. Entre os viajantes da galera, notava-se o regresso de
uma certa tenso, afinal, se todas as mulheres da pennsula
estavam grvidas, estas duas que aqui vo no abrem bico
sobre os seus prprios acidentes, e compreende-se o silncio,
declararem elas a sua gravidez, inevitavelmente, faria
com que Pedro Orce se inclusse nas listas de paternidade, e
a harmonia to dolorosamente restabelecida uma primeira
vez no sobreviveria a um segundo golpe. Por isso  que
Joana Carda e Maria Guavaira, uma noite, quando serviam a
ceia aos homens, disseram com tom de sorridente despeito,
Imagine-se, todas as mulheres grvidas em Espanha e Portu
gal, e ns aqui sem esperanas. Aceite-se este minuto de
fingimento, aceite-se que finjam- Jos Anaio e Joaquim
Sassa o seu prprio despeito, de quem v posto em dvida
pela mulher o seu poder fecundativo, e o pior  que h
algumas probabilidades de que o simulado remoque acerte,
porque se  verdade que as duas mulheres esto grvidas,
tambm verdade  que ningum sabe de quem. Com tantos
ques , no tornou esta representao mais leve a atmosfera,
passando o tempo se ver que afinal estavam grvidas Maria
Guavaira e Joana Carda quando negaram que estivessem,
que explicaes daro ento, a verdade est sempre  nossa
espera, chega o dia em que no podemos fugir-lhe.
     Visivelmente embaraados, apareceram os primeiros
-ministros dos dois pases na televiso, no que devesse ser
motivo de constrangimento falar da exploso demogrfica
que se verificar na pennsula daqui a nove meses, doze ou
quinze milhes de crianas a nascer praticamente ao mesmo
tempo, gritando em coro  luz, a pennsula tornada em
maternidade, as felizes mes, os sorridentes pais, nos casos
em que paream suficientes as certezas. Deste lado da
. questo  possvel, at, extrair alguns efeitos polticos,
exibir a carta demaggica, apelar  austeridade em nome do
futuro dos nossos filhos, dissertar sobre a coeso nacional,

309


comparar esta fertilidade  esterilidade do resto do mundo
ocidental, mas no se pode evitar que cada um de ns se
compraza no pensamento de que para haver esta exploso
demogrfica houve de certeza uma exploso genesaca, uma
vez que ningum acredita que a fecundao colectiva tenha
sido de ordem sobrenatural. Est o primeiro-ministro falando
das medidas sanitrias a tomar, do plano de assistncia
obsttrica nacional, do enquadramento e distribuio, na
altura prpria, de brigadas de mdicos e parteiras, e
percebe-se-lhe na cara uma contradio de sentimentos, a
gravidade da expresso oficial luta contra o apetite do riso,
a todo o momento parece que vai dizer, Portuguesas, portu
gueses, grande ser o nosso proveito, espero que no tenha
sido menor o gosto, que fazer filhos sem a boa alegria da
carne  a pior das condenaes. Os homens e mulheres
ouvem, trocam sorrisos e olhares, todos sabem o que neste
momento esto a recordar, aquela noite, aquele dia, aquela
hora em que movidos por sbito impulso se chegaram e
fizeram o que devia ser feito, debaixo de um cu que
lentamente ia rodando, um louco sol, uma lua louca, as
estrelas em turbilho.  primeira vista dir-se- que tudo vem
sendo iluso e sonho, mas quando as mulheres aparecerem
a de barrigas empinadas, ento se ver que no dormamos.
O presidente da Amrica do Norte tambm falou ao
mundo, disse que no obstante a mudana de rumo da
pennsula, em direco a um ignoto lugar ao sul, nunca os
Estados Unidos se demitiriam das suas responsabilidades
para com a civilizao, a liberdade e a paz, mas que os
povos peninsulares no podiam contar, agora que penetravam em
reas conflituais de influncia, No podem contar,
repito, com uma ajuda igual quela que estava  sua espera
quando parecia que o seu futuro se tornaria indissocivel da
nao americana. Estas foram, mais tropo menos tropo, as
declaraes para o auditrio mundial. Porm, em privado,
no segredo do gabinete oval, e enquanto chocalhava uma
pedra de gelo no bourbon, o presidente teria dito aos seus

310

conselheiros, Se eles forem encalhar na Antrctida acabam
-se as nossas preocupaes, aonde  que ns iramos parar
com o mundo a vaguear de um lado para o outro, no havia
estratgia que se aguentasse, por exemplo, as bases que
ainda temos na pennsula para que  que nos servem agora, s
se for para despejar uma carga de msseis em cima dos
pinguins. Um dos conselheiros observou ento que o novo
rumo, vistas bem as coisas, no era assim to mau, Eles
esto a descer entre a frica e a Amrica Latina, senhor
presidente, Sim, o rumo pode trazer benefcios, mas
tambm pode agravar as indisciplinas da regio, e talvez por
causa desta lembrana irritante, o presidente deu um soco na
mesa que fez saltar o sorridente retrato da primeira dama.
Um conselheiro velho deu um salto de susto, passou os
olhos em redor, e disse, Cuidado, senhor presidente, um
soco assim, sabe-se l que consequncias poder ter.


J no  a pele esfolada do touro, mas um calhau
gigantesco, com a forma de um daqueles artefactos de slex
de que se serviam os homens pr-histricos, lascado em
golpes pacientes, sucessivos, at se tornar num instrumento
de trabalho, a parte superior cheia e compacta para receber o
cncavo da mo, a inferior em ponta para as tarefas de
rasgar, escavar, cortar, marcar, desenhar, e tambm, porque
at hoje no aprendemos a fugir  tentao, ferir e matar.
A pennsula parou o seu movimento de rotao, desce agora
a prumo, em *direco ao sul, entre a frica e a Amrica
Central, como deveria ter dito o conselheiro do presidente, e
a sua forma, inesperadamente para quem ainda tiver nos
olhos e no mapa a antiga posio, parece gmea dos dois
continentes que a ladeiam, vemos Portugal e Galiza ao
norte, ocupando toda a largura, de ocidente para oriente,
depois a grande massa vai-se estreitando,  esquerda ainda
com a salincia de um bojo, Andaluzia e Valncia,  direita
a costa cantbrica e, na mesma linha, a muralha dos Pirenus.
O bico da pedra, a proa cortadora,  o cabo Creus,
trazido das guas -mediterrneas para estes alterosos mares,
to longe do cu natal, ele que foi vizinho de Cerbre,
aquela pequena cidade francesa de que tanto se falou no
princpio deste relato.
Desce a pennsula, mas desce devagar. Os sbios, ainda
que com muita prudncia, prevem que o movimento est

312

prestes a cessar, fiados da universal evidncia de que se o
todo, como tal, nunca pra, as partes que o compem ho-de
parar alguma vez, sendo demonstrao deste axioma a vida
humana, riqussima, como se sabe, em possibilidades
comparativas. Com tal anncio da cincia, nasceu o jogo do
sculo, uma ideia que ter surgido praticamente ao mesmo
tempo em todo o mundo, e que consistiu no estabelecimento
de um sistema de aposta dupla sobre o momento e o lugar
em que se verificar a suspenso do movimento, uma hip
tese para se compreender melhor, s dezassete horas, trinta e
trs minutos e quarenta e nove segundos, hora local do
apostador, claro est, e o dia, ms e ano, e as coordenadas,
limitadas  indicao do meridiano, em graus, minutos e
segundos, servindo como referncia o j mencionado cabo
Creus. Estavam em -causa trilies de dlares, e se algum
viesse a acertar em ambos os resultados, isto , o preciso
momento e o exacto lugar, o que, segundo o clculo de
probabilidades era pouco menos que impensvel, essa
pessoa de uma prescincia quase divina ver-se-ia de posse da
maior riqueza que alguma vez foi possvel reunir sobre a
face de uma terra que tem visto tantas. Compreende-se que
nunca tenha havido jogo mais terrvel do que este, porque
em cada minuto que passa, em cada milha percorrida, vai-se
reduzindo o nmero de apostadores com probabilidades de
ganhar, devendo em todo o caso notar-se que muitos dos
excludos voltam a apostar, fazendo assim crescer o bolo a
cifras que j so astronmicas. Claro que nem todas as
pessoas conseguem reunir dinheiro para uma nova aposta,
claro que muitas delas no encontram outra sada para o
estado de runa em que caram que no seja o suicdio.
A pennsula desce para o sul deixando atrs de si um rasto
de mortes de que est inocente, enquanto no ventre das suas
mulheres vo crescendo aqueles milhes de crianas que
inocentemente gerou.
Pedro Orce anda inquieto, desassossegado. Fala pouco,
passa horas fora do acampamento, regressa extenuado e no

313


come, os companheiros perguntam-lhe se est doente, e ele
responde, No, no estou doente, sem mais explicaes. As
poucas falas reserva-as para Roque Lozano, so sempre
.conversas sobre a terra de cada um,  como se no soubessem
outro assunto. O co acompanha-o para todo o lado,
sente-se que a agitao do homem contagiou o animal, antes
to plcido. Jos Anaio j disse a Joana Carda, Se ele
imagina que vai repetir a histria, o pobre homem sozinho e
abandonado, a caridosa mulher confortadora e aliviadora dos
cmulos glandulares, est muito enganado, e ela respondeu
com um sorriso sem alegria, Tu  que deves estar enganado,
o mal de Pedro Orce, se o tem, ser outro, Qual, No sei,
mas o que te garanto  que no se trata de andar a
cobiar-nos outra vez, uma mulher no tem dvidas, Ento
devemos falar com ele, obrig-lo a dizer, talvez esteja
mesmo doente, Talvez, mas nem isso  certo.
Caminham ao longo da serra de Alcaraz, hoje acamparo
por alturas duma aldeia que se chama, segundo informao
do mapa, Bienservida, pelo menos de nome j o . Na
bolia Pedro Orce diz para Roque Lozano, Daqui onde
-estamos no faltaria muito para entrarmos na provncia de
Granada, se por l fssemos. A minha terra  que ainda est
longe, L h-de chegar, Chegarei, mas gostaria de saber se
vai valer a pena, Essas so as tais coisas que s sabemos
depois, toque a vssemec o pigaro, que vai descompassado.
Roque Lozano sacudiu as rdeas, tocou com a ponta do
chicote os quartos traseiros do cavalo, quase um afago, e
Pig, obediente, ajustou o trote. Dentro da galera vo os
casais, falam em voz baixa, e diz Maria Guavaira, Talvez
ele gostasse de ficar j em casa e lhe custe dizer, tem receio
de que fiquemos ofendidos, Pode ser isso, concordou Joaquim
Sassa, devemos falar com ele francamente, que com
preendemos, e que no levaremos a mal, afinal no h jura
nem contrato para o resto da vida, amigos somos, amigos
ficamos, um dia voltamos c a visit-lo, Quem dera que no
passe disso, murmurou Joana Carda, Tens outra ideia, No,

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no tenho,  s um pressentimento, Que pressentimento,
perguntou Maria Guavaira, Pedro Orce vai morrer, Todos
estamos sempre para morrer, Mas ele ser o primeiro.
Bienservida fica fora da estrada principal. Foram l fazer
o seu negcio, compraram alguns alimentos, renovaram as
reservas de gua, e, sendo ainda cedo, -tornaram ao cami
nho. Porm, no se afastaram muito. Um pouco adiante
havia uma ermida, de Turruchel chamada, lugar ameno para
estaniar  noite, a fizeram alto. Pedro Orce desceu da
bolia contra o costume foram ajud-lo Jos Anaio e
Joaquim Sassa, que tinham saltado da galera mal ela parou,
e disse, ao mesmo tempo que segurava as mos que se lhe
estendiam, Que  isso, amigos, eu ainda no estou -invlido,
no reparou que a palavra amigos subitamente encheu de
lgrimas os olhos dos dois, estes homens que guardam
dentro do peito a dor duma desconfiana, mas que recebem
nos braos o corpo cansado que se lhes entrega, apesar da
orgulhosa declarao, h sempre uma hora em que o orgulho
no tem mais que palavras, no  mais que palavras. Pedro
Orce pe o p no cho, d alguns passos, e pra, com uma
expresso de espanto no rosto, no gesto todo, como se o
imobilizasse e ofuscasse uma luz intensa, Que , perguntou
Maria Guavaira, que se aproximara, Nada, no  nada,
Sente-se mal, perguntou Joana Carda, No,  outra coisa.
Baixou-se, espalmou no cho as duas mos, depois chamou
o co Constante, ps-lhe a mo na cabea, correu-lhe os
dedos ao longo do pescoo, da espinha, o dorso, a garupa, o
co no se mexia, pesava sobre a terra como se quisesse
enterrar nela as patas. Agora Pedro Orce deitara-se ao
comprido, a cabea branca assente num tufo de ervas donde
saam umas hastes floridas, que fazem flores em tempo que
devia ser de inverno, Joana Carda e Maria Guavaira
ajoelharam-se ao lado dele, seguraram-lhe as mos, Que
tem, diga se tem alguma dor, e tinha, tinha uma dor muito
grande se era essa a expresso do seu rosto, abria muito os
olhos e fitava o cu, as nuvens que passavam, para v-las

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no precisavam Maria Guavaira e Joana Carda de olhar para
cima, vogavam lentamente nos olhos de Pedro Orce como as
luzes das ruas do Porto tinham deslizado nos olhos do co,
h tanto tempo, em que viver, e agora esto juntos, reuni
dos, mais Roque Lozano, que tem experincia de vida e de
morte, o co parece hipnotizado pelo olhar de Pedro Orce '
fita-o, de cabea baixa e com o plo encrespado como se
fosse defrontar-se com todas as alcateias do mundo, e ento
Pedro Orce disse distintamente, palavra a palavra, J no a
sinto, a terra, j no a sinto, os olhos dele escureceram, uma
nuvem cinzenta, cor de chumbo, passava no cu, devagar,
muito devagar, Maria Guavaira com levssimos dedos fez
descer as plpebras de Pedro Orce, disse, Est morto, foi
ento que o co se aproximou e gritou, como se diz que uma
pessoa uiva.
Morre um homem, e depois. Choram os quatro amigos
que tem, at Roque Lozano, de to recente data conhecido,
esfrega furiosamente os punhos,fechados contra os olhos, o
co gritou uma vez s, agora est de p ao lado do corpo,
daqui a pouco deitar-se- e pousar a cabeorra enorme
sobre o peito de Pedro Orce, mas  preciso pensar e decidir
o que faremos do cadver, diz Jos Anaio, Levamo-lo para
Bienservida, comunicamos s autoridades, no podemos
fazer mais por ele, e Joaquim Sassa lembrou, Disseste-me
um dia que a sepultura do poeta Machado deveria ser
debaixo duma azinheira, faamo-lo a Pedro Orce, mas Joana
Carda teve a ltima palavra, Nem para Bienservida nem
debaixo duma rvore, vamos lev-lo para Venta Micena,
vamos enterr-lo no lugar onde nasceu.
No seu enxergo atravessado vai Pedro Orce. Junto dele
esto as duas mulheres, seguram-lhe as mos frias, estas
mesmas que, ansiosas, mal conheceram os seus corpos, e na
boleia vo sentados os homens, Roque Lozano conduz os
cavalos, julgavam eles que iam ter descanso, e afinal esto
no caminho, pela noite dentro, nunca tal lhes acontecera
antes, talvez o alazo se recorde duma outra noite, porventu
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ra dormia e sonhava ento, que estava peado para curar com
unguento e relento uma dolorosa matadura, que o vieram
buscar uma mulher e um homem, e o co, libertaram-no das
peias, no sabia se a comeava o sonho ou acabava. O co
caminha debaixo da galera e por baixo de Pedro Orce, como
se o transportasse, tal  o peso que sente carregar-lhe sobre
o garrote. Levam um candeeiro aceso, fixado no arco de
ferro que segura o toldo,  frente. Tm mais de cento e
cinquenta quilmetros para andar.
. Os cavalos sentem a morte atrs de si, no precisam
doutro chicote. O silncio da noite  to denso que mal se
ouve o rodado da galera sobre o cho spero das velhas
estradas, e o trote dos cavalos soa abafado como se levassem
as patas envolvidas em trapos. No haver lua. Viajam entre
trevas,  o apagn, o negrum, a primeira de todas as noites
antes de ter sido dito, Faa-se o sol, no foi grande a
maravilha, pois Deus sabia que o diurno astro teria forosa
mente de nascer da a duas horas. Desde que a viagem
comeou, Joana Carda e Maria Guavaira choram. A este
homem que aqui vai morto deram elas o seu corpo miseri
cordioso, com as suas prprias mos o puxaram para si, o
ajudaram, e talvez sejam filhos dele as crianas que se esto
gerando dentro dos ventres que os soluos fazem tremer,
meu Deus, meu Deus, como todas as coisas deste mundo
esto entre si ligadas, e ns a julgarmos que cortamos ou
atamos quando queremos, por nossa nica vontade, esse  o
maior dos erros, e tantas lies nos tm sido dadas em
contrrio, um risco no cho, um bando de estorninhos, uma
pedra atirada ao mar, um p-de-meia de l azul, se a cegos
mostr amos, se a gente endurecida e surda pregoamos.
O cu- ainda estava escuro quando chegaram a Venta
Micena. Em todo o caminho, por quase trinta lguas, no
tinham encontrado uma alma viva. E Orce, adormecido, era
um fantasma, as casas como paredes de labirinto, janelas e
portas fechadas, o Castelo das Sete Torres, por cima dos
telhados, parecia uma apario insubstancial. Os candeeiros

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da iluminao pblica tremiam como estrelas prestes a
apagar-se, as rvores da praa, reduzidas a tronco e ramos
grossos, podiam ser o que restasse duma floresta petrificada.
Passaram em frente da farmcia, desta vez no precisavam
parar, as indicaes do itinerrio ainda estavam frescas na
memria, Sigam em frente, na direco de Maria, andem
trs quilmetros depois das ltimas casas, h uma ponte
pequena, perto uma oliveira, daqui a pouco l vou ter. J
chegou. Depois da ltima curva viram o cemitrio, os muros
brancos, a enorme cruz. O porto estava fechado, tinham de
arromb-lo. Jos Anaio foi buscar uma alavanca, introdu
ziu a unha entre os batentes, mas Maria Guavaira segurou
-lhe o brao, No vamos enterr-lo aqui. Apontou as colinas
brancas para o lado da Cova dos Rosais, l onde tinha sido
encontrado o crnio do europeu mais antigo, aquele que
viveu h mais de um milho de anos, e disse, Ficar alm, 
o lugar que ele talvez escolhesse. Levaram a galera at onde
lhes foi possvel, os cavalos mal podiam andar, arrastavam
as patas na poeira solta. Em Venta Micena no vive
ningum que venha assistir ao funeral, todas as casas foram
abandonadas, quase todas esto em runas. No horizonte mal
se distingue o vulto das serranias, aquelas que o homem de
Orce viu ao morrer, agora  noite ainda, Pedro Orce est
morto, dentro dos seus olhos s ficou uma nuvem escura,
nada mais.
Quando a galera deixou de poder andar, os trs homens
retiraram o corpo. Maria Guavaira ampara de um lado,
Joana Carda tem na mo a vara de negrilho. Sobem a uma
colina, rasa na parte superior, a terra ressequida esfarela-se
-lhes debaixo dos ps, desliza pela vertente, o corpo de
Pedro Orce oscila, quase resvala e arrasta os carregadores,
mas conseguem i-lo at l cima, depem-no no cho,
esto alagados em suor, brancos de p.  -Roque Lozano
quem vai abrir a cova, pediu que o deixassem fazer esse
trabalho, a terra solta-se facilmente, a alavanca  a enxada,
as mos servem de p. O cu, a oriente, est a aclarar, o

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vulto impreciso da serra tornou-se negro. Roque Lozano sai
do buraco, sacode as mos, ajoelha-se e mete-as por baixo
do corpo, Jos Anaio segura pelos braos Pedro Orce,
levanta-o Joaquim Sassa pelos ps, e devagar baixam-no 
terra, a cova no  funda, se um dia voltarem os antroplo
gos a estes stios no ser difcil encontr-lo, dir Maria
Dolores, Est aqui um crnio, e o chefe da brigada de
escavaes deitar um olhar, No interessa, desses temos
muitos. Cobriram o corpo, alisaram o cho para que se
confundisse com a terra em redor, mas tiveram de afastar o
co que queria raspar com as unhas a sepultura. Depois
Joana Carda espetou a vara de negrilho  altura da cabea de
Pedro Orce. No  cruz, como bem se v, no  um sinal
fnebre,  s uma vara que perdeu a virtude que tinha, mas
pode ainda ter esta simples serventia, ser relgio de sol num
deserto calcinado, talvez rvore renascida, se um pau seco,
espetado no cho,  capaz de milagres, criar razes, libertar
dos olhos de Pedro Orce a nuvem escura, amanh chover
sobre estes campos.
A pennsula parou. Os viajantes descansaro aqui este
dia, a noite e a manh seguinte. Chove quando vo partir.
Chamaram o co, que durante todas estas horas no se
afastou da cova, mas ele no foi,  o costume, disse Jos
Anaio, os ces resistem a separar-se do dono, s vezes
deixam-se morrer. Enganava-se. O co Ardent olhou Jos
Anaio, depois afastou-se lentamente, de cabea baixa. No
o tornaram a ver. A viagem continua. Roque Lozano ficar
em Zufre, ir bater  porta de sua casa, Voltei,  a sua
histria, algum h-de querer cont-la um dia. Os homens e
as mulheres, estes, seguiro o seu caminho, que futuro, que
tempo, que destino. A vara de negrilho est verde, talvez
floresa no ano que vem.

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fim
